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26 novembre

TATUAGEM

 
 
 
 
 

TATUAGEM

 

 

Vives tatuado em mim

como um despertar 

como um sol maduro

como um rubro poente

na orla do oceano

 

Mesmo que o teu corpo

se alongue e perca 

por outros lugares

noutras dimensões 

e a tua voz se ausente

por um momento ou dois

 

Mesmo que o abandono

se anuncie e esculpa

crateras de olvido

nas raízes todas

do meu corpo  exangue

(na fonte  escaldante

do meu ser desperto)…

 

 Quando vens e trazes

em oferenda estreme 

o sopro vibrante 

(da tua humanidade )

quando vens e trazes

no calor da pele

mil verdades perdidas

mil sonhos adiados

quando vens e banhas

com o poder da luz

o lugar de ti

(e reverberam sóis

e fulgem labaredas)

sinto escaldar

o  meu ventre  aflito

e rompo as fronteiras

com que amarrei (um dia)

o meu corpo vago 

à minha solidão

 

 

Vives tatuado em mim

como um outro eu

que vagueia alhures

mas que em cada instante

posso fazer chegar

aos sentidos que tenho

despertos e vivos 

pelo poder de ti

pela chama que és

pela torrente infinda

que ainda vai brotar

amanhã

amanhã

amanhã

um dia

 

 

 
24 novembre

Só Dentro de Mim

 
 
 
 
 
 
 
 
SÓ DENTRO DE MIM
 
 
 
 
Os sítios não existem
os sítios são memórias 
evocações
e logo lendas
e promessas de infinito
 
 
Naquela noite eu tinha fome na alma
e luz no coração
e também num lugar recôndito 
o desejo do abraço
daquele
indeciso
mas firme
trocado numa despedida incipiente
de outros
(mais intensos
mais reveladores
mais audazes)
e soube que tinha que ter 
braços
capazes de te cingirem
braços
capzes de te fazerem
sentir
e ousar
e querer arriscar
para lá das luzes da noite
(que hoje tinham
o brilho opalino da tarde
e o rigor translúcido
de um céu inebriado)
 
Ainda preciso de ter
os meus braços inteiros
para ser o meu próprio amante
e ter
(ao mesmo tempo)
o furor de amar
porque o solipsismo arrasa
o meu ser desperto
para diálogos esvaídos
na penumbra das noites
sombras flutuando
no capricho das paredes
silêncios arrevesados
no torpor da língua
 
Eu seguro o mundo
por onde viajo contigo
na cadeira que deixaste vazia
no nicho de onde te sumiste
na cratera gélida
onde perpassam
ecos vagabundos de uma voz
que não tem o vigor que é preciso
de uma voz que emudece
numa concha atirada à praia
(fértil de promessas
avara de tesouros)
 
Foi aqui
(estás a ver)
quando o rio cintilava
no escuro
e as luzes das casas
(negras)
se espelhavam na cortina obscura
e eu hoje abri
o brilho incandescente
que naquela noite
estava dentro de mim
(só dentro de mim)
 

A MESSAGE

 
 
 
 
 
 
 
A MESSAGE

 
My song is love
My song is love, unknown
And it goes up
You don't have to be alone

Your heavy heart
Is made of stone
And it's so hard to see you clearly
You don't have to be on your own
You don't have to be on your own

And I'm not gonna take it back
Well I'm not gonna say I don't mean that
You're the target that I'm aiming at
And I get that message home

My song is love
My song is love, unknown
And I'm on fire for you, clearly
You don't have to be alone
You don't have to be on your own

And I'm not gonna take it back
And I'm not gonna say I don't mean that
You're the target that I'm aiming at
But I'm nothing on my own
Got to get that message home

And I'm not gonna stand and wait
Not gonna leave it until it's much too late
On a platform I'm gonna stand and say
That I'm nothing on my own
And I love you, please come home

My song is love, is love unknown
And I've got to get that message home
 
 
 
Coldplay  (X & Y Álbum)
23 novembre

FIX YOU

 
 
 
CHRIS MARTIN (COLDPLAY)
 
 
 
 
Fix You
 
 
When you try your best, but you don't succeed
When you get what you want, but not what you need
When you feel so tired, but you can't sleep
Stuck in reverse

And the tears come streaming down your face
When you lose something you can't replace
When you love someone, but it goes to waste
Could it be worse?

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you

And high up above or down below
When you're too in love to let it go
But if you never try you'll never know
Just what you're worth

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you

Tears stream down your face
When you lose something you cannot replace
Tears stream down your face
And I...

Tears stream down on your face
I promise you I will learn from my mistakes
Tears stream down your face
And I...

Lights will guide you home
And ignite your bones

And I will try to fix you
 
 
Coldplay, Album X&Y
21 novembre

Segredos

 

 

 

 

 

 

SEGREDOS

 

 

 

 

Tenho

na ponta dos meus dedos

a memória de ti:

de olhos abertos ou fechados

percorro-te

lentamente

e sei o que cada um deles

me segreda de ti

 

Tenho-te

nas narinas

e sei

(de olhos abertos ou fechados)

a flutuação de cada um dos teus odores

e o que cada um deles

me segreda de ti

 

Tenho-te

na minha língua

nos meus lábios

e

(de olhos abertos ou fechados)

acedo aos teus sabores

plenos e ricos

e preservo

o que cada um deles

me segreda de ti

 

Tenho-te

nos ouvidos

conheço

o bater do teu coração

a leve sonoridade do teu beijo

a música indecisa

com que os teus dedos

perpassam em mim

e sei o que cada um desses sons

(quase indiscerníveis)

me segreda de ti

 

Tenho-te

no gume do meu olhar

absorvi

cada ponto do teu rosto

e desenhei-o na minha mente

com um rigor tal

que

(mesmo às escuras)

conheço o caminho

para os sítios mais recônditos

da tua expressividade:

e o teu corpo todo

plana

na minha retina

sei

onde começas e onde acabas

e moldar-me a ti

no local exacto

que o meu sentido total exige

acontece

sem sobressaltos:

e sei

o que o meu olhar acutilante

me segreda de ti

19 novembre

REPETIÇÃO

 
REPETIÇÃO
 
 
 
«Ó meu querer, curva do caminho de toda a necessidade, necessidade toda minha, livra-me das vitórias mesquinhas!
Ó vocação da minha alma, tu a quem chamo meu Destino, tu que estás em mim, acima de mim, preserva-me, guarda-me para um grande destino!
E a tua grandeza suprema, ó meu querer, reserva-a para a tua suprema proeza, - mostrares-te inexorável na vitória. Ah! pois quem não sucumbiu à sua vitória?
Ah! que olhos se não turvaram nessa perturbada embriaguês? Ah!  que pé não vacilou e esqueceu a firmeza na vitória?
Faz com que eu esteja um dia pronto e amadurecido para o grande Meio-dia; pronto e amadurecido como o bronze em  fusão, como a nuvem que traz o raio, como a teta cheia de leite,
pronto para mim próprio e para o meu querer mais secreto - arco que aspira à flecha, flecha que aspira à estrela,
estrela pronta e amadurecida no seu meio-dia, ardente e atravessada por uma flecha, desfalecida sob as flechas destruidoras do sol,
ela própria sol e inexorável querer solar, pronto para tudo destruir na sua vitória.
Ó meu querer, curva do caminho de toda a necessidade, ó necessidade toda minha, reserva-me para uma grande e única vitória!
 
Assim falava Zaratustra»
 
 
 
 
Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra

QUANDO TE VAIS

 

Odilon Redon

 

 

 

 

 

 

QUANDO TE VAIS

 

 

 

 

 

Quando te vais

o mundo acaba

a noite desce

(sem luar

sem estrelas) 

quando te vais

um frio rompe

da cratera do meu peito

e envolve-me o corpo 

e deixo de existir

 

Já morri (muitas vezes)

morro sempre

que o teu rosto desaparece

no gume da porta

que o teu sorriso esvanece

na atmosfera dos meus sítios

que o teu calor esfria

na orla do meu rosto 

 

É uma forma de morte

(esta)

que me acontece

no limiar da tua ausência

é uma forma de morte

(esta)

que experimento

no abandono em que se verteu

a minha solidão

é uma forma de morte

(este)

desejar-te no vazio

em que me lança

o buraco cravado

nos sítios

onde derramaste  o teu poder

é uma forma de morte

(estes)

suspiros perdidos

pelas paredes

(surdas

fechadas)

sem ecos

sem histórias

por muito que o meu olhar

as interrogue

 

Morte

(morte)

essa vida ao contrário

essa respiração sustida

esse bater parado

(do coração)

 

Morte

(morte)

que eu não quero

que eu não quis

mesmo no auge

da tentação do sangue

 

Morte

(morte)

não sabia que ia falar-te de morte

neste prenúncio de vida

não sabia que ia acontecer-me a morte

neste súbito nascimento

não sabia que dobrariam os sinos

no repique que marcou o despertar

 

 

Mas não

não é morte (mesmo sendo)

não é morte

(mesmo abrindo

buracos de sombra no meu ser)

não é morte

(mesmo que eu vista

o tecido negro da treva e do luto)

 

É a descida ao labirinto

depois da subida ao cume

é a perdição do subterrâneo

depois da entrada no plenilúnio

é a certeza da fome

depois do banquete na abundância

é o sentimento de privação

depois da alucinação orgiástica

é a sede

a fome

o frio

depois das bebidas sumarentas que me deste

dos repastos jucundos  que me serviste

do lume abrasado em que me derreteste

 

Agora

quando não vens

ou quando te vejo atravessar as minhas portas

e o rasto que deixas se vai perdendo

(sem de todo se apagar)

fico perplexa e tensa

como se não existisse

como se nunca mais fosse sentir

como se uma treva profunda

fosse embaciar o meu dia

para sempre

para sempre

para sempre

 

16 novembre

Perdido na Areia

     

 

 

 

PERDIDO NA AREIA

 

 

Tu não és o belo adolescente Tadzio, nem eu sou o fracassado artista Gustav von Aschenbach,  não estamos em Veneza nos anos 20, nem  nos abafa o scirocco ou nos atemorizam as emanações da peste; e contudo, eu sou Gustav von Aschenbach e o que me avassala o íntimo traz a imagem magnífica e pura de Tadzio, e tu és a Veneza delirante do início de Verão e sopras incandescente e deletério sobre a pele transparente do Tadzio de mim   Olho-me ao espelho (para dentro, sempre para dentro) e sinto o ar a faltar-me e os vincos do tempo a apertarem a minha garganta e busco o Absoluto, por entre o scirocco, à revelia da peste, enquanto as areias finas da praia e as águas verde-esmeralda do Mar Mediterrâneo me entontecem a visão, me retiram lucidez  Um dia, passarei pela oficina onde se modelam os sonhos e pedirei ao maioral que me transforme (para ti); pedir-lhe-ei que me revista das cores vibrantes com que se anuncia a primavera; pedirei que acrescente ao meu ser a centelha que falta, para que possas querer-me  Bem sei que de nada servirá esta travessia (ao contrário) pelas marés da vida, bem sei que os vincos estarão lá por debaixo da tez marmoreada e que mais dia menos dia as minhas lágrimas farão escorrer pedaços negros da tinta com que me disfarcei, os meus lábios murcharão, cinzentos, despojados do carmim que lhes emprestei, os meus olhos sucumbirão sobre pálpebras demasiado densas  E então escaldada e exangue, derretida e ensopada, pelas emanações febris da peste engendrada no cenário fantástico dos canais purulentos, cairei sozinha num deserto qualquer e o meu esqueleto  haverá de romper (à força) o tecido estreme da minha pele, tornada sudário transparente dos sonhos de Tadzio, tornada reminiscência dos ecos tardios de uma juventude que nunca vivi  Aterrada, oiço estas vozes em mim e agarro-me a um pedaço de vida que ainda se agita na raiz do meu ser,  estremeço em delírio apertada num transe e quando olho o espelho (para dentro de mim) não encontro quem sou, não encontro quem fui e quem serei está a furtar-se num terreno longínquo   Tadzio, ah Tadzio, esse sonho de luz que trago comigo, essa auréola de espanto ou de inconsciência de si,  esse lume desperto ao raiar da aurora, feito vago perfil no crepúsculo laranja; afasta-te, Tadzio, figura sibilina de Apolo feérico, expansão dionísiaca de paixões (para lá do meio dia) síntese absurda de impulsos caóticos, yin e yang em convulsões arrasantes, tremendo na noite (em vagabundagem de sonhos desmedidos) afogando-se no dia (em arroubos solenes para lá da tempestade) e depois recolhidos na penumbra (por detrás de um espelho) perdido na areia, perdido na areia, perdido na areia

 

 

FOSTE

 

Odilon Redon

 

 

 

FOSTE

 

 

Esvazio-me

Perco densidade

Flutuo num limbo

de onde se esvanecem corporeidades

de onde solto as pontas dos fluxos carnais 

 

Imponderável

esculpo-me (como apenas essência)

ascendo ao etéreo

(e já não sei se te encontro)

 

 

A neblina encostou-se

às paredes do meu ser

e aprisionou a minha luz

 

 

Acedo ao intervalo

e aguardo os passos corpóreos

da próxima escalada

 

 

Exangue

quase não vejo

quase não oiço

quase não toco

perpasso pelos ares (como uma esfinge)

e segredo-te palavras (que não ouves)  

 

 

Bruscamente

pairamos

em universos paralelos

e o meu braço pende

adormecido e indeciso

por entre brumas estelares

e poeiras siderais

rodando sem parar

por entre sóis e nevoeiros

por entre estrelas cadentes e auroras boreais

 

 

Um impulso

levar-me-á

até à polpa dos teus dedos

até ao gosto dos teus lábios

 

 

Outro impulso

arrastar-me-á

para solidões abissais

onde devorarei o vazio

e a negritude

de  mim em mim

(de mim para mim)

 

 

Um minuto basta

para que o olhar se transcenda

e tudo se plasme

em lençóis submersos de olvido

onde te perco

(e por onde me perco)

 

 

Mais tarde encontro-me

e pairo

Mais tarde ergo-me

do adormecimento

por onde entrei em ti

(e de onde saí)

e não me reconheço

 

 

Quem sou eu

deste modo submetida

à entrada de um mundo

que não sei se me pertence

Quem sou eu

deste modo atirada sobre abismos

no meio de pontes sem chão

para firmar o correr dos meus passos

 

 

A noite

construiu um muro de esquecimento

por entre pensamentos encerrados

nos portões da consciência

tragados no amanhecer

e na urgência de partir

 

 

Esvaiu-se a promessa

Desenleou-se o sonho

Fortalezas delirantes

amassadas em poderosas estruturas

de sólidos compromissos

fizeram ruir o ideal

 

 

Um travo de pavor alimentou o dia

Um esgar de surpresa incendiou a névoa

Um ruído de asas obliterou a presença

 

Foste

15 novembre

BASTA SENTIR

 

 

 

 

BASTA SENTIR

 

 

 

 

Enquanto a música percorria o ar e o teu corpo tocava o meu muito ao de leve

enquanto as paredes se tornavam estreitas e o céu se abria acima das cabeças 

enquanto a paz entrava em passos de leveza pelos poros antes encrespados da pele convulsionada

consegui ver o mar e entrei por ele na magnífica Veneza ao som  das notas misteriosas de Gustav Mahler

entrei em Veneza num vaporetto e tive a visão súbita do encanto sobrenatural da urbe plantada em água

e por momentos

a Beleza Absoluta perpassou sobre as nossas cabeças

não sei se deste conta

(eu quis aflorar o tecido dos teus dedos para que sentisses

quis enviar-te um sopro com a ponta dos lábios

mergulhei em mim a ver se as ondas que me assolavam entravam feitas espuma na confluência do teu corpo

no segredo da tua mente

na raiz do teu ser)

e pensei ir contigo até ao mar pela noite

ficar em silêncio ao rés de uma praia

e convidá-la a ser o leito húmido de um sonho de amplidão

quis partir nas ondas encantadas daquele sopro de infinito

a perpassar tímido por entre cabeças desatentas e corpos em desalinho

e contudo vertiginoso

na amplidão sensitiva com que fui intuindo a Beleza Absoluta

aquela e a nossa e todas elas

tecidas num nó corredio de sedução múltipla

de osmose consentida...

 

Se a luz não fosse tão violenta

se o território não tivesse

o peso barroco de uma ornamentação inútil e vazia

se a aragem cortante não trouxesse

ecos dissonantes de um mundo

que  deveria estar bem arredado da magia do instante

se apesar disso

ainda fui a Veneza por mar

e depois regressei pendurada em chuva importuna

se novos ecos perduraram

ah não terá valido a pena cortar em dois o dia

e perder-me num hiato portentoso de infinito e de mistério?

 

 

Decifrar não importa

perceber é inútil

basta sentir

sentir

e sentir!

13 novembre

MELODIA INFINDÁVEL

        

        Gustav Klimt, O Beijo

 

MELODIA INFINDÁVEL

 

          Escrever escrever escrever e escrever é amar é querer e querer é projectar-me para além de mim para além do horizonte das nuvens do sol da aventura e do medo e atingir os subterrâneos por onde perpassam dúvidas e temores mas também alegrias infindas e sobressaltos osmoses líquidas e promessas adiadas e atingir-te a ti lá onde te recolhes triunfante ou em abandono poderoso ou meigo em descanso ou na vibração autêntica do teu universo ignoto

       escrever escrever escrever e escrever é ser a voz do silêncio esculpida em gritos e sussurros aberta em devaneios e choros agigantada em gargalhadas de júbilo pelas manhãs etéreas ou nas noites pontilhadas de sóis imaculados

         escrever escrever escrever e escrever é gritar que das portas cerradas nasceu a amplidão e das bocas cingidas em mordaças de silêncio brotou o segredo luminoso de um milagre a portentosa declaração de segredos inviolados no tempo de outrora

        escrever escrever escrever e escrever é proclamar que o presente rompeu a carapaça jungida ao tempo passado e ficou exposta a epiderme nua nua de toques intangível e casta como as fontes primevas de onde nasceu outrora a vida

       escrever escrever escrever e escrever é dar-te as primícias de mim como se houvesse nascido agora mesmo nascido num corpo já feito com memórias de outras vidas memórias desfeitas e cruas na turbilhonante surpresa de um recomeço sem possíveis imagens de outros acordares sem possível retorno a outras alvoradas é viver as dores cruciais de inúmeros partos onde me separo de mim para chegar a mim e tu revolves-me o ser nas ondas convulsionantes do júbilo extremo que se verte em dor que me amarfanha o peito que coloca soluços vibráteis na minha garganta presa

         escrever escrever escrever e escrever é exaltar-me e exaltar-te e pôr em cada dia o poder do infinito em cada hora a dimensão do universo em cada célula o poder de todo o organismo em cada poro a fluidez incontível de todos os oceanos

        escrever escrever escrever e há uma torrente invisível a correr gelada na fonte do ser uma corrente vulcânica a bramir escaldante nos picos do eu uma corrente incorpórea a lançar pedradas à minha carne viva uma corrente de luz a estreitar distâncias a romper desertos e tu por onde caminhas perdido que estás na confluência de territórios ténues demasiado ténues e para onde ias quando achei que fingiste que não me vias de onde vinhas quando os teus passos soaram nas avenidas de mim para onde vais quando a madrugada te empurra para a estrada de todos e a bruma te entrega à escuridão e ao deserto sinto a maciez cálida dos teus membros o tecido encrespado da tua pele e no toque suave com que te abraço no aperto violento com que te esmago no jeito incoerente com que te beijo rondam perpassam esbatem-se tempestades antigas solidões e dores não vês que eu já não sei pisar o terreno de onde tu vieste e para onde caminhas torço-me de fome neste deserto que subitamente enganosamente paradoxalmente a tua presença abriu em mim como feridas demasiado largas ou fechadas antes do tempo feridas que não sabia ter ainda feridas rubras ou violáceas consoante a hora do dia e também esplendores nocturnos quando te sinto apertado a mim e mesmo dormindo correspondes ao gesto do meu toque e mesmo dormindo procuras o sítio do meu corpo e perdido nessa inconsciência encontrada nos horizontes inescrutáveis do sono eu já não sei se sou eu que assim buscas no enleio inconsciente ou se ainda adejam em ti asas de outras emanações hábitos de antigas euforias e o pensamento este cavalo à solta esta incontrolável espiral de imagens vivas e outras perdidas em marasmos desvanecidos e outras tecidas em lonjuras especulativas e plantadas nos terrenos limítrofes da consciência amodorrada

         escrever escrever escrever escrever esta penumbra negra na alvura da folha estes caracteres incoerentes se não lhes dermos o benefício da interpretação esta melopeia átona se ninguém lhe emprestar a harmonia da música estes hieróglifos insensatos se não houver legendagem capaz de os traduzir e eu conto-te aquilo que sei é muito mais do que aquilo que digo aquilo que perpassa nos meus sonhos e no gume do meu sentir é muito mais do que algum dia poderás supor e agora acorrentada nestas paredes que têm todas os ecos de ti acorrentada sob estes tectos que guardam o som da tua voz presa na dureza deste chão que conserva o peso da tua passada e a vibração do jeito do teu corpo paira em mim o frio de não  te ter e eu bem vejo que esta minha loucura não encontra lenitivo porque tu não virás

12 novembre

Evocando Ilídio Sardoeira

EVOCANDO
ILÍDIO SARDOEIRA
 
EM DIA DE ANIVERSÁRIO
 
12 de Novembro de 1915
 
 
 
 
FACILIDADE
 
 
 
Não sei coisas difíceis
nem as faço, nos versos, com palavras.
Difícil é ser simples
e é vestir as coisas de tal jeito
que quem as veja, diga que são nuas.
 
 
Ilídio Sardoeira, Poemas, Edições Gaivota, 1952
 
 
 
 
 
 
11 novembre

PARA TI

 

René Magritte

 

 

PARA TI

 

 

 

Quero que se calem todas as vozes

(estas e aquelas)

que atropelam

o gume acerado do silêncio de mim

e que nenhum ruído atravesse

o umbral esculpido às portas do meu ser .

 

Não entrem

que ninguém entre!

 

Agora é o recolhimento

a reserva

o retiro

agora é tempo de mergulhar

a sós

no lago turvo

agitado pelas vozes dos outros.

 

Agora é tempo de perguntar à minha alma

que alimento dar ao corpo exangue

que fome esconjurar

que sede apagar

que frutos retirar de todas as árvores

que esplendores solares deixar escorrer

nos muros da minha sombra.

 

E tu

que me levas para o meio dos outros

(sem de facto levares)

tu

que entras na minha solidão

(sem de facto entrares)

tu

que me sorris e me abraças

como se fosses o outro de mim

(sem de facto chegares a sê-lo)

tu

que entrelaças no meu o teu corpo vibrante

(sem de facto te dares)

tu

que te abres em mim como fruto maduro

(sem contudo deixares a semente fluir)

tu

que fendeste os portões da minha morada

(sem contudo passares para além do umbral)

tu

que deixaste o meu corpo

acender clarões de euforia

a minha mente

encandear-se em torrentes de júbilo

a minha alma

crescer em transportes de luz

o meu ser

agigantar-se para além do infinito

tu

não sabes que choro

e que sofro

e que rio

e que o meu soluçar explode na noite

e que já me esvaio em lágrimas e sangue?

 

Tu

no teu solo quente e tranquilo:

Não vês que o frio

me entorpece a carne?

Não vês que a inquietação

me põe  picos de angústia nos poros do ser?

 

 

E contudo

por debaixo desta névoa

deste gelo

desta onda

há águas serenas e límpidas

mananciais de cor esplendorosos

fontes de cristais imaculados

sóis irradiantes de alegria

e tudo corre para ti

para ti

para ti!

10 novembre

DOS MUROS

      

DOS MUROS

 

         Evocar hoje o Muro de Berlim, evocar hoje o Derrube do Muro de Berlim não passa de um pretexto para outras digressões especulativas. Se assim falo é na exacta medida em que o nosso mundo vive de efemérides e uma efeméride não é mais do que uma recordação descontextualizada de fenómenos cuja especificidade já não é possível entender cabalmente. Os documentários, filmes e exposições sobre o evento têm sido a nota dominante dos últimos dias, pelo que será desnecessário aludir às circunstâncias históricas e políticas que determinaram a construção do Muro em 1961 e que conduziram ao seu derrube 48 anos depois, há vinte anos portanto. Circunstâncias históricas e políticas, é preciso não esquecer. Circunstâncias que estavam presentes em 1961 e que duas décadas depois, subitamente, deixaram de fazer sentido: porque o Muro de Berlim caiu, aparentemente, por si mesmo, sem convulsões, sem luta. A História é isto mesmo: um ciclo racional engendrado pelas necessidades ou pelos desejos ou pela insanidade dos povos, uma espiral dialéctica em que as contradições, submersas em períodos mais ou menos longos de aparente estabilidade, se enunciam de súbito provocando revoluções, guerras, chacinas, atentados e discórdias de todos os géneros. Poderíamos dizer que tais momentos deveriam ser evitados, poderíamos lamentar os períodos sangrentos de hostilidade e de luta fratricida, poderíamos mesmo desejar a utopia da paz perpétua, a lenda da confraternização universal. E contudo os milénios transcorridos da história dos homens atestam, com evidência plena, a inevitabilidade da guerra, da revolução, da luta ao memo tempo que demonstram a sua necessidade em prol da evolução. A guerra é então uma necessidade, uma condição de progresso? A guerra não pode ser suprimida sob pena de assistirmos à inevitável degeneração dos povos, ao seu declínio e estagnação? Não responderei a tal questão porque as evidências estão aí, hoje como na antiguidade, hoje como no contexto das duas grandes guerras mundiais, hoje como num futuro próximo em que o homem terá que combater o homem, terá que combater-se a si mesmo, portanto, para poder erguer-se e suportar-se enquanto homem.

       Entretanto, os muros construídos e a construir, os muros abatidos e a abater representaram e representam ocasião de defesa de princípios, de ideais, de sensibilidades – o muro é uma parede levantada atrás da qual nos protegemos e nenhuma habitação humana se manteria erguida sem semelhantes suportes – mas o muro é simultaneamente a barreira que impede o devassar da intimidade, a dissolução dos princípios, a quebra dos ideais, o prejuízo das sensibilidades. E por muito que queiramos hoje olhar o Muro de Berlim como a imagem macabra de um ultraje aos direitos humanos, à lógica civilizacional, à sensatez, por muito que aludamos à construção e manutenção do Muro de Berlim como sendo um atentado à liberdade e à livre circulação dos povos o certo é que não temos outro remédio senão justificá-lo, à luz da circunstância que o engendrou. E será esse o caminho inicial que seguirei na minha exposição.

       Na época que marcou a construção do Muro de Berlim uma dicotomia politica atravessava a Europa: do lado ocidental, e após os tratados decorrentes do final da Segunda Guerra Mundial, o capitalismo e os regimes designados como democráticos firmaram-se, gerando uma economia de mercado centrada no consumismo, na ostentação, na busca de riqueza e prosperidade económicas e onde se desfraldava a bandeira enganosa da liberdade, segundo a qual a oportunidade de viver bem era uma premissa a todos possível. Basta contudo lançar os olhos sobre as condições que permitiram o desenvolvimento do mundo capitalista para percebermos que nelas esteve sempre implícita a exploração do homem pelo homem, a fabricação da pobreza de muitos como condição do enriquecimento de alguns. Era assim em 1961, quando o muro foi construído em Berlim e o ocidente se atirava para a escalada do capitalismo, suportado politicamente por regimes democráticos capazes de criarem nos povos a ilusão de que podiam sempre lutar em liberdade pela riqueza, pelo conforto, por tudo o que parecia ser, segundo o modelo capitalista o melhor dos bens, e contudo sempre afastados dessa meta; e continua a ser assim, hoje em dia, quando o capitalismo emerge desenfreadamente e as franjas de pobreza e de miséria são cada vez mais palpáveis e cada vez mais atingem núcleos sociais, antes preservados. A pobreza alargou-se, portanto e foi o capitalismo que possibilitou semelhante alargamento, para se poder manter, enquanto tal. Por outro lado, a parte oriental da Europa, delimitada pelo Muro de Berlim, quis destacar-se dessa onda de materialismo e de desumanidade, estribada num ideal humanista cujos princípios visavam a supressão das classes sociais baseadas no poder económico, o desenvolvimento de condições sociais capazes de dotarem todos de modo equilibrado de condições básicas de sobrevivência digna e de, para além da busca de bens de consumo, criar uma sociedade propiciadora de valores humanos, culturais, artísticos em que o homem pudesse erguer a sua verdadeira face. «O livre desenvolvimento de cada um é condição para o livre desenvolvimento de todos» e esta máxima do pensamento prático de Marx e Engels congrega em si, de modo simples, toda a articulação social e política necessária para erguer o verdadeiro mundo dos homens. Na sociedade capitalista o livre desenvolvimento de uns - a minoria - é condição para a  escravização dos outros – a maioria -  e esta máxima tem valor recíproco, pois a minoria só se ergue, economicamente, à custa da degradação da maioria. Foi assim no início da escalada capitalista, é assim no tempo que vivemos agora. E foi por isso que se ergueu o Muro de Berlim. Era necessário preservar um conjunto de grupos sociais capazes de porem de pé um mundo no contexto do qual as desigualdades económicas se esbatessem a tal ponto que o verdadeiro homem pudesse nascer, desenvolvendo, de facto, os valores intrinsecamente humanos que não são económicos, que não são materiais, que não se medem pelo Ter mas pelo Ser. À semelhança dos pais que protegem os seus filhos enquanto crianças nos limites de um espaço dentro do qual não lhes chegue a violência do mundo exterior, os perigos e as derrocadas do tempo adulto para o qual não estão preparados, enquanto crianças, também foi necessário erguer uma barreira para que a utopia, ainda impúbere, de uma sociedade justa e digna pudesse desenvolver-se arredada das tentações perigosas de um jogo de poder pernicioso e desumano. Aquele Muro, chamado da Vergonha pelos ocidentais, aquele Muro erguido no meio da cidade de Berlim, policiado e interditador da circulação livre foi o símbolo da protecção de um modelo de sociedade que, a desenvolver-se harmoniosamente, a estender-se gradualmente aos restantes países teria poder para pôr em prática a máxima de Marx e Engels citada antes. No momento em que os povos do Leste da Europa tivessem aderido à nova imagem do homem, dando de si testemunho ao resto do mundo, no momento em que a exploração do homem pelo homem, a abolição das classes, o respeito pela diferença e o estabelecimento da igualdade de direitos e de deveres prenunciasse uma nova etapa para o mundo humano, o muro poderia ir abaixo – à semelhança do que fazem os pais quando os filhos crescem e eles percebem que podem dá-los por inteiro à liberdade e à auto-determinação.

       Sendo assim, que foi que correu mal, para que o Muro de Berlim se transformasse num sinal de repressão e de violência, de atentados às vidas e aos direitos  daqueles que queria proteger? O que foi que não se cumpriu, do lado oriental da Europa, para que o descontentamento dos povos, aí confinados, almejasse pelas benesses da sociedade, aparentemente triunfal, do ocidente? O que foi que falhou no passar à prática da máxima de Marx e Engels, para que os povos da Europa de Leste rompessem a fronteira que o Muro fixava e tentassem fugir, arriscando a vida, para o outro lado do mundo?

       Uma vez mais não irei recorrer aos circunstancialismos históricos, datados e contextualizados, porque eles estão todos aí em manuais, documentários e filmes e darei, em vez disso, a resposta simples, nua e crua como são todas as respostas verdadeiras, dá-la-ei sem contemplações para que conste, para que possa ser alvo de reflexão – se acaso houver ainda disponibilidade para reflectir com autonomia.

      O homem corrompe a pureza dos ideais engendrados de boa fé, o homem ilude e ilude-se uma e muitas vezes, e julgando semear trigo deixa crescer o joio, o homem constrói o ninho e depois, esquecido que esse ninho é a sua morada, suja-o, quebra-o, torna-o gradualmente inabitável. Foi assim que a Europa de Leste abrigada pela fortaleza do Muro se foi degenerando, enquanto aparentemente o mundo ocidental desabrochava num esplendor feito de cintilações enganosas – mas nem por isso menos incandescentes. A corrupção ocidental estava disfarçada com as cores poderosas do consumismo alienante, mas encantador; a corrupção oriental tinha um sabor amargo, era cinzenta e apagada e os povos para além do muro pareciam a imagem pálida do mundo policromático divisado, a espaços, pelas frinchas, apesar de tudo abertas para o outro lado.

       Por isso, naquele dia 9 de Novembro de 1989, abrir o muro e derrubá-lo foi ocasião de festa; e os povos de Leste respiraram, por fim, o ar que lhes havia sido retirado durante décadas e sentiram que eram livres, sentiram que, doravante, os privilégios, as ousadias, os luxos e as aventuras do ocidente também lhes seriam  permitidos e que, desse modo, seriam cidadãos completos!

       Vinte anos passaram desde então. Poderemos afirmar, com verdade, que  derrubar o Muro de Berlim e atravessá-lo foi, efectivamente, a ocasião de encontro daqueles povos consigo mesmos? Poderemos afirmar, com verdade, que hoje os homens e mulheres da Europa de Leste, apresentados à sociedade de consumo e nela imbuídos de corpo e alma, são mais autenticamente humanos do que o foram à sombra ignominiosa da parede que derrubaram? Uma vez mais não responderei a semelhantes questões: as evidências andam por aí e também esses homens,essas mulheres e  essas crianças; encontramo-las um pouco por todo o lado – às evidências e aos homens – e basta querermos reflectir e ponderar para darmos a resposta, nem que seja apenas de nós para nós mesmos.

         Evidentemente que uma sociedade adulta e razoável não deveria necessitar de muros para fazer vingar os seus ideais. Evidentemente que um mundo, onde todos são semelhantes na sua comum humanidade, deveria escancarar todas as portas e deixar entrar e frutificar e crescer em pleno todos e cada um. Evidentemente que os muros, construídos objectiva e concretamente, enquanto barreiras físicas e os outros todos que, oriundos das nossas defesas psicológicas nos isolam dos outros homens deveriam ser derrubados, para que a concórdia e a autenticidade fossem possíveis.

       Não nos iludamos porém: caído o Muro de Berlim, outros se ergueram, provavelmente mais vexatórios ainda, provavelmente mais destituídos de sentido e as evidências históricas e documentais estão aí para atestar a sua existência; quanto aos muros psicológicos, às barreiras comunicacionais de homem para homem, às fortalezas erigidas por cada um na desconfiança perante o outro, nunca como hoje eles representaram tão agudamente  a evidência palpável dos muros que urge derrubar.

 

(Texto apresentado na palestra «A QUEDA DO MURO DE BERLIM: UM MURO OU VÁRIOS MUROS?» integrada numa actividade evocativa da efeméride, em 9 de Novembro de 2009, na escola Secundária de Marco de Canaveses)

 

 

 

 

08 novembre

Sabê-lo-ás um dia

Salvador Dalí, Nascimento do Homem Novo
 
 
 
 
 
SABÊ-LO-ÁS UM DIA
 
 
 
Escrevo-te para te dizer
que a tua ausência não é uma falta
mas somente a ocasião íntima do mergulho
 a tua ausência não significa separação
porque estás em mim e eu estou em ti
numa conjugação osmótica
em que viajamos sozinhos
e contudo
amalgamados um no outro
feitos presença
feitos plenitude.
 
Quero falar-te ainda
(e é por isso que escrevo)
da transcendência acontecida
no limiar do transporte carnal
da transcendência percebida
para lá dos portões da finitude.
 
Quero dizer-te 
que somos e não somos
seres da terra
pois fragmentos iluminados de nós
levantam asas no esplendor da noite
e sobrevoam-nos infinitmente 
(e deixam de ser fragmentos
na hora exacta em que unidos na lógica infinita
se tornam heterocósmicos
reproduzindo-se sem cessar).
 
 
Esta é a única eternidade a que temos acesso
pois perduramos incandescidos
na inquietação turbilhonante do tempo
na imprevisibilidade não conceptual do espaço
e deixamos de ser dois nomes
duas entidades
dois rostos
dois corpos
para nos firmarmos
 como seres de luz
na expansão prodigiosa do ser.
 
 
Aconteceste-me e eu aconteci-te
pouco importa de onde vinhas
(embora uma ou duas vezes tivesse importado
quando a consciência limitada e verrumante
entontecia a claridade
dos transportes levantados para além do tempo linear).
 
 
Há dois tempos e dois espaços
(e uma multiplicidade infinita deles
para lá da consciência)
e nós vogámos nas dimensões falazes e finitas
onde nos aconteceu a dúvida
a perplexidade
a amargura
a divisão
e depois
o transporte incomensurável dos nossos outros eus
alcandorou-nos
projectados
como meteoros incandescentes
de matéria e de anti-matéria.
 
 
Talvez ainda não saibas o que também te aconteceu
neste perpassar inesperado através de mundos
talvez não estejas ainda a seguir
a trajectória estelar que temos vindo a definir
(não definindo todavia)
decerto não despertou em ti
a crença
aquele fermento invisível
que levanta as nossas asas do terreno
e nos projecta
para além de nós
para além do tempo
para além do espaço.
 
Sabê-lo-ás um dia.
05 novembre

Miasmas

 Lord Leighton Fredrick, The Fisherman and the Siren (1858)
 
 
 
~
Lord Leighton Fredrick (1858),O Pescador e a Sereia 
 
 
 
 
 
 
 
MIASMAS
 
 
 
Longe perto
(ora longe ora perto)
e contudo
estás sempre impresso 
no tecido do meu ser
 
 
Dúvidas e certezas
picos e profundezas
e um sol nasce acima dos montes
enquanto uma lua se abate
na planície deserta
e estamos lá
no dia emergente ou na noite apagada
(e o rumor dos outros entrou pelas janelas
eras tu que o trazias agarrado ainda ao corpo
eu soube
eu vi
um rumor
feito de atmosferas mórbidas
que te pesavam nos ombros)
 
Sabias que trouxeste para mim  
o hálito  alheio 
(a respiração
o odor)
e eu
(limpa como o ar nevado das montanhas
livre como uma rajada aberta ao rés da maresia)
recebi-te mesmo assim
sem questionar
sem querer saber de onde vinhas
(quando aqui chegavas)
que rastos trazias
(colados ao toque do teu corpo)
e deixei-te entrar
nas esferas
por onde nenhuma corrente passara
nos recôncavos secretos
inviolados
em espera de ti
 
 
Sabes que eu sei
que outros braços
costumavam cingir-te
e a outro corpo te colavas
(e contudo
não neguei a raiz do meu ser
e entreguei-te tudo
sem esperar retorno)
e hoje
aqui
por onde passam as memórias de ontem
(feitas eternidade)
por onde escorrem ecos
e flutuam
pequenos adejos de asas inefáveis
vejo-te
e não te vejo
conheço-te
e desconheço-te 
e ora são trevas a esmagar-me a lucidez
ora clarões transcendentes
me deslumbram o olhar
 
 
Saberei erguer-me 
(e resistir) 
nas ondas desta procela
estarei à altura
de assimilar
contradições vindas
de lugares remotos e obscenos
e acender tochas balsâmicas
capazes de diluirem
a sombra dos miasmas?
 
 
Saberei trepar
sobre a minha cabeça
sem consentir
que me estremeçam as entranhas
no momento da entrega
na hora extrema
em que o pensamento trai a embriaguez
e bruscamente sei
que não sou a única
que não fui a única?
 
 
(Estranho
estranho modo de te pensar
hoje
precisamente hoje
que te apartaste de mim)
02 novembre

EXORCISMO

 

René Magritte

 

 

EXORCISMO

 

 

Refugia-te na tua solidão, foge do tumulto dos outros, apaga-te, encerra-te, esconde-te, não queiras pertencer de novo ao mundo que renegaste um dia , acede ao exílio, parte para o deserto Refugia-te em ti, caminha para ti,obedece a ti, e encontra-te na profundeza das tuas raízes para subires às frondes da tua fantasia Não te esqueças: Sempre que dás um passo para o outro, esse passo é um salto tão veloz e prodigioso que acabarás agredindo quem querias amar Sempre que dás um passo para o outro, esse passo desencadeia tantos movimentos e convulsões que se transforma em terramoto e produz derrocadas previsíveis Sempre que dás um passo para o outro, levas nele o gigantismo atroador da tua força e farás com que ele recue ao revés da tempestade Sempre que dás um passo para o outro, levas-te toda nesse passo e receberás em troca um vulto apagado, umas costas levantadas, uns passos caminhando na direcção contrária Sempre que dás um passo para o outro, és obrigada a travá-lo logo a seguir e nessa súbita quebra na caminhada sais ferida e atormentada Por isso, foge refugia-te na tua solidão, há sítios ermos onde podes restabelecer forças, sítios onde as vozes humanas não estrondeiam e os corpos não se atropelam, sítios onde a natureza te acolherá vibrante e meiga Foge refugia-te na tua solidão, veste-te de ti mesma e alimenta-te de ti mesma, és por demais ampla, por demais elevada, por demais subterrânea, tens cavernas e sótãos, caves e telhados, és dona de mansões nunca edificadas que não lembram aos olhos humanos Se o outro para quem ainda caminhas entorpecer o andar ou aprumar as costas ou te lançar olhares de soberano desdém ou fizer minguar a dádiva que quis ser, procede como se fosses cega, deixa-o seguir caminho, não o prendas nos teus laços cândidos, que ele verá neles nós insidiosos, não lhe agarres demais o corpo hirto, que ele julgará que lhe queres travar o gesto, não faças com que ele cante ao mundo a novidade de te ter, pois ele pensará que lhe queres acossar a intimidade Foge refugia-te na tua solidão, engalana o teu castelo com as primícias de ti, rodeia-te do calor estonteante das tuas cores e da delícia sublime dos teus sons, enleva-te nas tuas paredes onde brilham muitos sóis e pontifica coroada no reino a que pertences. Julgas que encontrarás um rei para dividir com ele o teu reinado? Julgas que encontrarás um par para dividir com ele a tua vida? Julgas que encontrarás um gémeo para trilhar com ele o teu caminho? Foge refugia-te na tua solidão, não oiças, não vejas, não sintas, não aspires nada que traga a mescla de um hálito exterior, nada que seja a sombra de outras existências, nada que tenha o sabor amargo do equívoco, nada que não traga a marca límpida de uma gota de orvalho, a brancura impoluta de um floco de neve Julgas que o outro saberá ver o lago cristalino que lhe ofereces, para que nele se banhe e ressuscite? Julgas que o outro entrará confiante no lume dos teus sóis, para que neles aprenda a verdade de si? Julgas que o outro ouvirá as tuas preces, feitas a um deus ainda não inventado e entrará como fiel nessa religião nunca vivida? Julgas que o outro se sentará à tua mesa e repartirá contigo o pão que com ele queres repartir, o pão sagrado feito de inefáveis materiais? Foge refugia-te na tua solidão, não peças, não queiras, não desejes e sobretudo não amarres a ti nenhuma sombra, exorciza os fantasmas e no fim, redimida, renascida, retemperada, olha o outro no fundo do olhar, diz-lhe sem voz, sem sons, sem hálito, sem sopro, que estás pronta, se ele estiver pronto

TEIXEIRA DE PASCOAES ANIVERSÁRIO

TEIXEIRA DE PASCOAES 

 

ANIVERSÁRIO

(Amarante, 2 de Novembro de 1877)   

 

 

 

Teixeira de Pascoaes, Aguarela 

 

 

 

 

 

IDÍLIO

 

 

 

A luz do teu olhar,

Funde meu corpo, em sonho em lágrima e luar!

Teu divino sorriso

É voz de anjo a mandar-me entrar no Paraíso...

 

Teu sorriso que lembra a dôce aurora,

Minhas lágrimas tristes evapora

E, nos meus olhos, fica a tua imagem bela...

Assim o fresco orvalho matutino,

Onde encantado vive o sol menino

Deixa nas brancas rosas uma estrêla...

 

Ao descobrir-te, flor,

Todo me exalto e elevo em cânticos de amor,

Perco-me, na amplidão...

 

Sou asa entontecida, aroma, comoção,

Se me tocam, de leve,

Os teus olhos de chama e as tuas mãos de neve!

 

Alegre, choro; e rio sempre aflito!

Canto, soluço e grito!

Sou oração, queixume,

Relâmpago, nevoeiro, onda do mar, perfume,

Quando, da tua face,

Límpida rosa nasce

E de ti se desprende o encanto da manhã,

Que é a tua sombra mística e pagã;

Quando, ao doirado zéfiro, estremeces

E, aureolada de beijos, resplandeces,

Como florido arbusto...

E és o sol, esculpido em feminino busto.

 

Estrêla, bem-me-quer!

Imagem de mulher!

Deslumbra a noite os montes incendeia

E a morta lua cheia!

Quebra as marmóreas tampas sepulcrais!

Que regerassam à vida os corpos espectrais!

Liberta os arvoredos

E as ondas abraçadas aos penedos!

As almas embriaga;

Sensibiliza a fraga

E as nuvens a voar...

Embebe-te na luz e muda-a em dôce olhar.

Seja, no Azul profundo,

Lágrima a tremular e a scintilar o mundo;

Enternecida esfera,

Toda ela a palpitar de amor e primavera.

 

Estrêla, flor, mulher!

Mulher, ave a cantar, na luz do amanhecer!

Mulher, rio sonhando, ao longo das campinas.

Mulher, névoa tentando as asas matutinas.

Mulher, árvore piedosa.

Mulher, triste martírio, enamorada rosa!

Mulher, onda do mar bailando com o vento.

Mulher, brisa outonal, crepúsculo cinzento,

Imagem tôda luz da noite escura...

Mulher, esperança, dôr, amor, graça e candura.

Mulher, fonte que chora e que deseja,

Mulher, mulher, mulher, é a terra que o sol beija.

 

 

Teixeira de Pascoaes, Vida Etérea, Livrarias AILLAUD e BERTRAND, Paris-Lisboa, 1906

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A MINHA HISTÓRIA

 

 

(...) Em Novembro nasci, por uma tarde triste,

quando os sinos soluçam badaladas;

e lúgubres mulheres desoladas

com piedosas mãos, espalham flores,

sobre a estéril poeira que ainda existe  

de sonhos e amores; (...)

 

Nasci no dia eleito da Saudade,

quando o vulto espectral da Eternidade,

Diante nós chimérico, se eleva,

Com estrêlas a rir na máscara de treva. (...)

 

 

Nasci ao pôr-do-sol dum dia de Novembro.

 O meu bêrço, o crepúsculo embalou...

E até parece, às vezes, que me lembro,

Porque essa tarde triste, em mim, ficou. (...)

 

 

 

Teixeira de Pascoaes,Terra Prohibida,Livrarias AILLAUD e BERTRAND, Paris-Lisboa, 1877-1901

 

01 novembre

Lume (continuação)

 

Egon Schiele

 

 

LUME

(continuação)

 

Ah sim o amor

intangível por entre esferas siderais

arrastado em poalha de estrelas cadentes

elevado ao empíreo

onde os arquétipos planam

numa etereidade imperturbável

e contudo

violentamente expulso da mansão ideal

para cavernas iracundas

onde os prisioneiros torcem o corpo todo

tentando ver as sombras

estultamente agrilhoado

a caprichos do pensamento e dos sentidos

arfando miseravelmente

num breve delírio

cedo enterrado

em sinfonias de música nula

 

Ah sim  o amor

esta ilusão

de humanos contra humanos

de humanos através de humanos

de humanos por detrás de humanos

de humanos raramente frente a humanos

de humanos perdidos

na própria e pequena humanidade

de humanos esquecidos da aura divina

que lhes emprestou grandeza

do sortilégio infinito

que lhes doou omnipotência

da profundidade submersa

nas fontes primordiais

onde ruge a imensidão

 

Ah sim o amor

e eu

e tu

com  a face oculta

e o sorriso a enviesar-se

no meio dos outros

com o corpo tenso

e a mente tecendo

estranhos corrupios

estando ali

como se não estivéssemos

e depois

uma pungência a doer

na raiz do ser

que ora é inefável e meiga

ora arrasta turbilhões

de angústia e  de medo

 

Ah sim o amor

e o sol

e a lua

e a claridade

entrelaçando arabescos na noite

e a noite

ensombrando o viés da manhã

e no rugir da tarde

os temporais

desarvoram em torrentes

nunca anunciadas

e contudo violentas

e contudo visíveis

e contudo vibráteis

 

(Não cantei o amor

e sim cantei-o

nas suas inextrincáveis perversões

na lucidez aguda das suas antíteses

no lume que incendeia

o peito ofegante dos amantes

que fomos

que somos

que seremos)

LUME

 

Egon Schiele

 

 

LUME

 

Ah sim o amor

estas pequenas entregas

de um pedaço de nada

estes pequenos oásis

no seio de muitos desertos

estas pequenas sementes

deixadas ao vento

estes pequenos tudos

afogados em oceanos de vazio

(e eu

no limiar do desespero

quero abarcar grandiosas epopeias

onde flutuariam cânticos exaltados

e os anjos

se anjos houvesse

teriam asas infinitas

com que limpariam firmamentos obscuros)

(e eu

no delírio consentido

de emoções cristalinas e primevas

quedo-me

como se não tivesse voz

nem sangue

nem nada

quedo-me

como se precisasse de esconder-me

por trás de arame farpado

e arrastar pelo chão a minha sombra

quedo-me

agarrada à força

num assento duro

querendo saltar para o outro lado

e abrir os braços

quedo-me

numa compostura que nada diz

de mim

do meu ser

do meu sentir

e desvio os olhos

de ti

para outros lugares

querendo prender o desejo

e contudo

dando-lhe a abertura possível

por entre o ruído dos outros)

 

Ah sim o amor

essa quimera

inventada às portas da insensatez

construída no limiar da melancolia

engendrada nos píncaros da solidão

essa mistificação

de almas que irrompem

pelas armaduras insolentes da carne

e nada deixam impoluto ou incorrupto

e logo se abatem

embrutecidas no silêncio do eu

alienadas na prisão da pele

e dos poros

nas linhas da mão

e no tecido encrespado

do corpo todo