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26 novembre TATUAGEMTATUAGEM
Vives tatuado em mim como um despertar como um sol maduro como um rubro poente na orla do oceano
Mesmo que o teu corpo se alongue e perca por outros lugares noutras dimensões e a tua voz se ausente por um momento ou dois
Mesmo que o abandono se anuncie e esculpa crateras de olvido nas raízes todas do meu corpo exangue (na fonte escaldante do meu ser desperto)…
Quando vens e trazes em oferenda estreme o sopro vibrante (da tua humanidade ) quando vens e trazes no calor da pele mil verdades perdidas mil sonhos adiados quando vens e banhas com o poder da luz o lugar de ti (e reverberam sóis e fulgem labaredas) sinto escaldar o meu ventre aflito e rompo as fronteiras com que amarrei (um dia) o meu corpo vago à minha solidão
Vives tatuado em mim como um outro eu que vagueia alhures mas que em cada instante posso fazer chegar aos sentidos que tenho despertos e vivos pelo poder de ti pela chama que és pela torrente infinda que ainda vai brotar amanhã amanhã amanhã um dia
24 novembre Só Dentro de MimSÓ DENTRO DE MIM
Os sítios não existem
os sítios são memórias
evocações
e logo lendas
e promessas de infinito
Naquela noite eu tinha fome na alma
e luz no coração
e também num lugar recôndito
o desejo do abraço
daquele
indeciso
mas firme
trocado numa despedida incipiente
de outros
(mais intensos
mais reveladores
mais audazes)
e soube que tinha que ter
braços
capazes de te cingirem
braços
capzes de te fazerem
sentir
e ousar
e querer arriscar
para lá das luzes da noite
(que hoje tinham
o brilho opalino da tarde
e o rigor translúcido
de um céu inebriado)
Ainda preciso de ter
os meus braços inteiros
para ser o meu próprio amante
e ter
(ao mesmo tempo)
o furor de amar
porque o solipsismo arrasa
o meu ser desperto
para diálogos esvaídos
na penumbra das noites
sombras flutuando
no capricho das paredes
silêncios arrevesados
no torpor da língua
Eu seguro o mundo
por onde viajo contigo
na cadeira que deixaste vazia
no nicho de onde te sumiste
na cratera gélida
onde perpassam
ecos vagabundos de uma voz
que não tem o vigor que é preciso
de uma voz que emudece
numa concha atirada à praia
(fértil de promessas
avara de tesouros)
Foi aqui
(estás a ver)
quando o rio cintilava
no escuro
e as luzes das casas
(negras)
se espelhavam na cortina obscura
e eu hoje abri
o brilho incandescente
que naquela noite
estava dentro de mim
(só dentro de mim)
A MESSAGEA MESSAGE
My song is love
My song is love, unknown And it goes up You don't have to be alone Your heavy heart Is made of stone And it's so hard to see you clearly You don't have to be on your own You don't have to be on your own And I'm not gonna take it back Well I'm not gonna say I don't mean that You're the target that I'm aiming at And I get that message home My song is love My song is love, unknown And I'm on fire for you, clearly You don't have to be alone You don't have to be on your own And I'm not gonna take it back And I'm not gonna say I don't mean that You're the target that I'm aiming at But I'm nothing on my own Got to get that message home And I'm not gonna stand and wait Not gonna leave it until it's much too late On a platform I'm gonna stand and say That I'm nothing on my own And I love you, please come home My song is love, is love unknown And I've got to get that message home Coldplay (X & Y Álbum) 23 novembre FIX YOU![]() CHRIS MARTIN (COLDPLAY)
Fix You
When you try your best, but you don't succeed
When you get what you want, but not what you need When you feel so tired, but you can't sleep Stuck in reverse And the tears come streaming down your face When you lose something you can't replace When you love someone, but it goes to waste Could it be worse? Lights will guide you home And ignite your bones And I will try to fix you And high up above or down below When you're too in love to let it go But if you never try you'll never know Just what you're worth Lights will guide you home And ignite your bones And I will try to fix you Tears stream down your face When you lose something you cannot replace Tears stream down your face And I... Tears stream down on your face I promise you I will learn from my mistakes Tears stream down your face And I... Lights will guide you home And ignite your bones And I will try to fix you Coldplay, Album X&Y 21 novembre Segredos
SEGREDOS
Tenho na ponta dos meus dedos a memória de ti: de olhos abertos ou fechados percorro-te lentamente e sei o que cada um deles me segreda de ti
Tenho-te nas narinas e sei (de olhos abertos ou fechados) a flutuação de cada um dos teus odores e o que cada um deles me segreda de ti
Tenho-te na minha língua nos meus lábios e (de olhos abertos ou fechados) acedo aos teus sabores plenos e ricos e preservo o que cada um deles me segreda de ti
Tenho-te nos ouvidos conheço o bater do teu coração a leve sonoridade do teu beijo a música indecisa com que os teus dedos perpassam em mim e sei o que cada um desses sons (quase indiscerníveis) me segreda de ti
Tenho-te no gume do meu olhar absorvi cada ponto do teu rosto e desenhei-o na minha mente com um rigor tal que (mesmo às escuras) conheço o caminho para os sítios mais recônditos da tua expressividade: e o teu corpo todo plana na minha retina sei onde começas e onde acabas e moldar-me a ti no local exacto que o meu sentido total exige acontece sem sobressaltos: e sei o que o meu olhar acutilante me segreda de ti 19 novembre REPETIÇÃOREPETIÇÃO
![]() «Ó meu querer, curva do caminho de toda a necessidade, necessidade toda minha, livra-me das vitórias mesquinhas!
Ó vocação da minha alma, tu a quem chamo meu Destino, tu que estás em mim, acima de mim, preserva-me, guarda-me para um grande destino!
E a tua grandeza suprema, ó meu querer, reserva-a para a tua suprema proeza, - mostrares-te inexorável na vitória. Ah! pois quem não sucumbiu à sua vitória?
Ah! que olhos se não turvaram nessa perturbada embriaguês? Ah! que pé não vacilou e esqueceu a firmeza na vitória?
Faz com que eu esteja um dia pronto e amadurecido para o grande Meio-dia; pronto e amadurecido como o bronze em fusão, como a nuvem que traz o raio, como a teta cheia de leite,
pronto para mim próprio e para o meu querer mais secreto - arco que aspira à flecha, flecha que aspira à estrela,
estrela pronta e amadurecida no seu meio-dia, ardente e atravessada por uma flecha, desfalecida sob as flechas destruidoras do sol,
ela própria sol e inexorável querer solar, pronto para tudo destruir na sua vitória.
Ó meu querer, curva do caminho de toda a necessidade, ó necessidade toda minha, reserva-me para uma grande e única vitória!
Assim falava Zaratustra»
Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra QUANDO TE VAIS
Odilon Redon
QUANDO TE VAIS
Quando te vais o mundo acaba a noite desce (sem luar sem estrelas) quando te vais um frio rompe da cratera do meu peito e envolve-me o corpo e deixo de existir
Já morri (muitas vezes) morro sempre que o teu rosto desaparece no gume da porta que o teu sorriso esvanece na atmosfera dos meus sítios que o teu calor esfria na orla do meu rosto
É uma forma de morte (esta) que me acontece no limiar da tua ausência é uma forma de morte (esta) que experimento no abandono em que se verteu a minha solidão é uma forma de morte (este) desejar-te no vazio em que me lança o buraco cravado nos sítios onde derramaste o teu poder é uma forma de morte (estes) suspiros perdidos pelas paredes (surdas fechadas) sem ecos sem histórias por muito que o meu olhar as interrogue
Morte (morte) essa vida ao contrário essa respiração sustida esse bater parado (do coração)
Morte (morte) que eu não quero que eu não quis mesmo no auge da tentação do sangue
Morte (morte) não sabia que ia falar-te de morte neste prenúncio de vida não sabia que ia acontecer-me a morte neste súbito nascimento não sabia que dobrariam os sinos no repique que marcou o despertar
Mas não não é morte (mesmo sendo) não é morte (mesmo abrindo buracos de sombra no meu ser) não é morte (mesmo que eu vista o tecido negro da treva e do luto)
É a descida ao labirinto depois da subida ao cume é a perdição do subterrâneo depois da entrada no plenilúnio é a certeza da fome depois do banquete na abundância é o sentimento de privação depois da alucinação orgiástica é a sede a fome o frio depois das bebidas sumarentas que me deste dos repastos jucundos que me serviste do lume abrasado em que me derreteste
Agora quando não vens ou quando te vejo atravessar as minhas portas e o rasto que deixas se vai perdendo (sem de todo se apagar) fico perplexa e tensa como se não existisse como se nunca mais fosse sentir como se uma treva profunda fosse embaciar o meu dia para sempre para sempre para sempre 16 novembre Perdido na Areia
PERDIDO NA AREIA
Tu não és o belo adolescente Tadzio, nem eu sou o fracassado artista Gustav von Aschenbach, não estamos em Veneza nos anos 20, nem nos abafa o scirocco ou nos atemorizam as emanações da peste; e contudo, eu sou Gustav von Aschenbach e o que me avassala o íntimo traz a imagem magnífica e pura de Tadzio, e tu és a Veneza delirante do início de Verão e sopras incandescente e deletério sobre a pele transparente do Tadzio de mim Olho-me ao espelho (para dentro, sempre para dentro) e sinto o ar a faltar-me e os vincos do tempo a apertarem a minha garganta e busco o Absoluto, por entre o scirocco, à revelia da peste, enquanto as areias finas da praia e as águas verde-esmeralda do Mar Mediterrâneo me entontecem a visão, me retiram lucidez Um dia, passarei pela oficina onde se modelam os sonhos e pedirei ao maioral que me transforme (para ti); pedir-lhe-ei que me revista das cores vibrantes com que se anuncia a primavera; pedirei que acrescente ao meu ser a centelha que falta, para que possas querer-me Bem sei que de nada servirá esta travessia (ao contrário) pelas marés da vida, bem sei que os vincos estarão lá por debaixo da tez marmoreada e que mais dia menos dia as minhas lágrimas farão escorrer pedaços negros da tinta com que me disfarcei, os meus lábios murcharão, cinzentos, despojados do carmim que lhes emprestei, os meus olhos sucumbirão sobre pálpebras demasiado densas E então escaldada e exangue, derretida e ensopada, pelas emanações febris da peste engendrada no cenário fantástico dos canais purulentos, cairei sozinha num deserto qualquer e o meu esqueleto haverá de romper (à força) o tecido estreme da minha pele, tornada sudário transparente dos sonhos de Tadzio, tornada reminiscência dos ecos tardios de uma juventude que nunca vivi Aterrada, oiço estas vozes em mim e agarro-me a um pedaço de vida que ainda se agita na raiz do meu ser, estremeço em delírio apertada num transe e quando olho o espelho (para dentro de mim) não encontro quem sou, não encontro quem fui e quem serei está a furtar-se num terreno longínquo Tadzio, ah Tadzio, esse sonho de luz que trago comigo, essa auréola de espanto ou de inconsciência de si, esse lume desperto ao raiar da aurora, feito vago perfil no crepúsculo laranja; afasta-te, Tadzio, figura sibilina de Apolo feérico, expansão dionísiaca de paixões (para lá do meio dia) síntese absurda de impulsos caóticos, yin e yang em convulsões arrasantes, tremendo na noite (em vagabundagem de sonhos desmedidos) afogando-se no dia (em arroubos solenes para lá da tempestade) e depois recolhidos na penumbra (por detrás de um espelho) perdido na areia, perdido na areia, perdido na areia
FOSTE
Odilon Redon
FOSTE
Esvazio-me Perco densidade Flutuo num limbo de onde se esvanecem corporeidades de onde solto as pontas dos fluxos carnais
Imponderável esculpo-me (como apenas essência) ascendo ao etéreo (e já não sei se te encontro)
A neblina encostou-se às paredes do meu ser e aprisionou a minha luz
Acedo ao intervalo e aguardo os passos corpóreos da próxima escalada
Exangue quase não vejo quase não oiço quase não toco perpasso pelos ares (como uma esfinge) e segredo-te palavras (que não ouves)
Bruscamente pairamos em universos paralelos e o meu braço pende adormecido e indeciso por entre brumas estelares e poeiras siderais rodando sem parar por entre sóis e nevoeiros por entre estrelas cadentes e auroras boreais
Um impulso levar-me-á até à polpa dos teus dedos até ao gosto dos teus lábios
Outro impulso arrastar-me-á para solidões abissais onde devorarei o vazio e a negritude de mim em mim (de mim para mim)
Um minuto basta para que o olhar se transcenda e tudo se plasme em lençóis submersos de olvido onde te perco (e por onde me perco)
Mais tarde encontro-me e pairo Mais tarde ergo-me do adormecimento por onde entrei em ti (e de onde saí) e não me reconheço
Quem sou eu deste modo submetida à entrada de um mundo que não sei se me pertence Quem sou eu deste modo atirada sobre abismos no meio de pontes sem chão para firmar o correr dos meus passos
A noite construiu um muro de esquecimento por entre pensamentos encerrados nos portões da consciência tragados no amanhecer e na urgência de partir
Esvaiu-se a promessa Desenleou-se o sonho Fortalezas delirantes amassadas em poderosas estruturas de sólidos compromissos fizeram ruir o ideal
Um travo de pavor alimentou o dia Um esgar de surpresa incendiou a névoa Um ruído de asas obliterou a presença
Foste 15 novembre BASTA SENTIR
BASTA SENTIR
Enquanto a música percorria o ar e o teu corpo tocava o meu muito ao de leve enquanto as paredes se tornavam estreitas e o céu se abria acima das cabeças enquanto a paz entrava em passos de leveza pelos poros antes encrespados da pele convulsionada consegui ver o mar e entrei por ele na magnífica Veneza ao som das notas misteriosas de Gustav Mahler entrei em Veneza num vaporetto e tive a visão súbita do encanto sobrenatural da urbe plantada em água e por momentos a Beleza Absoluta perpassou sobre as nossas cabeças não sei se deste conta (eu quis aflorar o tecido dos teus dedos para que sentisses quis enviar-te um sopro com a ponta dos lábios mergulhei em mim a ver se as ondas que me assolavam entravam feitas espuma na confluência do teu corpo no segredo da tua mente na raiz do teu ser) e pensei ir contigo até ao mar pela noite ficar em silêncio ao rés de uma praia e convidá-la a ser o leito húmido de um sonho de amplidão quis partir nas ondas encantadas daquele sopro de infinito a perpassar tímido por entre cabeças desatentas e corpos em desalinho e contudo vertiginoso na amplidão sensitiva com que fui intuindo a Beleza Absoluta aquela e a nossa e todas elas tecidas num nó corredio de sedução múltipla de osmose consentida...
Se a luz não fosse tão violenta se o território não tivesse o peso barroco de uma ornamentação inútil e vazia se a aragem cortante não trouxesse ecos dissonantes de um mundo que deveria estar bem arredado da magia do instante se apesar disso ainda fui a Veneza por mar e depois regressei pendurada em chuva importuna se novos ecos perduraram ah não terá valido a pena cortar em dois o dia e perder-me num hiato portentoso de infinito e de mistério?
Decifrar não importa perceber é inútil basta sentir sentir e sentir! 13 novembre MELODIA INFINDÁVEL
Gustav Klimt, O Beijo
MELODIA INFINDÁVEL
Escrever escrever escrever e escrever é amar é querer e querer é projectar-me para além de mim para além do horizonte das nuvens do sol da aventura e do medo e atingir os subterrâneos por onde perpassam dúvidas e temores mas também alegrias infindas e sobressaltos osmoses líquidas e promessas adiadas e atingir-te a ti lá onde te recolhes triunfante ou em abandono poderoso ou meigo em descanso ou na vibração autêntica do teu universo ignoto escrever escrever escrever e escrever é ser a voz do silêncio esculpida em gritos e sussurros aberta em devaneios e choros agigantada em gargalhadas de júbilo pelas manhãs etéreas ou nas noites pontilhadas de sóis imaculados escrever escrever escrever e escrever é gritar que das portas cerradas nasceu a amplidão e das bocas cingidas em mordaças de silêncio brotou o segredo luminoso de um milagre a portentosa declaração de segredos inviolados no tempo de outrora escrever escrever escrever e escrever é proclamar que o presente rompeu a carapaça jungida ao tempo passado e ficou exposta a epiderme nua nua de toques intangível e casta como as fontes primevas de onde nasceu outrora a vida escrever escrever escrever e escrever é dar-te as primícias de mim como se houvesse nascido agora mesmo nascido num corpo já feito com memórias de outras vidas memórias desfeitas e cruas na turbilhonante surpresa de um recomeço sem possíveis imagens de outros acordares sem possível retorno a outras alvoradas é viver as dores cruciais de inúmeros partos onde me separo de mim para chegar a mim e tu revolves-me o ser nas ondas convulsionantes do júbilo extremo que se verte em dor que me amarfanha o peito que coloca soluços vibráteis na minha garganta presa escrever escrever escrever e escrever é exaltar-me e exaltar-te e pôr em cada dia o poder do infinito em cada hora a dimensão do universo em cada célula o poder de todo o organismo em cada poro a fluidez incontível de todos os oceanos escrever escrever escrever e há uma torrente invisível a correr gelada na fonte do ser uma corrente vulcânica a bramir escaldante nos picos do eu uma corrente incorpórea a lançar pedradas à minha carne viva uma corrente de luz a estreitar distâncias a romper desertos e tu por onde caminhas perdido que estás na confluência de territórios ténues demasiado ténues e para onde ias quando achei que fingiste que não me vias de onde vinhas quando os teus passos soaram nas avenidas de mim para onde vais quando a madrugada te empurra para a estrada de todos e a bruma te entrega à escuridão e ao deserto sinto a maciez cálida dos teus membros o tecido encrespado da tua pele e no toque suave com que te abraço no aperto violento com que te esmago no jeito incoerente com que te beijo rondam perpassam esbatem-se tempestades antigas solidões e dores não vês que eu já não sei pisar o terreno de onde tu vieste e para onde caminhas torço-me de fome neste deserto que subitamente enganosamente paradoxalmente a tua presença abriu em mim como feridas demasiado largas ou fechadas antes do tempo feridas que não sabia ter ainda feridas rubras ou violáceas consoante a hora do dia e também esplendores nocturnos quando te sinto apertado a mim e mesmo dormindo correspondes ao gesto do meu toque e mesmo dormindo procuras o sítio do meu corpo e perdido nessa inconsciência encontrada nos horizontes inescrutáveis do sono eu já não sei se sou eu que assim buscas no enleio inconsciente ou se ainda adejam em ti asas de outras emanações hábitos de antigas euforias e o pensamento este cavalo à solta esta incontrolável espiral de imagens vivas e outras perdidas em marasmos desvanecidos e outras tecidas em lonjuras especulativas e plantadas nos terrenos limítrofes da consciência amodorrada escrever escrever escrever escrever esta penumbra negra na alvura da folha estes caracteres incoerentes se não lhes dermos o benefício da interpretação esta melopeia átona se ninguém lhe emprestar a harmonia da música estes hieróglifos insensatos se não houver legendagem capaz de os traduzir e eu conto-te aquilo que sei é muito mais do que aquilo que digo aquilo que perpassa nos meus sonhos e no gume do meu sentir é muito mais do que algum dia poderás supor e agora acorrentada nestas paredes que têm todas os ecos de ti acorrentada sob estes tectos que guardam o som da tua voz presa na dureza deste chão que conserva o peso da tua passada e a vibração do jeito do teu corpo paira em mim o frio de não te ter e eu bem vejo que esta minha loucura não encontra lenitivo porque tu não virás 12 novembre Evocando Ilídio SardoeiraEVOCANDO
ILÍDIO SARDOEIRA
EM DIA DE ANIVERSÁRIO
12 de Novembro de 1915
![]() FACILIDADE
Não sei coisas difíceis
nem as faço, nos versos, com palavras.
Difícil é ser simples
e é vestir as coisas de tal jeito
que quem as veja, diga que são nuas.
Ilídio Sardoeira, Poemas, Edições Gaivota, 1952
11 novembre PARA TI
René Magritte
PARA TI
Quero que se calem todas as vozes (estas e aquelas) que atropelam o gume acerado do silêncio de mim e que nenhum ruído atravesse o umbral esculpido às portas do meu ser .
Não entrem que ninguém entre!
Agora é o recolhimento a reserva o retiro agora é tempo de mergulhar a sós no lago turvo agitado pelas vozes dos outros.
Agora é tempo de perguntar à minha alma que alimento dar ao corpo exangue que fome esconjurar que sede apagar que frutos retirar de todas as árvores que esplendores solares deixar escorrer nos muros da minha sombra.
E tu que me levas para o meio dos outros (sem de facto levares) tu que entras na minha solidão (sem de facto entrares) tu que me sorris e me abraças como se fosses o outro de mim (sem de facto chegares a sê-lo) tu que entrelaças no meu o teu corpo vibrante (sem de facto te dares) tu que te abres em mim como fruto maduro (sem contudo deixares a semente fluir) tu que fendeste os portões da minha morada (sem contudo passares para além do umbral) tu que deixaste o meu corpo acender clarões de euforia a minha mente encandear-se em torrentes de júbilo a minha alma crescer em transportes de luz o meu ser agigantar-se para além do infinito tu não sabes que choro e que sofro e que rio e que o meu soluçar explode na noite e que já me esvaio em lágrimas e sangue?
Tu aí no teu solo quente e tranquilo: Não vês que o frio me entorpece a carne? Não vês que a inquietação me põe picos de angústia nos poros do ser?
E contudo por debaixo desta névoa deste gelo desta onda há águas serenas e límpidas mananciais de cor esplendorosos fontes de cristais imaculados sóis irradiantes de alegria e tudo corre para ti para ti para ti! 10 novembre DOS MUROS
DOS MUROS
Evocar hoje o Muro de Berlim, evocar hoje o Derrube do Muro de Berlim não passa de um pretexto para outras digressões especulativas. Se assim falo é na exacta medida em que o nosso mundo vive de efemérides e uma efeméride não é mais do que uma recordação descontextualizada de fenómenos cuja especificidade já não é possível entender cabalmente. Os documentários, filmes e exposições sobre o evento têm sido a nota dominante dos últimos dias, pelo que será desnecessário aludir às circunstâncias históricas e políticas que determinaram a construção do Muro em 1961 e que conduziram ao seu derrube 48 anos depois, há vinte anos portanto. Circunstâncias históricas e políticas, é preciso não esquecer. Circunstâncias que estavam presentes em 1961 e que duas décadas depois, subitamente, deixaram de fazer sentido: porque o Muro de Berlim caiu, aparentemente, por si mesmo, sem convulsões, sem luta. A História é isto mesmo: um ciclo racional engendrado pelas necessidades ou pelos desejos ou pela insanidade dos povos, uma espiral dialéctica em que as contradições, submersas em períodos mais ou menos longos de aparente estabilidade, se enunciam de súbito provocando revoluções, guerras, chacinas, atentados e discórdias de todos os géneros. Poderíamos dizer que tais momentos deveriam ser evitados, poderíamos lamentar os períodos sangrentos de hostilidade e de luta fratricida, poderíamos mesmo desejar a utopia da paz perpétua, a lenda da confraternização universal. E contudo os milénios transcorridos da história dos homens atestam, com evidência plena, a inevitabilidade da guerra, da revolução, da luta ao memo tempo que demonstram a sua necessidade em prol da evolução. A guerra é então uma necessidade, uma condição de progresso? A guerra não pode ser suprimida sob pena de assistirmos à inevitável degeneração dos povos, ao seu declínio e estagnação? Não responderei a tal questão porque as evidências estão aí, hoje como na antiguidade, hoje como no contexto das duas grandes guerras mundiais, hoje como num futuro próximo em que o homem terá que combater o homem, terá que combater-se a si mesmo, portanto, para poder erguer-se e suportar-se enquanto homem. Entretanto, os muros construídos e a construir, os muros abatidos e a abater representaram e representam ocasião de defesa de princípios, de ideais, de sensibilidades – o muro é uma parede levantada atrás da qual nos protegemos e nenhuma habitação humana se manteria erguida sem semelhantes suportes – mas o muro é simultaneamente a barreira que impede o devassar da intimidade, a dissolução dos princípios, a quebra dos ideais, o prejuízo das sensibilidades. E por muito que queiramos hoje olhar o Muro de Berlim como a imagem macabra de um ultraje aos direitos humanos, à lógica civilizacional, à sensatez, por muito que aludamos à construção e manutenção do Muro de Berlim como sendo um atentado à liberdade e à livre circulação dos povos o certo é que não temos outro remédio senão justificá-lo, à luz da circunstância que o engendrou. E será esse o caminho inicial que seguirei na minha exposição. Na época que marcou a construção do Muro de Berlim uma dicotomia politica atravessava a Europa: do lado ocidental, e após os tratados decorrentes do final da Segunda Guerra Mundial, o capitalismo e os regimes designados como democráticos firmaram-se, gerando uma economia de mercado centrada no consumismo, na ostentação, na busca de riqueza e prosperidade económicas e onde se desfraldava a bandeira enganosa da liberdade, segundo a qual a oportunidade de viver bem era uma premissa a todos possível. Basta contudo lançar os olhos sobre as condições que permitiram o desenvolvimento do mundo capitalista para percebermos que nelas esteve sempre implícita a exploração do homem pelo homem, a fabricação da pobreza de muitos como condição do enriquecimento de alguns. Era assim em 1961, quando o muro foi construído em Berlim e o ocidente se atirava para a escalada do capitalismo, suportado politicamente por regimes democráticos capazes de criarem nos povos a ilusão de que podiam sempre lutar em liberdade pela riqueza, pelo conforto, por tudo o que parecia ser, segundo o modelo capitalista o melhor dos bens, e contudo sempre afastados dessa meta; e continua a ser assim, hoje em dia, quando o capitalismo emerge desenfreadamente e as franjas de pobreza e de miséria são cada vez mais palpáveis e cada vez mais atingem núcleos sociais, antes preservados. A pobreza alargou-se, portanto e foi o capitalismo que possibilitou semelhante alargamento, para se poder manter, enquanto tal. Por outro lado, a parte oriental da Europa, delimitada pelo Muro de Berlim, quis destacar-se dessa onda de materialismo e de desumanidade, estribada num ideal humanista cujos princípios visavam a supressão das classes sociais baseadas no poder económico, o desenvolvimento de condições sociais capazes de dotarem todos de modo equilibrado de condições básicas de sobrevivência digna e de, para além da busca de bens de consumo, criar uma sociedade propiciadora de valores humanos, culturais, artísticos em que o homem pudesse erguer a sua verdadeira face. «O livre desenvolvimento de cada um é condição para o livre desenvolvimento de todos» e esta máxima do pensamento prático de Marx e Engels congrega em si, de modo simples, toda a articulação social e política necessária para erguer o verdadeiro mundo dos homens. Na sociedade capitalista o livre desenvolvimento de uns - a minoria - é condição para a escravização dos outros – a maioria - e esta máxima tem valor recíproco, pois a minoria só se ergue, economicamente, à custa da degradação da maioria. Foi assim no início da escalada capitalista, é assim no tempo que vivemos agora. E foi por isso que se ergueu o Muro de Berlim. Era necessário preservar um conjunto de grupos sociais capazes de porem de pé um mundo no contexto do qual as desigualdades económicas se esbatessem a tal ponto que o verdadeiro homem pudesse nascer, desenvolvendo, de facto, os valores intrinsecamente humanos que não são económicos, que não são materiais, que não se medem pelo Ter mas pelo Ser. À semelhança dos pais que protegem os seus filhos enquanto crianças nos limites de um espaço dentro do qual não lhes chegue a violência do mundo exterior, os perigos e as derrocadas do tempo adulto para o qual não estão preparados, enquanto crianças, também foi necessário erguer uma barreira para que a utopia, ainda impúbere, de uma sociedade justa e digna pudesse desenvolver-se arredada das tentações perigosas de um jogo de poder pernicioso e desumano. Aquele Muro, chamado da Vergonha pelos ocidentais, aquele Muro erguido no meio da cidade de Berlim, policiado e interditador da circulação livre foi o símbolo da protecção de um modelo de sociedade que, a desenvolver-se harmoniosamente, a estender-se gradualmente aos restantes países teria poder para pôr em prática a máxima de Marx e Engels citada antes. No momento em que os povos do Leste da Europa tivessem aderido à nova imagem do homem, dando de si testemunho ao resto do mundo, no momento em que a exploração do homem pelo homem, a abolição das classes, o respeito pela diferença e o estabelecimento da igualdade de direitos e de deveres prenunciasse uma nova etapa para o mundo humano, o muro poderia ir abaixo – à semelhança do que fazem os pais quando os filhos crescem e eles percebem que podem dá-los por inteiro à liberdade e à auto-determinação. Sendo assim, que foi que correu mal, para que o Muro de Berlim se transformasse num sinal de repressão e de violência, de atentados às vidas e aos direitos daqueles que queria proteger? O que foi que não se cumpriu, do lado oriental da Europa, para que o descontentamento dos povos, aí confinados, almejasse pelas benesses da sociedade, aparentemente triunfal, do ocidente? O que foi que falhou no passar à prática da máxima de Marx e Engels, para que os povos da Europa de Leste rompessem a fronteira que o Muro fixava e tentassem fugir, arriscando a vida, para o outro lado do mundo? Uma vez mais não irei recorrer aos circunstancialismos históricos, datados e contextualizados, porque eles estão todos aí em manuais, documentários e filmes e darei, em vez disso, a resposta simples, nua e crua como são todas as respostas verdadeiras, dá-la-ei sem contemplações para que conste, para que possa ser alvo de reflexão – se acaso houver ainda disponibilidade para reflectir com autonomia. O homem corrompe a pureza dos ideais engendrados de boa fé, o homem ilude e ilude-se uma e muitas vezes, e julgando semear trigo deixa crescer o joio, o homem constrói o ninho e depois, esquecido que esse ninho é a sua morada, suja-o, quebra-o, torna-o gradualmente inabitável. Foi assim que a Europa de Leste abrigada pela fortaleza do Muro se foi degenerando, enquanto aparentemente o mundo ocidental desabrochava num esplendor feito de cintilações enganosas – mas nem por isso menos incandescentes. A corrupção ocidental estava disfarçada com as cores poderosas do consumismo alienante, mas encantador; a corrupção oriental tinha um sabor amargo, era cinzenta e apagada e os povos para além do muro pareciam a imagem pálida do mundo policromático divisado, a espaços, pelas frinchas, apesar de tudo abertas para o outro lado. Por isso, naquele dia 9 de Novembro de 1989, abrir o muro e derrubá-lo foi ocasião de festa; e os povos de Leste respiraram, por fim, o ar que lhes havia sido retirado durante décadas e sentiram que eram livres, sentiram que, doravante, os privilégios, as ousadias, os luxos e as aventuras do ocidente também lhes seriam permitidos e que, desse modo, seriam cidadãos completos! Vinte anos passaram desde então. Poderemos afirmar, com verdade, que derrubar o Muro de Berlim e atravessá-lo foi, efectivamente, a ocasião de encontro daqueles povos consigo mesmos? Poderemos afirmar, com verdade, que hoje os homens e mulheres da Europa de Leste, apresentados à sociedade de consumo e nela imbuídos de corpo e alma, são mais autenticamente humanos do que o foram à sombra ignominiosa da parede que derrubaram? Uma vez mais não responderei a semelhantes questões: as evidências andam por aí e também esses homens,essas mulheres e essas crianças; encontramo-las um pouco por todo o lado – às evidências e aos homens – e basta querermos reflectir e ponderar para darmos a resposta, nem que seja apenas de nós para nós mesmos. Evidentemente que uma sociedade adulta e razoável não deveria necessitar de muros para fazer vingar os seus ideais. Evidentemente que um mundo, onde todos são semelhantes na sua comum humanidade, deveria escancarar todas as portas e deixar entrar e frutificar e crescer em pleno todos e cada um. Evidentemente que os muros, construídos objectiva e concretamente, enquanto barreiras físicas e os outros todos que, oriundos das nossas defesas psicológicas nos isolam dos outros homens deveriam ser derrubados, para que a concórdia e a autenticidade fossem possíveis. Não nos iludamos porém: caído o Muro de Berlim, outros se ergueram, provavelmente mais vexatórios ainda, provavelmente mais destituídos de sentido e as evidências históricas e documentais estão aí para atestar a sua existência; quanto aos muros psicológicos, às barreiras comunicacionais de homem para homem, às fortalezas erigidas por cada um na desconfiança perante o outro, nunca como hoje eles representaram tão agudamente a evidência palpável dos muros que urge derrubar.
(Texto apresentado na palestra «A QUEDA DO MURO DE BERLIM: UM MURO OU VÁRIOS MUROS?» integrada numa actividade evocativa da efeméride, em 9 de Novembro de 2009, na escola Secundária de Marco de Canaveses)
08 novembre Sabê-lo-ás um dia![]() Salvador Dalí, Nascimento do Homem Novo
SABÊ-LO-ÁS UM DIA
Escrevo-te para te dizer
que a tua ausência não é uma falta
mas somente a ocasião íntima do mergulho
a tua ausência não significa separação
porque estás em mim e eu estou em ti
numa conjugação osmótica
em que viajamos sozinhos
e contudo
amalgamados um no outro
feitos presença
feitos plenitude.
Quero falar-te ainda
(e é por isso que escrevo)
da transcendência acontecida
no limiar do transporte carnal
da transcendência percebida
para lá dos portões da finitude.
Quero dizer-te
que somos e não somos
seres da terra
pois fragmentos iluminados de nós
levantam asas no esplendor da noite
e sobrevoam-nos infinitmente
(e deixam de ser fragmentos
na hora exacta em que unidos na lógica infinita
se tornam heterocósmicos
reproduzindo-se sem cessar).
Esta é a única eternidade a que temos acesso
pois perduramos incandescidos
na inquietação turbilhonante do tempo
na imprevisibilidade não conceptual do espaço
e deixamos de ser dois nomes
duas entidades
dois rostos
dois corpos
para nos firmarmos
como seres de luz
na expansão prodigiosa do ser.
Aconteceste-me e eu aconteci-te
pouco importa de onde vinhas
(embora uma ou duas vezes tivesse importado
quando a consciência limitada e verrumante
entontecia a claridade
dos transportes levantados para além do tempo linear).
Há dois tempos e dois espaços
(e uma multiplicidade infinita deles
para lá da consciência)
e nós vogámos nas dimensões falazes e finitas
onde nos aconteceu a dúvida
a perplexidade
a amargura
a divisão
e depois
o transporte incomensurável dos nossos outros eus
alcandorou-nos
projectados
como meteoros incandescentes
de matéria e de anti-matéria.
Talvez ainda não saibas o que também te aconteceu
neste perpassar inesperado através de mundos
talvez não estejas ainda a seguir
a trajectória estelar que temos vindo a definir
(não definindo todavia)
decerto não despertou em ti
a crença
aquele fermento invisível
que levanta as nossas asas do terreno
e nos projecta
para além de nós
para além do tempo
para além do espaço.
Sabê-lo-ás um dia. 05 novembre Miasmas![]() ~
Lord Leighton Fredrick (1858),O Pescador e a Sereia
MIASMAS
Longe perto
(ora longe ora perto)
e contudo
estás sempre impresso
no tecido do meu ser
Dúvidas e certezas
picos e profundezas
e um sol nasce acima dos montes
enquanto uma lua se abate
na planície deserta
e estamos lá
no dia emergente ou na noite apagada
(e o rumor dos outros entrou pelas janelas
eras tu que o trazias agarrado ainda ao corpo
eu soube
eu vi
um rumor
feito de atmosferas mórbidas
que te pesavam nos ombros)
Sabias que trouxeste para mim
o hálito alheio
(a respiração
o odor)
e eu
(limpa como o ar nevado das montanhas
livre como uma rajada aberta ao rés da maresia)
recebi-te mesmo assim
sem questionar
sem querer saber de onde vinhas
(quando aqui chegavas)
que rastos trazias
(colados ao toque do teu corpo)
e deixei-te entrar
nas esferas
por onde nenhuma corrente passara
nos recôncavos secretos
inviolados
em espera de ti
Sabes que eu sei
que outros braços
costumavam cingir-te
e a outro corpo te colavas
(e contudo
não neguei a raiz do meu ser
e entreguei-te tudo
sem esperar retorno)
e hoje
aqui
por onde passam as memórias de ontem
(feitas eternidade)
por onde escorrem ecos
e flutuam
pequenos adejos de asas inefáveis
vejo-te
e não te vejo
conheço-te
e desconheço-te
e ora são trevas a esmagar-me a lucidez
ora clarões transcendentes
me deslumbram o olhar
Saberei erguer-me
(e resistir)
nas ondas desta procela
estarei à altura
de assimilar
contradições vindas
de lugares remotos e obscenos
e acender tochas balsâmicas
capazes de diluirem
a sombra dos miasmas?
Saberei trepar
sobre a minha cabeça
sem consentir
que me estremeçam as entranhas
no momento da entrega
na hora extrema
em que o pensamento trai a embriaguez
e bruscamente sei
que não sou a única
que não fui a única?
(Estranho
estranho modo de te pensar
hoje
precisamente hoje
que te apartaste de mim) 02 novembre EXORCISMO
René Magritte
EXORCISMO
Refugia-te na tua solidão, foge do tumulto dos outros, apaga-te, encerra-te, esconde-te, não queiras pertencer de novo ao mundo que renegaste um dia , acede ao exílio, parte para o deserto Refugia-te em ti, caminha para ti,obedece a ti, e encontra-te na profundeza das tuas raízes para subires às frondes da tua fantasia Não te esqueças: Sempre que dás um passo para o outro, esse passo é um salto tão veloz e prodigioso que acabarás agredindo quem querias amar Sempre que dás um passo para o outro, esse passo desencadeia tantos movimentos e convulsões que se transforma em terramoto e produz derrocadas previsíveis Sempre que dás um passo para o outro, levas nele o gigantismo atroador da tua força e farás com que ele recue ao revés da tempestade Sempre que dás um passo para o outro, levas-te toda nesse passo e receberás em troca um vulto apagado, umas costas levantadas, uns passos caminhando na direcção contrária Sempre que dás um passo para o outro, és obrigada a travá-lo logo a seguir e nessa súbita quebra na caminhada sais ferida e atormentada Por isso, foge refugia-te na tua solidão, há sítios ermos onde podes restabelecer forças, sítios onde as vozes humanas não estrondeiam e os corpos não se atropelam, sítios onde a natureza te acolherá vibrante e meiga Foge refugia-te na tua solidão, veste-te de ti mesma e alimenta-te de ti mesma, és por demais ampla, por demais elevada, por demais subterrânea, tens cavernas e sótãos, caves e telhados, és dona de mansões nunca edificadas que não lembram aos olhos humanos Se o outro para quem ainda caminhas entorpecer o andar ou aprumar as costas ou te lançar olhares de soberano desdém ou fizer minguar a dádiva que quis ser, procede como se fosses cega, deixa-o seguir caminho, não o prendas nos teus laços cândidos, que ele verá neles nós insidiosos, não lhe agarres demais o corpo hirto, que ele julgará que lhe queres travar o gesto, não faças com que ele cante ao mundo a novidade de te ter, pois ele pensará que lhe queres acossar a intimidade Foge refugia-te na tua solidão, engalana o teu castelo com as primícias de ti, rodeia-te do calor estonteante das tuas cores e da delícia sublime dos teus sons, enleva-te nas tuas paredes onde brilham muitos sóis e pontifica coroada no reino a que pertences. Julgas que encontrarás um rei para dividir com ele o teu reinado? Julgas que encontrarás um par para dividir com ele a tua vida? Julgas que encontrarás um gémeo para trilhar com ele o teu caminho? Foge refugia-te na tua solidão, não oiças, não vejas, não sintas, não aspires nada que traga a mescla de um hálito exterior, nada que seja a sombra de outras existências, nada que tenha o sabor amargo do equívoco, nada que não traga a marca límpida de uma gota de orvalho, a brancura impoluta de um floco de neve Julgas que o outro saberá ver o lago cristalino que lhe ofereces, para que nele se banhe e ressuscite? Julgas que o outro entrará confiante no lume dos teus sóis, para que neles aprenda a verdade de si? Julgas que o outro ouvirá as tuas preces, feitas a um deus ainda não inventado e entrará como fiel nessa religião nunca vivida? Julgas que o outro se sentará à tua mesa e repartirá contigo o pão que com ele queres repartir, o pão sagrado feito de inefáveis materiais? Foge refugia-te na tua solidão, não peças, não queiras, não desejes e sobretudo não amarres a ti nenhuma sombra, exorciza os fantasmas e no fim, redimida, renascida, retemperada, olha o outro no fundo do olhar, diz-lhe sem voz, sem sons, sem hálito, sem sopro, que estás pronta, se ele estiver pronto TEIXEIRA DE PASCOAES ANIVERSÁRIOTEIXEIRA DE PASCOAES
ANIVERSÁRIO (Amarante, 2 de Novembro de 1877)
Teixeira de Pascoaes, Aguarela
IDÍLIO
A luz do teu olhar, Funde meu corpo, em sonho em lágrima e luar! Teu divino sorriso É voz de anjo a mandar-me entrar no Paraíso...
Teu sorriso que lembra a dôce aurora, Minhas lágrimas tristes evapora E, nos meus olhos, fica a tua imagem bela... Assim o fresco orvalho matutino, Onde encantado vive o sol menino Deixa nas brancas rosas uma estrêla...
Ao descobrir-te, flor, Todo me exalto e elevo em cânticos de amor, Perco-me, na amplidão...
Sou asa entontecida, aroma, comoção, Se me tocam, de leve, Os teus olhos de chama e as tuas mãos de neve!
Alegre, choro; e rio sempre aflito! Canto, soluço e grito! Sou oração, queixume, Relâmpago, nevoeiro, onda do mar, perfume, Quando, da tua face, Límpida rosa nasce E de ti se desprende o encanto da manhã, Que é a tua sombra mística e pagã; Quando, ao doirado zéfiro, estremeces E, aureolada de beijos, resplandeces, Como florido arbusto... E és o sol, esculpido em feminino busto.
Estrêla, bem-me-quer! Imagem de mulher! Deslumbra a noite os montes incendeia E a morta lua cheia! Quebra as marmóreas tampas sepulcrais! Que regerassam à vida os corpos espectrais! Liberta os arvoredos E as ondas abraçadas aos penedos! As almas embriaga; Sensibiliza a fraga E as nuvens a voar... Embebe-te na luz e muda-a em dôce olhar. Seja, no Azul profundo, Lágrima a tremular e a scintilar o mundo; Enternecida esfera, Toda ela a palpitar de amor e primavera.
Estrêla, flor, mulher! Mulher, ave a cantar, na luz do amanhecer! Mulher, rio sonhando, ao longo das campinas. Mulher, névoa tentando as asas matutinas. Mulher, árvore piedosa. Mulher, triste martírio, enamorada rosa! Mulher, onda do mar bailando com o vento. Mulher, brisa outonal, crepúsculo cinzento, Imagem tôda luz da noite escura... Mulher, esperança, dôr, amor, graça e candura. Mulher, fonte que chora e que deseja, Mulher, mulher, mulher, é a terra que o sol beija.
Teixeira de Pascoaes, Vida Etérea, Livrarias AILLAUD e BERTRAND, Paris-Lisboa, 1906
A MINHA HISTÓRIA
(...) Em Novembro nasci, por uma tarde triste, quando os sinos soluçam badaladas; e lúgubres mulheres desoladas com piedosas mãos, espalham flores, sobre a estéril poeira que ainda existe de sonhos e amores; (...)
Nasci no dia eleito da Saudade, quando o vulto espectral da Eternidade, Diante nós chimérico, se eleva, Com estrêlas a rir na máscara de treva. (...)
Nasci ao pôr-do-sol dum dia de Novembro. O meu bêrço, o crepúsculo embalou... E até parece, às vezes, que me lembro, Porque essa tarde triste, em mim, ficou. (...)
Teixeira de Pascoaes,Terra Prohibida,Livrarias AILLAUD e BERTRAND, Paris-Lisboa, 1877-1901
01 novembre Lume (continuação) Egon Schiele
LUME (continuação)
Ah sim o amor intangível por entre esferas siderais arrastado em poalha de estrelas cadentes elevado ao empíreo onde os arquétipos planam numa etereidade imperturbável e contudo violentamente expulso da mansão ideal para cavernas iracundas onde os prisioneiros torcem o corpo todo tentando ver as sombras estultamente agrilhoado a caprichos do pensamento e dos sentidos arfando miseravelmente num breve delírio cedo enterrado em sinfonias de música nula
Ah sim o amor esta ilusão de humanos contra humanos de humanos através de humanos de humanos por detrás de humanos de humanos raramente frente a humanos de humanos perdidos na própria e pequena humanidade de humanos esquecidos da aura divina que lhes emprestou grandeza do sortilégio infinito que lhes doou omnipotência da profundidade submersa nas fontes primordiais onde ruge a imensidão
Ah sim o amor e eu e tu com a face oculta e o sorriso a enviesar-se no meio dos outros com o corpo tenso e a mente tecendo estranhos corrupios estando ali como se não estivéssemos e depois uma pungência a doer na raiz do ser que ora é inefável e meiga ora arrasta turbilhões de angústia e de medo
Ah sim o amor e o sol e a lua e a claridade entrelaçando arabescos na noite e a noite ensombrando o viés da manhã e no rugir da tarde os temporais desarvoram em torrentes nunca anunciadas e contudo violentas e contudo visíveis e contudo vibráteis
(Não cantei o amor e sim cantei-o nas suas inextrincáveis perversões na lucidez aguda das suas antíteses no lume que incendeia o peito ofegante dos amantes que fomos que somos que seremos) LUME Egon Schiele
LUME
Ah sim o amor estas pequenas entregas de um pedaço de nada estes pequenos oásis no seio de muitos desertos estas pequenas sementes deixadas ao vento estes pequenos tudos afogados em oceanos de vazio (e eu no limiar do desespero quero abarcar grandiosas epopeias onde flutuariam cânticos exaltados e os anjos se anjos houvesse teriam asas infinitas com que limpariam firmamentos obscuros) (e eu no delírio consentido de emoções cristalinas e primevas quedo-me como se não tivesse voz nem sangue nem nada quedo-me como se precisasse de esconder-me por trás de arame farpado e arrastar pelo chão a minha sombra quedo-me agarrada à força num assento duro querendo saltar para o outro lado e abrir os braços quedo-me numa compostura que nada diz de mim do meu ser do meu sentir e desvio os olhos de ti para outros lugares querendo prender o desejo e contudo dando-lhe a abertura possível por entre o ruído dos outros)
Ah sim o amor essa quimera inventada às portas da insensatez construída no limiar da melancolia engendrada nos píncaros da solidão essa mistificação de almas que irrompem pelas armaduras insolentes da carne e nada deixam impoluto ou incorrupto e logo se abatem embrutecidas no silêncio do eu alienadas na prisão da pele e dos poros nas linhas da mão e no tecido encrespado do corpo todo
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