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10 novembre DOS MUROS
DOS MUROS
Evocar hoje o Muro de Berlim, evocar hoje o Derrube do Muro de Berlim não passa de um pretexto para outras digressões especulativas. Se assim falo é na exacta medida em que o nosso mundo vive de efemérides e uma efeméride não é mais do que uma recordação descontextualizada de fenómenos cuja especificidade já não é possível entender cabalmente. Os documentários, filmes e exposições sobre o evento têm sido a nota dominante dos últimos dias, pelo que será desnecessário aludir às circunstâncias históricas e políticas que determinaram a construção do Muro em 1961 e que conduziram ao seu derrube 48 anos depois, há vinte anos portanto. Circunstâncias históricas e políticas, é preciso não esquecer. Circunstâncias que estavam presentes em 1961 e que duas décadas depois, subitamente, deixaram de fazer sentido: porque o Muro de Berlim caiu, aparentemente, por si mesmo, sem convulsões, sem luta. A História é isto mesmo: um ciclo racional engendrado pelas necessidades ou pelos desejos ou pela insanidade dos povos, uma espiral dialéctica em que as contradições, submersas em períodos mais ou menos longos de aparente estabilidade, se enunciam de súbito provocando revoluções, guerras, chacinas, atentados e discórdias de todos os géneros. Poderíamos dizer que tais momentos deveriam ser evitados, poderíamos lamentar os períodos sangrentos de hostilidade e de luta fratricida, poderíamos mesmo desejar a utopia da paz perpétua, a lenda da confraternização universal. E contudo os milénios transcorridos da história dos homens atestam, com evidência plena, a inevitabilidade da guerra, da revolução, da luta ao memo tempo que demonstram a sua necessidade em prol da evolução. A guerra é então uma necessidade, uma condição de progresso? A guerra não pode ser suprimida sob pena de assistirmos à inevitável degeneração dos povos, ao seu declínio e estagnação? Não responderei a tal questão porque as evidências estão aí, hoje como na antiguidade, hoje como no contexto das duas grandes guerras mundiais, hoje como num futuro próximo em que o homem terá que combater o homem, terá que combater-se a si mesmo, portanto, para poder erguer-se e suportar-se enquanto homem. Entretanto, os muros construídos e a construir, os muros abatidos e a abater representaram e representam ocasião de defesa de princípios, de ideais, de sensibilidades – o muro é uma parede levantada atrás da qual nos protegemos e nenhuma habitação humana se manteria erguida sem semelhantes suportes – mas o muro é simultaneamente a barreira que impede o devassar da intimidade, a dissolução dos princípios, a quebra dos ideais, o prejuízo das sensibilidades. E por muito que queiramos hoje olhar o Muro de Berlim como a imagem macabra de um ultraje aos direitos humanos, à lógica civilizacional, à sensatez, por muito que aludamos à construção e manutenção do Muro de Berlim como sendo um atentado à liberdade e à livre circulação dos povos o certo é que não temos outro remédio senão justificá-lo, à luz da circunstância que o engendrou. E será esse o caminho inicial que seguirei na minha exposição. Na época que marcou a construção do Muro de Berlim uma dicotomia politica atravessava a Europa: do lado ocidental, e após os tratados decorrentes do final da Segunda Guerra Mundial, o capitalismo e os regimes designados como democráticos firmaram-se, gerando uma economia de mercado centrada no consumismo, na ostentação, na busca de riqueza e prosperidade económicas e onde se desfraldava a bandeira enganosa da liberdade, segundo a qual a oportunidade de viver bem era uma premissa a todos possível. Basta contudo lançar os olhos sobre as condições que permitiram o desenvolvimento do mundo capitalista para percebermos que nelas esteve sempre implícita a exploração do homem pelo homem, a fabricação da pobreza de muitos como condição do enriquecimento de alguns. Era assim em 1961, quando o muro foi construído em Berlim e o ocidente se atirava para a escalada do capitalismo, suportado politicamente por regimes democráticos capazes de criarem nos povos a ilusão de que podiam sempre lutar em liberdade pela riqueza, pelo conforto, por tudo o que parecia ser, segundo o modelo capitalista o melhor dos bens, e contudo sempre afastados dessa meta; e continua a ser assim, hoje em dia, quando o capitalismo emerge desenfreadamente e as franjas de pobreza e de miséria são cada vez mais palpáveis e cada vez mais atingem núcleos sociais, antes preservados. A pobreza alargou-se, portanto e foi o capitalismo que possibilitou semelhante alargamento, para se poder manter, enquanto tal. Por outro lado, a parte oriental da Europa, delimitada pelo Muro de Berlim, quis destacar-se dessa onda de materialismo e de desumanidade, estribada num ideal humanista cujos princípios visavam a supressão das classes sociais baseadas no poder económico, o desenvolvimento de condições sociais capazes de dotarem todos de modo equilibrado de condições básicas de sobrevivência digna e de, para além da busca de bens de consumo, criar uma sociedade propiciadora de valores humanos, culturais, artísticos em que o homem pudesse erguer a sua verdadeira face. «O livre desenvolvimento de cada um é condição para o livre desenvolvimento de todos» e esta máxima do pensamento prático de Marx e Engels congrega em si, de modo simples, toda a articulação social e política necessária para erguer o verdadeiro mundo dos homens. Na sociedade capitalista o livre desenvolvimento de uns - a minoria - é condição para a escravização dos outros – a maioria - e esta máxima tem valor recíproco, pois a minoria só se ergue, economicamente, à custa da degradação da maioria. Foi assim no início da escalada capitalista, é assim no tempo que vivemos agora. E foi por isso que se ergueu o Muro de Berlim. Era necessário preservar um conjunto de grupos sociais capazes de porem de pé um mundo no contexto do qual as desigualdades económicas se esbatessem a tal ponto que o verdadeiro homem pudesse nascer, desenvolvendo, de facto, os valores intrinsecamente humanos que não são económicos, que não são materiais, que não se medem pelo Ter mas pelo Ser. À semelhança dos pais que protegem os seus filhos enquanto crianças nos limites de um espaço dentro do qual não lhes chegue a violência do mundo exterior, os perigos e as derrocadas do tempo adulto para o qual não estão preparados, enquanto crianças, também foi necessário erguer uma barreira para que a utopia, ainda impúbere, de uma sociedade justa e digna pudesse desenvolver-se arredada das tentações perigosas de um jogo de poder pernicioso e desumano. Aquele Muro, chamado da Vergonha pelos ocidentais, aquele Muro erguido no meio da cidade de Berlim, policiado e interditador da circulação livre foi o símbolo da protecção de um modelo de sociedade que, a desenvolver-se harmoniosamente, a estender-se gradualmente aos restantes países teria poder para pôr em prática a máxima de Marx e Engels citada antes. No momento em que os povos do Leste da Europa tivessem aderido à nova imagem do homem, dando de si testemunho ao resto do mundo, no momento em que a exploração do homem pelo homem, a abolição das classes, o respeito pela diferença e o estabelecimento da igualdade de direitos e de deveres prenunciasse uma nova etapa para o mundo humano, o muro poderia ir abaixo – à semelhança do que fazem os pais quando os filhos crescem e eles percebem que podem dá-los por inteiro à liberdade e à auto-determinação. Sendo assim, que foi que correu mal, para que o Muro de Berlim se transformasse num sinal de repressão e de violência, de atentados às vidas e aos direitos daqueles que queria proteger? O que foi que não se cumpriu, do lado oriental da Europa, para que o descontentamento dos povos, aí confinados, almejasse pelas benesses da sociedade, aparentemente triunfal, do ocidente? O que foi que falhou no passar à prática da máxima de Marx e Engels, para que os povos da Europa de Leste rompessem a fronteira que o Muro fixava e tentassem fugir, arriscando a vida, para o outro lado do mundo? Uma vez mais não irei recorrer aos circunstancialismos históricos, datados e contextualizados, porque eles estão todos aí em manuais, documentários e filmes e darei, em vez disso, a resposta simples, nua e crua como são todas as respostas verdadeiras, dá-la-ei sem contemplações para que conste, para que possa ser alvo de reflexão – se acaso houver ainda disponibilidade para reflectir com autonomia. O homem corrompe a pureza dos ideais engendrados de boa fé, o homem ilude e ilude-se uma e muitas vezes, e julgando semear trigo deixa crescer o joio, o homem constrói o ninho e depois, esquecido que esse ninho é a sua morada, suja-o, quebra-o, torna-o gradualmente inabitável. Foi assim que a Europa de Leste abrigada pela fortaleza do Muro se foi degenerando, enquanto aparentemente o mundo ocidental desabrochava num esplendor feito de cintilações enganosas – mas nem por isso menos incandescentes. A corrupção ocidental estava disfarçada com as cores poderosas do consumismo alienante, mas encantador; a corrupção oriental tinha um sabor amargo, era cinzenta e apagada e os povos para além do muro pareciam a imagem pálida do mundo policromático divisado, a espaços, pelas frinchas, apesar de tudo abertas para o outro lado. Por isso, naquele dia 9 de Novembro de 1989, abrir o muro e derrubá-lo foi ocasião de festa; e os povos de Leste respiraram, por fim, o ar que lhes havia sido retirado durante décadas e sentiram que eram livres, sentiram que, doravante, os privilégios, as ousadias, os luxos e as aventuras do ocidente também lhes seriam permitidos e que, desse modo, seriam cidadãos completos! Vinte anos passaram desde então. Poderemos afirmar, com verdade, que derrubar o Muro de Berlim e atravessá-lo foi, efectivamente, a ocasião de encontro daqueles povos consigo mesmos? Poderemos afirmar, com verdade, que hoje os homens e mulheres da Europa de Leste, apresentados à sociedade de consumo e nela imbuídos de corpo e alma, são mais autenticamente humanos do que o foram à sombra ignominiosa da parede que derrubaram? Uma vez mais não responderei a semelhantes questões: as evidências andam por aí e também esses homens,essas mulheres e essas crianças; encontramo-las um pouco por todo o lado – às evidências e aos homens – e basta querermos reflectir e ponderar para darmos a resposta, nem que seja apenas de nós para nós mesmos. Evidentemente que uma sociedade adulta e razoável não deveria necessitar de muros para fazer vingar os seus ideais. Evidentemente que um mundo, onde todos são semelhantes na sua comum humanidade, deveria escancarar todas as portas e deixar entrar e frutificar e crescer em pleno todos e cada um. Evidentemente que os muros, construídos objectiva e concretamente, enquanto barreiras físicas e os outros todos que, oriundos das nossas defesas psicológicas nos isolam dos outros homens deveriam ser derrubados, para que a concórdia e a autenticidade fossem possíveis. Não nos iludamos porém: caído o Muro de Berlim, outros se ergueram, provavelmente mais vexatórios ainda, provavelmente mais destituídos de sentido e as evidências históricas e documentais estão aí para atestar a sua existência; quanto aos muros psicológicos, às barreiras comunicacionais de homem para homem, às fortalezas erigidas por cada um na desconfiança perante o outro, nunca como hoje eles representaram tão agudamente a evidência palpável dos muros que urge derrubar.
(Texto apresentado na palestra «A QUEDA DO MURO DE BERLIM: UM MURO OU VÁRIOS MUROS?» integrada numa actividade evocativa da efeméride, em 9 de Novembro de 2009, na escola Secundária de Marco de Canaveses)
28 ottobre QUANDO A FICÇÃO SE TRANSFORMA EM PODER (E VICE-VERSA)
QUANDO A FICÇÃO SE TRANSFORMA EM PODER (E VICE-VERSA)
Citações: 1. «O Antigo Testamento é formado em grande parte por uma compilação de histórias, muito à semelhança de um romance.» 2. «Pegar no Antigo Testamento para criticar a brutalidade dos hebreus ou de outros povos da antiguidade é o mesmo que criticar Dostoievsky por escrever sobre um assassinato premeditado ou criticar Anne Frank por descrever como a crueldade nazi afectou a família.» 3. «Quem quer que deseje conhecer até onde pode chegar a abominação e a crueldade e até que ponto Deus - ou o Destino - pode ser impiedoso bastar-lhe-á abrir o Antigo Testamento. Para quem nunca o fez, sugeriria que lessem o tratamento dado pelo Rei David a Urias, narrado no Segundo Livro de Samuel. Será difícil encontrar descrição mais poderosa da traição e da brutalidade humanas.» Saramago e a Insustentável Leveza da Ignorância, in Jornal Público, 27 de Outubro de 2009
Lendo estes três extractos do texto publicado no Jornal Público do dia 27 de Outubro de 2009, da autoria de Richard Zimler, ocorrem-me, desde logo, algumas reflexões. Em primeiro lugar, segundo o autor, a Bíblia não passa de um romance, escrito não se sabe muito bem por quem, nem se sabe muito bem quando e, dadas as cogitações aqui expressas, não se sabe muito bem para quê, e logo todas as suas personagens, incluindo Deus, são fantasias urdidas por escritores muito imaginativos! Portanto, Deus não existe! Tantos milénios decorreram, tantos filósofos se descabelaram para negar ou demonstrar a existência de Deus, e eis que esta súbita elevação da Bíblia à categoria de romance, ou poema, e logo ficção ou metáfora, anula o problema, enunciando que tudo o que existe no Antigo Testamento, enquanto relato, desde a criação do mundo até ao apocalipse, passando pelo dilúvio e pela destruição de Sodoma e Gomorra é comparável ao Crime e Castigo de Dostoievsky! No entanto, no decurso do terceiro extracto citado, o autor escreve: «Quem quer que deseje conhecer até onde pode chegar a abominação e a crueldade humanas e até que ponto Deus - ou o Destino - pode ser impiedoso, bastar-lhe-á abrir o Antigo Testamento.» Ao fazer esta afirmação, Richard Zimler nega o carácter fictício e ficcional do Antigo Testamento, pois é possível «conhecer» a crueldade e a abominação das personagens bíblicas e do seu Deus. É uma descrição de factos, afinal, ou uma ficção inventada por criadores iluminados? Do mesmo modo poderíamos dizer que o romance citado de Dostoievsky nos permite «conhecer» o carácter patológico e perverso de Rodion Raskolnikoff, considerando que a ficção, afinal, descreve uma história vivida, de facto, na Rússia do século XIX. Ou será que a palavra «conhecer» adquiriu um novo significado e já não é entender, reconhecer, saber, aprender com base em hipóteses provadas experimentalmente ou em argumentos seriamente ponderados e esgrimidos?
Citação: 4. «Tomar à letra estas histórias é simplesmente não entender o Antigo Testamento e ignorar por completo dois mil anos de tradição poética ocidental.»
Dois mil anos de tradição poética ocidental - eis aquilo a que se resume o Antigo Testamento e os seus protagonistas, com o principal - Deus - incluído ali, enquanto mito e logo ficção! E assim, nem Deus, nem os profetas, nem os heróis, nem os eleitos devem ser tomados à letra, pois não passam de personagens de um emaranhado de histórias que ninguém, no seu juízo perfeito, alguma vez deverá levar a sério! E no entanto essa prodigiosa ficção alimentou e alimenta uma série de cultos religiosos, essa ficção é chamada de sagrada e os seus autores, ainda que anónimos, de paladinos da inspiração divina - esse Deus que eles inventaram e os inspirou num inaudito círculo vicioso. Entender o Antigo Testamento, segundo Zimler, é reduzi-lo ou expandi-lo - tanto faz - à categoria de mito, recitando-o e cantando-o, quando é belo, ou detestando-o e afastando-o dos olhos, quando é vil. Apesar disso, séculos de literalização, do que afinal é metafórico, produziram e continuam produzindo força de lei. Quem não se lembra de Giordano Bruno e de Galileu, condenados à fogueira, por heresia, apenas porque a Bíblia afirma a teoria geocêntrica, e qualquer um deles acreditou e provou cientificamente e expôs publicamente a teoria oposta? Se não me engano, tais condenações tiveram como base um episódio bíblico do Antigo Testamento - e logo uma metáfora - no contexto da qual Josué mandou parar o sol, para que o dia ganhasse as horas de que o seu exército necessitava para vencer o inimigo [Sol, detém-te sobre Gabaão; e tu, lua, sobre o Vale de Ajalão! (Josué. 10, 12.)]. Metáfora? Talvez; e contudo semelhante metáfora serviu para perseguir como hereges e queimar na fogueira os que, proclamando o movimento da terra em torno do sol, negaram essa verdade (afinal ficção). Sabemos que Galileu escapou da fogueira, porque lhe foi permitido retractar-se, sabemos que, com a idade de 70 anos, o cientista compareceu em tribunal perante inquisidores e alto clero e negou tudo o que afirmara e provara, não tendo sido, porém, dado à liberdade, pois cegou na prisão, obrigado a produzir diariamente textos permitidos pela igreja e trabalhando no escuro a ciência experimental, essa heresia afinal estribada numa imagem poética e num pregão fictício do eleito de Deus, Josué, o sucessor de Abraão! Dois mil anos de tradição poética? E contudo, essa alegada tradição poética teve peso de lei no século XVII, quando Bruno foi queimado vivo e Galileu se retractou humilhantemente perante o clero de Roma! O texto de Ricahrd Zimler é uma tragédia de superficialidade e falta de rigor, é um embuste e um insulto à inteligência de todos os que têm olhos e sabem ler.
Fonte das citações: http://ipsilon.publico.pt/
25 ottobre «O MANUAL DE MAUS COSTUMES»
«O MANUAL DE MAUS COSTUMES»
Asneira é uma palavra derivada de asno e, pelo menos entre os humanos, um asno é um estúpido, um homem (ou mulher) que faz, diz ou escreve asneiras. Os asnos não falam, não escrevem e são usados como metáfora, sem dúvida cruel e injusta, para designar um ser humano de vistas curtas e inteligência diminuta: se fosse preciso, pediria desculpa aos asnos verdadeiros por utilizar aqui a palavra asneira, do nome deles derivada. Porém, felizmente para mim e para eles, não terei que levar a cabo um tal pedido: eu uso apenas a palavra, sem pensar nos animais que, contrariamente à etimologia, do seu nome advinda, não produzem asneira, e eles nada sabem destas artimanhas verbais dos homens, pelo que ficamos todos bem - eu e os asnos (esses mesmos, os de quatro patas, os de orelhas compridas). Ultimamente tenho ouvido muitas asneiras: e eis-me de novo a sair a terreiro para defender José Saramago. Não que ele precise seja de quem for para defendê-lo, mas porque a ignorância que grassa nas mentes é de tal modo grotesca que resolvi prestar alguns esclarecimentos a quem eles puderem ser, eventualmente, úteis. Ainda não tive oportunidade de pôr a mão no livro «Caim» pois toda a atoarda emitida pelos meios de comunicação social, toda a polémica, e consequente criação de escândalo, produziram o efeito de varrer das livrarias a obra que foi esgotando em lotes sucessivos; quando decidi comprá-lo, não o encontrei em parte alguma. Porém, contrariamente a muitos daqueles que pregam contra as heresias, alegadamente proferidas nesse livro, eu conheço suficientemente a Bíblia para entender razoavelmente o sentido da expressão usada por Saramago ao referir-se ao livro sagrado como «um manual de maus costumes». Obviamente que Saramago está a levar em conta o Antigo Testamento, esse em que um deus cruel e vingador pontifica como protagonista e desencadeador de inúmeras carnificinas, injustiças, calamidades, destruições, ódios, vinganças e por aí adiante. Um deus que, por inércia e ócio, se diverte a criar um mundo e nele dois seres privilegiados: o Homem e a Mulher. Instala-os no Jardim do Éden, fá-los senhores absolutos de um local de delícias mas com alguns limites, dentro do seu superior controle. Deixa-os fazer tudo, permite-lhes o prazer, a indolência, a gula, apresenta-lhes frutos prodigiosos e sumarentos das diversas árvores do Jardim: mas aponta-lhes uma, talvez a mais frondosa e colorida, decerto a que, no centro do Paraíso, prometia maiores delícias gustativas, e ordena: «Daquela não podereis comer, porque no dia em que o fizerdes expulsar-vos-ei do Paraíso!» Porém, ela estava lá, essa árvore magnífica, e o primeiro par de humanos passava por ali nas suas deambulações e não conseguia entender por que razão lhes era vedado tocar naquela, precisamente naquela, e só naquela. Que quereria Deus dizer com «expulso-vos do Paraíso»? E porque razão comer um fruto de uma árvore, no meio de tantos frutos de tantas árvores poderia ser motivo para «expulsão»? E mais: expulsão, para onde, se eles nada conheciam que não fosse aquele jardim, para eles concebido? Ao mesmo tempo que deus criou a proibição, inventou, de igual modo, a tentação e a dúvida, inventou o engenho nas inteligências primevas e amodorradas dos primeiros humanos, que se sentiram inevitavelmente atraídos para aquilo que lhes havia sido proibido, querendo perceber a razão de semelhante restrição e, quem sabe?, entender também o sentido do termo expulsão e as consequências de semelhante castigo. Logo, deus criou, em simultâneo, a origem do pecado e o próprio pecado pois construiu Adão e Eva com uma perplexidade inicial, com um dilema e com um desafio. Deu-lhes tudo, à excepção do livre-arbítrio, concedeu-lhes o alimento do corpo em profusão, mas não lhes alimentou, do mesmo modo, a imaginação e a inteligência. E assim, inevitavelmente, os dois habitantes do Éden comem da árvore proibida! Eles «tinham» que comer e deus sabia disso. Eles «tinham» que vencer o desafio da proibição, ultrapassando-o, e deus também o sabia. Logo, deus criou Adão e Eva com essa capacidade inicial para não resistir à beleza de um fruto interdito pelo criador e sabia que estava a criá-los exactamente assim. Que deus é este que gera a perfeição, mas lhe coloca, de imediato, limites e entraves? Que deus é este que dá tudo às suas criaturas – aquelas que criou à sua imagem e semelhança – e lhes põe permanentemente debaixo do olhar e de todos os sentidos o obstáculo à mesma perfeição? Que deus é este que coloca a espada da cisão e o fantasma da expulsão humilhante à frente dos seres criados como seu reflexo terreno? Adão e Eva comem o fruto interditado e percebem uma quantidade de coisas que a cegueira amodorrada do jardim das delícias lhes tinha impedido de ver. E deus, o pai e criador, não está com meias medidas: expulsa-os e condena-os a uma existência dura e ingrata, envia-os para terrenos inóspitos que precisarão de cavar com as próprias mãos, de onde deverão fazer emergir o alimento, antes oferecido graciosamente, e obriga-os a multiplicarem-se como os outros seres da natureza na aflição e na dor. Manual de maus costumes? É claro! Um pai que proíbe, sem explicar porque proíbe, um pai que ameaça castigar o prevaricador, sem dar qualquer indício do sentido de semelhante prevaricação, um pai que castiga e condena esses dois primeiros pecadores, e todos os outros que deles serão gerados, a um nascimento contaminado por uma falta absurda, insensata, ridícula. Imitaríamos nós um tal pai? Seríamos capazes de educar deste modo os filhos por nós concebidos? Depois, Adão e Eva, na labuta terrena, engendram dois filhos: Caim e Abel. E deus, vigilante, observa que a índole de um é diferente da índole do outro e, em vez de acarinhar o mais fraco, em vez de se intrometer positivamente na construção do carácter de Caim, favorece, com a sua predilecção, Abel, o melhor dos dois, gerando a inveja, o ódio, o ímpeto assassino no desfavorecido, no rejeitado. Ambos trabalham e ambos oferecem a deus o produto das suas respectivas tarefas, cereais e cordeiros, e enquanto o pai e criador, recebe com agrado as oferendas de um, rejeita com desprezo as dádivas do outro. Que admira que a raiva recrudescente tenha levado Caim a matar Abel e a suprimir desse modo o privilegiado, seu rival, sua sombra, instrumento do seu castigo e da sua desgraça aos olhos de deus? Afinal, quem matou Abel não foi Caim, foi deus, esse que discriminou e enraiveceu e enregelou um irmão perante o outro, esse que a partir dessa hora abriu caminho para todas as guerras fratricidas perpetradas pelos milénios além e que, apesar dos esforços de muitos homens, continuam e continuarão acesas no lume sanguinário do sangue irado de Caim. Manual de maus costumes? É claro! Que pai humano rejeita e abomina o seu filho, mesmo quando ele erra, que pai humano não se dispõe a acarinhar o filho mais fraco ou rebelde para o colocar no bom caminho? Que pai humano estabelece diferenças entre os seus filhos e rejeita ostensivamente as oferendas do menos bom que, apesar de ser menos bom, ainda assim quer agradar ao progenitor? E um dia, o criador do mundo e dos seus primeiros habitantes humanos, obrigados a dar à luz em partos sucessivos, obrigados a descender de Caim, o ignominiado, o fugitivo, obrigados a albergar em si a semente do mal, neles deposta pelo próprio criador, enjoa-se da sua obra, fica repugnado com a miséria das suas criaturas reles, reles, porque ele assim as quis, reles porque reles era também o mesmo criador. Não pensa redimir o seu próprio erro e emendar, num gesto omnipotente, a mão inicial, salvando as criaturas perdidas pela sua própria incapacidade de educar a criatura. Torna-se assassino declarado e elimina toda a espécie num dilúvio universal, de onde não pretende deixar escapar a sombra de um homem; mas faz pior ainda: elege, de entre todos, um casal e a sua família, os únicos que no seio das multidões perversas e pervertidas lhe merecera complacência e, nesse gesto, discrimina, de novo, afunda nas águas revoltas homens, mulheres e crianças e apenas salva aquele punhado de seres, com a promessa de que, mais tarde, eles seriam a condição de um mundo melhor: esse que ele, enquanto deus, não foi capaz de conceber e executar. Manual de maus costumes? Na história dos homens, só os bárbaros e os loucos, os tiranos e os ditadores promoveram, no mundo tal como o conhecemos hoje, genocídios aproximados a este! Só os degenerados que, apesar do sacrifício da geração de Noé continuaram a ser concebidos e tolerados por deus criador, levam a cabo, em pequena escala, um procedimento de tal modo cruel e implacável! E a saga bíblica prossegue e encontramos um certo Abraão, dilecto de Deus, um homem poderoso e chefe de outros homens numa tribo de pastores, um homem eleito e contudo incapaz de ter um filho apesar de muitos pedidos a esse deus clemente e piedoso. E eis que em extrema velhice deus permite que Sara, a mulher estéril de Abraão, conceba e dê à luz um filho, Isaac, o primogénito, o descendente. Tudo parecia estar no devido lugar, até ao momento em que deus fala a Abraão e lhe exige que suba à montanha e uma vez ali, no silêncio absoluto e sem testemunhas lho ofereça em sacrifício! E Abraão não hesita, temente a deus, servil e incauto, e conduz Isaac inocente até ao sítio indicado por deus e, uma vez ali amarra-o, levanta a faca para degolá-lo; até que deus proclama: «Provaste a tua fé, por isso desamarra Isaac e sacrifica-me aquele cordeiro!» Manual de maus costumes? Que Deus é este que dá um filho a um pai e o faz amá-lo e depois lho arranca na satisfação mesquinha de um simples capricho – «quero ver se valho alguma coisa para este homem, quero ver se ele tem fé em mim, quero testar de novo o meu poder!» Qual de nós obedeceria a semelhante Deus e se disporia a matar o próprio filho para satisfazer um capricho, por mais divino que fosse ou aparentasse ser? Qual de nós não morreria de horror perante a necessidade de assistir à morte terrível do sangue do nosso sangue, por nós mesmos executada? Qual de nós seria capaz de regressar para casa de boa consciência, mesmo depois do cancelamento do acto executório, e olhar nos olhos o filho prestes a ser executado e a mãe, companheira de vida e amante desse único filho gerado apesar da própria esterilidade? Poderia prosseguir durante páginas e páginas mas não me parece que valha a pena. Estes exemplos chegam para definir o carácter desse nosso alegado criador, desse tirano caprichoso e incompetente, incapaz de fazer seja o que for de bom, e apesar disso vingando-se nas suas vítimas da própria imbecilidade. Muito mais tarde, aparentemente, deus fez uma boa acção: inventou um filho mestiço – semi humano, semi divino – deu-lhe qualidades positivas e ordenou-lhe que salvasse os homens, pô-lo em condições de corrigir a sua maldade e incompetência criadora. Esse homem enigmático e de origem misteriosa, Jesus, inverte o sentido da implacabilidade criminosa do pai, anuncia o perdão, o amor, a benevolência e a tolerância. Opõe ao gume do machado, o gesto da bondade, ao grito de furor, a serenidade das palavras, à saga da destruição, a quietude de um mundo feito na concórdia. Todos sabemos que já era tarde demais, todos vemos que o hebreu Jesus passou pela terra sem que um só o entendesse cabalmente, a ponto de tornar universal a verdadeira boa nova. E de novo, o cristianismo emergente das palavras e dos actos cifrados desse filho de deus e do homem, miscigenado em corrupção divina e inocência humana, gerou crimes, ódio, guerra! Manual de maus costumes? Que deus é este que envia um filho, através de um embuste humano – uma virgem que procria – para a seguir o condenar à morte ignominiosa dos ladrões e dos assassinos? Que deus é este que não é suficientemente eficaz enquanto pai, desta vez directo, de gerar um filho com a competência absoluta e efectiva de redimir o aleijão, criado e consentido, que dá pelos nomes de mundo e de humanidade? Vá lá, vão ler a Bíblia, esse livro que tanto mal tem feito aos homens, geração após geração, leiam-no com sentido crítico, analisem-no com inteligência, não dêem ouvidos aos pregadores que inventaram, há um ou dois séculos, que, afinal, a Bíblia é apenas literatura, um texto magnífico engendrado por pessoas inspiradas e que tudo o que ali se consigna significa o contrário do que está expresso! Analisem aquelas histórias aterradoras e maquiavélicas como se elas fossem mesmo a história da nossa génese, e não como metáforas de um deus, afinal complacente e justo, mas desfigurado nas linhas alegóricas da mistificação literária. Talvez a seguir possam concordar com Saramago e admitir que a Bíblia é, de facto, um manual de maus costumes, um relato de perversões e maldades, de crimes e genocídios e que tudo isso tem a marca de um suposto criador, tido como omnipotente e infinitamente bom, mas afinal fraco, caprichoso e absurdamente maléfico.
Nota de rodapé: Este texto é, sem dúvida, um conjunto de erros para a plêiade de hermeneutas e de exegetas da Bíblia; se eu quisesse fazia heremenêutica e exegese como eles: não faço e provavelmente nunca farei - falta-me tempo, porque prefiro ocupar-me de actos criativos, em vez de remexer constantemente no antigo, no já feito. Portanto, o texto fica, para valer exactamente o que vale e nada mais!
29 settembre O Adjectivo![]() René Magritte, O Mágico
O ADJECTIVO
O Adjectivo. O Nome que se junta a outro. Aquele género de palavras, transversais a todas as línguas, úteis para atribuir qualidades a outras permitindo-lhes uma clarificação superior.
Suponhamos que no nosso texto íamos falar de uma MESA. Como resulta evidente, ao lermos a palavra «mesa», somos, de imediato, invadidos mentalmente pelo respectivo conceito que, ao nível ideal, corresponde à imagem de uma mesa concreta, uma, entre as muitas que se nos apresentam à observação quotidiana, a qual pode ou não equivaler à mesa que, enquanto autores do texto, pretendíamos tornar explícita. E então, caso essa mesa específica seja relevante para a compreensão da trama textual, poderíamos recorrer a adjectivos, para retirar da mente do leitor o seu próprio modelo ideal e fazê-lo aderir ao que pretendemos que seja o nosso. E então diríamos, por exemplo, «uma mesa rectangular». Ao dizê-lo, obviamente, todos os outros formatos possíveis seriam de imediato afastados do pensamento do leitor que se fixaria nas mesas rectangulares suas conhecidas elegendo, muito provavelmente, aquela que, no seu entendimento de leitor, mais se ajustasse ao contexto.
No entanto, continuemos a conjecturar. Dizer «uma mesa rectangular» ainda não nos enche as medidas, enquanto escreventes, pelo que necessitaremos de continuar a acrescentar adjectivos; e poderia nascer o seguinte: «uma mesa rectangular imponente». De acordo com a concepção de imponência que se aloja na mente do leitor, a mesa rectangular surgirá mais ou menos pesada, mais ou menos comprida, mais ou menos trabalhada, feita de um material mais ou menos nobre, mais ou menos gasta pelo tempo. Portanto, carece ainda de objectividade. E o nosso escrevente, obcecado pela sua mesa específica, desejando ardentemente que o leitor reconheça exactamente a mesa de que ele quer falar, terá que adjectivar de novo, escrevendo, por exemplo assim: «uma mesa rectangular imponente, polida...» . Novas imagens ocorrerão ao leitor perante este terceiro adjectivo. Polido/a sugere, instantaneamente, brilho e, portanto, um esmero no tratamento do móvel; mas também pode a mesa estar polida pelo uso, o que empurra a imaginação para uma mesa rectangular, imponente e polida porque foi usada por gerações que lhe outorgaram essa qualidade. E então, para não haver dúvidas, já que o nosso escrevente é rigoroso e a sua mesa tem que impor-se, como ele deseja, ao leitor, eis que novo adjectivo emerge: «uma mesa rectangular, imponente, polida, antiga...» . Num ápice, o leitor afasta a ideia do polimento obtido na fábrica de móveis e visualiza uma mesa de um solar ou palácio, uma mesa extraordinária de qualidades supremas...mas, viciado que começa a ficar na adjectivação do escrevente, já não sabe muito bem que imagem atribuir ao móvel! Por outro lado, o autor continua a desejar que o seu leitor tenha a noção precisa da sua mesa e, dado que os quatro adjectivos ainda não a exprimem com inteira eficácia, procura outro e a frase prossegue o seu caminho deste modo: «uma mesa rectangular, imponente, polida, antiga, adornada...» e logo a mesa se apresenta ao estilo barroco ou rococó ou século XVII ou renascentista ou rústico, adornada com biblelots e jarrões, ou...enfim, as possibilidades tornam-se avassaladoras, de tal modo que o leitor, esgotado, já não consegue imaginar a mesa que o escrevente se esforçou por tornar concreta, adjectivando-a cinco vezes! Se o escrevente continuar neste esforço titânico de caracterizar exaustivamente o objecto em causa, sobrepondo adjectivos retirará gradualmente toda a concrecção à mesa que se multiplicará e desmultiplicará à medida que a adjectivação progredir.
Como fazer então para caracterizar a MESA, à volta da qual se desenrolará o texto que começámos a produzir e que, por essa razão, necessita aparecer com absoluta objectividade?
Os métodos existem e cada escrevente deverá escolher o seu, de acordo com o estilo narrativo em questão. Poderá referir a MESA assim mesmo, despojada de qualquer adjectivo, compondo uma frase deste teor: «No centro do salão, iluminado por quatro janelas, a mesa refulgia, revelando, na sua textura e nos arabescos que a esculpiam, os segredos de várias gerações.» Nenhum adjectivo, reparem, e contudo aqui está «a mesa imponente, polida, antiga e adornada»! Falta um, bem sei, a nossa mesa é rectangular e, da frase aqui produzida, não emerge a sua rectangularidade. Porém, o escrevente talentoso querendo impor essa qualidade à mesa de que está a falar poderá continuar o texto do seguinte modo: «Eram vinte os convidados para o jantar daquela noite e o anfitrião ainda não havia decidido a qual deles daria o privilégio de ocupar o extremo oposto ao que lhe pertencia por direito, sendo que os restantes dezanove já se distribuíam harmoniosamente na mesa pelos outros dois lados que a compunham.» De novo, nenhuma adjectivação pende sobre a mesa e contudo não temos dúvidas nenhuma que estamos perante «uma mesa rectangular, imponente, polida, antiga e adornada!» E entretanto o leitor começou a antever o cenário, a prever o acontecimento e, sem mesmo dar conta disso sabe a dimensão e as características da mesa onde vinte convivas irão iniciar um repasto.
Adjectivos? São, sem qualquer dúvida, palavras com uma função imprescindível em muitas situações, podem mesmo usar-se enquanto figura de estilo (nomeadamente em poesia) e tornar belo um texto por via dela. Porém, todo o abuso é maléfico e conduz exactamente aos resultados opostos do que qualquer escritor pretende: transforma a sua linguagem num amontoado de palavras inexpressivas de tão profusamente qualificadas, cansa o leitor que se perde na barafunda das sucessivas caracterizações, dispersa e desqualifica, em lugar de precisar e tornar concisa, a linguagem textual.
26 settembre O Dia da Reflexão![]() O DIA DA REFLEXÃO
Exactamente porque hoje é dia de reflexão antes do acto eleitoral e tenho o hábito de reflectir por escrito, eis que decido fazê-lo aqui, em partilha. Julgo que não serei punida por semellhante disposição.
Não acredito na democracia. Já no século V a.C., tempo de Sócrates e de Platão, o regime, inventado e posto em prática pelos gregos, apresentava todos os sinais da decadência, a saber: corrupção (os sofistas acorriam à cidade-estado de Atenas porque ali podiam, à vontade, vender sabedoria, espalhar sofismas, formar demagogos e enriquecer por essa via), extrema movimentação nos tribunais (dado que era permitido discursar na ágora e qualquer um podia dizer o que bem entendesse, ofendendo outros com frequência, os processos afluíam; e de novo os sofistas - esses protoadvogados - apareciam em cena para defender o acusado); descontentamento e ânsia pelo tirano que organizasse a confusão de palradores e escrevinhadores de todos os géneros; enriquecimento desmesurado de uns em detrimento de outros; defesa do esclavagismo como condição inalienável do florescimento dos cidadãos privilegiados a todos os níveis e muito mais, que não julgo necessário expor, na íntegra. Esses dois grandes símbolos da filosofia - Sócrates e Platão ( um, implicitamente, pois não escreveu qualquer livro, muito embora tenha sido executado pela democracia, por via da sua acção libertadora junto dos espíritos juvenis, outro, explicitamente, pois produziu obras plenas de actualidade onde apresenta as grandes utopias da sociedade perfeita, por oposição à democrática e a outras estruturas políticas) não aderiram ao regime, criticaram-no e detestaram-no pelos efeitos nefastos que a elevação brusca do povo à categoria de governo, sem a necessária catarse cultural, gera necessariamente. E, de facto, a decadência atingiu essa grande potência cientítica, artística, poética, filosófica, linguística, esse universo onde o ocidente bebeu tudo o que ainda hoje é digno de apreço e a Grécia poderosa da antiguidade nunca mais se levantou da queda. Entretanto, a modenidade recuperou o regime democrático, se bem que o tenha feito pela via burguesa, esse povo ressentido, essa massa humana chegada à riqueza e todavia privada de poder político, esses sanguinários da Revolução Francesa capazes de cortarem as cabeças dos aristocratas, sem julgamento de qualquer espécie, apenas porque desejavam ocupar os seus postos de governação. Napoleão, o pretenso libertador da França, o herói da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, bastiões da democracia, não resistiu ao orgulho, não teve a capacidade de respeitar a liberdade de que era o mensageiro e pela qual se tornou o ídolo da Europa e fez-se...imperador!
O que hoje temos como regime político, tido como fiável, generoso, capaz de engendrar cidadãos livres e aptos a decidir quem deve ter o poder para nos governar a todos é a democracia, ainda! Não conseguimos inventar nenhum outro sistema capaz de reabilitar a Grécia de Sócrates e de Platão ou de repor os ideais humanitários da Revolução Francesa. Continuamos apegados a um pretenso governo do povo e a assistir, com uma espécie de indiferença ofendida ou de sarcasmo estulto, a um espectáculo lamentável de jogo de cadeiras em que, cegos e tontos, meia dúzia de homens/mulheres, com idade mais ou menos avançada, se atropela numa correria ridícula a ver quem, no final, empurrando os outros, difamando-os, passando-lhes rasteiras, e por aí adiante, ocupa o almejado trono.
O povo?! Esse não entende absolutamente nada do que está a passar-se com ele - exactamente, com ele - o povo assiste a esta corrida ridícula com resignação: ou nem sequer assiste, incapaz do sentido crítico, demitido da sua função suprema de intervenção na vida pública, preferindo fechar os olhos e tapar os ouvidos e ir, depois, no dia designado para tal, como um rebanho de carneiros humanos, pôr a cruz no boletim de voto e permitir que o jogo de cadeiras tenha, por fim, um desenlace.
Quando utilizo a palavra «povo» estou a designar «toda a gente». A antiga divisão tripartida das classes sociais -clero, nobreza e povo - hoje não se aplica, e logo todos somos povo, queiramos ou não admiti-lo, tentemos ou não definir classes e alimentar preconceitos elitistas. Quando nos deslocamos a caminho da mesa de voto é como povo que o fazemos e não como intelectuais, ou polícias, ou arquitectos, ou engenheiros ou escritores ou vagabundos ou funcionários públicos...porque, no plano estrito da formação política e na consciência avalizada do procedimento correcto e certeiro no momento de traçar a cruz no boletim de voto, pouco ou nada distingue um intelectual de um analfabeto! Existem, efectivamente, os homens cultos e letrados e os homens incultos e iletrados; existem os trabalhadores manuais e os licenciados ou mestres ou doutores; porém, quer uns quer outros revelam, à saciedade, serem absolutamente idênticos, quando executam esse gesto, não só pelas maiorias que engendram ou pelas percentagens que desencadeiam, mas também pelas específicas e secretas razões de cada um: secretas, mas fáceis de adivinhar, uma vez conhecido o sujeito votante. Mesmo aqueles que conseguem juntar letras e aderir ao sentido das palavras, mesmo aqueles que vão mais longe e lêem livros ou até os que, não só os lêem, mas também os escrevem, os que fazem mestrados e doutoramentos e se consideram muito importantes, por isso, quando vão eleger os governantes, no sentido lato da palavra governante, procedem como analfabetos funcionais!
Como estou tão certa disto que afirmo?
Tenho observado, com atenção e cuidado, as personalidades, as perspectivas, a cultura, a capacidade dialéctica, a eficácia prática dos que, amanhã mesmo, serão avaliados na cerimónia eleitoral. Tenho também analisado os resultados e as percentagens dos actos eleitorais próximos e passados. Tenho levado em conta as actuações de ministros e primeiro-ministros, presidentes da república ou das câmaras ou das juntas. Tenho avaliado o progresso do país, liderado por toda essa gente, ao longo destes anos em que somos governados democraticamente. E sei que o povo nunca fez e vai continuar a não fazer, amanhã mesmo, a escolha acertada! Quer dê a liderança governativa a um ou a outro - pois foi numa esquizofrenia política que caiu a democracia portuguesa - o povo vai escolher mal; quer eleve ou abaixe as percentagens relativas dos partidos menores, presentes no jogo, o povo vai cometer vários e irreversíveis erros.
Esta reflexão não é pessimista se por pessimismo entendermos ver o pior, onde, certamente, estará o melhor; esta reflexão é o espelho da realidade e qualquer um que decida acordar neste preciso instante - por exemplo, lendo o texto aqui presente e procurando perceber o que lhe é subjacente - mesmo que não seja um génio ou sendo-o, saberá compreender e (quem sabe?) encontrar o modo certo de agir amanhã, dia de eleger o parlamento português e, consequentemente, determinar os futuros governantes do país. 17 settembre As VírgulasAs vírgulas
A vírgula é um sinal de pontuação, tem este aspecto , e é de importância fundamental no discurso escrito. Não necessitamos de vírgulas quando falamos pois, se tivermos prática, se não formos gagos, a pausa ou a denotação que correspondem à vírgula, no discurso escrito, introduzem-se espontaneamente na modulação do diálogo oral. Mas, quando escrevemos, seja qual for o género, literário ou não, com que nos expressemos, se esquecermos esse pequeno sinal ou se o ignorarmos deliberadamente, o resultado pode bem ser catastrófico. Admito que não é fácil utilizar adequadamente a vírgula e, tanto podemos pecar por excesso, como por defeito; logo, as regras do uso da vírgula constituem uma espécie de tratado científico que urge conhecer. E, pelas mesmas razões, urge utilizá-las adequadamente. Escrever é, simultaneamente, uma técnica, uma ciência e uma arte. Enquanto técnica, aprende-se nos primeiros anos de escola e visa, não só a correcção vocabular, mas também a necessidade de ser da utilização dos diversos sinais de pontuação, entre os quais destacamos a vírgula. Enquanto ciência, implica o conhecimento teórico dessa necessidade, a razão de ser das regras da pontuação e, em suma, a ligação intrínseca que, necessariamente, existe entre a correcção do discurso escrito e a interiorização das regras. Enquanto arte, a escrita possibilita duas atitudes e práticas antagónicas: ou o escritor dá um uso peculiar à pontuação, imprimindo-lhe significações não previstas nos manuais ou abdica dela, através de um uso específico e criativo do discurso escrito. Possibilita, é certo, mas não obriga: pode ser-se escritor, e logo artista, e continuar a utilizar as regras da pontuação, sem que essa fidelidade prejudique o vigor criativo. Presume-se que quem escreve para os outros, seja uma carta, um relatório, um livro, pretende ser compreendido, mais, pretende que o seu texto, de menor ou de maior dimensão, soe bem, intimamente, a quem lê. Em geral, a leitura é feita em silêncio, e a mente do leitor tem que processar o sentido e captar a harmonia da peça escrita, chegando ao ponto de absorver, objectiva e subjectivamente, o conteúdo expresso no texto produzido. Ora, os sinais de pontuação, dos quais destaco, aqui, a vírgula, são imprescindíveis para essa absorção. Por outro lado, o leitor experiente, colocado perante um texto em que as vírgulas não estão onde deveriam estar, vai sentir a desarmonia do discurso e cedo se desinteressará. Acontece que, e negando o que tenho vindo a afirmar, é perfeitamente possível escrever, por exemplo, um livro, de onde foram erradicadas todas as vírgulas e, apesar disso, o texto resultar, não só absolutamente correcto, do ponto de vista técnico e científico, mas ainda de proporcionar uma leitura cativante e expressiva. Como assim? Pois bem: há uma enorme diversidade de narradores implícitos no mesmo escritor, narradores que emergem no exacto momento em que a narrativa se constrói. Cada um desses narradores engendra o discurso escrito, antes ou à medida que vai escrevendo – não saberia dizer, com precisão, se o texto já está mentalmente produzido e o acto da escrita é uma mera reprodução ou transcrição do produto mental ou se, perante a folha e no acto de traçar a primeira frase, as outras se lhe associam de modo coeso – e é esse específico narrador que vive no escritor, repentinamente acossado por um estilo narrativo decorrente da história que lhe aconteceu ou lhe vai acontecendo, que decide se o texto tem ou não tem vírgulas. Posso garantir que aquela espécie de homúnculos que habitam o escritor e o fazem produzir textos sabe se necessita ou não de utilizar a vírgula, como sinal de pontuação, ou se, pelo contrário, não poderá prescindir dela. E, um texto muito específico, pode aguentar-se com toda a credibilidade sem um único desses pequenos sinais, enquanto que outro, também ele específico, não resistirá ao seu próprio estilo se abdicar, uma vez que seja, do precioso sinal de pontuação. Uma coisa é, no entanto absolutamente certa: para aceder a escrever sem vírgulas é imprescindível possuir o conhecimento exacto das regras que lhe presidem e realizar a prática da sua utilização, durante o tempo que for necessário, para que, um certo dia, possa escrever, abolindo-as. Explicar-me-ei melhor recorrendo a um exemplo. Observem-se estes dois quadros de Pablo Picasso: Picasso, Pablo, O velho tocador de guitarra ( 1903) Picasso, Pablo, Mulher tocando Bandolim (1909) O primeiro (à esquerda) denuncia, à saciedade, a mestria do artista na técnica convencional da pintura, o que prova que Picasso sabia pintar de acordo com as regras; o segundo (à direita) rompe em absoluto com a norma e o resultado é um modo inovador, e logo anti-convencional, que, como é do conhecimento geral, ao menos entre a classe culta, guindou o pintor à categoria de génio universal. Agora vejamos: tal fenómeno seria possível a Pablo Picasso caso ele não se tivesse iniciado como pintor clássico e houvesse, durante anos, treinado a técnica, segundo as regras? E mais: atingiria a celebridade que veio a conhecer, caso, na sua história de artista, houvesse utilizado apenas o estilo que o segundo quadro apresenta? E mais ainda: poderia fazê-lo, daria esse direito a ele mesmo se não possuísse em si a mestria do desenho e da pintura na sua correcção convencional? A resposta a todas estas perguntas é, evidentemente, não, pois o salto para um modo de expressão, único e pessoal, dá-se, apenas, depois de muito treino de escola. De igual modo, o escritor só pode autorizar um dos seus narradores a quebrar as regras – por exemplo, abolindo as vírgulas – quando aprendeu a usá-las e as manobra com toda a naturalidade. Aí sim saberá, sem sombra de dúvida, como e quando escrever sem vírgulas é o estilo oportuno e também quando utilizá-las é uma obrigação devida à intrínseca natureza do texto. E então, concluirei do seguinte modo. Se alguém é/quer vir a ser, de facto, um escritor verdadeiro e verídico, e consegue dar-se conta de que a pontuação lhe é essencial, enquanto técnica, deve absolutamente colocá-la nos sítios adequados; caso não os conheça ( aos sítios) deverá consultar os manuais respectivos ou solicitar a ajuda de um especialista. Depois de treinar, intensivamente e durante anos, a técnica e a ciência da escrita, poderá evoluir para dimensões artísticas, onde tomará contacto com os narradores que vivem no seu íntimo e saberão definir, à partida, o estilo peculiar de cada texto a produzir objectivamente. Se insistir em começar pelo Picasso da direita, antes de assimilar os métodos do Picasso da esquerda, poderá ser muitas coisas mas nunca será, de facto, capaz de produzir a não ser aberrações «literárias».
06 settembre A RESPOSTA![]() Salvador Dalí, Adolescence
A RESPOSTA
Subia a Serra de Espinhaço de Cão, vinda de Aljezur, quando, por entre os pinheiros, pelo lado direito da estrada, rumo ao poente, entrevi, ao fundo, um cenário onírico. Estávamos num fim de tarde de Verão, o sol brilhava no céu límpido, e o mar, ao longe, cintilava, daquele azul opalino e transparente, (quase céu, quase fantasmagoria) e, como que depositada sobre a superfície líquida, uma cidade parecia emergir de uma almofada de areia, uma cidade com torres - quais castelos, vistos assim na lonjura translúcida da tarde - torres de outrora, parecia-me, depositadas por gigantes na textura oceânica. A ilusão persistiu durante algum tempo, a ilusão de que a estrada serrana decobrira uma quimera, pois logo soube que a cidade assim desvendada não podia ser outra a não ser... Portimão! Quem diria que a cidade algarvia, com os seus prédios incaracterísticos, feitos para o lazer fútil e para o consumismo demolidor, poderia ter semelhante dimensão mítica, vista, deste modo, por entre os pinheiros de uma serra? Iludida pelo esplendor fantasmagórico deixei a serra e desci os escassos quilómetros que me separavam da deusa emergente, qual Vénus explodindo no oceano ignoto. À medida que me aproximava, o encanto dissolvia-se em torrentes de carros fumegantes pelas avenidas, formigando pelos túneis, alastrando por múltiplas rotundas. O encanto diluía-se na proliferação das catedrais do consumo, nos Mac Donald's e Hipermercados de todos os géneros, nos restaurantes e bares, nos hotéis...e o bafo africano transformou a temperatura amena do Atlântico de Aljezur em miasmas múltiplos e heteróclitos de muitas respirações. Desiludida com o subterfúgio, descrente da transfiguração de uma promessa de sonho num cenário cosmopolita de capital urbana, pensei que, ao menos, o mar estava lá, tinha que estar, para além do muro de betão das construções já despojadas da sua aura de milagre. O mar e a praia, as rochas de cor ferruginosa erguidas sobre o azul profundo, essas não teriam sido absolutamente corrompidas pela invasão catastrófica do lazer dos homens. Abafada e em angústia, dei voltas e voltas procurando um lugar de onde ver o prodígio marítimo, um pequeno buraco onde depositar a máquina e sair em busca de outras visões. No entanto, na cidade imensa e resfolegante, não havia um sítio , uma brecha, um pequeno miradouro para espreitar a vastidão! Saturada de ruídos de escapes, da visão alucinada da gente em busca dos prazeres orgiásticos, não vendo do mar senão uma pequena tira esbranquiçada subtraída à omnipotência das torres de habitação, voltei costas à cidade e regressei, já ao crepúsculo, e depois, pela noite estreme à serra do Espinhaço de Cão e a Aljezur. Não voltei a contemplar a cidade fantástica depositada no oceano, inocente e plena na distância, perdi de todo a visão mágica e perdi-a duplamente: primeiro, porque me aproximei demais e a realidade estraçalhou o sonho, depois, porque a noite na serra não me permitiu rever a fantasia.
São assim os homens. A beleza - esse conceito humano que não existe, enquanto objecto, mas apenas como ideia acrescentada às coisas - a beleza está lá, pode ver-se, fruir-se, captar-se na orla da pupila ou pela objectiva das máquinas. Mas, quando queremos tocá-la de perto entendemos que uma mistura cruel de prosaísmo e vulgaridade enfeitou de negritude o que era etéreo! Sei bem que no episódio narrado a culpa foi minha: quis indevidamente devorar aquela beleza, penetrar no sortilégio da cidade encantada depositada numa paleta azul e ouro, quis desvendar o segredo, em cima inviolado, e apressei-me a descer a montanha em busca da sua solução, quis possuir a beleza: e logo que o intentei, ela escapou-se-me entre os dedos. A Beleza é sempre o Longínquo, longínquo da posse, longínquo da captação, longínquo da necessidade de aproximação. Se tivesse deixado estar o sortilégio assim, à distância, recordaria Portimão como uma Vénus recém saída da concha parturejante, imaginaria, doravante, que a cidade algarvia com as suas torres e o seu bulício cosmopolitas se havia transmutado; ao querer ansiosamente observar de perto a miragem entrevista nos horizontes da Serra desfiz o enleio. E também são assim os homens! Em lugar de permitirmos que o longe permaneça longe, embrumado ou ensolarado e repleto de faíscas milagrosas, apressamo-nos a correr ao seu encontro ansiosos de guardar para nós uma esteira da poalha, derramada e significante, apenas na lonjura! Esquecemo-nos que a Beleza é «estar ali» submersa nas águas ou pendurada nos céus e que a terra que nos atrevemos a chamar nossa, mesmo não nos pertencendo, amarfanha, por via dessa suposta pertença, o esplendor da refracção, o delírio sublimado, a fantasia dos longes! Queremos conhecer, desesperadamente conhecer; e então, em vez de lua e de luar, esses que nos encantam as noites e nos lançam em arroubos poéticos ficamos com um planeta estéril, sem atmosfera, sem vida, mero satélite da Terra sem o qual a mesma se desintegraria! Em vez de estrelas cadentes em noites de estio, estrelas minúsculas que nos encantam em múltiplas cintilações, passamos a ter chuvas de meteoros, de calhaus efervescentes desprovidos de mágica estilhaçados e em órbita nas solidões vazias do cosmos! E por aí adiante! O conhecimento mata a poesia, destrói a magia, escalpeliza o uno em fragamentos desprovidos de luz. Foi assim que os gregos inventaram a ciência e depois a filosofia: quebrando o uno primordial, procurando o elemento genésico, reduzindo o todo mítico e coeso à fractura das partes e acabando com um pedaço de cinzas entre os dedos - também eles calcinados!
Sejamos claros: o conhecimento é útil e eu, como muitos, procuro-o e desvendo-o, comungando na ânsia humana de decifração de enigmas; mas existe um limite, uma orla de mistério para além dos quais é pernicioso avançar sob pena de nos encontrarmos face a face com a aridez extrema e com a descrença. Por outro lado, quanto mais avançamos na pesquisa do ignoto, mais nos defrontamos com a vastidão, sempre crescente, do desconhecido e da ignorância: as mais rebuscadas pesquisas científicas da nossa era assemelham-se a brincadeira de crianças por onde perpassa a dúvida, a suposição e a omnipotência da hipótese. Basta analisar o percurso científico das últimas décadas para entendermos que em lugar da certeza temos a dúvida, em lugar da lei, a probabilidade, em lugar da fórmula, a estatística. Poderá esta situação do conhecimento significar que o universo deixou de ser acessível à nossa inteligência humana, a partir de um certo grau de complexidade e de vastidão? Poderá significar que precisamos de ultrapassar a nossa limitação conceptual e de princípios a fim de podermos ver o invisível? Somos nós que nos detivemos num patamasr específico de evolução, a partir do qual não poderemos lograr decifrar mais enigmas? Precisaremos de fender a carapaça da nossa auto-suficiência e abrir a mente e o corpo para novas caminhadas? Ou será que, muito simplesmente, o mistério, enquanto tal, continua a ser o horizonte privilegiado da busca humana pelo saber?
Quando penso na minha visão onírica, por entre os pinheiros da Serra do Espinhaço de Cão e na aproximação nefasta da realidade desvendadora e corruptora do sortilégio, parece-me que encontrei a resposta. 03 settembre INSTINTO![]() INSTINTO
Decerto o homem - com ou sem maiúscula - não é nada, e isto a que chamamos, ufanamente, consciência não passa de fantasmagoria, de uma sucessão de imagens que a mente recria, numa ilusão de impossível conceptualização, mas para a qual encontramos sempre palavras. Imagens e palavras, eis o que temos. E orgulhamo-nos disso. E chamamos-lhe conhecimento.
Declaro-me céptica quanto ao poder do bípede arrogante chamado homem.
Poder! Que poder? Temos tanto poder como uma formiga ou um elefante! Qualquer gota de água nos faz transbordar, qualquer vendaval, estremecer. Não quero ter qualquer relação com esse tipo de poder, não ambiciono qualquer estatuto de excepção face aos outros seres da natureza.
A consciência? Mas qual é a vantagem de termos, enquanto homens, consciência? Acaso não chegaria o instinto? Esse, que governa leões e formigas dando-lhes tudo o que necessitam - ainda que não saibam que necessitam! E que bom seria não saber!
A necessidade apunhala quotidianamente a nossa ânsia de tranquilidade. A ambição projecta-nos constantemente para as lutas mais ferozes que as daqueles a que chamamos selvagens!
A maioria dos homens vive na irracionalidade tanto mais perversa quanto é confundida com razão. Tanto mais obscura quanto é designada de consciente. Que sabemos nós? E como podemos dizer que sabemos?
A necessidade obrigou-nos, desde sempre, a agir, levou-nos, pelos caminhos da selva, até ao asfalto da civilização. Acabámos esquecendo a selva, onde o instinto nos tinha sussurrado a primeira questão e, julgando responder-lhe, destruímos esse primeiro habitáculo. E a pergunta original, nunca respondida, confundiu-se, perverteu-se, produziu falsas respostas, engendrou questões marginais e deu-lhes soluções, a tal ponto que o que sabemos hoje é muito, o que sabemos hoje é avassalador mas, a todos os títulos, perfeitamente inútil.
É claro que poucos me conseguiriam dar razão. Eu própria não dou razão a mim mesma, porque não posso: como todos, vivo, vigilante, nesta selva pervertida e vou aprendendo alguma da sobrevivência hábil de todos. Alguma! Apenas alguma! E dou a esse saber-fazer uma importância mínima e, constantemente, transformo em ruído e isolo de mim o saber-fazer a que os outros me obrigam. Em tudo o resto deixo que o instinto pontifique.
Não me lembro de ter aprendido a escrever, ou a falar ou a andar e, por isso, creio firmemente que qualquer uma dessas habilidades é apenas instinto - e este "apenas" não pretende ser redutor, ainda que o pareça. Não penso quando escrevo, não penso quando falo, não penso quando ando...e é tudo o que posso dizer. Ensinaram-me a fazer isto e aquilo? Dizem que sim, é claro, todos nós dizemos que nos ensinaram e achamos que ensinamos outros. Só que, de facto, ensinar seja o que for a quem quer que seja não é possível. O que sobra, então, desta saga prodigiosa em que uns dizem que ensinam e os outros dizem que aprendem? Apenas e sempre o instinto, esse, que lidera os mais importantes dos nossos gestos, esse, que nos leva para a frente, apesar da consciência, apesar da razão.
31 agosto Escritor...Escrevedor...
ESCRITOR...ESCREVEDOR...
Escritor. Escrevedor. Escrevinhador. Escrevente. Escrivão...Quantas palavras em que é denunciado, de modo implícito e óbvio, o acto de escrever! E contudo, indo ao cerne da acção que cada uma delas desencadeia, nenhuma pode entender-se como sinónima da outra, ou de todas. A escrita é uma técnica ensinada e aprendida nos primeiros anos de cada um, tornada que foi, ao longo da evolução humana, um inestimável instrumento de comunicação. Uns escrevem somente o mínimo indispensável à vida social; outros são compelidos a escrever no exercício da vivência profissional. O Escrevente, o Escrivão, o Escriturário, decerto outros termos designadores de actividades burocráticas e administrativas usam a escrita numa dimensão meramente técnica e profissional. Pertencem à escrita, executam-na, deixam dela testemunho: mas somente de modo exterior, assintomático, impessoal. O acto de escrevinhar é relativamente comum entre os homens, desde que são crianças e se enlevam nas primeiras garatujas, até à adolescência, idade típica do acto de escrevinhar, quando arroubos românticos e pseudo-poéticos fazem do papel o confidente preferencial. Não teria importância alguma, se o Escrevinhador adolescente pudesse entender que o que assim produz não possui qualquer valor literário - salvo as excepções geniais - e se dispusesse a arquivar os seus manuscritos; ou então, caso neles brilhasse a centelha criadora, a aprender com os grandes como se dá a passagem de Escrevinhador a Escritor. Não tenho a certeza se dominar a técnica da escrita poderá ser condição necessária e suficiente para que se dê semelhante passagem; mas estou segura que uma tal tentativa pouparia as estantes das livrarias de enormes mananciais de aberrações escritas… O Escrevedor é de outra natureza, muito mais perigosa que a anteriormente referida visto que não nasce de garatujas infanto-adolescentes, antes se enuncia e denuncia na idade adulta, quando um homem/mulher decide, de uma hora para a outra…escrever um livro! Este tipo de artesãos da escrita, mais ou menos cultos, detentores de uma certa experiência que julgam interessante narrar, desatam a lançar palavras para o papel e, ao fim de umas centenas de páginas, contentes consigo mesmos, ainda que o produto do acto escrevedor possa ter qualidade medíocre, decidem editar um livro! O Escrevedor pode recorrer a uma editora e ter publicação garantida, caso tenha perfil mediático ou haja nas suas histórias matéria escandalosa, obscena ou meramente «picante». Mas pode ainda fazer quantas edições de autor quiser, pode começar a intitular-se escritor e sair à cena com lançamentos e vendas. Nasce então o Escrevedor profissional, aquele que escreve com o fito de vender, aquele que ousa chamar romance ou prosa ou poesia ou crónica aos textos que compila e vai acumulando até ter volume suficiente para merecer o epíteto de livro. O Escrevedor pratica a escrita com o objectivo único de vender e, por isso, a prosa que executa é profundamente egoísta, pouco lhe importa se o que relata for absolutamente inútil, não o perturba o facto de as suas narrações serem pastosas ou ridículas, meramente enunciadoras de si, sem cunho universal, por essa razão. O Escrevedor pode ainda querer atingir um público, conquistar uma plateia específica onde logrará alardear importância. Dificilmente sairá desse círculo confinado, bastar-lhe-á o elogio de algumas vozes que em tudo se lhe assemelharão e jamais deixará que uma crítica séria lhe demonstre as falhas conceptuais, lexicais, semânticas ou de estilo. O Escrevedor não é um Escritor, muito embora produza livros; o Escrevedor é um artesão e nunca um artista, produz obra para vender, faz dessa actividade profissão e, porque disso sobrevive, disciplina-se e escreve tantas páginas por dia, a horas certas. Vejamos: esta prática do Escrevedor, este fazer da escrita, profissão, este vender, boca a boca ou porta a porta, o produto daí resultante, nada têm, em si mesmos, de chocante ou de reprovável, já que a História encarregar-se-á de joeirar, ignorando tais obras ou, quando muito, inserindo-as num parágrafo minúsculo, como produções menores da literatura. Sabe-se que Beethoven – um dos maiores artistas que a música jamais conheceu – foi inúmeras vezes «musicador», músico a soldo, produtor de peças por encomenda. Fê-lo para sobreviver: porque este homem de origens modestas nunca aprendeu outro ofício, era, com doze anos de idade, músico da corte e, desse modo, sustentava a família. Este homem grandioso, este artista ímpar de uma nobreza e elevação extraordinárias foi obrigado a compor e a vender, a dedicar sonatas, quartetos e sinfonias aos mecenas, precisou de regatear quantias, viveu atormentado com as necessidades humanas da sobrevivência e produziu obras para satisfazer esse fim…Mas dessas obras não reza a História, porque não foi aí que residiu a grandeza do seu génio, ela esteve sempre aquém ou além da admiração das massas, do gosto popular: aquém, na medida em que não foi entendido no seu tempo e o que foi entendido não tinha, de facto, valor; mas além, porque os séculos o consagraram fazendo retumbar o seu eco imortal. Portanto, o Escrevedor não tem qualquer importância, do mesmo modo que, por exemplo, a Sinfonia da Batalha de Beethoven não merece citação. Mas, apesar de a História referir exemplos do género, que não se iluda o Escrevedor: nada, nas suas obras feitas a peso e medida, terá poder para resistir e vencer. O Escritor não precisa de material de escrita – seja ele caneta e papel ou teclado e monitor - para ser, desde logo, Escritor em pleno. O lídimo Escritor produz os textos num continuum mental para o que lhe é apenas indispensável ser/estar vigilante. Um rosto humano, um pássaro, uma frase solta no ar, uma espreguiçadela, o voltear de uma onda ficam presos, enquanto motivos, na sua rede imaginária, associam-se a outros, tecendo, com eles, todas as tramas possíveis, caem no olvido, ressuscitam, emergem e submergem tantas vezes quantas forem necessárias ou inevitáveis; e um dia, quando o Escritor agarra a caneta e escreve, tudo estará harmoniosamente feito, desde logo. Evocando novamente Beethoven percebemos que foi deste modo, e apenas deste, que ele pôde ser um músico grandioso, mesmo privado do seu mais precioso instrumento, o ouvido. Curiosamente, a surdez foi condição do seu génio, libertou-o dos sons banais, do ruído da populaça e de tantos estertores sonoros e fê-lo viver a música por dentro, no silêncio. Durante 30 anos – desde os 26 anos e até à morte - Beethoven foi surdo, primeiro, ainda de modo intermitente e por fim, na totalidade. Mas, como a música vivia nele, como a música era o sangue que lhe corria nas veias, não precisava de ouvir da maneira que o fazem os comuns mortais para sentir a harmonia sonora, para compor mentalmente sinfonias, sonatas, missas, quartetos, ouvindo, por dentro, os pianos, os violinos, as flautas e também o murmúrio dos regatos e das fontes, o ciciar das folhas nas árvores das florestas, o canto dos pássaros em arroubos de euforia ou de mágoa. Não ouvindo fisicamente a música que vivia nele, pôde escrevê-la, fazê-la tocar, chegou ao ponto de dirigir orquestras mesmo sem ouvir o mínimo som. Chama-se a isto a irradiação absoluta do génio. Se Beethoven necessitasse do ouvido para ser músico, não teria chegado a sê-lo, pois perdeu-o demasiado cedo. Se Beethoven fosse um artesão – um «musicador» como escrevi há pouco – teria parado de compor, necessitaria de aprender outra arte qualquer, logo que ficou privado do ouvido, erroneamente considerado como sendo o instrumento do músico. Mas Beethoven era um génio da música, imbuída nele e nele contida desde o nascimento: não precisava de ouvir a matéria da música, difundida pelos instrumentos, pois possuía-a em si, no estado puro. O Escritor pertence a esta categoria. Mesmo sem escrever, materialmente falando, despojado de lápis e de papel, no negrume da noite mais escura, de olhos cerrados, o Escritor realiza os seus textos nos arcanos secretos da imaginação e da sensibilidade. E é por essa razão que o Escritor não pode fazer da sua arte profissão, não pode regulamentar a criação e debitar palavras contra-relógio, não pode estabelecer um horário de trabalho durante o qual exerce o seu mister. Enganam-se aqueles que julgam estar inspirado quem escreve, de ímpeto, uma página ou mil, enganam-se aqueles que pensam que a obra que jorra da mão vibrante nasceu no momento preciso do acto da escrita: a inspiração, se tiver chegado a sê-lo, ocorreu muito antes, ou foi ocorrendo, dia após dia, hora após hora, até se fixar, se chegar a fixar-se. O Escrevedor tem que escrever e riscar e rasurar e voltar a escrever, e é por isso que a obra que lhe sai das mãos revela, a espaços, inconsistência, desarmonia; o Escrevedor articula pesadamente as palavras e, de tempos a tempos, uma delas, muitas delas estão a mais ou não são as certas e o texto torna-se monstruoso e feio. O Escritor não risca, não rasura, não volta a escrever: e a obra irrompe coesa e harmónica como a criação do mundo no tempo primordial; o Escritor não precisa de articular seja o que for, cada som é lógico e íntegro, em si mesmo, e o resultado final da coordenação das partículas - que nunca o são, de facto, para o criador - só pode ser irradiante de beleza. O Escrevedor, se pretende escrever sobre um sítio, localizando nele a acção narrada, necessita de conhecer o local passo a passo, tem que ir lá, fotografar, recolher amostras e testemunhos; e, no entanto, por muito que se esforce, jamais conseguirá expressar o espírito do lugar, na exacta medida em que o faz depender de fotografias, amostras e testemunhos. Pelo contrário, o Escritor pode escrever sobre qualquer sítio, fazer decorrer uma acção seja onde for, mesmo que nunca tenha visitado o local: saberá, com justeza, identificar o ar que se respira em Paris ou no alto do Kilimanjaro, mesmo que nunca tenha saído do seu canto circunscrito de terra e, o que será ainda mais extraordinário, o seu leitor saberá que aquela é a atmosfera exacta de Paris e que essas são as luzes irradiantes das neves do Kilimanjaro, ainda que ele próprio as conheça de trato e o Escritor não. O Escrevedor, se deseja retratar uma actividade humana que ele próprio não tenha executado nunca, terá que aprendê-la primeiro para de seguida se sentir capaz de dar-lhe expressão: mas nunca o conseguirá, de facto, porque procedeu como artesão e o espírito da arte que intentou imitar permanecer-lhe-á alheio. E, desse modo, quem vier a lê-lo encontrará um simulacro e não será capaz de sentir a emanação subtil da actividade apenas imitada pelo Escrevedor. De modo diferente, o Escritor é capaz de incarnar em si todas as possíveis artes e actividades humanas, desde que as pense e se aproprie delas por dentro: quando as narra, quando as amalgama a uma trama que urde, está a reproduzi-las fielmente, pois viveu-as em primeira mão, foi o seu obreiro naquela viagem, antes referida, em que escreveu, sem lápis ou papel, por dentro de si. Logo, todo aquele que o ler vai sentir a verdade da descrição, pode mesmo identificar-se com o espírito presente, caso as actividades descritas lhes sejam comuns. Escritor. Escrevedor. Escrevinhador. Escrevente. Escrivão…tantas palavras designadoras do acto da escrita e uma, apenas uma, capaz de expressar, por inteiro, a nobreza prodigiosa de tal arte.
14 agosto Manifesto![]() MANIFESTO
Façamos uma pausa ou interrompamos mesmo...afinal escrever um livro é um acto que não se compadece com esta publicação sincopada sempre a exigir continuidade. Escrever um livro é uma tarefa sagrada, e um cuidado absoluto deve obrigar o seu autor a um percurso solitário, em que as imagens e as palavras se anunciam e congregam produzindo um resultado. E assim, O Farol vai baixar a essa zona secreta e pedaços de lava irão sendo acrescentados até que o vulcão possa anunciar-se, coerente e limpo. Um vulcão coerente e limpo? Porque não? Vulcões são montanhas ígneas e resfolegantes, vulcões são pedaços de matéria fechados num arco, contidos e silenciosos, até que uma força ignota os acende e os atira para planícies e vales, em agonia e êxtase. O Farol promete ser dessa categoria de seres, se bem que haja nascido preso e indeciso, no ápice do bloqueio mental que, a espaços, acomete o criador. O bloqueio mental é sufocante, estranho, insidioso. Sabemos que as palavras estão lá; mas, desorganizadas e soltas, tardam em sair na coesão precisa do tetxo. Pela parte que me toca, quando escrevo seja o que for percebo que antes de iniciar o gesto, o texto existia na sua integridade: a resolução em palavras foi apenas o escoar natural da torrente aprisionada. Eis porque o vulcão parece ser a metáfora justa da criação: a matéria está lá, dormente e indecisa, quem vê de fora nada sabe dos turbilhões urdidos no côncavo secreto e um dia a explosão acontece, o êxtase irrompe, o logos faz-se fermento divino apto a gritar fiat lux!
Entretanto fragmentos poéticos irão percorrer o espaço da prosa sagrada que urge não desvendar de todo. 12 luglio Insignificâncias![]() INSIGNIFICÂNCIAS
Todos os dias a todas as horas, as insignificâncias abatem-se sobre nós, perturbando ou anulando a intrínseca e verdadeira razão de sermos humanos e de estarmos vivos.
Que importância tem que um homem tenha sido vendido e comprado, tenha sido mandado de um país para outro a soldo de um clube desportivo? Que importância tem para nós, humanos de mente e corpo, que semelhante personagem se passeie por aqui e por ali, gastando fortunas, que tenha este ou aquele aspecto, esta ou aquela maneira de viver? Porque nos atiram quotidianamente ao rosto semelhante insignificância? O homem em questão não passa de um escravo, deixou-se comprar e vender, e aos seus proprietários vai entregando tudo o que tem de seu e que aos donos ainda interessa, a saber: uma agilidade, uma técnica, uma aptidão que pouco são em si mesmas mas que, erguidas aos píncaros, por uma necessidade lamentável de preencher vazios, se ornaram em símbolo e em mito.
Que importância tem que um homem, mesmo que seja um governante, tenha dado vazão ao primarismo subjacente a qualquer natureza, mesmo que humana, e executado, no palco político e mediático, um gesto deselegante, para que nos mostrem morbidamente a imagem letal e encham com esse lixo páginas de jornais? Que importância tem para nós, humanos de mente e corpo, semelhante insignificância?
Que importância tem que um outro homem - pobre e esfíngica personagem pálida e descaracterizada - tenha deixado de viver, e se mude o rótulo de «extrema decadência» e «antigo rei da pop» para «um dos mais significativos génios do século XX» e, de novo, «inquestionável rei da pop»? Que importância tem que ele haja nascido negro, para depois passar a branco, que tenho sido jovem e vivo para se transformar em amorfa criatura marfínica, pouco mais que sombra, pouco mais que evanescente visão do humano?
Insignificâncias, todas estas histórias, propaladas e sugadas até ao âmago enquanto despertarem o apetite das multidões, mas apenas rasando a superfície do ser, porque jamais saberemos, de facto, quem é o jovem mito dos relvados, adulado e disputado pelas multidões, e contudo dono de um ser íntimo indesvendável, nunca lograremos perceber as autênticas razões do gesto deselegante do homem de estado, ele próprio apanhado numa teia de suposições e fraudes em que a palavra dita nunca é a expressão do pensamento ou a verdade do sentir, e nenhuma revelação mediática será capaz de demonstrar, inequivocamente, as motivações reais de um homem acossado pelos seus próprios infernos, erguido aos píncaros da fama e destruído nas arenas do espectáculo que o ergueu e flagelou.
Insignificâncias, eis tudo o que temos para alimentar a vigília, insignificâncias, eis o que elevamos à categoria de sentido da existência, insignificâncias, eis o que nos depõem à entrada do nosso pensamento, para que tudo o resto desflore e desfolhe em atonia de significado.
Sei bem que todos os homens têm um fundo e uma superfície e que as insignificâncias com que nos acenam sobre os que saíram do casulo do anonimato e se passeiam nas arenas da notoriedade não vão para além da medida rasa do ser; sei bem que esses, todos esses que por uma ou por outra razão são erguidos (ou rebaixados) até à celebridade, são muito mais do que a primeira página dos jornais, a abertura das notícias ou o instantâneo captado pela objectiva assestada aos seus fragmentos de vida. Mas nós, que espreitamos a notícia ou o instantâneo, nunca saberemos quem são, de facto, esses que, apesar de tudo, dizemos conhecer. Nunca conseguiremos ver para lá da sombra que o vulto da parafernália mediática lhes lança sobre a existência, decerto comum, decerto grandiosa, decerto angustiada...pois é esse o sinal de ser homem e de estar vivo.
Do mundo dos homens e dos próprios homens apenas avistaremos a verdade do que nós próprios somos, o significado dos nosso gestos e actos, a razão de ser da substância com que edificamos o nosso hábito de viver e, mesmo estas poucas auto-verdades só nos serão reveladas se aquietarmos a mente e sondarmos verdadeiramente o nosso mundo, não somente aquele que o pensamento e a emoção nos enunciam, de nós para nós próprios, mas também o que vemos espelhado nas faces dos que encontramos no caminho, na obra que construímos, nas escolhas que fazemos e nos sonhos que perseguimos ou abandonamos.
Até para nós mesmos somos, pois, enigma, até o nosso rasto nos escapa, até a nossa sombra empana o brilho da nossa luz, quando tentamos ter a certeza sobre as razões dos nossos actos. Nada há, de facto, que possamos realmente conhecer. «Eu sou eu e a minha circunstância», disse José Ortega y Gasset, sintetizando de modo preciso, e contudo ambíguo até ao cerne, o que necessitamos conceptualizar para podermos dizer o que somos: porque a minha circunstância é um intrincado múltiplo e vário de seres e situações, a minha circunstância é uma plêiade de momentos e de épocas, de sonhos e de evanescências, de miragens e súbitos despertares! E eu, no meio profuso da minha circunstância, vario, uma e muitas vezes, num só dia, numa só hora, na efemeridade praticamente infinita do átomo do tempo e nunca agarro senão a superfície insignificante de que sou e não sou feita, qual instantâneo de câmara oculta, qual parangona de jornal sensacionalista, qual imagem animada de qualquer noticiário. 04 luglio GATOS E HOMENS - UMA SEQUELAEgon Schiele, Amizade GATOS E HOMENS - UMA SEQUELA
«Quanto ao seu desabafo da superficialidade e infidelidade masculina, de facto a consciencialização responsabilizante do relacionamento amoroso não está muito desenvolvida em geral e nesse aspecto claramente somos ainda infra-homens, tão dependentes de instintos e sensações bem descritos por si e que acabam por rebaixar a grandeza do Amor, que como diz é eterno e contém em si todas as vivências, acolhimentos e entregas verdadeiros. Agora penso que os que partiram podem abraçar outros seres, e que a tábua raza é de facto uma incorrecta posição e que os afastamentos nunca deviam ser completos e que aferições de afinidadess vibratórias e circulações energéticas de apoio e união deveriam e provavelmente acontecem sempre, embora muitas vezes ora um ora outro lado é incapaz de manter o Amor já não exclusivo mas actual, ou que seja, no mundo semi-virtual da alma e dos sonhos operativo... »(Pedro Mota, Comentário)
No texto a que este comentário foi feito (GATOS E HOMENS) pretendi abordar algo de bastante mais profundo que a infidelidade masculina. Curiosamente, considero a infidelidade, senão natural, pelo menos justificável, atendendo a que o homem é, por natureza, polígamo, e o casamento, exigindo votos de amor eterno, de fidelidade, até que a morte separe o casal, contraria esta tendência natural, propiciando a, também natural, infidelidade. Por outro lado, o sentimento que, à partida, empurra dois seres de sinal contrário um para o outro, não passa de uma emanação biológica, electro-química, feita de humores e fluidos, todos eles saciáveis e saciados ao fim de um certo tempo. Estranhamente, os atractivos exteriores ou físicos, daquela que propicia a atracção, podem ser, posteriormente, quando o apetite foi sanado, causas de tédio e de rejeição, pelo que nem a mais bela das criaturas à face da terra terá poder para prender eternamente o macho, inebriado primeiro, enfastiado depois. O Amor é de uma categoria diferente, não se exerce nesta troca de fluidos ou de correntes electro-químicas, passa-se a outros níveis extra ou super humanos, transcendentes, portanto. A atracção epidérmica esgota-se em algumas sessões de prazer; o amor persiste e pode muito bem subsistir sem a componente electro-química. Portanto, Amor e atracção são níveis diferentes de relação humana e nem sempre ocorrem em simultâneo, pelo que pode haver Amor sem atracção e atracção sem Amor. A infidelidade é um mito alimentado pela religião que sacramenta as uniões, pelo ciúme, que as torna possessivas, pela insegurança, que lhes dá um matiz patológico. Serão discutíveis todas estas teorias; porém, estão, estatística e logo sociologica e historicamente comprovadas, podendo ser empiricamente observadas no nosso dia a dia, quer na própria vivência, quer na dos que nos cercam. Acima de tudo, no texto GATOS E HOMENS, quis realçar uma outra forma de estar, um outro estímulo que pode conduzir um homem para uma mulher produzindo efeitos diferentes num e na outra. Fiz a evocação de um homem (macho) desejoso de viver uma aventura, ou porque está momentaneamente disponível, ou porque faz parte do seu modo de ser, ou porque lhe surgiu uma oportunidade. Esse homem investe (está na sua natureza investir) contra o alvo da sua intenção de momento sem levar em conta as características específicas dessa a que chamei «alvo». Para ele tanto faz, é uma entre todas as possíveis, é o receptáculo agradável para uma, duas, três explosões sensoriais: a partir desse número pré-estabelecido, regressar ao alvo não faz qualquer sentido para o predador. Vejamos, entretanto, a presa. Pode ser que ela, no acto da entrega, esteja numa disposição diferente da do macho predador e se entregue, não para dar vazão a descargas electro-químicas, mas porque razões apenas dela e que acredita serem partilhadas pelo macho predador, que soube aliciá-la e convencê-la, a levam a conceber a possibilidade da vivência de uma história a dois. Ela acredita nisso, ele sabe que ela acredita e serve-se desse conhecimento para saciar nela as suas fomes momentâneas, sabendo que não passarão disso mesmo! Foi este embuste masculino que pretendi realçar no texto GATOS E HOMENS, embuste que considero criminoso pois é, todo ele, traiçoeiro e vergonhoso, desonesto e fraudulento e contra o qual nenhuma lei foi ainda instituída. Homens e mulheres podem eventualmente jogar, por divertimento apenas, a encenação do acasalamento: mas é necessário que ambos conheçam, à partida, as regras do jogo e saibam os custos emocionais das consequências. Se assim não for, e apenas um deles souber das regras, que manipula a seu bel-prazer, o crime está perpetrado e é por essa razão que me parece ilegítimo e injusto que, a seguir, esse macho que enganou e vitimizou uma presa sacuda a poeira do vestuário e se acredite suficientemente honesto para cortejar uma mulher (desta vez a sério) propor-lhe casamento e efectuá-lo, fazendo tábua rasa do crime praticado antes. Nunca esse perpetrador será um homem honesto e não terá direito à felicidade. Acontece o mesmo com os criminosos de direito comum. Imaginemos um assassino em série, um violador compulsivo, um pedófilo: será suficiente condená-lo, encarcerá-lo, sujeitá-la a x anos de prisão para que ele volte à sociedade, limpo e perfeito como se nada tivesse feito antes de condenável? Será que daí para a frente o assassino, o violador, o pedófilo pode sentar-se à mesa de todos com honorabilidade, fazendo tábua rasa do seu passado de crimes? Mesmo que não cometa mais nenhum, mesmo que um milagre o tenha regenerado, o sangue das vítimas não será um rasto temível que o criminoso transportará para sempre? E poderá ele dizer calmamente perante aqueles de quem foi algoz: «Cometi crimes contra vós, lamento ter-vos feito sofrer, mas agora estou curado e então seguirei em frente, tenho direito à felicidade! Enganei-vos enquanto me imiscuí no vosso mundo, usei-vos para em vós cevar os meus instintos, mas passou e agora sou um homem honesto!»? Eis o cerne da minha reflexão. Creio que o carácter de um homem é revelado em todos os seus momentos e que adular e seduzir para proveito próprio quem se entrega ao adulador com inocência, deixar a seduzida entregue a um sentimento devotado e em crescendo, enquanto ele bate em retirada são gestos que não abonam o carácter de quem assim procede. Por mais que reflicta sobre o tema não consigo justificar a inteireza identitária de semelhante mistificador. Por mais que forceje o meu pensamento a admitir que esse homem pôde ser vil, mas também pode ser são, pôde ser desonesto, mas também pode interagir com verdade, pôde usar e abusar de quem se lhe entregou, mas também pode ser o par de alguém...por mais que lide intelectualmente com estas antíteses, do ponto de vista integral, que não apenas racional, rejeito tais personalidades e considero-as pouco menos que monstruosas.
03 luglio FILÓBIA - O AMOR À VIDA
FILÓBIA - O AMOR À VIDA
«Um bom manifesto inicial pela abertura maior desta sociedade e da nossa cultura à Filosofia, à sabedoria, à capacidade do verdadeiro filósofo/a, que é um amigo ou amiga da sabedoria, do conhecimento vivido e integrado, possa maieuticamente pela palavra em diálogo, ou ainda mais subtilmente, ajudar o outro a fazer luz e harmonia no seu interior e na sua cosmovisão.
Antes de ousar abrir o meu consultório de Filosofia, posso sempre treinar, usando esta via. Nem sequer preciso de sair do meu espaço para chegar aos outros, basta que eles venham e se apresentem: e assim, poderei estar por detrás de uma porta, aguardando os que desejam conhecer-se. A fechadura estará lá, decerto; mas não serei eu a espreitar por entre as teias de aranha e a caliça, uma vez que a porta é de cada um que se permite sondar-se até ao âmago. A porta carcomida e a fechadura são símbolos de existências em derrapagem e contudo abertas num remoto local que terá que ser descoberto, primeiro, admitido como abertura, depois e, por fim desvendado pelo olhar, tornado acutilante, capaz de ver e perceber as gradações vitais do outro lado. Eis a tarefa do Filósofo/a, eis a definição actuante da Filosofia, esta que é amor pela sabedoria, mas também amor pela vida : e eis a Filóbia, palavra que ainda não existe nos dicionários mas que inventei há anos para dar sentido ao meu ser filósofa. Penso que o vulgo - e quando utilizo a palavra vulgo, não estou a ser pejorativa, mas a referir-me à esmagadora maioria das pessoas, incluindo os cultos, incluindo os sábios, incluindo os licenciados em Filosofia (...) - não compreende o significado da palavra sabedoria neste contexto que é o da σοφία (sophia) ou da φρόνησις (phronesis), a sabedoria prática, a sabedoria ética, a prudência, a virtude. Estes últimos termos - prudência, virtude - foram desfigurados pela religião católica que deles se apropriou no sentido de os referir às suas práticas. E no entanto, a prudência e a virtude são os ingredientes da phronesis aristotélica, são as qualidades que o indivíduo precisa de cultivar acima de tudo se quer viver bem, se quer actuar correctamente. Um consultório de Filosofia ou talvez um laboratório - pois, neste contexto, «mestre» e «discípulo» interactuam, sendo, assim, esse lugar um palco fértil de interacções - não se substitui aos consultórios de Psicologia ou de Psiquiatria ou de práticas esotéricas, quaisquer que sejam. Vale por si, representa a primeira etapa para o auto-conhecimento, para a descoberta do fio condutor existencial daquele que se investiga a si mesmo com a ajuda sábia do filósofo. Sábia, esclareço, sempre no sentido grego, de procura, de sondagem, equiparada, como o Pedro Mota diz no seu comentário, à arte da maiêutica levada a cabo pelo filósofo Sócrates, arte de fazer parir a verdade, essa que ilumina o fundo do ser e deve ser parturejada a fim de servir também de farol à superfície e logo ao mundo circundante. Essa primeira etapa de que falo pode bem ser a última, se a mente do auto-investigador aderir ao esvaziamento inicial e ao preenchimento ulterior; porém, caso as investidas do filósofo/a não encontrarem receptividade, caso a mente daquele que a si próprio sonda interrompa a caminhada, pode passar para outras instâncias - as da Psicologia, as da Psiquiatria - que, em sintonia com a primeira sondagem, orientarão as demais. É deste modo que eu vejo a função do Filósofo/a e o papel dos consultórios ou laboratórios de Filosofia, em interacção dialogante com os demais sectores de investigação da mente, avesso a medicações químicas, ou a processos morosos de análise unilateral, mas suficientemente esclarecido para determinar quando termina o seu papel, ou quando deve passar para outros a tarefa. O Pedro Mota fala em «demissão interventiva dos licenciados em filosofia e dos filósofos» porque os observa (tal como eu) confinados a uma sala de aula, onde os manuais ou as sebentas pontificam. Eu própria fui aviltada com aulas de filosofia em que me mandavam «papaguear» pensamentos de filósofos ou «despejar» matérias decoradas em provas, de onde o pensamento original, discursivo, dialéctico teria que ser cuidadosamente retirado. Se não me tornei papagaio filosófico foi na exacta medida em que resisti, não me deixei encharcar por teorias, não aderi à memorização abstracta e descontextualizada de pensamentos, tornei-os meus, inventei-os e reinventei-os, e tudo o que havia para aprender - pois tratava-se do pensamento de outros - aprendi-o, exclusivamente, à minha própria custa. Hesitei muito antes de tornar-me licenciada em filosofia, pois percebi que essa licenciatura nada significava, filosoficamente falando, tendo apenas um papel meramente académico e logo burocrático; por fim, cedi à pressão familiar, obtive o diploma mas - desta vez sem hesitações - optei por não o utilizar nas funções tidas como óbvias para o licenciado em Filosofia, recusei o ensino e fi-lo enquanto me não senti ainda mais desfigurada noutras profissões que tarde ou cedo vim a adoptar. O ensino veio depois e ficou pois entendi, gradualmente, que as salas de aula podem ser excelentes laboratórios de Filosofia, desde que o professor consiga distanciar-se do manual, puxar pela mente do jovem até aos limites, envolver-se com ele numa luta mente a mente, arrancando-o ao comodismo do senso-comum e dos preconceitos. Venço parcialmente essa luta na medida em que o combate é desigual: estou eu, de um lado e 30, do outro - 30 predadores da verdade, 30 amordaçados ao conforto das opiniões colhidas nos media e na sociedade em geral, 30 mentes desatentas a si próprias e cada vez mais aturdidas pela parafernália tecnológica que lhes substitui o ser. Mas esse ganho parcial, essas vitórias que vou conseguindo quando, de entre a turba flutuante, um, dois, três apreendem o sentido do que deles espero, enquanto aprendizes do filosofar, ensina-me quotidianamente o caminho, faz-me cada vez mais réproba relativamente às fórmulas decoradas, que se esvaem logo que não temos necessidade de pô-las em prática e, em simultâneo, cada vez mais aberta ao culto da Filóbia. Deste modo, tomando como mote o comentário do Pedro Mota, dou sentido ao que escrevi no perfil (e depois apaguei) e respondo um pouco mais à questão que coloquei antes (O que é um filósofo/a?). Ignoro se chegarei algum dia a abrir um consultório/laboratório de Filosofia. De certo modo aboli essa hipótese quando a ficcionei em O Pulo do Lobo (Editora Pé de Página, 2006), para quase de imediato a destruir, não porque fosse absurda, mas porque o Filósofo da minha história sofreu a desilusão, por força dos que não lhe entenderam os desígnios. Ou talvez eu esteja à espera do companheiro/a capaz de se abalançar comigo a empreender semelhante tarefa! E certamente acontecer-me-á o mesmo que em tempos abalou Friedrich Nietzsche até ao cerne, esta busca de espaços para filosofar e de companheiros de eleição capazes de reinventarem o espírito da douta-sabedoria de Sócrates.
Os Filósofos e a Fechadura
Os Filósofos e a Fechadura
O que é um filósofo? Eis a reflexão que me proponho hoje, aqui e agora, depois de ter apagado as três ocupações com que preenchi, em tempos, o meu perfil. Para sobreviver sou professora de Filosofia; mas a minha produtividade não se esgota nessa tarefa. No tempo que me resta, escrevo, mas os livros que publiquei e os que tenho para publicação (menos ainda!) não contribuem praticamente nada para a minha sobrevivência - ou seja, ganho muito pouco com a venda dos livros. Tudo aquilo que escrevo, seja poesia, romance, ensaio, teatro (...) traz a marca da reflexão filosófica, nunca escrevo textos planos, óbvios, lineares, a profundidade analítica perpassa neles espontaneamente porque o exercício do pensamento é a minha tarefa essencial. Assim sendo, como hei-de definir-me em termos de ocupação? Há tempos disseram-me que, escrever aqui, no espaço do perfil destinado à ocupação, «Filósofa», é uma provocação aos leitores, é uma brincadeira, portanto: não há filósofos/as, não saímos das Faculdades de Filosofia com esse título, do mesmo modo que o Médico ou o Advogado ou o Psicólogo. Saímos «Licenciados em Filosofia» e o que nos espera, profissionalmente falando, é uma sala de aula, com adolescentes ou jovens adultos à frente, consoante nos detemos pelo ensino secundário ou avançamos um pouco até ao ensino universitário. Ser licenciado em Filosofia ou Mestre em Filosofia ou Doutor em Filosofia não é, por isso, o equivalente a ser licenciado em Medicina, ou Mestre em Psicologia ou Doutor em Direito: a esses é dado com facilidade o título de Médico, Psicólogo ou Juíz; no nosso caso, dizer « Sou Filósofa» ou «Sou Filósofo» não passa de uma piada! Não concordo com esta situação, ainda que, convenhamos, não exista ainda a profissão de Filósofo/a reconhecida e, acima de tudo, entendida pelas pessoas que, provavelmente, achariam extravagante encontrar, a par dos consultórios de Medicina ou de Psicologia, um consultório de...Filosofia! Para a maioria, os filósofos são gente estranha, e a Filosofia um enigma dispensável, pelo que um consultório de Filosofia com um filósofo/a à frente não teria muitas oportunidades de sucesso. É claro que estas possíveis reacções perante um consultório de Filosofia advêm de uma ignorância: o vulgo não sabe para que serve, de facto, a Filosofia, ignora a sua vertente prática, não reconhecendo, por isso, valor ou credibilidade a quem se intitula Filósofo/a. O vulgo não consegue ver para além da palavra, enigmática, só por si, e dos boatos que correm por aí a respeito do fraseado difícil, confuso e inútil dos filósofos. Apesar de, por enquanto, a Filosofia continuar a ser uma matéria obrigatória para os alunos do ensino secundário, acredito que a esmagadora maioria deles sai das escolas sem ter sentido a vibração da Filosofia, esta que eu propugno e que pratico: no dia a dia, na sala de aula, no mais íntimo de mim e (quem sabe?) pode ser que um dia tenha arrojo suficiente para abrir um consultório de...Filosofia! Quem me consultar verá então o que significa de facto ser filósofo/a e intitular-se como tal! (Isto não é uma piada!) 25 giugno GATOS E HOMENSEgon Schiele, 1917
GATOS E HOMENS
Um gato não é uma pessoa. Porém, quando vive connosco, adquire e transmite sensações, eflúvios, sentimentos, enfim todo um conjunto de efeitos recíprocos que acabam por fazer dele membro da família, parente próximo e íntimo. Ao cabo de alguns anos de convivência, o gato humanizou-se e nós felinizamo-nos, estabelecendo regras tácitas de partilha de espaços, leituras concordantes de gestos e de sinais e toda a panóplia de pequenos/grandes detalhes constitutivos de uma relação verdadeira. Citando Montaigne, «Quando brinco com a minha gata, quem sabe se ela não está a brincar mais comigo do que eu com ela?» (Montaigne,1533-1592, Essais) , ouso atribuir características muito próximas das humanas aos felinos e afirmo, sem rebuços, que eles pensam e que fazem grande esforço para nos entenderem e comunicarem os seus pensamentos. Tenho um gato e, até há dois meses atrás, tinha dois. Um deles morreu e aquela súbita e inesperada desaparição desse elemento da família, da casa, do quotidiano representou, primeiro, um choque, depois, uma saudade intensa e agora, uma espécie de conformação, não isenta de nostalgia. Percebo que, apesar de não estar fisicamente aqui, a sua presença flutua nos espaços, os sítios que ele elegia para dormir ou contemplar persistem os seus sítios e o outro, companheiro de sonos, de brincadeiras e de algumas lutas, alterou comportamentos, como se precisasse de mais afecto e atenção, agora que está só. O espírito do gato permanece aqui, e esta sensação não é uma fantasia ou um surto da imaginação, mas a realidade provada e comprovada diariamente. Serve esta espécie de introdução para aludir ao fenómeno das relações humanas, sejam elas de pessoas para felinos, sejam elas de pessoas para outras pessoas. E eu pergunto: como pode anular-se, com um gesto ou com uma palavra, o efeito de uma relação? Como pode exorcizar-se o espírito do ente amado e afastá-lo para sempre, quando com ele privámos na intimidade? Como pode tratar-se com frieza ou olhar com indiferença aquele que um dia partilhou o nosso mundo, passeou nos nossos sítios, escutou a nossa voz, sentiu o sopro do nosso espírito e o calor da nossa carne? Escrevo estas perguntas e só encontro a minha resposta: não pode! Cada um desses que connosco caminhou, por algum tempo, e que depois deixámos ir, ou se foi de livre vontade, integra a nossa história pessoal que, de uma forma ou de outra, nunca mais será a mesma! Cada um desses entes (gatos ou pessoas) a quem deixámos entrever a intimidade da nossa vigília, do nosso sono, das nossas grandezas e das nossas misérias persiste, com um rasto de presença, não só no futuro da nossa história, mas também na alteração do nosso passado e nas emoções do nosso presente. Doravante, novos marcos ganharão ênfase na estrada por onde caminhávamos, certas curvas encontrarão razão de existir, as encruzilhadas e os desvios adquirirão substância e mesmo os retrocessos, as hesitações, o cansaço, próprios de qualquer caminhada, serão vistos e conceptualizados de modo novo, à luz da presença, feita ausência, desse que passou por nós para nos deixar em seguida. Confesso que não entendo os homens, principalmente os homens-machos, os seres humanos do sexo masculino, não entendo como podem entrar (visceralmente falando) no recesso mais íntimo de uma mulher e aí deixar a sua marca, e depois sacudirem o pó dos sapatos e partirem para nunca mais se lembrarem daquela a que ousaram recolher-se. Não entendo como podem aceitar a oferta generosa e afectiva da interioridade de uma mulher, servirem-se dessa dádiva, no auge de uma mera explosão fisiológica, repetirem o gesto uma e muitas vezes, sabendo que o receptáculo que se lhes rende traz consigo toda uma plêiade de emoções e sentimentos, e a seguir partirem para os seus mundos, passarem para outras experiências, onde farão exactamente os mesmos gestos, com inteira sensação de honestidade. Não posso absorver que sejam capazes de usar a paixão sincera de uma mulher, que deixem consolidar-se o amor, que os aceitem, paixão e amor, como se fossem um direito seu e, mais tarde, no auge do enfado, enviem sinais de necessidade de fuga, aviltem quem os ama com desconsiderações e mentiras e possam, logo a seguir, cair em outros braços, seguir em frente com esses braços e com o corpo todo, e achar que são homens a sério, mesmo deixando rastos de desespero pelo caminho. Penso então que terá que haver para estes predadores um castigo, penso que falta inventar a lei que os puna, penso que, a partir do momento em que cometeram o crime do abuso, jamais deveriam ter direito ao compromisso honesto com outra mulher. Julgo mesmo que essa punição virá, estará escorregando, aos poucos, para o âmago da vida construída após a fraude e que apenas uma questão de tempo os impedirá de ver a própria ruína. Afirmei que não compreendia essa sub-espécie de humanos, que são os homens, na medida em que também não entendo os actos de intimidade como meras excreções fisiológicas, como explosões de fluidos orgânicos cujo escoadouro pode ser o ventre de qualquer uma. Actos de intimidade são momentos de partilha durante os quais se entrega tudo e nessa tarefa estão implicados mente e corpo, emoção e sentimento, sensualidade e afecto: como pode um homem propiciar esse ritual fantástico e depois sair, batendo a porta, para não regressar nunca mais? Como pode ele servir-se do receptáculo que o acolheu e, no fim, deixar umas notas de banco sobre a mesa e partir para as suas outras vidas? Comecei por falar das marcas existenciais que, infalivelmente, deixámos uns nos outros sempre que confluímos, e aí regresso para garantir que todos esses que um dia ousaram tecer histórias de fraude, junto de quem os aceitou de corpo aberto, de mente actuante, de espírito livre, ficarão para sempre com esse rasto de presenças, dentro de si, por mais vidas que construam, por mais famílias que julguem que estabeleceram, por mais honorabilidade que julguem possuir. E, tarde ou cedo virão assombrá-los como se fossem fantasmas e povoar-lhes sonhos e vigílias, porque é este o tecido das relações humanas. Nada direi sobre as mulheres neste domínio, não as conheço de experiência feita, na intimidade da relação visceral; mas, quanto a mim, declaro que, do mesmo modo que sinto as emanações todas do meu gato persa, que por aqui viveu nove anos e comigo construiu uma história, sinto também as energias de outras ligações que, aparentemente, passaram, porque o outro lado dessas histórias se ausentou fisicamente; e não entendo como pode esse outro lado criar novos laços, fazendo tábua rasa dos antigos. Julgo que a humanidade decaiu lentamente, tão lentamente que nos descuidámos e não demos conta. Julgo que atingimos o fundo e que, para lá do fundo, só resta a ignomínia do infrahumano que já começamos a ser; nunca me pareceu tão certeiro o grito de repugnância de Zaratustra quando ouviu o lamento do Mais Hediondo dos Homens e, com Nietzsche, esse homem que nasceu póstumo e de quem, por isso, são tão actuais as profecias, proclamo: «Agora é preciso destruir o homem para que o Super-Homem viva!» (F. Nietzsche, Asssim Falava Zaratustra).
21 giugno Cartas de Amor Breughel, A Torre de Babel
CARTAS DE AMOR
Quando leio poemas de amor, declarações de amor, cartas de amor, textos que surgem, em abundância, nestes espaços, sou acometida de uma sensação invencível de desconcerto. O nosso mundo não é marcado pelo amor, pois não? O nosso mundo é gerido pelo ódio, pela violência, pelo interesse, pela hipocrisia, pelo caos, não está à vista? O nosso mundo está enfermo, carece em absoluto de valores, vive no contexto de atropelos de humanos contra humanos, alimenta-se de vinganças e de intrigas, corrompe-se na devassidão e na artimanha...não é? Pode ser que eu seja irremediavelmente céptica, mas o cepticismo que propugno é a expressão real dos acontecimentos testemunhados quotidianamente: como pode haver tanto amor, derramado nestas páginas, e tanto horror desfraldado à vista de todos os que escrevem e lêem as mesmas páginas? Dir-me-ão que sim, que pode, mais, que é preferível ler textos de amor - mesmo falsos - escrever odes românticas - ainda que feitas somente de palavras astuciosas - do que expressar ou desvendar a verdadeira e única expressão do nosso mundo. Há duas semanas atrás fui a um casamento, daqueles que - percebi-o aos poucos, no decorrer das inúmeras cerimónias que a festa acumulou - são frequentes no nosso tempo e para os quais as famílias espremem economias, pedem empréstimos, investem um capital desmedido. Só o respeito e a amizade que nutro pelo noivo me fizeram ir e depois suportar e até tolerar e mesmo usufruir com prazer o fausto de semelhante banquete! Mas estive sempre dividida entre dois sentimentos: a vontade de justificar a opção faustosa do meu amigo e o horror de semelhante desperdício, absolutamente supérfluo, quer para eles, cuja vida futura será o que eles forem, enquanto pessoas, e não o que aquela festa patenteou, quer para nós que ali participávamos, até aos limites e muito para além da nossa necessidade de consumir, de comer, de gozar surpresas e rituais cuidadosamente preparados e ensaiados. Por outro lado, a cerimónia em si, aquela que a Igreja Católica considera ser a única forma válida, melhor, verdadeira e legítima, de unir casais pelo sacramento do matrimónio foi apenas um ponto acima do medíocre e, quanto à homilia do sacerdote, um ponto abaixo do muito mau. Reparem: os noivos estavam ali, para, mais ou menos convictamente, celebrarem o casamento pelo ritual católico... e o que faz o padre? Em vez de centrar a sua atenção exclusiva nos dois jovens e louvar-lhes o acto sagrado, não se coíbe de fazer extrapolações absurdas condenando explicitamente os casamentos civis (não são verdadeiros casamentos, dizia ele, apenas contratos) e de aludir, de modo enviesado, mas mesmo assim perceptível, a outro tipo de uniões reivindicadas por certas minorias, uniões condenáveis, uniões absurdas (segundo ele)! Este exemplo foi uma espécie de demonstração da queda de valores do nosso tempo. Respeito o meu amigo, compreendo-lhe a necessidade de exibir-se daquele modo (porque o conheço); mas, estendendo aquele acto até aos limites da sua compreensão e interpretação, não posso deixar de ver ali os sinais da decadência do tempo que vivemos. Os romanos, no seu tempo áureo, quando tinham um império e um exército, quando eram donos do mundo, do ponto de vista do poder e da riqueza, afundaram-se e deixaram-se conquistar porque cederam à orgia: quando acordaram dos banquetes desmesurados, dos excessos, a que a glória conquistada os conduziu, já nada lhes restava que valesse a pena festejar! Nada temos em comum com os romanos (no que diz respeito ao império, ao poder e à riqueza), mas somos os actores de um momento de crise, crise muito mais profunda e devastadora que os simples sinais económicos e financeiros do colapso. Estas crises, paradoxalmente, fazem emergir fenómenos de fausto, repetições de rituais orgiásticos, como se quiséssemos agarrar o que nos foge e celebrar o fim dos tempos: e estas explosões de exibição de riqueza correspondem ao culminar e ao declínio do Império Romano, que, depois de morto, nunca mais conseguiu erguer-se. E então, o nosso tempo, este em que, simultaneamente nos afundamos na crise económica, no desemprego, na fome e na miséria à escala global e, ao mesmo tempo, nos patenteia o luxo, o excesso e a orgia afundar-se-á, definitivamente, tão definitivamente quanto o Império Romano do Ocidente e do Oriente. Não ficará pedra sobre pedra! Em Portugal, buscamos desesperadamente os salvadores, e ficamos perplexos, porque quer uns, quer outros nada valem, afinal, enquanto salvadores. Olhamos a democracia - esse governo do povo - e percebemos que a deixamos perverter-se, a um ponto tal, que só destruindo-a, cortando cabeças, instaurando a lei da guerra e da revolta podemos anular a perfídia dos salvadores, proibindo-os de fazer o que quer que seja em nosso nome. E é então que evoco Marx e Engels, nascidos prematuramente, profetas do século XXI, ancorados na escuridão do século XIX, aproveitados e viciados nos estertores maquiavélicos das guerras mundiais, usados em revoluções e governos, antes do tempo, antes da eclosão deste momento que vivemos hoje e que, apenas ele, está pronto para a aplicação dos princípios, nunca levados à prática e ainda letra morta nos livros de Marx e Engels. É necessário relê-los em primeira mão, atirar fora as teias de aranha e as falsas teorias dos que ousam apelidar de marxistas governos que tiranizaram e oprimiram, governos que, desconhecedores da verdadeira essência do marxismo, se substituíram (reproduzindo-as mais tarde ou mais cedo) às ditaduras czaristas e outras que vinham, supostamente, desmantelar, para traçarem as linhas do caminho humanista. E quem, ainda assim, não for capaz de eliminar o preconceito anti-comunista, tão obscurantista e inadequado, que leia ao menos o evangelho e medite nas palavras de Cristo, naquelas que dizem que somos todos iguais e que podemos transcender-nos, ultrapassando a fragilidade e a miséria do corpo, naquelas que falam do Reino de Deus e que é, afinal, o Reino do Homem liberto da sua inferioridade, elevado até ao seu poder! Ou então, se formos capazes de entendê-lo, leiamos Nietzsche, à luz do nosso tempo e vejamos a Vontade de Poder nas suas páginas enunciada, não como a materialização de um aberrante Super Homem racista e prepotente, mas como a necessária auto-superação do homem, amesquinhado, mistificado, iniludivelmente tornado o Último Homem. «Todas as cartas de amor são ridículas», escreveu Fernando Pessoa, num poema que toda a gente conhece; as dele, Fernando Pessoa, também o foram e ele di-lo no mesmo texto e, ainda que continue o poema, dizendo, «mas afinal só aqueles que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículos», o certo é que guardou as dele para si, não as exibiu para o público, porque elas não se destinavam ao público mas ao ser amado e eram, por tal razão, íntimas, pessoais. E se hoje lhe esventram o espólio e as publicam, nesta ânsia de vasculhar um ser humano até ao âmago, não é porque ele tivesse dado autorização (o poeta morreu em 1935) mas porque o nosso tempo vive da apropriação indigna dos sentimentos dos outros e não recua perante o deleite dos pequenos ridículos, das pequenas fraquezas de alguém, a outros níveis, realmente grande!
17 giugno PSD: UM PARTIDO BUDISTA?![]() PSD: UM PARTIDO BUDISTA?
O cartaz do PSD aqui reproduzido apareceu nas ruas há alguns dias, logo a seguir à suposta vitória laranja para o Parlamento Europeu e, se digo «suposta vitória» não é por desconhecimento dos números oficiais, que dão, efectivamente, vantagem a este partido, mas porque também levo em conta os 62,54% de abstenções (o que feitas as contas, significa que apenas 37,46% dos eleitores portugueses foram até às urnas votar, e nem todos o fizeram em partidos, visto que 4,64% votaram em branco e 2% anularam o seu voto.).
Poderia fazer contas e mais contas até perceber quantos foram os portugueses que, de facto, deram uma maioria relativa ao PSD, mas, provavelmente, essas contas estão feitas e, por isso, nem me darei ao trabalho de intentar tal tarefa matemática. O que me parece óbvio - e nem é preciso ser analista político (que não sou) para ver o óbvio - é que esta vitória não foi vitória nenhuma do PSD, do mesmo modo que a derrota do PS não chegou a sê-lo, pois a maioria absoluta dos portugueses não votou. Segundo uma estimativa divulgada pela Direcção-Geral da Administração Interna éramos 9.667.024 eleitores à hora a que abriram as assembleias de voto no dia 7 de Junho; porém, feitas as contas a partir das percentagens já referidas, o número obtido significa, exactamente, que mais de 6 milhões de portugueses não deram o seu voto a qualquer força partidária, sendo o resultado eleitoral da responsabilidade dos outros 3 milhões e qualquer coisa. Estes milhões de pessoas correspondem a várias multidões; e, no entanto, se fizermos as outras contas, calculando os números exactos de votantes nos dois partidos numericamente mais expressivos, veremos que, afinal, apenas uma minoria escassa ou nulamente representativa dos 9.667.024 eleitores e dos outros todos (que não sendo ainda eleitores também existem com os seus direitos e deveres) possibilitou as respectivas constatações de vitória/derrota. Alardear vitória ou carpir derrota quando mais de 6 milhões de eleitores não demonstraram rever-se em qualquer partido, parece-me um embuste, uma insensatez, uma cobardia.
E depois aparece o cartaz da vitória-este que aqui reproduzo-apaga a imagem da líder que já nos habituáramos a ver, antes da dita vitória, e atira para diante com o slogan NUNCA BAIXAMOS OS BRAÇOS !
Apagar a imagem da líder e substituí-la por uma frase na primeira pessoa do plural é engenhoso e significa mais ou menos o seguinte: nós ganhámos, nós todos e não ela, a líder, nós os que votámos PSD, nós os que nunca baixamos os braços!
Porém, uma dúvida me assalta sempre que leio a frase: este «baixamos» terá acento referindo-se desse modo ao passado e a sua falta não passa de uma gralha, de um esquecimento, de uma ignorância? Ou é «baixamos» mesmo assim, sem acento, e indica o presente, ou seja, que embora os pudéssemos ter baixado antes, não os baixamos agora?
Por outro lado, que significa dizer, no passado ou no presente, Nunca baixámos/baixamos os braços? Parece-me uma estranha declaração, ainda que metafórica. Ter os braços sempre levantados pode significar que, pura e simplesmente, estamos impossibilitados de fazer seja o que for, pois, de braços erguidos, nada se consegue executar: ter os braços para baixo e em movimento, isso sim, é sinónimo de trabalho; ter os braços sempre erguidos não só é uma posição impossível de manter durante muito tempo, como não conduz a realização nenhuma que faça sentido, a menos que sejamos budistas e, quais faquires, pratiquemos a concentração e o domínio dos músculos e dos sentidos e da consciência a tal ponto, que consigamos manter os braços erguidos sem danos. Mas porque serão agora praticantes do budismo os social-democratas, tanto mais que estão ao rubro porque ganharam as eleições europeias e querem ganhar as outras todas? O monge tibetano, que atingiu o nirvana e pode manter-se de braços erguidos toda a vida sem consequências, não quer vencer eleições, não quer absolutamente nada, porque atingir o nirvana é exactamenete isso: nada desejar, nada querer! Portanto não creio que o PSD seja agora um grupo budista, mergulhado no nirvana após o resultado eleitoral! Mas a verdade é que, a não ser nesta perspectiva de esforço e de treino da meditação oriental, que permite o levantamento dos braços para sempre (mas também a ausência de todo e qualquer trabalho ou esforço) não consigo aderir racionalmente ao sentido de semelhante slogan.
O Plágio ou A Cultura às Avessas![]() O PLÁGIO
(ou)
A CULTURA ÀS AVESSAS
[Plágio, do grego, plagios, «oblíquo», que não está em linha recta, que está de lado, de esguelha (...)]
[Plagiar, do latim plagiare, «roubar, esbulhar» (...)]
Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Volume IV, p. 379
José Saramago não precisa de ser defendido, não cometeu nenhum crime, não fez nenhum pecado, não ofendeu ninguém: apenas é um dos maiores vultos da História da Literatura Contemporânea.
José Saramago não foi um privilegiado durante muito tempo: lutou por isso e agora é-o, efectivamente. Os privilegiados (seja qual for o tipo de privilégio) apenas são legítimos numa sociedade de Homens se, dos seus privilégios, advier benefício para o resto da Humanidade (seja qual for o tipo de benefício). Aprendi esta tirada com Jonh Rawls, um filósofo moral e político do século XX, cujas ideias de justiça e equidade foram bebidas em Rousseau, Locke e Kant, e, no contexto da sua concepção de justiça e de equidade (não de igualdade), o privilégio só faz sentido se dele resultar acréscimo de liberdade, de justiça ou de riqueza, ou seja do que for de positivo para os outros. Nessa perspectiva, os privilégios de que aufere hoje em dia o escritor José Saramago são efectivamente justos porque ele, efectivamente também, tem contribuído ao longo dos anos para o crescimento do mundo português, em primeiro lugar, e do mundo em geral, a partir de um certo momento. O crescimento ou desenvolvimento de um país não se resumem ao sector económico e financeiro, ainda que seja difícil crescer a todos os níveis possíveis quando falham as condições mínimas de sobrevivência e logo, no mundo em que vivemos, quando somos economicamente débeis ou deficitários. Por essa razão, José Saramago não pertence ao número dos que, usufruindo de privilégios, têm o dever de alimentar, ou dar emprego, ou permitir habitação aos desfavorecidos (essa tarefa é a profissão de outros) mas, porque é um escritor, acrescenta o mundo com a sua obra. Logo, se tem privilégios, merece-os, não só porque o seu trabalho lhe permitiu tornar-se digno deles, mas também porque apenas esses privilégios lhe possibilitam continuar a privilegiar os outros com o produto do seu labor.
Estou a falar deste modo e a usar como referência um filósofo neoliberal, mesmo não sendo eu neoliberal do mesmo modo que o não é José Saramago. O neoliberalismo é um modo suave de caracterizar o capitalismo e não defendo, de modo nenhum, o capitalismo e José Saramago também não, seguramente. Porém, vivemos num mundo marcado pelo capitalismo, cada vez mais feroz e desumano, e então qualquer um de nós, que defendemos o derrube do capitalismo e a instauração de uma sociedade justa, eu e Saramago e muitos milhares de pessoas em Portugal e no mundo, não tendo como viver à margem - ela não existe - necessitamos sobreviver o mais coerentemente possível, nesta espécie de selva, onde o interesse sobrepuja o humanismo e a intenção moral se confunde com a intenção legal.
Saramago não precisa de ser defendido e por isso não vou defendê-lo; vou simplesmente rever alguns argumentos das suas obras e assim lançar uma réstia de luz sobre quem é José Saramago, na exacta medida em que muitas centenas ou milhares de portugueses, ignorantes e grosseiros, ousam proferir o seu nome, criticá-lo e insultá-lo, sem nunca terem lido um livro dele que fosse.
Vejamos.
Em 1984, Saramago publicou um livro intitulado O Ano da Morte de Ricardo Reis. Para quem não sabe, Ricardo Reis foi um heterónimo de Fernando Pessoa, não teve, pois, uma existência material, apesar de lhe terem sido dadas uma biografia, com data de nascimento e morte , uma profissão e um livro de poemas publicado. José Saramago decidiu transformá-lo numa personagem viva, no contexto da obra citada, e fê-lo viver num certo local de Lisboa, onde o heterónimo (agora vivo) conviveu com Fernando Pessoa e contactou com Lídia ( a musa das suas odes); em 1986, Saramago publicou A Jangada de Pedra, obra em que ficciona a separação geológica da Península Ibérica do resto da Europa, através de uma fenda aberta nos Pirinéus, com todas as consequências turísticas, políticas, geográficas e por aí adiante que adviriam de semelhante deslizamento da Península pelo Atlântico; em 1991, Saramago publicou O Evangelho Segundo Jesus Cristo, no qual tece uma história evangélica em ruptura com o dogma da igreja católica e, se não lhe aconteceu ser excomungado por ela, foi, nos tempos de um certo governo obscurantista, impedido de participar, com o livro, num concurso literário internacional; em 1995, Saramago publicou O Ensaio sobre a Cegueira, onde submete as suas personagens centrais, e por fim um país inteiro (com uma única excepção), a uma epidemia de cegueira branca, com todas as consequências possíveis de um tal acontecimento; em 1997, Saramago publica Todos Os Nomes, obra na qual conta a história de um escriturário que se dedica a coleccionar nomes de pessoas famosas, para acabar por descobrir que, afinal elas se parecem com toda a gente; em 2000, Saramago publica A Caverna, onde apresenta uma duplicação de mundos em que um se agiganta, na exacta medida em que o outro se extingue; em 2004 Saramago publica O Ensaio sobe a Lucidez cujo argumento parte de uma situação insólita que provoca a abstenção total às eleições, numa certa região, sem combinação prévia entre os eleitores, e narra a partir deste mote todas as consequências possíveis; em 2005, Saramago publica As Intermitências da Morte, cujo pressuposto é o inusitado facto de, a partir de um certo dia e de uma certa hora e durante um certo tempo, ninguém mais morrer num certo país, e, desta circunstância, retira uma plétora de consequências; em 2008, Saramago publica A Viagem do Elefante, que narra a inverosímil travessia de um paquiderme desde Portugal até à Áustria, como presente do rei D. João III ao arquiduque Maximiliano....
Não são os títulos todos de José Saramago, apenas alguns, talvez os que mais impacto tiveram sobre mim quando os li; porém, se examinarmos bem o ponto de partida de cada um deles podemos concluir mais ou menos o seguinte: Saramago supõe um acontecimento improvável, inverosímil, nunca dantes observado, raramente pensado a sério e expande-o, realisticamente, fazendo o leitor entrar mais e mais nos seus próprios segredos, nos seu próprios meandros existenciais, esquecendo, a partir de certa altura que o argumento é utópico, mas possível, como o são todas as utopias. Logo, há uma linha condutora firme, uma intenção marcada e própria do escritor específico que Saramago é, não havendo qualquer hipótese de o confundirmos com outro, a partir do momento em que nos envolvemos na leitura.
Portanto digam-me: como é possível que alguém se tenha lembrado de acusar o genial Prémio Nobel da Literatura, de plágio, só porque um dos argumentos se parece com o ponto de partida de um certo conto, tanto quanto uma formiga se parece com um hipopótamo? E mais: como é possível que percam tempo a comparar o que não tem comparação possível, exibindo parágrafos de um e de outro como se um (o de Saramago) fosse o produto da cópia do outro? Mais ainda: porque perdem tempo a vituperar o grande criador que Saramago é nesta arena promíscua e medíocre que pode bem ser a internet, para todos os que a usam de má-fé ou nos limites da mais supina ignorância?
Li o conto paupérrimo do mexicano Teófilo Huerta e percebi apenas o seguinte: o homem é um escritor medíocre, de um conto superficial e misérrimo, onde aparece o mesmo argumento básico que Saramago glosa num dos seus romances. Descobre-o quatro anos depois de ter saído o livro do escritor português, sendo, alegadamente, o seu conto de uma data anterior; percebe que, se saltar para a arena reclamando a paternidade, o exclusivo da ideia, e acusando de plágio nada mais nada menos que um prémio Nobel de Literatura com créditos firmados, poderá sair da obscuridade, pela negativa é claro, mas sair e ser notícia por algum tempo, e não hesita, faz isso mesmo! E depois todos os papalvos que nunca leram uma linha sequer de Saramago, mas que o detestam porque ele é o que eles não conseguem ser, dão vivas ao embuste, cobrindo-se de um ridículo que não vêem!
Como disse no início não estou a defender Saramago, ele não precisa: atingiu uma espécie de imunidade muito específica, aquela que a maioria dos artistas só granjeia depois de ter morrido mas que, felizmente para ele e para nós, teve em vida - pode dizer o que quiser, escrever o que bem entender, viver como e onde lhe apetecer, falar alto ou baixo, sorrir ou fechar a cara...nada, mesmo nada lhe tirará o valor e poderá obscurecer-lhe o mérito! 14 giugno O Equador de Miguel Sousa Tavares: uma besta célereO EQUADOR DE MIGUEL SOUSA TAVARES: UMA BESTA CÉLERE
Falemos hoje, para variar, de O Equador de Miguel Sousa Tavares. Trata-se de um best-seller, como sabem, ou de uma besta célere, como diria Alexandre O'Neill, expressão que eu subscrevo neste contexto (e noutros de que não irei tratar hoje.).
Best-seller, porque vendeu ou vende muito e este fenómeno, que vai acontecendo, desde sempre e um pouco por todo o lado, induz à convicção de que estamos perante uma obra excelente, pois, em termos de mercado, «vender muito» significa «ser muito bom». Besta célere, segundo Alexandre O'Neill, denuncia um fenómeno muito diferente: é uma besta, designação metafórica para traduzir a sua má qualidade, e é célere, porque vende tão rapidamente quanto a sua impressão se desvanece no leitor.
Ora, por que será que um livro mau - e, citando Oscar Wilde direi que «Não existem livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos.» - se transforma num best-seller, recebe prémios internacionais, é traduzido para outras línguas, dá origem a uma série de televisão?
Aludirei, de novo, a Alexandre O'Neill, desta vez para citá-lo: «Há quem lhe chame, por brincadeira, besta célere para caracterizar a qualidade mediana (tomada por média) desse produto cultural (agora é tudo cultural!) e, ao mesmo tempo, a rapidez com que ele se esgota em sucessivas edições. O best-seller é um produto perfeita (ou eficazmente) projectado em termos de «marketing» editorial e livreiro. É para se vender - muito e depressa - que o best-seller é construído com os olhos postos num leitor-tipo que vai encontrar nele aquilo que exactamente esperava. Nem mais, nem menos. Os exemplos, abundantíssimos, nem vale a pena enumerá-los. Convém não confundir, pelo menos em todos os casos, best-seller com «topes» de venda. Embora seja cabeça de lista, o best-seller tem, em relação aos livros «normais», uma característica que logo o diferencia: foi feito propositadamente para ser um campeão de vendas. A sua razão de ser é essa e só essa. E aqui poderia dizer-se, recuperando o lugar-comum para um sentido sério, que «o resto é literatura».
Vejamos então: uma besta célere é um livro de qualidade mediana, feito de propósito para vender muito...o resto é literatura!
Alexandre O'Neill dá exemplos: «Estou a pensar em bestas céleres como Love Story ou O Aeroporto. Não estou a pensar em «topes» de venda como O Nome da Rosa ou Memórias de Adriano. Estes últimos são boa, excelente literatura que, por razões pontuais e, muitas vezes extrínsecas à sua própria leitura, conheceram grandes êxitos de venda, o que é bastante diferente. Enquanto o best-seller é esquemático, quer dizer, não comporta mais do que o necessário, em termos de ingredientes, para comover (ou motivar, como é costume dizer-se) os simplórios, o livro «normal» nem pensa nisso. Nascido de uma necessidade interior, o livro «normal» chega ao leitor de dentro para fora. O best-seller é exactamente construído ao contrário: chega de fora para dentro ou, até de fora para fora, visto que a sua penetração no leitor não é nenhuma, ao passo que a sua propagação é imensa.»
O Equador de Miguel Sousa Tavares tem exactamente estas características: é «esquemático», ou seja, não vai mais longe do que o necessário, quer do ponto de vista histórico, quer ao nível da caracterização das personagens, quer no enredo e, por isso, «comove» ou «motiva» os «simplórios» que se extasiam, rendidos, perante a argúcia do escritor, que articulou factos históricos com ficção, perante a estrutura plana das pesonagens que não obrigam a grandes saltos conceptuais ou de penetração psicológica, para serem de imediato assimiladas, perante as descrições dos locais que, de tão áridas, podem situar-se onde o leitor quiser, desde a praia que frequenta nas férias até ao próprio quintal, e, é claro, O Equador chegou ao leitor de «fora para dentro», de várias maneiras: em primeiro lugar, o nome dele é conhecido - tem pais ilustres, pontificou em todas as estações de televisão, tem (ou teve) uma boa figura - depois, utilizou estratégias eficazes de marketing, pois,pelas razões anteriormente referidas, revelou-se a priori um filão para a indústria livreira.
Alexandre O'Neill prossegue a sua análise das bestas céleres e vai direito ao cerne da questão: «Habitualmente, o best-seller, ao fim de alguns anos, está esquecido ou, então, foi posto em cinema ou em TV e será, durante uns tempos, ainda lembrado, quase nunca em termos de literatura, que não é, mas apenas de história. O cinema ou a TV não podiam senão tornar ainda mais liso o que liso e correntio era.Editores com o sentido da oportunidade aproveitam, então, para lançar ou desenterrar tiragens, que às vezes se vendem, outras não, mas sempre com a inevitável cinta: Um grande sucesso agora no cinema (ou na TV). Alimentam, deste modo, curiosidades menores do público: saber com antecipação o que vai acontecer (caso das séries televisivas, aliás «adiantadas» na Imprensa diária e semanal) ou ver até que ponto o cinema respeitou ou não respeitou a história original.»
Ora aí está! Uma vez passado para a televisão ou para o cinema, a besta célere adquire uma espécie de incontroversa garantia de qualidade e logo surgem reedições, muitas vezes de luxo ( isso aconteceu com O Equador) e a cinta no livro, com a frase : «Agora na TV». Esse fenómeno proliferou nos últimos tempos, quando apareceram nas livrarias títulos de obras nunca dantes editadas em Porugal (ou pelo menos escondidas no fundo das prateleiras) tal como, O Estranho Caso de Benjamin Button de F. Scott Fitzgerald, O Leitor de Bernard Schlinck, Quem Quer ser Bilionário de Vikas Suarup , e mesmo o Ensaio sobre a Cegueira de Saramago, agora dotado de uma sobrecapa ilustrada com personagens do filme (porém, nenhum destes livros é uma besta célere,atenção ( não li o livro de Vikas Suarap), a referência surge no contexto do oportunismo das editoras livreiras.).
Regressando a Alexandre O'Neill: «O best-seller é feito a pensar num leitor «espremido» por computador e serve a esse leitor tanto quanto lhe pode servir qualquer objecto de conforto. É um típico produto da chamada indústria cultural. Toma, exteriormente, a forma de livro para melhor se confundir com os verdadeiros livros. É uma espécie de ornamento (do espírito, da estante ou do caixote do lixo...) e cumpre, quase sempre, o seu papel, virada a última folha. Alexandre O'Neill diz praticamente tudo o que pode aplicar-se a O Equador de Miguel Sousa Tavares, pelo que a minha tarefa ficou muito simplificada. Porém, eu li o livro, e, confesso, vi um ou outro episódio da série homónima da TVI. Quanto ao primeiro - o best-seller ou besta célere - direi que o livro não tem erros ortográficos ou de construção ou de semântica (o que já não é mau porque anda por aí muita «literatura» repleta destes e de outros erros! ) e que a história consegue cativar (consulte-se a citação de O'Neill), pelo que as centenas de páginas que o livro contém se lêem com alguma facilidade. Porém, quando se atinge o final e se fecha o livro, o que acontece (o que me aconteceu) é um imenso vazio e uma grande tristeza. Aconteceu-me o vazio, na justa medida em que não me senti acrescentada em nada: os episódios históricos que lhe serviram de fundo, não só os conhecia já, como posso aprofundá-los, com vantagem, em qualquer livro de História; as personagens são tão pobres de inteligência e de espírito, tão planas e banais, quanto aos predicados físicos e psicológicos, que podem corresponder a qualquer homem ou mulher comuns e desconhecidos, daqueles que passam por nós e não nos merecem um momento de atenção ( até os predicados voluptuosos da personagem feminina que lidera a parte romântica da história podem ser apreciados diariamente, num anúncio publicitário a iogurtes ou cremes anti-rugas ou indo mais fundo, para quem conhece o meio, no ambiente de um bordel); as paisagens, a cor e o espírito do lugar onde, alegadamente, a história se desenrola são tão baços e incaracterísticos que qualquer praia, qualquer floresta, qualquer quinta conhecida do leitor podem servir para cenário mental. Relativamente à série de TVI, não poderei dizer muito, pois apenas me esforcei no sentido de assistir a alguns episódios: mas, com os recursos económicos disponibilizados para tal, com o elenco seleccionado, de onde constam alguns dos melhores actores nacionais, poderia, se não estivéssemos perante uma besta célere televisiva, criar-se um produto de qualidade. Direi que - e agora em abono do livro O Equador - a série televisiva é bastante pior que o livro e coloca muito mal, quer o autor, quer o país, quer a própria História de Portugal! Para terminar, farei uma breve alusão à excelente poeta e escritora que foi, que é Sophia de Mello Breyner Andresen - a mãe de Miguel Sousa Tavares - e, se lhe incluo o nome nesta crítica, é para transmitir uma impressão (ou dúvida) que me ficou e da qual ainda não consegui abdicar: teria Miguel Sousa Tavares a coragem de publicar o romance O Equador enquanto a mãe estava viva? Não creio, sabem porquê? Miguel Sousa Tavares pode ter muitos defeitos, como todos temos, pode não ser um romancista , como este livro demonstra, mas não é tolo, nem destituído de inteligência e de sensibilidade, pelo que não insultaria a mãe em vida escrevendo semelhante aberração. Possa a memória de Sophia de Mello Breyner Andresen destacar-se para sempre da memória do filho, autor de O Equador.
*Para todos aqueles que acham que eu tenho por hábito denegrir, com a crítica, a obra dos outros, ouso fazer um apelo: leiam os meus textos apologéticos e verão que eles constituem a esmagadora maioria!
13 giugno ACASO OU INTENÇÃO?
ACASO OU INTENÇÃO?
Nunca poderei saber se a colocação deste cartaz de campanha eleitoral para as autárquicas levou em conta a simbologia rodoviária presente em abundância ao seu redor. Porém, o slogan do candidato – Num mundo em mudança/ Amarante não pode continuar parada – sugere que, se não foram propositadamente seleccionados, quer a localização, quer os sinais de trânsito que lhe dão expressividade, eles não podem ser mais eloquentes e então a acaso (se acaso foi) veio de encontro aos desígnios da inscrição. A primeira vez que o conjunto aqui representado me saltou à vista, ri-me e passei de novo, para ter a certeza de que não estava a ser vítima de alucinação; depois, parei e captei a imagem em fotografia. Vejamos: Num mundo em mudança/Amarante não pode estar parada: e contudo, mesmo sobre o cartaz com esta legenda, avultam dois sinais, nada conformes à mudança e ao movimento – um, de STOP e outro, de proibição de virar à esquerda. A primeira leitura é de antagonismo e contradição entre a mensagem e os sinais de trânsito que a emolduram: como se pode mudar ou prosseguir a marcha perante um sinal de STOP e um de proibição de mudar de sentido? Obviamente que quer um quer outro inibem a liberdade de escolha, inibem o próprio avanço para a mudança que o slogan propõe e então, o acaso ou a escolha deliberada da colocação do cartaz, tornaram absurdo e até mesmo ridículo o conteúdo das palavras de ordem! Porém, se o objectivo da colocação do cartaz, naquele local específico, levou em conta os sinais de trânsito para fornecer ao público uma simbologia ou uma motivação, o resultado é interessante: STOP – leia-se: olhem bem para mim e para a mudança que proponho – Proibição de virar à esquerda – leia-se: eu sou de direita, por isso, não virem para o outro lado, sigam o sinal de trânsito, também ideologicamente! Analisando esta dupla interpretação vou um pouco mais longe e fixo-me no local circundante ao cartaz: de um lado, um parque de estacionamento, do outro, um terminal rodoviário, ambos, obras importantes realizadas e postas a funcionar num passado muito recente. Num mundo em mudança – o parque de estacionamento, como o que foi construído do lado direito do cartaz e para cuja saída foi necessário o sinal de STOP, significa que Amarante, afinal, tem vindo a acompanhar a mudança, talvez com lentidão, convenhamos, mas acompanhando; Amarante não pode ficar parada – o terminal rodoviário, do lado esquerdo do cartaz é a prova de que Amarante não está parada, já que ali entram e saem todos os dias dezenas de autocarros, por ali andam todos os dias centenas de utentes desses transportes. Portanto, o candidato, ou quem escolheu o local para a afixação do cartaz, ao mesmo tempo que chamava a atenção para a necessidade de mudança, evidenciava dois dos mais recentes sinais de mudança realizados em Amarante! Absurdo ou provocatório? Talvez que aquele candidato específico pretenda levar as obras ali patentes para outro lado, talvez, sem querer lhes reconheça o valor, talvez não tenha pensado nada, talvez julgue que todos andam adormecidos e não reparam nestas minúcias! Para todos os efeitos, quer tenha havido intenção, e logo um propósito concreto na utilização do local com os respectivos sinais de trânsito, quer tenha sido, todo o acto, o produto de um acaso, a seriedade do candidato ficou comprometida. Vejamos: servir-se de sinais de trânsito de proibição de avanço ou de mudança de direcção para apelar à transformação e ao movimento? Atirar com o cartaz para qualquer sítio, criando esta imagem caricata e um pouco ilógica? Acresce ainda o facto de o cartaz estar encravado entre dois postes o que confirma a simbologia dos sinais: o slogan apela à mudança, mas ele próprio, o candidato, não tem saída possível, nem para a frente, nem para trás! Estranho modo de pretender mudar e combater o imobilismo, quando ele próprio se encurralou simbolicamente entre dois postes! Enquanto pessoa, no sentido mais amplo da minha identidade, ainda que não do ponto de vista ideológico, tenho simpatia pelo candidato do PSD, assim maltratado pela intenção ou pelo acaso, e então este texto pode ter também várias leituras implícitas; porém, mente aberta que tenho consciência de ser, torno explícita uma delas e alerto o candidato a, pelo menos, rever a localização deste seu cartaz, para dar mais credibilidade à sua proposta.
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