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02 novembre EXORCISMO
René Magritte
EXORCISMO
Refugia-te na tua solidão, foge do tumulto dos outros, apaga-te, encerra-te, esconde-te, não queiras pertencer de novo ao mundo que renegaste um dia , acede ao exílio, parte para o deserto Refugia-te em ti, caminha para ti,obedece a ti, e encontra-te na profundeza das tuas raízes para subires às frondes da tua fantasia Não te esqueças: Sempre que dás um passo para o outro, esse passo é um salto tão veloz e prodigioso que acabarás agredindo quem querias amar Sempre que dás um passo para o outro, esse passo desencadeia tantos movimentos e convulsões que se transforma em terramoto e produz derrocadas previsíveis Sempre que dás um passo para o outro, levas nele o gigantismo atroador da tua força e farás com que ele recue ao revés da tempestade Sempre que dás um passo para o outro, levas-te toda nesse passo e receberás em troca um vulto apagado, umas costas levantadas, uns passos caminhando na direcção contrária Sempre que dás um passo para o outro, és obrigada a travá-lo logo a seguir e nessa súbita quebra na caminhada sais ferida e atormentada Por isso, foge refugia-te na tua solidão, há sítios ermos onde podes restabelecer forças, sítios onde as vozes humanas não estrondeiam e os corpos não se atropelam, sítios onde a natureza te acolherá vibrante e meiga Foge refugia-te na tua solidão, veste-te de ti mesma e alimenta-te de ti mesma, és por demais ampla, por demais elevada, por demais subterrânea, tens cavernas e sótãos, caves e telhados, és dona de mansões nunca edificadas que não lembram aos olhos humanos Se o outro para quem ainda caminhas entorpecer o andar ou aprumar as costas ou te lançar olhares de soberano desdém ou fizer minguar a dádiva que quis ser, procede como se fosses cega, deixa-o seguir caminho, não o prendas nos teus laços cândidos, que ele verá neles nós insidiosos, não lhe agarres demais o corpo hirto, que ele julgará que lhe queres travar o gesto, não faças com que ele cante ao mundo a novidade de te ter, pois ele pensará que lhe queres acossar a intimidade Foge refugia-te na tua solidão, engalana o teu castelo com as primícias de ti, rodeia-te do calor estonteante das tuas cores e da delícia sublime dos teus sons, enleva-te nas tuas paredes onde brilham muitos sóis e pontifica coroada no reino a que pertences. Julgas que encontrarás um rei para dividir com ele o teu reinado? Julgas que encontrarás um par para dividir com ele a tua vida? Julgas que encontrarás um gémeo para trilhar com ele o teu caminho? Foge refugia-te na tua solidão, não oiças, não vejas, não sintas, não aspires nada que traga a mescla de um hálito exterior, nada que seja a sombra de outras existências, nada que tenha o sabor amargo do equívoco, nada que não traga a marca límpida de uma gota de orvalho, a brancura impoluta de um floco de neve Julgas que o outro saberá ver o lago cristalino que lhe ofereces, para que nele se banhe e ressuscite? Julgas que o outro entrará confiante no lume dos teus sóis, para que neles aprenda a verdade de si? Julgas que o outro ouvirá as tuas preces, feitas a um deus ainda não inventado e entrará como fiel nessa religião nunca vivida? Julgas que o outro se sentará à tua mesa e repartirá contigo o pão que com ele queres repartir, o pão sagrado feito de inefáveis materiais? Foge refugia-te na tua solidão, não peças, não queiras, não desejes e sobretudo não amarres a ti nenhuma sombra, exorciza os fantasmas e no fim, redimida, renascida, retemperada, olha o outro no fundo do olhar, diz-lhe sem voz, sem sons, sem hálito, sem sopro, que estás pronta, se ele estiver pronto 12 ottobre Ouve, amor![]() Odilon Redon, O Nascimento de Vénus
OUVE, AMOR
Ouve, amor:
a tua vida é preciosa e a tua liberdade um tesouro meu, querer-te nunca será sumir-te no meu ser ou perseguir-te nas tuas caminhadas;
Ouve, amor:
bem sei que esta palavra, com que pronuncio o teu nome que não escrevo, foi diluída e esborratada pelas mãos dos homens e não saberás, decerto, o que quero chamar-te, ao chamar-ta: mas é assim que o meu íntimo te fala, é assim que o meu pensamento te abarca;
Ouve, amor:
não importa que estejas aqui ou ali, porque também comigo te sinto, e faltares-me não é sinal de pecado teu, mas a condição de distâncias que o tempo cria e o ser deseja;
Ouve, amor:
imponderável como um rasto de luz, enches de brilho os meus segredos: basta que existas, basta que sejas e nem um fio do teu cabelo arrancarei para possuir de ti um átomo único;
Ouve, amor:
voga ligeiro nos mares da tua superabundância, espraia-te, feito fogo, nas planícies do teu querer, voga, feito gaivota, nos ares diáfanos da tua plenitude;
Ouve, amor:
quando vieres, realizaremos o banquete do encontro, trocaremos as palavras e os gestos que a hora ditar, espalharemos sortilégios e beberemos taças sumarentas dos néctares que houver;
Então celebraremos a vida. 15 maggio Louvor![]() 05 marzo Entregas![]() ENTREGAS
Quero pensar noutras coisas deixar de lado o prosaísmo baço de meros compromissos
pouco mais do que dúbios
(porque dúbias são as suas fundações)
pensar por exemplo que tu estás lá com os teus olhos de azul água meio escondidos nas pálpebras densas e que até já sonho contigo e te deponho nas mãos os tesouros
(aquele que um dia dediquei ao Único)
como se fosses uma síntese do meu tempo
(e os outros todos)
é verdade sonhei e não foi um pesadelo não me fez acordar em desvario mas antes me lançou em benéfica enseada de novo sono não fosse a crua realidade de um despertador deixado longe mas apesar de tudo penetrando na esfera do meu ouvir
(sim sonhei contigo)
porque andas perto do meu pensamento selvagem e arredio
(e tu mal me conheces)
e confundes-me com o resto da turba de que sou parte
(sem o ser contudo)
sou de outra raça e tudo o que faço nesta mistura fora de tempo soa mal
(a mim e aos outros)
esta guerra não é minha nunca foi só entro em batalhas cujas causas são ou podem ser vitoriosas só enfrento inimigos grandiosos e de estatura maior que a minha os que andam abaixo de pouco me servem
(sabias que sou de outro tempo de outra história de outra vida?)
Um dia caí nesta arena mas estive sempre distraída arredada das pulsões e das tramas urdidas tecidas entremeadas em secretos ou ostensivos desejos de poder
(o poder ah o poder)
deita-te com ele e serás apenas tu na cama em auto emulação e auto adoração quanto a mim prefiro outros coxins tenho memórias de futuros onde vagueiam e rugem embarcações feitas de novos materiais e onde qualquer presença fátua enruga e estiola
mas tu cavaleiro de olhos azuis de água não pertences a essa cadeira onde te vejo amarrado tens brilho de mar que não soltas e é só isso que penso quando sonho e te entrego os tesouros
(aquele e os outros todos)
numa oferta desvalida de delírios sem reverso 31 luglio Arco-íris![]() René Magritte, Le Regard Intérieur
ARCO-ÍRIS
(...)
Mas quem foi que matou quem?
O que julga que matou
ou o que parecendo estar morto
afinal na sua morte
matou o que o tinha matado?
Ou será que ninguém matou ninguém?
Ou será que não era preciso matar ninguém
porque tudo estava morto
mesmo antes de nascer?
Ou vivo antes de viver?
Ou semi-morto e semi-vivo,
semi-fantasma semi-realidade,
esta frustração hedionda e idiota
de tudo ser semi,
infinitamente semi
logo impossível
na sua possibilidade fantásmica e fantasmática?
Afinal onde tudo gelou,
só o fantasma aquece
porque é aquecido.
E falar de mortos e de assassinos
é a imbecilidade dos que estando vivos
repudiam a vida
na sua não-vida
na não existência de existir um céu azul
que nos faz respirar fundo de júbilo
e provar que temos pulmões e células e outras coisas mais
suficientemente fortes
para que inventemos a emoção do azul
o eflúvio do verde
a girândola do arco-íris
cuja obsessão me pertence
é minha
tenho direitos intrínsecos a tê-la
a fruí-la
e a repeti-la
tantas vezes
quantas for meu desejo
arco-íris
arco-íris
arco-íris
Hoje
não desejo escrever mais esta palavra
mas amanhã,
amanhã,
no futuro
ou quando acabar o tempo
e novas constelações irromperem do negrume
(de meias de cetim
provavelmente)
estarei lá
com a minha íris
e com o arco da minha flecha
para apontar à nuvem
que esguichara tormentas
de loucura dionisíaca 16 marzo Sortilégio Alquímico![]() Cruzeiro Seixas, Estória sem princípio nem fim
SORTILÉGIO ALQUÍMICO
A noite tem um movimento próprio mesmo quando nada se mexe
e chama-nos a todos para um deserto líquido onde flutuam embarcações
serenos mensageiros de outros territórios onde a luz esculpiu memórias e mitos
eu sei (sempre soube) que a verdade não tinha qualquer poder
essa verdade que os corvos levantam na poeira dos trigais
se poeira houvesse
e enquanto escutávamos a voz irremediável de qualquer ente desabrido nas esferas de um segredo
se segredo houvesse
porque de dia toda a voz se dispersa em torrentes de euforia e só a noite rende o suspiro da alma
em trepidação vagueante
em movimento de acaso
Por isso (atrás
sempre atrás)
trouxe comigo o negrume
esse
que me empresta uma cintilição
que nem sequer é luar reflectido em paredes espelhadas
ou luz moribunda de um sol consumido
mas o brilho próprio de um espírito aceso
aberto para despertares
e ecos
e loucuras
Vibrantes e esparsas adejavam cordas prisioneiras desfeitas em pequenas clareiras de planície
cordas
mas de corações enaltecidos
cordas
feitas artérias e veias por onde pulsa o sangue primordial de deuses olvidados nos côncavos de outrora
nem tu (nem eu) (nem eles) havíamos previsto a tempestade
mas nada nos desviou da senda uma vez cumprida a memória
essa que nos rende o presente e nos lança o futuro
em pazadas silenciosas de húmus fecundante
e quando por fim as raízes romperam no solo embravecido dando lugar a uma serena vibração de sombras verdejantes
todos vislumbraram o prenúncio do tempo a apontar o norte
sempre o norte
como se o sul houvesse perdido o deflagrar da aurora
mas não
é na noite que o movimento encontra a vida
a noite estreme sem luar sem pequenos luzeiros vindos do infinito
a noite
sortilégio alquímico
corrente do ser
(E se houver sentido no pensamento altaneiro tecido nas escarpas da noite
esse
será sussurrado a todos os ouvidos
porque todos foram feitos para ouvir
mas apenas um ou dois saberão compor
as notas dispersas da sinfonia
e romper com ela o silêncio extático de qualquer solidão) 08 febbraio Tântalo, castigado ou vingador?
TÂNTALO, CASTIGADO OU VINGADOR?
Tântalo o sedento Tântalo o esfomeado Tântalo o eterno insatisfeito o supliciado!
Ei-lo na sua jangada no meio do rio no meio do bosque ei-lo sequioso faminto lutando por uma gota de água e vendo-a recuar querendo um fruto e vendo a árvore deslizar para longe e sentindo o riso (muitos risos) as gargalhadas dos deuses!
Ah os deuses essas potestades dos ares e da terra esses malditos das profundezas incendiadas e do éter deuses ou demónios ( afinal equivaleis-vos tão bem) que sentido fazem semelhantes condenações? Destes aos homens ou eles tiraram de vós para si próprios a inteligência… não sabíeis?
E então qualquer Tântalo acabará descobrindo o modo de beber e de comer mesmo que lhe façais recuar as águas ou lhe derrubeis os frutos (tornados inúteis uma vez esmagados na areia)!
Ficai sabendo que Tântalo consegue aprisionar a água da chuva num pequeno côncavo da jangada e às vezes o orvalho também lhe serve ou a neblina matinal e a neve ou o granizo...
Tântalo percebeu o paradoxo da condenação a inutilidade da tortura pois para cumpri-la terá que permanecer vivo e assim ter água e frutos para sorver ou então deverá tornar-se deus e para nada necessitar de frutos ou de águas!
Tornar-se deus !
Era esse então o castigo ser deus e ter desejos ser deus e querer água fugidia e frutos esmagados no fundo dos barrancos e apesar disso viver !
Mas como pode um deus precisar como pode um deus ter fome e sede como pode um deus ser vítima de um castigo de outros deuses que conhecem a superabundância pois dela vivem?
Ah deuses deuses do éter ou dos fogos infernais Tântalo traiu-vos e com ele toda a humanidade condenada ao paradoxo dos castigos eternos e contudo erguendo a fronte sempre erguendo a fronte e assim cumprindo o estranho desígnio da terra que lhe deste ou que ela vos tirou!
(Na mitologia grega, Tântalo foi um mitológico rei da Frígia ou da Lídia, casado com Dione. Ele era filho de Zeus e da príncesa Plota. Segundo outras versões, Tântalo era filho do Rei Tmolo da Lídia (deus associado à montanha de mesmo nome). Teve três filhos: Níobe, Dascilo e Pélope. Certa vez, ousando testar a omnisciência dos deuses, roubou os manjares divinos e serviu-lhes a carne do próprio filho Pélops num festim. Como castigo foi lançado ao Tártaro, onde, num vale abundante em vegetação e água, foi sentenciado a não poder saciar a sua fome e sede, visto que, ao aproximar-se da água esta escoava e ao erguer-se para colher os frutos das árvores, os ramos moviam-se pra longe do seu alcance sob a força do vento. A expressão «suplício de Tântalo» refere-se ao sofrimento daquele que deseja algo aparentemente próximo, porém, inalcançável, a exemplo do ditado popular "Tão perto e, ainda assim, tão longe".)
18 dicembre Concubinas misteriosas![]() Salvador Dalí, Dom Quixote
Por detrás das fogueiras com que se alimenta a vida talvez nada mais haja a não ser um pouco de gelo e cada vez menos
(o gelo precisa de água
a água precisa de fogo
e o homem precisa de tudo )
ah este precisar constante que faz de nós a insatisfação perene de nada ter e nada ser e este ir à montanha esvaziar a taça e depois enchê-la do vazio e do apelo e nada trazer no cristal corrompido em desarmónicas misturas de calor e sombra
Não sei porque vindes arrastar os pés nas soleiras das portas como se houvesse ainda limiares a franquear e lareiras rescendentes abertas no centro das casas o deserto acrescentou-se as sombras recrudesceram
(como se houvesse sol)
Naquele oásis tremeram folhas de palmeira erguidas no vértice de qualquer embarcação logo devorada em águas profundas como se um oceano ousasse romper a cratera do silêncio
Vejamos então se a profecia foi cumprida nas pétalas ainda não marcadas daquele girassol erguido em triunfo na solidão altiva do seu campo
(campo de girassóis para que conste)
e no entanto só um ficou porque os outros em breve se renderam à tentação marítima das sendas por onde se arrastam todos os negociadores
O território das tardes fez-se noite bruscamente em alvéolos rosados de crisântemos ainda não enterrados nas sepulturas de que os espectros fizeram a morada (e era normal que o fizessem)
se não há raparigas solteiras em Lisboa (diz a Gertrudes)
e aquilo que começa torto não se endireita como aquela alegria do pai dele quando estava contente
(e foi em Sintra deu no que deu)
mas farejar a desgraça é o mesmo que ir embora e a ficção ao luar transformou-se em altares a Vénus
Enquanto o pai e a mãe se erguem altaneiros descrentes das concubinas misteriosas
(nem sempre reconhecidas pelas autoridades)
os outrora navegadores sem barco partiram mesmo ficando na praia deserta dos seus amores liquefeitos 10 dicembre A Gravata do Esplendor Perdido
A GRAVATA DO ESPLENDOR PERDIDO
O homem entra pesadamente e faz ranger a porta envelhecida; o seu andar é tímido e mal ousa erguer o olhar cansado. Numa das mãos traz uma mala velha, esburacada e miserável – coçada pelo tempo; na outra amarfanha um pobre casaco de cor duvidosa, aperta-o convulsivamente de encontro ao peito, como se se tratasse de um tesouro querido. O homem traz a morte no olhar e nos passos, nas roupas desfiadas, na mala pendente. O fato amarrotado pendura-se-lhe no corpo débil e, dentro dos sapatos, largos demais, os pés agitam-se penosamente. Os cabelos ralos mostram fios de prata, anunciando a velhice precoce e uma barba incerta enche-lhe o rosto de sombra. Após alguns passos furtivos, o homem pára e olha à volta: é muito cedo ainda, a manhã mal desperta nos cumes distantes. Um céu azul escuro ostenta a luz das últimas estrelas e as janelas abertas deixam entrar uma brisa cálida. Mas o homem tem frio, tem o frio da alma a entorpecer-lhe os membros. A estação está deserta àquela hora. Apenas um velho dorme enrolado num banco e o seu ronco corta a noite que se extingue lentamente. O homem pousa a mala no chão, com carinho, receosamente, e senta-se sobre ela, a medo, apertando ainda com mais força o casaco velho. Senta-se e espera, olhando o chão lajeado e frio. Está imóvel, tão imóvel que parece morto ou, pelo menos, mergulhado no mais profundo dos sonos. Mas não. Ele tem os olhos abertos e mergulha-os no vácuo ou no infinito. Ele tem as mãos crispadas e enterra as unhas na carne, enquanto, convulsivamente, estreita o seu tesouro contra o peito. A manhã clareia, de súbito, mas o homem continua de olhos fixos no lajeado e não se afasta quando um raio de sol lhe vem brincar com os cabelos; nem sequer desperta quando a estação se povoa de vozes e de risos. O homem permanece sentado em cima da sua mala pobre, no meio da estação, agora inundada de luz; permanece imóvel mesmo quando a multidão o empurra e os olhares dardejam a sua miséria. Mas não está morto, nem dorme; apenas se mantém ensimesmado na dor. Um silvo de comboio atroa os ares, depois outro e outro ainda. O homem reage lentamente e acorda do torpor mortal em que se lançara. Levanta-se, penosamente, e parece mais débil ainda, com o fato mais amarrotado, mais sujo, mais indefinido, agora trespassado pela luz radiosa da manhã. No entanto, algo brilha naquele todo pobre e baço, algo que só agora a luz teve poder de revelar. Pendurada no pescoço magro, debaixo de um colarinho lamentável, o homem ostenta uma magnífica gravata. É vermelha, dum vermelho quente, e listas douradas dão-lhe um fulgor bizarro; o homem ostenta-a, como um troféu arrancado à batalha; mas, todo aquele brilho torna mais miserável ainda a terrível decadência do seu ser. A multidão pulula à sua volta e ninguém o vê. Ninguém vê o dorso corcovado que apanha do chão a mala velha; ninguém vê o olhar cansado que, receosamente, se refugia na sombra. O homem está só. Só, entre os que partem e os que vêm, só entre os que dizem adeus com lágrimas e os que se abraçam com risos. Mas, tanta solidão torna-lhe menos duro o peso da sua miséria: ninguém o vê, ninguém lhe presta atenção e, no entanto, ele mal ousa erguer os olhos, com medo da luz e da alegria dos outros. Agora, que está de pé, caminha ao acaso, ainda mais amachucado, ainda mais pobre. Pára, frente a um guichet, e murmura debilmente qualquer coisa. Uma voz ríspida invectiva-o por detrás do vidro; ele afasta-se, vencido, e tenta a sorte nas muralhas envidraçadas que se alongam pelas paredes: todos o expulsam violentamente. Acobardado, abatido, ele vai então colocar-se no último lugar de uma fila que vagamente lhe indicam. Aí fica, como que adormecido, indiferente à paisagem que se desdobra à sua frente, do outro lado das janelas abertas, indiferente à alegria, ao movimento, à vida. Quando chega a sua vez, é interpelado brutalmente; estremece, receoso, dolorido, como cão batido. Depois, febrilmente, desdobra o casaco que mantém apertado contra o peito e tira do bolso três notas velhíssimas, três farrapos sem cor. Com as mãos trémulas, estende-as até ao homem rígido que o observa e, pela primeira vez, há um clarão altivo no seu olhar. Pela primeira vez, levanta a fronte e a sua voz é quase clara: - Um bilhete! Um bilhete... - e o resto da frase perde-se num murmúrio. Do outro lado do vidro ouve-se uma imprecação e uma mão feroz agarra as notas, quase as arranca daquele ser que treme. Estendem-lhe o bilhete e expulsam-no com um olhar de desprezo. O homem sai, outra vez derrotado. A gravata vermelha é agora mais viva na sua cor de sangue e ostenta o brilho como um triste escárnio. O homem tem os olhos marejados de lágrimas e mira o bilhete libertador com um espanto triste. Ele não quer partir, não quer entrar no sorvedouro humano que o engolirá, decerto. Mas também não quer ficar, principalmente agora que tem um bilhete nas mãos e das suas velhas notas nenhuma resta no casaco sujo. Principalmente agora que cortou as amarras, ele tem que partir e caminhar para o desconhecido. E vai. Maquinalmente, arrastando sempre os passos, entra num comboio e aninha-se a um canto da carruagem mais sórdida. Põe a mala sobre os joelhos e espera; ao mesmo tempo, um vaivém contínuo, um vozear áspero vão enchendo a manhã clara de movimento. Mas ele não vê, não ouve, não sente: mantém-se entorpecido, alheio às cores, às vozes e aos risos , mergulhado num esquecimento vizinho da morte. Agora, o comboio rola e o mundo em que penetra é doce e belo: são rios que murmuram, árvores que se agitam, crianças que levantam os braços como se fossem flâmulas e correm de cabelos ao vento. Mas o homem não vê, não olha uma única vez pela janela, nem sequer levanta a vista embaciada. Finalmente, o comboio pára numa grande estação. Sente-se que é o centro de uma metrópole, dado o vaivém ininterrupto de seres e bagagens e por um não sei quê de subtil que perpassa no ar metálico, cheio de vozes e de ruídos de máquinas. Sentado no seu canto, o homem continua fechado numa dor teimosa, que dir-se-ia uma afronta à vida estuante vibrando para lá da janela. Dá vontade de chegar junto dele e gritar: Acorda, homem! Despe os andrajos, arranca essa fita ridícula que enrolas no pescoço, atira fora a mala e os trapos, lava a cinza desse rosto e vem viver! És novo ainda: para quê esse corcovar de velho, essas rugas de angústia? Vamos, olha para a frente, mistura-te com essa gente febril, procura o teu caminho! Mas a verdade é que ninguém grita o «Abre-te Sésamo!» e o rochedo permanece fechado e duro. Os minutos passam. Despertando do torpor, o homem levanta a vista. Contempla depois o bilhete que segura, meio rasgado, entre as mãos e compara o nome impresso no pequeno papel com as letras vivas estampadas na parede branca do edifício. Olha várias vezes, como se não acreditasse e só depois se levanta, a custo; cambaleia e volta a sentar-se. Por fim, abandona o compartimento, desce os degraus da carruagem e pára na plataforma. É um espectáculo confrangedor, esse homem e essa mala na azáfama colorida da magnífica estação. Mas quem se preocupa com ele, quem se abeira daquela imagem de miséria com um gesto, ainda que ténue, de carinho? Ele também não o pede, o nosso vagabundo. Como um sonâmbulo, atravessa o recinto e sai para uma enorme praça rodeada de edifícios gigantescos: o trânsito desliza e deslizam as pessoas e a vida é um rio sem foz, fluindo ao acaso sem saber por onde. Então, ele dá uns passos hesitantes: pesa-lhe a mala rota nos dedos enfraquecidos. De repente, à mistura com o ruído das máquinas e o sussurro da multidão, soa no ar, límpido como cristal, a voz melancólica de um sino de igreja. Sobressalta-se o homem e o susto prega-lhe, de novo, os passos no chão. Mas, à terceira badalada, uma decisão ganha alento naquele corpo frouxo e ele começa a subir a praça em vigorosas passadas. De vez em quando, choca com os outros transeuntes, mas nem por isso desiste ou abranda o vigor da caminhada - quase corre, com os ouvidos atentos ao apelo do sino: é a linguagem universal a clarificar-lhe os pensamentos. Exausto da corrida, o homem chega ao primeiro degrau da enorme escadaria da catedral: por ali esvoaçam pombas e o silêncio reina, imperioso, agora que o sino se calou. O homem começa a subir, vacilante, olhando em frente e muito para cima as torres imponentes; e então, as portas abrem-se, e uma multidão festiva começa a deslizar pelos degraus. Outra vez cobarde, o homem afasta-se, encosta-se ao muro, para não ser atropelado por aquele onda viva: tudo é garridice, fausto e alegria, desmentindo a toada melancólica do sino. Ele está como que estremunhado, encostado ao muro que ladeia a vasta escadaria e é ali muito mais estranho que os pombos em contínuo saltitar entre as pernas da multidão. Fica assim, naquela postura de humildade confusa, durante alguns instantes. De repente, alguma coisa lhe lembra que o faz agitar-se. Sai, lentamente, do canto a que se tinha acolhido, pousa a mala, avança alguns passos e coloca-se, decididamente, à frente da multidão. Olha aquelas pessoas bem vestidas com um sorriso sarcástico que elas não vêem. E só então baixa os olhos, estende a mão e murmura a linguagem universal dos mendigos. Se fordes um dia a essa enorme cidade e se, por acaso, vos lembrardes de visitar a catedral, procurai entre as pombas: lá o vereis, sempre de olhos baixos, murmurando lamentações e estendendo a mão descarnada e suja... e vereis também, entre os farrapos negros do casaco, cintilando de forma bizarra, a gravata do esplendor perdido.
17 novembre A Chegada Pablo Picasso,Duas Mulheres correndo na praia
A CHEGADA
Ontem
dispersei um grão de areia
pelos ares ensonados
e recolhi-o
feito gota de orvalho
Na ponta dos dedos
hímido e esclarecedor
deslizou francamente na pele encrespada
e durante um segundo
percebi
que todos haviam partido
numa viagem por mares e desertos
e que nas sombras de um pôr-do-sol
violento e carnal
(com resquícios de amargura)
flutuavam as asas das cegonhas
negras e rubras em tontura de inverno
Estranhei a paisagem
do interior do meu sonho
estranhei a figura submersa
na luz crepuscular
que outrora me acenara prodígios
e agora se sustinha
hirta
numa despedida
sem voz e sem sorriso
Entrei
por fim
na cabana daquele pescador
que há pouco lançara as redes
e vi-o
quando ele estremeceu
embrulhado no capote dos frios e do sal
Mas logo me sorriu
por entre a névoa dos olhos azulados
tecidos num capricho de rugas gretadas
e me apontou o banco rústico
que conservava
vazio
defronte de si
(Que havia de fazer senão sentar-me e partilhar com ele a refeição minguada de peixe rescendente a algas marinhas e pão escuro e acre da prateleira das privações?)
Não houve entre nós o murmúrio de qualquer palavra
apenas o sorriso
por onde perpassavam
vestígios de ondas
e sobressaltos de marés
e também
um subtil ardor de sal e maresia
incrustado nas palmas das mãos
(Levantei-me por fim com um leve gosto a sardinha no travo da língua e um calor profundo no coração amansado como se ali houvessem fogos insuspeitos em vez dos frios esperados da cabana feita de tábuas carcomidas)
O grão de areia
feito gota transparente
aguardava-me no umbral
e eu segui-o
até à praia
e mergulhei com ele
no esplendor pacífico
de uma maré sem ondas
até longe
Deixei-o depositar-me por fim na ilha
onde me esperava o canto da sereia
que não vi
nem ouvi
porque logo me penetrou a força de um olvido
secreto e profundo
e as pálpebras esconderam
a turgidez de um sono
sem sonhos
ou demências
(E então eu soube que chegara a casa) 17 settembre Sonho![]() René Magritte
Tens no olhar a profundidade dos espaços largos e quentes , a luminosidade da terra fecundada , o calor da seiva, a luz do sol. Tens nas mãos a pureza do menino que és, no fundo de ti mesmo, a pureza e a verdade não manchadas pela escória , que vai perpassando por ti, sem te tocar. És puro. És bom. És verde como um pedaço de relva onde me apraz descansar, quente como a seara que desperta ao sol de Julho. És o meu sonho. A minha luz. O clarão que envolve a própria escuridão, conspurcada no túnel vazio.És precioso, devo guardar-te no mais secreto de mim, devo guardar-te, em mim, até de ti próprio. E no entanto sei que és puro. Mas essa pureza de dentro, essa atmosfera de ar vivíssimo foi revestida, alienada, pervertida.
Dirijo-me ao sonho, ao sonho que sei ser a tua substância. Ao sonho, visível nos teus olhos de cintilações mágicas, estranho a ti próprio.
Com que sonharás tu? Que pensamentos flutuarão em ti, que visão ou que visões alimentarão o teu ser interior? E quem, quem além de mim, ousará fazer de ti a substância do seu sonho?
Nada receies, porém. Guardarei em mim a magia do meu sonhar. Guardarei em mim a tua imagem, sem consentir que ventos adversos lhe roubem a limpidez.
És mágico, envolveste-me. As tuas mãos tocaram-me no prodígio de um gesto: agora conservo a memória do teu calor. Agora conheço o teu calor real e em mim deu-se a fusão: és, tenho-te. E toda eu sou o produto da emoção cativante, do fascínio de ti.
Quero palavras novas, as antigas não servem, quero que renasça das cinzas o doirado quente de uma vida sem mácula! Só assim acederei ao mundo das origens onde a realidade me encontrará, serena.
15 agosto Salvo das águas![]() Claude Monet, Impressão de entardecer, 1872
Salvo das águas
Ias perdido flutuando nas águas no teu cesto de vime e não tinhas nome vogavas somente no torpor da corrente com os teus olhos cinzentos cravados na espessura da floresta que marginava o rio ias feliz ou decerto inconsciente e o que é a felicidade senão o acesso à inconsciência não eras mais que um fragmento de vida planando sobre uma toalha líquida correndo sempre e o teu cesto embalava-te e era como se pudesses dormir mesmo vogando à deriva num abandono que não suspeitavas porque não o sentias não te lembras bem sei dessa flutuação terrível que podia bem levar-te ao fim dos teus dias que podia precipitar-te de borco na viscosidade da corrente e fazer-te enegrecer no fundo do rio ou então talvez desaguasses no meio do oceano e o teu cesto se fizesse embarcação rumo ao sol poente onde a tua face se tornaria incandescente ias e continuaste indo como se ir fosse o teu único destino como se jamais houvesse ancoradouro ou foz para a tua viagem estranha viagem em cesto de vime estranha paisagem de céus diáfanos acima dos teus olhos porém não estavas destinado a sucumbir porque ao longe uma princesa tomava banho nas águas viu os teus olhos cor do céu vespertino e logo ali te deu nome dizendo salvo-te das águas 13 agosto Assombração![]() René Magritte
ASSOMBRAÇÃO
Sopro um sopro vindo do infinito segredou-me o mistério de não haver passado nem presente nem futuro e eu soube que tudo é uno e que a harmonia ronda os espaços interestelares onde me movo em circulos de suave euforia porque não há-de ser suave a euforia se vivemos acima das nuvens e tudo paira num assombro de deuses ignotos eu sei que detestais esta visão etérea de pureza diamantina vós que sempre conspurcais a taça que vos dão a beber mas o certo é que ainda há cristais e orvalhos perdidos na tranquilidade bravia de um tempo que tanto pode ser este como outro qualquer doce assombração esta que vem pelas noites luarentas esfinge de um sonho concreto tão concreto como as vagas abstractas de certas sinfonias para as quais não aparecem ouvidos ou então mosaicos de verdura entretecidos na folhagem eu não sei se sonho ou se estou desperta mas afinal o que conta é a pureza diáfana dos toques da alma e o cetim alvacento da pele adormecida e bem vejo que vogo numa amplidão sem limites à vista 01 luglio Rito![]() René Magritte, Os Amantes
Quis escrever sobre o amor para fugir de vez aos temas de tristeza. Comecei a pensar nas palavras e desceu uma lágrima. Sujou-me o papel em que escrevia e a palavra amor, diluída na tinta, começou a escorrer, a escorrer sem parar.
Rasguei a folha e voltei a tentar. Nada de temas tristes. Há o ódio, há a guerra, há tudo isso que coloca barreiras entre homens e homens. Mas há amor... sim, há amor. E a lágrima que não caiu quando escrevi guerra, ódio, trincheira rebentou mais uma vez e caiu sobre o papel: quatro regos de tinta a escorrer de cada letra e a palavra a sumir-se, a sumir-se...
Que mistério é este? Eu quero escrever sobre o amor! Estou preparada, conheço o tema, estremeço por dentro, sei muito de amor! Ah, estas lágrimas!... teimosas que sois! Não vêdes que me estragais a limpidez do trabalho? Quem vai agora conseguir ler as palavras que vós transformastes em míseros borrões? Não me deixais, caís e voltais a cair, sois um rio, uma torrente de angústia... Que devo pensar? Que todos os temas são tristes? Que nem o amor é a marcha triunfal que conduz aos céus rosados da ventura?
Não pode ser! Se assim fosse, porque correríamos todos atrás do amor?
Outra vez as lágrimas! E eu que queria fazer-vos sorrir, enlevados, ponho-me a chorar e não escrevo...pois quê?! Será que a minha história de amor é triste como uma história de guerra? Será que ela é pungente como o ódio e as trincheiras?
Eu vi o amor, mágico e sublime. Vi-o rosado e transparente como aurora primaveril. Ah que limpidez!
Contemplei-o à distância, com enlevo infantil e cheguei a ter receio de manchá-lo, trazendo-o para mim. Que fazer? Era preciso purificar-me, banhar-me em águas cristalinas, lavar-me de toda a mancha...Oh com que alegria eu despi as vestes e me lancei na espuma, com que alegria eu me preparei para receber a estrela incandescente!
Eis-me sem mancha. Regressou a mim a pureza cândida, e ali está ele, o amor, a magia, o feitiço, estão prontos para se fundir comigo!
Oh com que alegria, com que transporte eu mergulhei nos braços do amor! E os céus rosados abriram-se em fogo e o fogo tragou-me e eu era parte do amor e o amor parte de mim. Que loucura! Como eu era forte, como eu era bela, como eu era grande! A minha estrada só tinha um sentido e esse era em frente e para cima!
Oh lágrimas! Agora embaciais-me a vista, não me deixais ver, eu não sei se há estrada, o nevoeiro cerra-se...
Foste cruel, amor! Mostraste-te rosado e festivo e afinal tinhas espinhos, eras como a rosa cuja cor vestiste... Enterraste os teus dardos na minha pele despida de máculas, não acreditaste que era pura e nobre a minha dádiva!
Oh amor, vê que eu sangro! Cada poro da minha pele é uma ferida que tu abriste: tu! Parecias meigo, cristalino e puro e afinal encheste-me de manchas.
Por onde anda a magia, por onde anda a luz?
Estou só. Estou só e sangra a minha pele. Vê: são rios de sangue e não há água para me lavar. Caí das alturas onde tu me lançaras e só tenho chagas, chagas vivas!
Como a noite é longa! Como dói este passar de horas solitário, este mergulhar nos abismos do engano mais vil!
Oh perdoai-me se vos enganei! Prometi-vos uma história bela de magia e luz e vêde: só tenho lágrimas, pobres lárimas de amor ferido.
Ah dai-me a guerra, o ódio, as trincheiras! São temas menos tristes que este meu amor solitário, grande, grande como o mundo e rodeado de trevas!
Quem tragou a pureza diamantina daqule céu rosado? Fostes vós, dragões da maldade, conspiradores vestidos de cetim? Porque saístes dos infernos a que pertence a vossa casta? Porque quereis transformar o meu sonho de amor no tinir das espadas, porque verteis o meu grande amor em taças de amargura?
Odeio-vos espiões malditos saídos das entranhas. Odeio a vossa raça.
Ele era puro, era mágico, era o meu amor que descia e tornava claro e límpido tudo à sua volta. Mas viestes vós, dragões, vomitastes fogo envenenado sobre as taças da nossa felicidade, espalhastes ódio e violência sobre o que era fantástica ternura... Oh dragões malditos, vêde o que eu tenho hoje, contemplai a vosa obra! Lágrimas, só lágrimas e esta solidão impotente, este ter atados os membros à crueldade do destino.
Guerra, guerra aos malditos que me não deixam viver o meu sonho de amor! Venham, venham finalmente espetar a vossa pele nauseabunda na ponta da minha lança!
Estou aqui. Tenho a força do amor ferido e conheço os meus inimigos. Quem aceita o desafio? Quem vem finalmente bater-se pelas causas do amor e da paz?
Ouvi-me leitores: eu ludibriei-vos. Afinal, sou como os outros. Quis escrever uma página encantada de amor e venturas e eis que acabo declarando guerra!
Fecho-me, calo-me. Neste mundo aleijado, qundo nasce um amor é para que lhe encham a boca de fel e desventuras. 23 maggio Em construção![]() Salvador Dalí
Ao sabor da corrente vogam os melhores pensamentos como se eles próprios houvessem adquirido uma textura líquida onde só o leito permanece e em consonância com o velho Heráclito jamais poderemos banhar-nos duas vezes nas águas sempre várias da torrente do ser
Eles vogam e isto que faço e a que chamo escrever não passa de tradução imperfeita da orgânica das ideias essa imponderabilidade cujas peças podem ser palavras imagens ou coisa nenhuma mas que teimo em esculpir em materia de comunicação
Apanhar o pensamento é apanhar-me com ele e ser simultaneamente sangue órgãos e vértebras e ainda a textura engendrada numa gestalt misteriosa que me torna una face ao mundo mas que em mim se dissolve em pedaços intangíveis próximos do esvaziamento
E então fica o leito da torrente seco e estéril por um hiato de angústia seco como a argila que o sol acabrunhou seco e aberto em fendas duras e profundas salgadas e hirtas até que venha de novo o orvalho matutino e a tormenta os turbilhões nocturnos em tempestade invernal
E logo crescerá o rio lamacento e turvo arrastando folhas secas e pedaços estremes da argila dos fundos até sossegar estirando-se pacífico na senda do mar por onde abrirá o caminho da luz 18 maggio Fábulas e Mentiras (excerto)
René Magritte, A Explicação
A verdade?! Querem-na? Violem as flores, arrasem os campos, escavem trincheiras e comprem armas, profanem sepulturas, mutilem cadáveres. Verdade-conceito, verdade-morte, moribunda, recém-nascida, treva, céu-aberto! Verdade-coerência. Verdade-acordo. Verdade-contradição.Verdade-fenómeno. Epifenómeno. Númeno. Arquétipo. Dicotomia. Transe. Esquizofrenia. Paranóia. Sonambulismo lúcido. Lucidez onírica. Verdade-símbolo, que tanto pode ser como não ser, estar como não estar. Verdade - Homem: medida de todas as coisas. Medida que a si própria não foi capaz de medir, medida que a mentira corrompeu, medida cujo metro não tem padrão, arcaboiço impalpável, flutuante, cujo esqueleto chocalha em qualquer esquina, com qualquer vendaval. Homem. O idêntico. O uno. O mesmo. Aquele que se move, aquele que tem pés que o levam rumo ao destino que ele próprio estabeleceu, arrogantemente, desfrutando um destino não desfrutável. Homem suicida correndo atrás da nuvem que ignora para onde vai, que segue o homem que por sua vez a segue e é seguido. Como um espantalho pendura-se nos campos de trigo, de braços abertos, espanta pássaros inexistentes, que apesar disso comem todo o trigo do qual, apesar disso, os homens fazem pão. A verdade, não se esqueçam da verdade, ouviram? Procurem-na. Vêem ali aqueles baús carunchosos, aquelas malas ferrugentas, aqueles sacos cheios de bolor? São, sem dúvida (porque haveríamos de duvidar?) os fiéis guardiães da verdade. Procurem-na, abram as malas, violem os baús, rompam os sacos. Perguntam-me pela chave? Ah, não existe, aliás, nem fechadura, já deram conta? Mas violar é terrível, não é? Só que eu digo-vos: a verdade é aquilo que vedes ali. Minto?! É claro que minto, não estou a ver nenhum baú e, ainda que o visse, de que serviria vê-lo, se vós não vedes? Perdoai-me. Podeis? Não, é claro, ninguém perdoa ser enganado: por isso a vida é um eterno rancor, uma eterna discórdia de ofendidos em busca do ofensor, de ultrajados sem bode expiatório. Ah, já lá volto! Foi aquela teia de aranha que me enredou e já a aranha me pedia desculpas. Na sua fome viu-me mosca, eu fui a verdade do seu apetite. Tal como vós na vossa fome de certeza, vedes a certeza em qualquer miragem, a lua cheia em qualquer charco estagnado. Chegou o tempo da lua cheia, perfumada e dúctil, espinhosa e plena de cetim!...Lua cheia... Cheia de quê a não ser da ilusão branca, do conceito aleatório, do leite, sim, do leite que o úbere das vacas rejeitou num esguicho e projectou no céu a via láctea. Ah, lua, rejeito-te. És falsa, quarto minguante, pequeno halo no negro do céu, lua-planeta, mas zero, zero, zero... A verdade, não se esqueçam dela ouviram? Tenho ali paradoxos infindáveis e todos eles exalam perfumes estonteantes, verdades irrefutáveis. Escavem, escavem sempre. O mapa do tesouro escondido aponta para baixo, não acreditem naqueles que levantam o dedo... é debaixo que nasce a fonte. Sabem por que razão os homens lutam, porque discutem, porque colocam entre si fronteiras e grades? Ah, é uma simples brincadeira, não os tomem a sério, brincar é a única ocupação que resta e viver, afinal, é um luxo. Um luxo! Ah, vaidosos, arrogantes, comprastes essas vidazinhas crista de galo, corno de touro enfurecido? Comprastes? Claro, só que a moeda era falsa, como toda a moeda, aliás: fostes iludidos pelo brilho, qualquer brilho ilude, o brilho é nada. Mas o meu tema é só, unicamente, a verdade. E a verdade muda, muda, muda. VERDADE, prestai atenção.
Este V de verdade chama-se letra, é a 21ª letra do alfabeto, até. Estou a ser exacta? Pois. O V existe e tanto existe que lá está, alinhado entre o U e o X. É importante. Tem um lugar. Soa. Ressoa. Sibila. Chama-se também consoante e o meu dicionário diz que significa conveniente, logo deve significar porque um dicionário é... UM DICIONÁRIO, uma autoridade, tem a verdade, e o V é a primeira letra da verdade. Começamos bem, como vêem. O V é conveniente - convém - é coerente, existe, como duvidar? Ora reparem: V. Pronunciem. Pronunciaram? Que tal? Podem acaso duvidar da conveniência absoluta, irrefutável, da letra V sem a qual nenhuma verdade seria possível? Continuo? Bem, segue-se-lhe o E, 5ª letra do alfabeto... será que estou a convencê-los? A segunda letra, sem a qual a pobre verdade jamais poderia ser pronunciada, também existe: é a 5ª letra do alfabeto, está lá, perfilada, redondinha, entre o D e o F. Chama-se VOGAL, serve para chamar, ora experimentem! Experimentaram? E então? Convencidos? Pois é, acho que vos demonstrei, irrefutavelmente, que a verdade existe, é formada por elementos que ninguém jamais conseguirá contestar, tal como os átomos, as células, as partículas mais difusas sem as quais nada existiria. Ah, dizem-me que estou a ser ridícula? Pueril? É claro, mas isto de palavras é mesmo assim: ridículo, pueril. Reparem. Nós dizemos VERDADE, sete letras firmes, absolutas, inegáveis. Os ingleses dizem TRUTH, outras letras, também elas absolutas, inegáveis. Os gregos dizem ALHQEIA (ALETEIA) e, também eles não ousarão negar o valor de cada som, de cada símbolo. Os russos escrevem PRAVDA e ei-los convictos da verdade da sua pravda... ridículo? Pueril? Verdade, truth, alhqeia (aleteia), pravda... reparem, olhem, muda ou não muda? Existe ou não existe? Não vejo mesmo que problema mais profundo poderíamos nós descobrir para os nossos ócios comuns. Falem da física. Da química. Matérias profundíssimas, seriíssimas, o auge. Mas todos os dias os químicos e os físicos resolvem problemas cada vez mais intrincados, cada vez mais aproximados da explicação definitiva e final, da verdade! E, apesar disso, essa tal verdade, que eles, físicos e químicos, resolvem em equações sapientíssimas furta-se à unanimidade!... Estou a ser superficial? É claro, tinha que estar e vós tínheis que dar conta disso: afinal credes-vos sapientíssimos. A verdade não pode ser uma simples palavra!... A verdade é qualquer coisa! Qualquer coisa?! Por exemplo: uma rosa? Uma couve? Um coelho? Um carrinho de mão? Que horror! Que falta de gosto nos exemplos! Decididamente, sem a vossa ajuda não poderei avançar muito no capítulo da seriedade que viveis a reclamar. Dizem que por detrás das palavras há as ideias. Logo, as letras da palavra verdade são o suporte concreto de uma ideia qualquer. E agora paro. E fico com a caneta na mão, com os olhos em alvo, estupidificada, paralisada - ou melhor: fiquei uns momentos até que saí do marasmo para vos dizer que por mais que procure, que revolva sem cessar as areias movediças do deserto cultural dos homens nada mais encontro que palavras. Ou pedras. Ou cimento. Ou ferro. Ou bronze. (Interrompo a lista.). Quanto às ideias (mas o que é uma ideia?...) não posso continuar uma vez que escrevi aquele parêntese. (Uma ideia é o suporte de uma palavra, que, por sua vez simboliza uma ideia, que ainda por cima pode simbolizar um objecto que foi construído com base numa ideia e que, por isso mesmo, existe. Compreenderam?) E então a verdade existe. Quem disse que não existia? Ninguém, que pergunta absurda! A verdade existe
Olhem:
V-E-R-D-A-D-E
Por causa destas sete letras morreu Sócrates (por acaso em grego também são sete, mas é só por acaso, acreditem-me); por causa delas Kant levou uma vida murcha; Nietzsche enlouqueceu (interrompo também a lista e não falo em Cristo que foi pregado na cruz com pregos que também eram a verdade em judeu.) Por causa dessas sete letras os homens lutam, roubam, mentem... sim, mentem, não estou distraída, mentem por causa da verdade... porque a verdade é uma mentira, sabiam? Logo, eu afirmo: a verdade existe e é muito importante. Embora, é claro, a verdade seja muito mentirosa, muito hipócrita, horrivelmente dissimulada. É a justificação dos filósofos, esses impotentes, incapazes da ejaculação miraculosa que tudo resolveria. Eu sonho com um livro em branco, com uma única palavra, escrita na única linha, da única página. Sonho, digo bem. E essa única palavra, escrita na única linha, da única página seria sabem o quê?
Verdade!
Compreenderam? Claro que não, para que estão para aí a acenar com a cabeça dizendo que sim? Assemelhais-vos aos asnos a sacudir a mosca. O vosso orgulho impede-vos de confessar ignorância, perplexidade? Deitai o orgulho à valeta e raciocinai um pouco. No dia em que a verdade se revelar, todos os livros, todas as construções humanas vão perder o sentido e então a palavra verdade fará sentido. Já não a quereis? Claro, tendes medo. O nada é horrível, pensar o nada uma abominação. E então vede bem: Verdade = Nada. Esgotei o assunto? De modo nenhum. O nada é de todos os temas o mais inesgotável e sobre o nada é possível escrever volumes, construir arranha-céus, esculpir estátuas gigantescas. Não vedes? Em cada coisa, em cada átomo, em cada sombra há a semente do nada. Aliás, o nada é a essência de todas as coisas. Ah, o nada! A negação! A inexistência! A inessência! (Fim da lista.). O nada é belo. É escuro. É vazio. É fechar os olhos. Adormecer. O coração parou. O sangue gelou. E então tudo começa, porque não haveria de começar já que o nada existe se eu falo nele, se eu tenho a palavra que o amarra à existência com o nó das letras, com o suporte das ideias, com o parafuso da lógica? O nada está lá, pendurado no tecto da vida, como sua luz tenebrosa, seu archote invertido... o NADA! Se nós falamos dele, como negá-lo depois? Dizendo que não dissemos? Metendo a mão ao bolso depois de com ela agarrarmos a essência com que o construímos? Eu encontrei muitos nadas no caminho: nadas de gente, nadas de paisagem, nadas de beleza, nadas de horror, nadas de miséria, nadas de memória... nadas, nadas, nadas... E todos eles eram verdadeiros, garanto. Eu apalpei-os, vi-os, cheirei-os, ouvi-os...ah, como negar que eles existem? Oiçam. Estou a escrever sobre a verdade, apetece-me possui-la, sou muito ávida, sou ambiciosa, jamais me contentará apanhar as migalhas que caíram do prato dos outros. Reparem: só eu conto neste universo atravancado de espaço, prenhe de matéria, ou de energia, ou seja lá o que for que os químicos inventaram para designar o fermento invisível que tapa todos os buracos. Só eu conto, só eu existo, só eu tomo consciência de mim. Eu sou a verdade! Mas esta palavra EU, de repente, como que carece de um conteúdo mais potente que o meu próprio arcaboiço corpóreo, a palavra EU está assim como que pendurada numa abstracção que a ninguém interessará, decerto. Deixem lá, não vou riscar a palavra EU já que, cada um de vós ao repeti-la, modificará a frase. Ora digam: Eu sou a verdade!
Disseram? Então, entenderam onde quero chegar? (Que importa que tenham entendido ou não?) A vida, falemos da vida. A vida são formas e há-as de todos tamanhos e de todas as espécies, para todos os gostos. A vida é esta sensualidade, este querer agarrar, assumir em nós o que não somos nós, a vida é querer possuir, penetrar, fender. É a loucura dos sensatos, irremediavelmente condenados a ser loucos no tempo já que a sensatez é a antítese da vida, a coerência, a morte de toda a coerência, cujo único sentido é ser incoerente, fatalmente desprovida de senso, totalmente desrazoável, num mundo de razoáveis sem razão. Dizei-me: qual a verdade da vida? Qual a verdade do ser? Deram-vo-la as máximas dos filósofos? Estais satisfeitos com as alquimias misteriosas dos cientistas despenteados de todos os tempos? Se vo-la deram porque continuais à procura? Vamos deitar-lhes fogo? Atear um imenso incêndio de conceitos e fórmulas infalíveis? Que belo! Que archote fantástico! Quais Neros ante Roma incendiada, poderíamos tocar na cítara o poema cínico, a melopeia sublime, a sinfonia intraduzível em sons. Neros, sejamos Neros, incendiários das Romas corruptas dos falsos sistemas e das fórmulas vãs. Nós próprios que temos de menos corrupto do que esse Nero pejado de vermes? Nós próprios que virtude alardeamos que não seja sinónima da arrogância do Nero romano? Então, vá, peguem no archote e incendeiem Roma! Já sei a resposta. Sois pessoas sérias, respeitáveis, tendes escrúpulos morais, receais matar inocentes e acumulastes tantos bens, apegastes-vos de tal modo aos vossos patrimónios materiais e espirituais que jamais iluminareis o mundo. Porque o fogo ilumina, mais, o fogo purifica. E vocês sabem disso, vocês são espertos e sabem também que uma vez queimado tudo isso que apoia a vossa existência teríeis a visão do nada, essa visão no escuro, e, como crianças, tendes muito medo do escuro.
28 marzo Gelo
Claude Monet, Femme à l'ombrelle tournée vers la gauche
No alto da montanha envolvi-me na aragem cortante e deixei que os poros se encrespassem todos na corrente diáfana do gelo feito emanação e soube (nas solidões dos píncaros nevados onde o sol espraia um brilho de prata e só o silêncio responde ao rugido do vento) que não tenho a vocação das trevas não me agradam os abismos pesados repletos de folhas putrefactas onde dormem ratazanas (não as odeio a elas esses seres de olhos vigilantes que habitam o esgoto dos homens mas também não quero que elas sejam minhas companheiras ) a todos prefiro águias cujo ninho inexpugnável me lembra a necessidade urgente de estar só 09 febbraio Grito![]() MUNCH, O Grito
Não sou nada para ti não faço falta não consegui entrar deixaste-me pendente às portas de ti resta-me o vazio ser amigo é estar presente é ser solidário é dizer estou contigo mesmo longe e compreendo-te ah como podes tu compreender-me e eu iludi-me criei um mito em mim transformei-te nas paisagens que tu amas e amei-te nelas e com elas mas essa emoção é apenas uma parte de ti a menos importante tudo o mais se agiganta te envolve e te afasta do meu mundo secreto que importa dizer-te és artista por dentro tu ris e não acreditas só eu to digo e estou em minoria entraste no stress no quotidiano turbulento em que não há tempo para o insólito em que o não habitual é estranho e se rejeita sou o não-habitual como podias amar-me tu a mim não era preciso teres-me dito isso que eu sempre soube dizê-lo assim doeu mais valia deixar o silêncio actuar deixar a verdade germinar sozinha amo o silêncio em ti e na vida o silêncio que fala como a música que nos pôs em uníssono tudo o mais é vão as tuas palavras só podem ferir-me as tuas palavras afastam-me empurram-me atiram-me para longe de ti com palavras tu matematizaste o meu lugar em ti tenho o número x na tua vida sou um ponto e a minha hora só chega depois de uma duas três quatro cinco seis sete urgências satisfeitas deveres cumpridos prazeres usufruídos saciedades experimentadas divertimentos realizados a minha hora assim não chega nunca a não ser que a roubes ao que está antes de mim que já lá estava e que lá continuará depois de mim A crua realidade é esta tudo o mais é o meu sonho a minha esperança a minha projecção o meu fluxo emotivo eu amo-me a mim em ti é por isso que te vejo artista é o meu querer que o sejas que entres na minha órbita na minha dimensão é o meu querer que não fujas para a aridez calculista fria dos projectos mecânicos das construções graníticas sem laivos de humanidade é o meu querer que os teus olhos permaneçam verdes cheios de brilho que não percam a beleza e o calor que sejas sempre solidário quente receptivo mas vais tornar-te muralha pedra betão vais esculpir a tua alma no cimento na argamassa no tijolo e vais tornar-te oco rectilíneo pesado e frio todos acharão que te tornaste um homem a sério todos dirão que é essa a face verdadeira da vida só eu chorarei o verde dos teus olhos a pureza perdida dos teus gestos a timidez tocante do teu ser Se deixarei de amar-te nunca és em mim muito embora não queiras e eu perdoo-te é que não sabes o que eu sou nem sabes o que és Ofereço-te este Alberto Caeiro este guardador de rebanhos sem rebanho ele foi o ponto de partida de Pessoa e o meu ponto de chegada quando sentires se sentires que te estás tornando demasiado frio calculista demais abre-o ao acaso e lê reencontra-te há um Alberto Caeiro escondido em ti acredita nesta verdade tua que eu te revelo não te negues negando-a 02 novembre Dama Esqueleto
Salvador Dalí
Para o Fauno, no dia do aniversário!
A MULHER vestia-se pendurando o esqueleto num espelho que lhe devolvia carne rósea, que lhe mostrava formas perfeitas, nenhuma mulher se vestia porque, afinal, o espelho tinha um reverso de corredor sombrio por detrás do tempo. Ela arrastava um manto sibilante cujas campainhas se entrechocavam nos sons das cadeiras ali colocadas para que em cada uma se sentasse e repousasse o dorido esqueleto sem alma. Nenhuma mulher havia, afinal, porque a caveira reluzia e regressava o fantasma sem abóbora, mas com os dentes todos, podres, rolando pelo chão como diamantes falsos, cintilando, contudo. À porta do quarto erguia-se o centauro e foi a parte cavalo que, abanando a cauda e levantando as ferraduras de cristal, rodou a maçaneta carnuda... para que ela entrasse pelos vestígios de umbral e penetrasse nos dosséis transparentes dos leitos pendurados em rosas de banhos de princesa, e foi a parte homem do centauro alado que escoucinhou na fechadura temendo, raivoso, que a dama esqueleto partisse o jarro de cristal da poção milagrosa. Nenhuma estrela no céu recamado das íris vagabundas, nenhum luar na planura coberta do sangue infiel, nenhum regato murmurante nos desertos areentos da vida sem tempo. Quando se ouviu o grito, precipitou-se a sombra que o espelho guardava e uniu-se ao esqueleto baloiçando tristemente no espaldar da gelosia escancarada, doravante corroída pelas iras ferrugentas de não sei que dilúvio. Outra lua cheia acabou roubando o halo das cruzes em cemitério de campas rasas e ninguém agarrou o estertor vagabundo dos mortos aparentes, corrompendo o saibro onde os ciprestes tombam. Não fechem o espelho, deixem-no projectar a imagem distorcida da multidão torcida, deixem-no sucumbir à ameaça do azar do gato negro cujos olhos verdes são o vermelho de sangue na retorta do alquimista fáustico. Frankenstein, Drácula, Mister Hyde (interrompo a lista) outros terrores da sombra surdidos em noites românticas de byroniana tortura, cavaleiros de Walter Scott e de Allan Poe, medindo o espaço com pêndulos feitos de corações humanos, no terror do espelho perseguindo a dama de vestido de arco-íris.
Regina Sardoeira, Fábulas e Mentiras, 2005
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