| Profilo di ReginaLUZ - REFRACTADAFotoBlogElenchi | Guida |
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26 novembre TATUAGEMTATUAGEM
Vives tatuado em mim como um despertar como um sol maduro como um rubro poente na orla do oceano
Mesmo que o teu corpo se alongue e perca por outros lugares noutras dimensões e a tua voz se ausente por um momento ou dois
Mesmo que o abandono se anuncie e esculpa crateras de olvido nas raízes todas do meu corpo exangue (na fonte escaldante do meu ser desperto)…
Quando vens e trazes em oferenda estreme o sopro vibrante (da tua humanidade ) quando vens e trazes no calor da pele mil verdades perdidas mil sonhos adiados quando vens e banhas com o poder da luz o lugar de ti (e reverberam sóis e fulgem labaredas) sinto escaldar o meu ventre aflito e rompo as fronteiras com que amarrei (um dia) o meu corpo vago à minha solidão
Vives tatuado em mim como um outro eu que vagueia alhures mas que em cada instante posso fazer chegar aos sentidos que tenho despertos e vivos pelo poder de ti pela chama que és pela torrente infinda que ainda vai brotar amanhã amanhã amanhã um dia
24 novembre Só Dentro de MimSÓ DENTRO DE MIM
Os sítios não existem
os sítios são memórias
evocações
e logo lendas
e promessas de infinito
Naquela noite eu tinha fome na alma
e luz no coração
e também num lugar recôndito
o desejo do abraço
daquele
indeciso
mas firme
trocado numa despedida incipiente
de outros
(mais intensos
mais reveladores
mais audazes)
e soube que tinha que ter
braços
capazes de te cingirem
braços
capzes de te fazerem
sentir
e ousar
e querer arriscar
para lá das luzes da noite
(que hoje tinham
o brilho opalino da tarde
e o rigor translúcido
de um céu inebriado)
Ainda preciso de ter
os meus braços inteiros
para ser o meu próprio amante
e ter
(ao mesmo tempo)
o furor de amar
porque o solipsismo arrasa
o meu ser desperto
para diálogos esvaídos
na penumbra das noites
sombras flutuando
no capricho das paredes
silêncios arrevesados
no torpor da língua
Eu seguro o mundo
por onde viajo contigo
na cadeira que deixaste vazia
no nicho de onde te sumiste
na cratera gélida
onde perpassam
ecos vagabundos de uma voz
que não tem o vigor que é preciso
de uma voz que emudece
numa concha atirada à praia
(fértil de promessas
avara de tesouros)
Foi aqui
(estás a ver)
quando o rio cintilava
no escuro
e as luzes das casas
(negras)
se espelhavam na cortina obscura
e eu hoje abri
o brilho incandescente
que naquela noite
estava dentro de mim
(só dentro de mim)
21 novembre Segredos
SEGREDOS
Tenho na ponta dos meus dedos a memória de ti: de olhos abertos ou fechados percorro-te lentamente e sei o que cada um deles me segreda de ti
Tenho-te nas narinas e sei (de olhos abertos ou fechados) a flutuação de cada um dos teus odores e o que cada um deles me segreda de ti
Tenho-te na minha língua nos meus lábios e (de olhos abertos ou fechados) acedo aos teus sabores plenos e ricos e preservo o que cada um deles me segreda de ti
Tenho-te nos ouvidos conheço o bater do teu coração a leve sonoridade do teu beijo a música indecisa com que os teus dedos perpassam em mim e sei o que cada um desses sons (quase indiscerníveis) me segreda de ti
Tenho-te no gume do meu olhar absorvi cada ponto do teu rosto e desenhei-o na minha mente com um rigor tal que (mesmo às escuras) conheço o caminho para os sítios mais recônditos da tua expressividade: e o teu corpo todo plana na minha retina sei onde começas e onde acabas e moldar-me a ti no local exacto que o meu sentido total exige acontece sem sobressaltos: e sei o que o meu olhar acutilante me segreda de ti 19 novembre QUANDO TE VAIS
Odilon Redon
QUANDO TE VAIS
Quando te vais o mundo acaba a noite desce (sem luar sem estrelas) quando te vais um frio rompe da cratera do meu peito e envolve-me o corpo e deixo de existir
Já morri (muitas vezes) morro sempre que o teu rosto desaparece no gume da porta que o teu sorriso esvanece na atmosfera dos meus sítios que o teu calor esfria na orla do meu rosto
É uma forma de morte (esta) que me acontece no limiar da tua ausência é uma forma de morte (esta) que experimento no abandono em que se verteu a minha solidão é uma forma de morte (este) desejar-te no vazio em que me lança o buraco cravado nos sítios onde derramaste o teu poder é uma forma de morte (estes) suspiros perdidos pelas paredes (surdas fechadas) sem ecos sem histórias por muito que o meu olhar as interrogue
Morte (morte) essa vida ao contrário essa respiração sustida esse bater parado (do coração)
Morte (morte) que eu não quero que eu não quis mesmo no auge da tentação do sangue
Morte (morte) não sabia que ia falar-te de morte neste prenúncio de vida não sabia que ia acontecer-me a morte neste súbito nascimento não sabia que dobrariam os sinos no repique que marcou o despertar
Mas não não é morte (mesmo sendo) não é morte (mesmo abrindo buracos de sombra no meu ser) não é morte (mesmo que eu vista o tecido negro da treva e do luto)
É a descida ao labirinto depois da subida ao cume é a perdição do subterrâneo depois da entrada no plenilúnio é a certeza da fome depois do banquete na abundância é o sentimento de privação depois da alucinação orgiástica é a sede a fome o frio depois das bebidas sumarentas que me deste dos repastos jucundos que me serviste do lume abrasado em que me derreteste
Agora quando não vens ou quando te vejo atravessar as minhas portas e o rasto que deixas se vai perdendo (sem de todo se apagar) fico perplexa e tensa como se não existisse como se nunca mais fosse sentir como se uma treva profunda fosse embaciar o meu dia para sempre para sempre para sempre 16 novembre FOSTE
Odilon Redon
FOSTE
Esvazio-me Perco densidade Flutuo num limbo de onde se esvanecem corporeidades de onde solto as pontas dos fluxos carnais
Imponderável esculpo-me (como apenas essência) ascendo ao etéreo (e já não sei se te encontro)
A neblina encostou-se às paredes do meu ser e aprisionou a minha luz
Acedo ao intervalo e aguardo os passos corpóreos da próxima escalada
Exangue quase não vejo quase não oiço quase não toco perpasso pelos ares (como uma esfinge) e segredo-te palavras (que não ouves)
Bruscamente pairamos em universos paralelos e o meu braço pende adormecido e indeciso por entre brumas estelares e poeiras siderais rodando sem parar por entre sóis e nevoeiros por entre estrelas cadentes e auroras boreais
Um impulso levar-me-á até à polpa dos teus dedos até ao gosto dos teus lábios
Outro impulso arrastar-me-á para solidões abissais onde devorarei o vazio e a negritude de mim em mim (de mim para mim)
Um minuto basta para que o olhar se transcenda e tudo se plasme em lençóis submersos de olvido onde te perco (e por onde me perco)
Mais tarde encontro-me e pairo Mais tarde ergo-me do adormecimento por onde entrei em ti (e de onde saí) e não me reconheço
Quem sou eu deste modo submetida à entrada de um mundo que não sei se me pertence Quem sou eu deste modo atirada sobre abismos no meio de pontes sem chão para firmar o correr dos meus passos
A noite construiu um muro de esquecimento por entre pensamentos encerrados nos portões da consciência tragados no amanhecer e na urgência de partir
Esvaiu-se a promessa Desenleou-se o sonho Fortalezas delirantes amassadas em poderosas estruturas de sólidos compromissos fizeram ruir o ideal
Um travo de pavor alimentou o dia Um esgar de surpresa incendiou a névoa Um ruído de asas obliterou a presença
Foste 11 novembre PARA TI
René Magritte
PARA TI
Quero que se calem todas as vozes (estas e aquelas) que atropelam o gume acerado do silêncio de mim e que nenhum ruído atravesse o umbral esculpido às portas do meu ser .
Não entrem que ninguém entre!
Agora é o recolhimento a reserva o retiro agora é tempo de mergulhar a sós no lago turvo agitado pelas vozes dos outros.
Agora é tempo de perguntar à minha alma que alimento dar ao corpo exangue que fome esconjurar que sede apagar que frutos retirar de todas as árvores que esplendores solares deixar escorrer nos muros da minha sombra.
E tu que me levas para o meio dos outros (sem de facto levares) tu que entras na minha solidão (sem de facto entrares) tu que me sorris e me abraças como se fosses o outro de mim (sem de facto chegares a sê-lo) tu que entrelaças no meu o teu corpo vibrante (sem de facto te dares) tu que te abres em mim como fruto maduro (sem contudo deixares a semente fluir) tu que fendeste os portões da minha morada (sem contudo passares para além do umbral) tu que deixaste o meu corpo acender clarões de euforia a minha mente encandear-se em torrentes de júbilo a minha alma crescer em transportes de luz o meu ser agigantar-se para além do infinito tu não sabes que choro e que sofro e que rio e que o meu soluçar explode na noite e que já me esvaio em lágrimas e sangue?
Tu aí no teu solo quente e tranquilo: Não vês que o frio me entorpece a carne? Não vês que a inquietação me põe picos de angústia nos poros do ser?
E contudo por debaixo desta névoa deste gelo desta onda há águas serenas e límpidas mananciais de cor esplendorosos fontes de cristais imaculados sóis irradiantes de alegria e tudo corre para ti para ti para ti! 05 novembre Miasmas![]() ~
Lord Leighton Fredrick (1858),O Pescador e a Sereia
MIASMAS
Longe perto
(ora longe ora perto)
e contudo
estás sempre impresso
no tecido do meu ser
Dúvidas e certezas
picos e profundezas
e um sol nasce acima dos montes
enquanto uma lua se abate
na planície deserta
e estamos lá
no dia emergente ou na noite apagada
(e o rumor dos outros entrou pelas janelas
eras tu que o trazias agarrado ainda ao corpo
eu soube
eu vi
um rumor
feito de atmosferas mórbidas
que te pesavam nos ombros)
Sabias que trouxeste para mim
o hálito alheio
(a respiração
o odor)
e eu
(limpa como o ar nevado das montanhas
livre como uma rajada aberta ao rés da maresia)
recebi-te mesmo assim
sem questionar
sem querer saber de onde vinhas
(quando aqui chegavas)
que rastos trazias
(colados ao toque do teu corpo)
e deixei-te entrar
nas esferas
por onde nenhuma corrente passara
nos recôncavos secretos
inviolados
em espera de ti
Sabes que eu sei
que outros braços
costumavam cingir-te
e a outro corpo te colavas
(e contudo
não neguei a raiz do meu ser
e entreguei-te tudo
sem esperar retorno)
e hoje
aqui
por onde passam as memórias de ontem
(feitas eternidade)
por onde escorrem ecos
e flutuam
pequenos adejos de asas inefáveis
vejo-te
e não te vejo
conheço-te
e desconheço-te
e ora são trevas a esmagar-me a lucidez
ora clarões transcendentes
me deslumbram o olhar
Saberei erguer-me
(e resistir)
nas ondas desta procela
estarei à altura
de assimilar
contradições vindas
de lugares remotos e obscenos
e acender tochas balsâmicas
capazes de diluirem
a sombra dos miasmas?
Saberei trepar
sobre a minha cabeça
sem consentir
que me estremeçam as entranhas
no momento da entrega
na hora extrema
em que o pensamento trai a embriaguez
e bruscamente sei
que não sou a única
que não fui a única?
(Estranho
estranho modo de te pensar
hoje
precisamente hoje
que te apartaste de mim) 01 novembre Lume (continuação) Egon Schiele
LUME (continuação)
Ah sim o amor intangível por entre esferas siderais arrastado em poalha de estrelas cadentes elevado ao empíreo onde os arquétipos planam numa etereidade imperturbável e contudo violentamente expulso da mansão ideal para cavernas iracundas onde os prisioneiros torcem o corpo todo tentando ver as sombras estultamente agrilhoado a caprichos do pensamento e dos sentidos arfando miseravelmente num breve delírio cedo enterrado em sinfonias de música nula
Ah sim o amor esta ilusão de humanos contra humanos de humanos através de humanos de humanos por detrás de humanos de humanos raramente frente a humanos de humanos perdidos na própria e pequena humanidade de humanos esquecidos da aura divina que lhes emprestou grandeza do sortilégio infinito que lhes doou omnipotência da profundidade submersa nas fontes primordiais onde ruge a imensidão
Ah sim o amor e eu e tu com a face oculta e o sorriso a enviesar-se no meio dos outros com o corpo tenso e a mente tecendo estranhos corrupios estando ali como se não estivéssemos e depois uma pungência a doer na raiz do ser que ora é inefável e meiga ora arrasta turbilhões de angústia e de medo
Ah sim o amor e o sol e a lua e a claridade entrelaçando arabescos na noite e a noite ensombrando o viés da manhã e no rugir da tarde os temporais desarvoram em torrentes nunca anunciadas e contudo violentas e contudo visíveis e contudo vibráteis
(Não cantei o amor e sim cantei-o nas suas inextrincáveis perversões na lucidez aguda das suas antíteses no lume que incendeia o peito ofegante dos amantes que fomos que somos que seremos) LUME Egon Schiele
LUME
Ah sim o amor estas pequenas entregas de um pedaço de nada estes pequenos oásis no seio de muitos desertos estas pequenas sementes deixadas ao vento estes pequenos tudos afogados em oceanos de vazio (e eu no limiar do desespero quero abarcar grandiosas epopeias onde flutuariam cânticos exaltados e os anjos se anjos houvesse teriam asas infinitas com que limpariam firmamentos obscuros) (e eu no delírio consentido de emoções cristalinas e primevas quedo-me como se não tivesse voz nem sangue nem nada quedo-me como se precisasse de esconder-me por trás de arame farpado e arrastar pelo chão a minha sombra quedo-me agarrada à força num assento duro querendo saltar para o outro lado e abrir os braços quedo-me numa compostura que nada diz de mim do meu ser do meu sentir e desvio os olhos de ti para outros lugares querendo prender o desejo e contudo dando-lhe a abertura possível por entre o ruído dos outros)
Ah sim o amor essa quimera inventada às portas da insensatez construída no limiar da melancolia engendrada nos píncaros da solidão essa mistificação de almas que irrompem pelas armaduras insolentes da carne e nada deixam impoluto ou incorrupto e logo se abatem embrutecidas no silêncio do eu alienadas na prisão da pele e dos poros nas linhas da mão e no tecido encrespado do corpo todo
29 ottobre VÊS A LUA CHEIA?
VÊS A LUA CHEIA?
Olha amor, vês a lua cheia? Eu sou a lua cheia. Vê como ela se expande grávida no céu pontilhado de astros em olvido! Vê como ela reflecte a luz imaculada da sua gestação num mar extremo de pujança láctea! Eu sou a lua cheia.
Olha, amor, vês a lua cheia? Um deus desconhecido impregnou-a do fermento vital e eis que ficou pronta para iluminar as trevas e render o dia. E eu sou a lua cheia.
Um crepúsculo vibrante fez nascer o astro dos lados do oriente e poisou sobre os montes um instante apenas a tempo de encantar o espaço sideral. E eu sou a lua cheia.
Olha, amor, vês a lua cheia? Agora pende no tecto do firmamento isolada dos seus iguais e fulge e refulge apagando vestígios de negrume incendiando tenebrosas vastidões fazendo inveja ao astro incandescente que lhe deu substância e se retirou. Eu sou a lua cheia.
Olha, amor, vês a lua cheia? Tu és o astro fecundante tragado pelo ocaso o sol que lhe deu o plenilúnio e descansas do outro lado enquanto ela vive a glória da sua gestação. Eu sou a lua cheia.
Mas olha, amor, vê a lua cheia. Em breve dará à luz farrapos luminosos que dela partirão para escuridões alhures e minguará serena no esplendor nocturno. Em breve o seu destino lhe arrancará a plenitude e poderá perder-se vazia e invisível até que o sol regresse e queira fecundá-la. Eu sou a lua cheia que não pode derreter seu bojo poderoso em poalha luminosa em cintilações astrais de vida enclausurada. Eu sou a lua cheia fecundada por ti em ritual secreto e contudo presa ao perene plenilúnio abrasada em mim afogueada em mim amarrada ao contínuo agigantar do meu excesso e não vejo os quartos minguantes do descanso do meu ser crescido e acrescido em simbiose múltipla
Olha, amor, vê a lua cheia. Ali me encontrarás feita desdobramento do sol de que também sou matéria e luz e me deu a vastidão vital de novos mundos que urgirá vazar em leitos de ternura28 ottobre (NÃO) QUERER
Forget-me-not
(NÃO) QUERER
Não quero a insensatez pusilânime do ciúme (ou o delírio acobardado da posse) Não quero a fragilidade indecisa da carência (ou o tactear convulsivo da dúvida) Não quero o vazio aterrador da ida (e o suspiro ansioso do regresso) Não quero a partilha forçada dos espaços (e a submissão contrafeita do estar) Não quero a rigidez construída da recusa (e o desfalecer obrigatório da entrega)
Quero (sem querer) a paz consentida do apenas ser Quero (sem querer) a união do instante no prolongamento do estar Quero (sem querer) o delírio da entrega no regresso a mim Quero (sem querer) o desapossamento dos sentidos na fluidez do abraço Quero (sem querer) o brilho do olhar na languidez das pálpebras descidas
E no entanto (querer e não querer querer sem querer e querer querendo) habitam nos segredos das minhas cavernas resvalam no lume interdito dos meus sonhos afloram ao orvalho contido do meu choro
Por isso vem traz os teus tesouros encosta à minha a tua fronte e leva a febre que apunhala o meu sentir para um oásis de brisas refrescantes na orla do deserto de onde vim
Vem e o meu querer (sem querer e o não querer querendo) encontrarão a corrente e o destino feitos rio e logo mar feitos brisa e logo vendaval
feitos promessa e logo redenção 27 ottobre FERTILIDADE![]() Salvador Dalí
FERTILIDADE
Sinto
uma fertilidade a romper-me os poros da pele.
Sim
sou fértil
e darei à luz mais dia menos dia:
darei à luz
faíscas incendiárias
de regozijo e loucura
e também
lagos transparentes
de mansidão e letargia
darei à luz:
um firmamento
e sóis esplendorosos
e também
uma lua cheia pregnante
de claridade mística
elevada a cumes de fantasiosas trepidações
e depois:
entregar-te-ei o nascituro
envolto em véus de diamantina textura
e saberás então que me fertilizaste
em noites de olvido
e madrugadas sibilinas
e que
o prodígio engendrado nas entranhas
em êxtase divino
me dilatou o ser
e se entranhou no âmago de mim
explodindo
enfim
para vastidões inexploradas
cedo submersas
no poder da nossa lava
Sim:
fertilizaste-me
revolveste em mim
os poderes ignotos
de um mundo entorpecido
e por fim levantado
na apoteose de miríades de sentidos
todos estes
e aqueles
e ainda outros
que não sabes
que não sei
sou natureza plena
e prenhe
de muitas criaturas:
prestes a romperem
o diáfano tecido
que as separa do universo
prestes a engrandecerem-se
na vizinhança do sol
prestes a ascenderem
à montanha do Olimpo
e tu
tu
que não eras
que não tinhas
que não sabias
agora és
e tens
e sabes
que tornaste fértil
um terreno infecundo
que puseste sementes
em terra ressequida
orvalhada em noites de alquimia
regada em manhãs de turbilhão
e onde havia deserto
germinaram flores
onde havia secura
rebentaram rios
e acrescentou-se o mundo
e recrudesceu a vida:
e o tempo uniu
as pontas desavindas 22 ottobre MELANCOLIA![]() Gustav Klimt
MELANCOLIA
Um travo de lágrimas
suspenso
na orla dos sentidos
um gosto álgido
aberto
na polpa da garganta
uma turbulência estreme
pendurada
nos poros do ser
um peso inflamado
incrustado
na fronte em ardor
uma falha
uma ausência
um hiato
um vazio
Ter os teus sinais
abertos
na raiz da minha carne
ter o teu gosto
amarrado
ao travo do meu hálito
ter a imagem da ti
no teatro da minha mente
ter a tua voz
urdida
no tecido dos meus sons
ter-te em mim e contudo
não poder estreitar-te no abraço real
ter-te em mim e contudo
filtrar-te apenas nos portões da memória
ter-te em mim e contudo
não agarrar nos meus a polpa dos teus lábios
ter-te em mim e contudo
não encostar ao meu o teu corpo aceso
Ah regressa
parte dos lugares onde expandes o teu ser
percorre os caminhos em direcção a mim
cerra as fendas de dor abertas no teu sítio
mostra-me a luz do teu sorriso
o brilho dos teus olhos
o perfume do teu corpo
tornemo-nos um na renovação do encontro
e descansemos por fim
nos leitos de cetim da noite pura 19 ottobre O Canto e a Saudade![]() Cândido da Costa Pinto, Aurora Hiante, 1942
O CANTO E A SAUDADE
Se eu soubesse cantar a saudade
não soaria a fado o meu canto -
- há flautas e tambores
scherzi e danças
fortissimi e andanti
no fervor saudoso dos meu solos
Se eu pudesse cantar a saudade
não daria voz a guitarras gementes
ou a violinos de angústia derradeira -
- antes faria bradar coros dionisíacos
e fenderia as teclas em pianos robustos
para que mar e céu juntassem as pontas
em fantástica união
Se eu ousasse cantar a saudade
os deuses erguer-se-iam irados
dos seus sepulcros jacentes -
- e cedo ergueriam braços declinantes
aptos para o acréscimo
da sua divindade
Se eu quisesse cantar a saudade
faria desse canto uma epopeia -
- onde os heróis trovejariam
o poder da sua têmpora
e espadas flamejantes
viriam dar brilho incendiário
à noite tenebrosa
Se eu pensasse cantar a saudade
era a ti que cantava -
- no lume mordente do teu sopro
na potência serena do teu corpo
na humidade firme dos teus lábios
na solidez grandiosa dos teus braços
Se eu fizesse cantar a saudade
não haveria choros ou suspiros
entre a plateia amodorrada no silêncio -
- mas risos orgiásticos
e palmas venturosas
e danças trepidantes
no gume clamoroso do meio dia
Se eu deixasse cantar a saudade
chamar-lhe -ia nostalgia -
- porque és a pátria onde regresso
o húmus onde rebento
a seiva de onde broto
e a dor acontece
no limite da vinda de ti
Não canto pois a saudade
mesmo que me enleiem
os ecos de ontem
não achados nos rumores de hoje -
- e contudo canto-a
e contudo ergo-a
como um altar a um deus terreno
como uma prece silenciosa
em rituais por inventar
como uma bênção
uma comunhão
um hino 14 ottobre NOME![]() René Magritte
NOME
Procura o teu nome (vais encontrá-lo aqui inteiro)
Abre a luz dos teus olhos (verás prodígios mil)
Unge de sol a coroa do teu corpo (terás de ti a projecção perfeita)
Louva o dia nascente ou a noite pregnante (serás divino)
Ouve o murmúrio do mar (chegar-te-á o grito que transportas)
Povoa de pensamentos a fonte do teu ser: terás poder
Aumenta a força da raiz do teu sentir: serás amado
Urde o tecido da tua imaginação: viverás promessas
Liberta a torrente que tens presa na garganta: entoarás hinos
Ondeia o teu corpo em flutuações serenas: obterás descanso
Poisa feito ave nos canaviais e nas fontes
Alimenta-te do mel que escorre dos beirais
Une-te às pontas dos tecidos etéreos
Lança-te nos braços que se abrem nas alturas
Olha no fundo dos lagos que te banham
Porque estás aqui - não precisas de vir
Antes de chegares - já te havia encontrado
Um dia depois - ainda permaneces
Longe e ausente - és presença viva
Onde quer que sejas - eu serei contigo
13 ottobre EMOÇÃO
"Nem o leão, nem o homem alado têm nada a ver com a ponte. Eles encarnam a melancolia daqueles que sabem que a verdadeira vida está sempre algures, é coisa que não existe." - R. Magritte
Eu vi pássaros Vi flores Vi o mar Vi o céu E brotaram as lágrimas: Foi por ti emoção! E quando a terra tremeu E o sepulcro se abriu Quando os vermes romperam E saltaram faíscas Emoção Foste tu Que livraste o meu pranto.
Tu quem és Emoção Que vagueias nos bosques? Por ti estou ávida Sequiosa de luz! Por ti morro e ardo Numa febre de dor! Mas não quero que vás.
Eu subi a montanha A mais alta de todas. Eu subi onde as águias Construíram os ninhos. Eu subi e as nuvens Adejavam no chão. Eu subi! E a neve se desfez nos meus passos: e um rio ficou que era sangue era luz… E enquanto tu foste Emoção Após mim Eras tu que guiavas O meu voo de azul.
Emoção! És cruel. Tuas pontas de faca Me traçaram o ventre Foram cruzes e chagas Foi destino afinal. Mas não vás Deixa estar. Antes quero de ardor Suspirar no deserto Antes quero de fome Bramir na montanha! Se vier após mim O teu rosto sem par Se os teus olhos profundos Me guiarem os passos Se eu ouvir no caminho Tua voz de silêncio Eu não quero mais nada! Que me importa o deserto? Que me importam os vermes? E a sede? E a dor?
Ora eu vi uma sombra No oceano de azul. E uma vaga tremeu E rebentou a espuma. Ficou branco o meu sol E de medo tremeram As gaivotas em bando.
Porquê uma sombra No mar cristalino? Porquê uma nuvem Neste céu de loucura?
Emoção Os teus olhos Eram puros demais Tinham luz em torrentes Eram lírios do vale.
Emoção Quem és tu? Se ouviste o meu grito Se afinal estás desperta Que não morra essa vida Que com ela me mata. Porque eu sei quem tu és E sem ti já não sou. 10 ottobre OUTRA ANTÍTESE
Odilon Redon
OUTRA ANTÍTESE
Quero expulsar o egoísmo abatê-lo depois incendiá-lo e reduzi-lo a um monte pulverulento de cinzas sem fragrância quero despojar-me de mim e ser o coração e a mente abertos e livres para acolher o outro e ser o seu abraço e conforto se ele quiser
quero arredar o desejo e manter o silêncio eivado de sons apenas meus e permanecer tranquila e imune «nos píncaros sem nada»
quero rejeitar palavras abolir conceitos exterminar declarações nunca dizer (amo-te vem ter comigo fazes-me falta) e esperar que ele seja e venha o que quiser e quando quiser
quero
quero
quero
e eis que os desejos deste querer são a contradição intrínseca da sua enunciação e que afinal
não posso expulsar o egoísmo nem despojar-me de mim nem arredar o desejo nem rejeitar palavras ou abolir conceitos porque querer fazê-lo é começar a consentir em não fazê-lo é deixar-me invadir pelo oposto daquilo que quero e abater-me exangue às portas da inextrincável antítese das emoções e das razões ao influxo insuportável do sentir e do pensar Será doença
Magritte
SERÁ DOENÇA
Será doença este sabor esta vertigem este frémito esta ovação que percorrem o meu corpo e me fazem esvoaçar tremer palpitar zumbir feita ave do céu terramoto coração incendiado abelha em libação
será doença este pathos criado por mim em mim através de um pedaço de infinito entrevisto num outro eu esta exaltação que me vem das entranhas e sobe em espirais concêntricas ao coração aos músculos e ferve no sangue tornado ora demasiado espesso ora volátil e indeciso este prodígio que a razão não consegue absorver e no entanto rompe em borbotões por todas as aberturas da consciência
será doença o fervor miraculoso pela imagem que a mim se amalgamou e de mim não se arreda e me penetra cada concavidade cada poro cada nicho do ser que tenho a ponto de já não distinguir onde começo eu e acaba o outro de mim onde começa o outro e acaba o eu de mim
será doença esta certeza que me devolve o corpo e o ser daquele que apesar disso se esvai em movimento concreto por outros territórios daquele que não vejo nem toco com os dedos com o hálito e no entanto persiste subsiste resiste na memória da minha pele desperta no segredo do meu pensar veloz na intimidade oblíqua do meu sonho
será doença querer e depois sentir que querer não devo pedir e por fim achar que pedir não posso desejar e então saber que desejar não basta oferecer e reparar nas dimensões minguadas da oferta falar e depois ter a certeza que nenhuma palavra diz o indizível segredo de um mistério nascido e não cumprido urdido e não vivido metáfora de tudo evanescência delíquio prostração desmaio morte anunciada
sim é doença doença invertida e logo saúde doença consentida e logo domínio da doença doença do corpo alimento da alma doença do excesso repousando em quietude e pathos e loucura e sonho alucinação tremenda e contudo certezas absolutas secretas concretas 08 ottobre Se tiveres que amar
Egon Schiele
SE TIVERES QUE AMAR
Se tiveres que amar ama mas que o teu amor seja o fogo tépido que envolve o teu amado o orvalho macio que lhe afaga os cabelos a brisa subtil que lhe acaricia a fronte a luz do entardecer que lhe põe matizes de oiro no gume do olhar a frescura da manhã que lhe abre os poros para o nascer do dia
Se tiveres que amar ama mas que o teu amor seja a oferta dos teus dons sem exigir a troca a cedência do teu íntimo sem pedir a dele a força dos teus braços sem forçar enleios o pensamento nocturno (do teu sonho) sem querer ver os segredos subtis do teu amado
Se tiveres que amar ama mas deixa o teu amado rir sozinho nos campos pontilhados de estevas deixa-o aspirar (sem ti) a fragrância das margens do rio deixa-o passear pelos bosques e flutuar na crista das ondas sem quereres partir (com ele) em qualquer navegação
Se tiveres que amar ama mas oferece de ti a plenitude à carência do teu amado dá o sabor do teu beijo à boca em abandono prodigaliza leitos macios e sabores delicados aos sentidos de quem amas mostra-lhe a luz do teu olhar em manhãs nevoentas
Se tiveres que amar ama prodigaliza oferece protege acalma abraça mostra deixa
Se tiveres que amar ama se tiveres que amar ama se tiveres que amar ama
06 ottobre SENTIDOS![]() Egon Schiele, Os Amantes, 1917
SENTIDOS
O meu pensamento segue-te persegue-te consegue-te
A minha mão alisa-te agarra-te sustém-te
Os meus lábios aspiram-te bebem-te acolhem-te
A minha pele comprime-te amarra-te liberta-te
Os meus olhos envolvem-te lêem-te afagam-te
O meu olfacto sorve-te inala-te expira-te
Os meus ouvidos invadem-te escutam-te intuem-te
(Vogo nos teus braços poderosos
Durmo no teu peito aconchegante
Levanto-me no lume do teu corpo
Afago-me por dentro do teu ser)
Plasmado no sangue do meu sangue
Bebo-te em taças fumegantes
E o rútilo vermelho que te acende
Incendeia a fogueira que já sou
Sendo tudo de ti em ti permanecendo
És tudo em mim e em mim te desvaneço
(E a alvorada vai rompendo a noite escura
E o dia urge em turbilhões de luz)
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