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26 novembre

TATUAGEM

 
 
 
 
 

TATUAGEM

 

 

Vives tatuado em mim

como um despertar 

como um sol maduro

como um rubro poente

na orla do oceano

 

Mesmo que o teu corpo

se alongue e perca 

por outros lugares

noutras dimensões 

e a tua voz se ausente

por um momento ou dois

 

Mesmo que o abandono

se anuncie e esculpa

crateras de olvido

nas raízes todas

do meu corpo  exangue

(na fonte  escaldante

do meu ser desperto)…

 

 Quando vens e trazes

em oferenda estreme 

o sopro vibrante 

(da tua humanidade )

quando vens e trazes

no calor da pele

mil verdades perdidas

mil sonhos adiados

quando vens e banhas

com o poder da luz

o lugar de ti

(e reverberam sóis

e fulgem labaredas)

sinto escaldar

o  meu ventre  aflito

e rompo as fronteiras

com que amarrei (um dia)

o meu corpo vago 

à minha solidão

 

 

Vives tatuado em mim

como um outro eu

que vagueia alhures

mas que em cada instante

posso fazer chegar

aos sentidos que tenho

despertos e vivos 

pelo poder de ti

pela chama que és

pela torrente infinda

que ainda vai brotar

amanhã

amanhã

amanhã

um dia

 

 

 
24 novembre

Só Dentro de Mim

 
 
 
 
 
 
 
 
SÓ DENTRO DE MIM
 
 
 
 
Os sítios não existem
os sítios são memórias 
evocações
e logo lendas
e promessas de infinito
 
 
Naquela noite eu tinha fome na alma
e luz no coração
e também num lugar recôndito 
o desejo do abraço
daquele
indeciso
mas firme
trocado numa despedida incipiente
de outros
(mais intensos
mais reveladores
mais audazes)
e soube que tinha que ter 
braços
capazes de te cingirem
braços
capzes de te fazerem
sentir
e ousar
e querer arriscar
para lá das luzes da noite
(que hoje tinham
o brilho opalino da tarde
e o rigor translúcido
de um céu inebriado)
 
Ainda preciso de ter
os meus braços inteiros
para ser o meu próprio amante
e ter
(ao mesmo tempo)
o furor de amar
porque o solipsismo arrasa
o meu ser desperto
para diálogos esvaídos
na penumbra das noites
sombras flutuando
no capricho das paredes
silêncios arrevesados
no torpor da língua
 
Eu seguro o mundo
por onde viajo contigo
na cadeira que deixaste vazia
no nicho de onde te sumiste
na cratera gélida
onde perpassam
ecos vagabundos de uma voz
que não tem o vigor que é preciso
de uma voz que emudece
numa concha atirada à praia
(fértil de promessas
avara de tesouros)
 
Foi aqui
(estás a ver)
quando o rio cintilava
no escuro
e as luzes das casas
(negras)
se espelhavam na cortina obscura
e eu hoje abri
o brilho incandescente
que naquela noite
estava dentro de mim
(só dentro de mim)
 
21 novembre

Segredos

 

 

 

 

 

 

SEGREDOS

 

 

 

 

Tenho

na ponta dos meus dedos

a memória de ti:

de olhos abertos ou fechados

percorro-te

lentamente

e sei o que cada um deles

me segreda de ti

 

Tenho-te

nas narinas

e sei

(de olhos abertos ou fechados)

a flutuação de cada um dos teus odores

e o que cada um deles

me segreda de ti

 

Tenho-te

na minha língua

nos meus lábios

e

(de olhos abertos ou fechados)

acedo aos teus sabores

plenos e ricos

e preservo

o que cada um deles

me segreda de ti

 

Tenho-te

nos ouvidos

conheço

o bater do teu coração

a leve sonoridade do teu beijo

a música indecisa

com que os teus dedos

perpassam em mim

e sei o que cada um desses sons

(quase indiscerníveis)

me segreda de ti

 

Tenho-te

no gume do meu olhar

absorvi

cada ponto do teu rosto

e desenhei-o na minha mente

com um rigor tal

que

(mesmo às escuras)

conheço o caminho

para os sítios mais recônditos

da tua expressividade:

e o teu corpo todo

plana

na minha retina

sei

onde começas e onde acabas

e moldar-me a ti

no local exacto

que o meu sentido total exige

acontece

sem sobressaltos:

e sei

o que o meu olhar acutilante

me segreda de ti

19 novembre

QUANDO TE VAIS

 

Odilon Redon

 

 

 

 

 

 

QUANDO TE VAIS

 

 

 

 

 

Quando te vais

o mundo acaba

a noite desce

(sem luar

sem estrelas) 

quando te vais

um frio rompe

da cratera do meu peito

e envolve-me o corpo 

e deixo de existir

 

Já morri (muitas vezes)

morro sempre

que o teu rosto desaparece

no gume da porta

que o teu sorriso esvanece

na atmosfera dos meus sítios

que o teu calor esfria

na orla do meu rosto 

 

É uma forma de morte

(esta)

que me acontece

no limiar da tua ausência

é uma forma de morte

(esta)

que experimento

no abandono em que se verteu

a minha solidão

é uma forma de morte

(este)

desejar-te no vazio

em que me lança

o buraco cravado

nos sítios

onde derramaste  o teu poder

é uma forma de morte

(estes)

suspiros perdidos

pelas paredes

(surdas

fechadas)

sem ecos

sem histórias

por muito que o meu olhar

as interrogue

 

Morte

(morte)

essa vida ao contrário

essa respiração sustida

esse bater parado

(do coração)

 

Morte

(morte)

que eu não quero

que eu não quis

mesmo no auge

da tentação do sangue

 

Morte

(morte)

não sabia que ia falar-te de morte

neste prenúncio de vida

não sabia que ia acontecer-me a morte

neste súbito nascimento

não sabia que dobrariam os sinos

no repique que marcou o despertar

 

 

Mas não

não é morte (mesmo sendo)

não é morte

(mesmo abrindo

buracos de sombra no meu ser)

não é morte

(mesmo que eu vista

o tecido negro da treva e do luto)

 

É a descida ao labirinto

depois da subida ao cume

é a perdição do subterrâneo

depois da entrada no plenilúnio

é a certeza da fome

depois do banquete na abundância

é o sentimento de privação

depois da alucinação orgiástica

é a sede

a fome

o frio

depois das bebidas sumarentas que me deste

dos repastos jucundos  que me serviste

do lume abrasado em que me derreteste

 

Agora

quando não vens

ou quando te vejo atravessar as minhas portas

e o rasto que deixas se vai perdendo

(sem de todo se apagar)

fico perplexa e tensa

como se não existisse

como se nunca mais fosse sentir

como se uma treva profunda

fosse embaciar o meu dia

para sempre

para sempre

para sempre

 

16 novembre

FOSTE

 

Odilon Redon

 

 

 

FOSTE

 

 

Esvazio-me

Perco densidade

Flutuo num limbo

de onde se esvanecem corporeidades

de onde solto as pontas dos fluxos carnais 

 

Imponderável

esculpo-me (como apenas essência)

ascendo ao etéreo

(e já não sei se te encontro)

 

 

A neblina encostou-se

às paredes do meu ser

e aprisionou a minha luz

 

 

Acedo ao intervalo

e aguardo os passos corpóreos

da próxima escalada

 

 

Exangue

quase não vejo

quase não oiço

quase não toco

perpasso pelos ares (como uma esfinge)

e segredo-te palavras (que não ouves)  

 

 

Bruscamente

pairamos

em universos paralelos

e o meu braço pende

adormecido e indeciso

por entre brumas estelares

e poeiras siderais

rodando sem parar

por entre sóis e nevoeiros

por entre estrelas cadentes e auroras boreais

 

 

Um impulso

levar-me-á

até à polpa dos teus dedos

até ao gosto dos teus lábios

 

 

Outro impulso

arrastar-me-á

para solidões abissais

onde devorarei o vazio

e a negritude

de  mim em mim

(de mim para mim)

 

 

Um minuto basta

para que o olhar se transcenda

e tudo se plasme

em lençóis submersos de olvido

onde te perco

(e por onde me perco)

 

 

Mais tarde encontro-me

e pairo

Mais tarde ergo-me

do adormecimento

por onde entrei em ti

(e de onde saí)

e não me reconheço

 

 

Quem sou eu

deste modo submetida

à entrada de um mundo

que não sei se me pertence

Quem sou eu

deste modo atirada sobre abismos

no meio de pontes sem chão

para firmar o correr dos meus passos

 

 

A noite

construiu um muro de esquecimento

por entre pensamentos encerrados

nos portões da consciência

tragados no amanhecer

e na urgência de partir

 

 

Esvaiu-se a promessa

Desenleou-se o sonho

Fortalezas delirantes

amassadas em poderosas estruturas

de sólidos compromissos

fizeram ruir o ideal

 

 

Um travo de pavor alimentou o dia

Um esgar de surpresa incendiou a névoa

Um ruído de asas obliterou a presença

 

Foste

11 novembre

PARA TI

 

René Magritte

 

 

PARA TI

 

 

 

Quero que se calem todas as vozes

(estas e aquelas)

que atropelam

o gume acerado do silêncio de mim

e que nenhum ruído atravesse

o umbral esculpido às portas do meu ser .

 

Não entrem

que ninguém entre!

 

Agora é o recolhimento

a reserva

o retiro

agora é tempo de mergulhar

a sós

no lago turvo

agitado pelas vozes dos outros.

 

Agora é tempo de perguntar à minha alma

que alimento dar ao corpo exangue

que fome esconjurar

que sede apagar

que frutos retirar de todas as árvores

que esplendores solares deixar escorrer

nos muros da minha sombra.

 

E tu

que me levas para o meio dos outros

(sem de facto levares)

tu

que entras na minha solidão

(sem de facto entrares)

tu

que me sorris e me abraças

como se fosses o outro de mim

(sem de facto chegares a sê-lo)

tu

que entrelaças no meu o teu corpo vibrante

(sem de facto te dares)

tu

que te abres em mim como fruto maduro

(sem contudo deixares a semente fluir)

tu

que fendeste os portões da minha morada

(sem contudo passares para além do umbral)

tu

que deixaste o meu corpo

acender clarões de euforia

a minha mente

encandear-se em torrentes de júbilo

a minha alma

crescer em transportes de luz

o meu ser

agigantar-se para além do infinito

tu

não sabes que choro

e que sofro

e que rio

e que o meu soluçar explode na noite

e que já me esvaio em lágrimas e sangue?

 

Tu

no teu solo quente e tranquilo:

Não vês que o frio

me entorpece a carne?

Não vês que a inquietação

me põe  picos de angústia nos poros do ser?

 

 

E contudo

por debaixo desta névoa

deste gelo

desta onda

há águas serenas e límpidas

mananciais de cor esplendorosos

fontes de cristais imaculados

sóis irradiantes de alegria

e tudo corre para ti

para ti

para ti!

05 novembre

Miasmas

 Lord Leighton Fredrick, The Fisherman and the Siren (1858)
 
 
 
~
Lord Leighton Fredrick (1858),O Pescador e a Sereia 
 
 
 
 
 
 
 
MIASMAS
 
 
 
Longe perto
(ora longe ora perto)
e contudo
estás sempre impresso 
no tecido do meu ser
 
 
Dúvidas e certezas
picos e profundezas
e um sol nasce acima dos montes
enquanto uma lua se abate
na planície deserta
e estamos lá
no dia emergente ou na noite apagada
(e o rumor dos outros entrou pelas janelas
eras tu que o trazias agarrado ainda ao corpo
eu soube
eu vi
um rumor
feito de atmosferas mórbidas
que te pesavam nos ombros)
 
Sabias que trouxeste para mim  
o hálito  alheio 
(a respiração
o odor)
e eu
(limpa como o ar nevado das montanhas
livre como uma rajada aberta ao rés da maresia)
recebi-te mesmo assim
sem questionar
sem querer saber de onde vinhas
(quando aqui chegavas)
que rastos trazias
(colados ao toque do teu corpo)
e deixei-te entrar
nas esferas
por onde nenhuma corrente passara
nos recôncavos secretos
inviolados
em espera de ti
 
 
Sabes que eu sei
que outros braços
costumavam cingir-te
e a outro corpo te colavas
(e contudo
não neguei a raiz do meu ser
e entreguei-te tudo
sem esperar retorno)
e hoje
aqui
por onde passam as memórias de ontem
(feitas eternidade)
por onde escorrem ecos
e flutuam
pequenos adejos de asas inefáveis
vejo-te
e não te vejo
conheço-te
e desconheço-te 
e ora são trevas a esmagar-me a lucidez
ora clarões transcendentes
me deslumbram o olhar
 
 
Saberei erguer-me 
(e resistir) 
nas ondas desta procela
estarei à altura
de assimilar
contradições vindas
de lugares remotos e obscenos
e acender tochas balsâmicas
capazes de diluirem
a sombra dos miasmas?
 
 
Saberei trepar
sobre a minha cabeça
sem consentir
que me estremeçam as entranhas
no momento da entrega
na hora extrema
em que o pensamento trai a embriaguez
e bruscamente sei
que não sou a única
que não fui a única?
 
 
(Estranho
estranho modo de te pensar
hoje
precisamente hoje
que te apartaste de mim)
01 novembre

Lume (continuação)

 

Egon Schiele

 

 

LUME

(continuação)

 

Ah sim o amor

intangível por entre esferas siderais

arrastado em poalha de estrelas cadentes

elevado ao empíreo

onde os arquétipos planam

numa etereidade imperturbável

e contudo

violentamente expulso da mansão ideal

para cavernas iracundas

onde os prisioneiros torcem o corpo todo

tentando ver as sombras

estultamente agrilhoado

a caprichos do pensamento e dos sentidos

arfando miseravelmente

num breve delírio

cedo enterrado

em sinfonias de música nula

 

Ah sim  o amor

esta ilusão

de humanos contra humanos

de humanos através de humanos

de humanos por detrás de humanos

de humanos raramente frente a humanos

de humanos perdidos

na própria e pequena humanidade

de humanos esquecidos da aura divina

que lhes emprestou grandeza

do sortilégio infinito

que lhes doou omnipotência

da profundidade submersa

nas fontes primordiais

onde ruge a imensidão

 

Ah sim o amor

e eu

e tu

com  a face oculta

e o sorriso a enviesar-se

no meio dos outros

com o corpo tenso

e a mente tecendo

estranhos corrupios

estando ali

como se não estivéssemos

e depois

uma pungência a doer

na raiz do ser

que ora é inefável e meiga

ora arrasta turbilhões

de angústia e  de medo

 

Ah sim o amor

e o sol

e a lua

e a claridade

entrelaçando arabescos na noite

e a noite

ensombrando o viés da manhã

e no rugir da tarde

os temporais

desarvoram em torrentes

nunca anunciadas

e contudo violentas

e contudo visíveis

e contudo vibráteis

 

(Não cantei o amor

e sim cantei-o

nas suas inextrincáveis perversões

na lucidez aguda das suas antíteses

no lume que incendeia

o peito ofegante dos amantes

que fomos

que somos

que seremos)

LUME

 

Egon Schiele

 

 

LUME

 

Ah sim o amor

estas pequenas entregas

de um pedaço de nada

estes pequenos oásis

no seio de muitos desertos

estas pequenas sementes

deixadas ao vento

estes pequenos tudos

afogados em oceanos de vazio

(e eu

no limiar do desespero

quero abarcar grandiosas epopeias

onde flutuariam cânticos exaltados

e os anjos

se anjos houvesse

teriam asas infinitas

com que limpariam firmamentos obscuros)

(e eu

no delírio consentido

de emoções cristalinas e primevas

quedo-me

como se não tivesse voz

nem sangue

nem nada

quedo-me

como se precisasse de esconder-me

por trás de arame farpado

e arrastar pelo chão a minha sombra

quedo-me

agarrada à força

num assento duro

querendo saltar para o outro lado

e abrir os braços

quedo-me

numa compostura que nada diz

de mim

do meu ser

do meu sentir

e desvio os olhos

de ti

para outros lugares

querendo prender o desejo

e contudo

dando-lhe a abertura possível

por entre o ruído dos outros)

 

Ah sim o amor

essa quimera

inventada às portas da insensatez

construída no limiar da melancolia

engendrada nos píncaros da solidão

essa mistificação

de almas que irrompem

pelas armaduras insolentes da carne

e nada deixam impoluto ou incorrupto

e logo se abatem

embrutecidas no silêncio do eu

alienadas na prisão da pele

e dos poros

nas linhas da mão

e no tecido encrespado

do corpo todo

 

29 ottobre

VÊS A LUA CHEIA?

 

 

 

VÊS A LUA CHEIA?

 

 

 

Olha amor, vês a lua cheia?

Eu sou a lua cheia.

Vê como ela se expande

grávida

no céu pontilhado de astros em olvido!

Vê como ela reflecte

a luz imaculada da sua gestação

num mar extremo

de pujança láctea!

Eu sou a lua cheia.

 

 

Olha, amor, vês a lua cheia?

Um deus desconhecido

impregnou-a do fermento vital

e eis que ficou pronta

para iluminar as trevas

e render o dia.

E eu sou a lua cheia.

 

Um crepúsculo vibrante

fez nascer o astro dos lados do oriente

e poisou sobre os montes

um instante apenas

a tempo de encantar o espaço sideral.

E eu sou a lua cheia.

 

 

Olha, amor, vês a lua cheia?

Agora pende

no tecto do firmamento

isolada dos seus iguais

e fulge

e refulge

apagando vestígios de negrume

incendiando tenebrosas vastidões

fazendo inveja ao astro incandescente

que lhe deu substância

e se retirou.

Eu sou a lua cheia.

 

 

Olha, amor, vês a lua cheia?

Tu és o astro fecundante

tragado pelo ocaso 

o sol que lhe deu o plenilúnio

e descansas

do outro lado

enquanto ela vive a glória

da sua gestação.

Eu sou a lua cheia.

 

 

Mas olha, amor, vê a lua cheia.

Em breve

dará à luz farrapos luminosos

que dela partirão

para escuridões alhures

e minguará serena

no esplendor nocturno.

Em breve

o seu destino

lhe arrancará a plenitude

e poderá perder-se

vazia e invisível

até que o sol regresse

e queira fecundá-la.

Eu sou a lua cheia

que não pode derreter 

seu bojo poderoso  

em poalha luminosa

em cintilações astrais

de vida enclausurada.

Eu sou a lua cheia

fecundada por ti

em ritual secreto

e contudo presa

ao perene plenilúnio

abrasada em mim

afogueada em mim

amarrada ao contínuo agigantar

do meu excesso

e não vejo os quartos minguantes

do descanso do meu ser

crescido e acrescido

em simbiose múltipla

 

 

Olha, amor, vê a lua cheia.

Ali me encontrarás

feita desdobramento

do sol  de que também 

sou matéria e luz 

e  me deu

a vastidão vital de novos mundos

que urgirá vazar

em leitos de ternura
28 ottobre

(NÃO) QUERER

National Geographic - Robert Clark 

Forget-me-not 

 

 

 

(NÃO) QUERER

 

Não quero a insensatez pusilânime do ciúme

(ou o delírio acobardado da posse)

Não quero a fragilidade indecisa da carência

(ou o tactear convulsivo da dúvida)

Não quero o vazio aterrador da ida

(e o suspiro ansioso do regresso)

Não quero a partilha forçada dos espaços

(e a submissão contrafeita do estar)

Não quero a rigidez construída da recusa

(e o desfalecer obrigatório da entrega)

 

 

Quero

(sem querer)

a paz consentida do apenas ser

Quero

(sem querer)

a união do instante no prolongamento do estar

Quero

(sem querer)

o delírio da entrega no regresso a mim

Quero

(sem querer)

o desapossamento dos sentidos na fluidez do abraço

Quero

(sem querer)

o brilho do olhar na languidez das pálpebras descidas

 

 

E no entanto

(querer e não querer

querer sem querer

e querer querendo)

habitam nos segredos das minhas cavernas

resvalam no lume interdito dos meus sonhos

afloram ao orvalho contido do meu choro

 

Por isso

vem

traz os teus tesouros

encosta à minha a tua fronte

e leva a febre que apunhala o meu sentir

para um oásis de brisas refrescantes

na orla do deserto de onde vim

 

Vem

e o meu querer

(sem querer

e o não querer

querendo)

encontrarão a corrente e o destino

feitos rio e logo mar

feitos brisa e logo vendaval

 

 

feitos promessa e logo redenção
 
 
27 ottobre

FERTILIDADE

 
Salvador Dalí
 
 
 
 
 
FERTILIDADE
 
 
 
 
 
Sinto
uma fertilidade a romper-me os poros da pele.
 
 
Sim
sou fértil
e darei à luz mais dia menos dia:
darei à luz
faíscas incendiárias
de regozijo e loucura
e também
lagos transparentes
de  mansidão e letargia
darei à luz:
um firmamento
e sóis esplendorosos
e também
uma lua cheia pregnante
de claridade mística
elevada a cumes de fantasiosas trepidações
e depois:
entregar-te-ei o nascituro
envolto em véus de diamantina textura
e saberás então que me fertilizaste
em noites de olvido
e madrugadas sibilinas
e que
o prodígio engendrado nas entranhas
em êxtase divino
me dilatou o ser
e se entranhou no âmago de mim
explodindo
enfim
para vastidões inexploradas
cedo submersas
no poder da nossa lava
 
Sim:
fertilizaste-me
revolveste em mim
os poderes ignotos
de um mundo entorpecido
e por fim levantado
na apoteose de miríades de sentidos
todos estes
e aqueles
e ainda outros
que não sabes
que não sei
 
sou natureza plena
e prenhe
de muitas criaturas:
prestes  a romperem
o diáfano tecido
que as separa do universo
prestes a engrandecerem-se
na vizinhança do sol
prestes a ascenderem
à montanha do Olimpo
e tu
tu
que não eras
que não tinhas
que não sabias
agora és
e tens
e sabes
que tornaste fértil
um terreno infecundo
que puseste sementes
em terra ressequida
orvalhada em noites de alquimia
regada em manhãs de turbilhão
e onde havia deserto
germinaram flores
onde havia secura
rebentaram rios
e acrescentou-se o mundo
e recrudesceu a vida:
e o tempo uniu
as pontas desavindas
22 ottobre

MELANCOLIA

 
Gustav Klimt
 
 
 
 
 
 
MELANCOLIA
 
 
 
Um travo de lágrimas
suspenso
na orla dos sentidos
um gosto álgido
aberto
na polpa da garganta
uma turbulência estreme
pendurada
nos poros do ser
um peso  inflamado  
incrustado
na fronte em ardor
uma falha
uma ausência
um hiato
um vazio
 
Ter os teus sinais
abertos
na raiz da minha carne
ter o teu gosto
amarrado
ao travo do meu hálito
ter a imagem da ti
no teatro da minha mente
ter a tua voz
urdida
no tecido dos meus sons
ter-te em mim e contudo
não poder estreitar-te no abraço real
ter-te em mim  e contudo
filtrar-te apenas nos portões da memória
ter-te em mim e contudo
não agarrar nos meus a polpa dos teus lábios
ter-te em mim e contudo
não encostar ao meu o teu corpo aceso
 
Ah regressa
parte dos lugares onde expandes o teu ser
percorre os caminhos em direcção a mim
cerra as fendas de dor abertas no teu sítio 
mostra-me a luz do teu sorriso
o brilho dos teus olhos
o perfume do teu corpo
tornemo-nos um na renovação do encontro
e descansemos por fim
nos leitos de cetim da noite pura 
19 ottobre

O Canto e a Saudade

 
Cândido da Costa Pinto, Aurora Hiante, 1942
 
 
 
 
O CANTO E A SAUDADE
 
 
 
 
Se eu soubesse cantar a saudade
não soaria a fado o meu canto -
- há flautas e tambores
scherzi e danças
fortissimi e andanti
no fervor saudoso dos meu solos
 
Se eu pudesse cantar a saudade
não daria voz a guitarras gementes
ou a violinos de angústia derradeira -
- antes faria bradar coros dionisíacos
e fenderia as teclas em pianos robustos
para que mar  e céu juntassem as pontas
em fantástica união
 
 
Se eu ousasse cantar a saudade
os deuses erguer-se-iam irados
dos seus sepulcros jacentes -
- e cedo ergueriam braços declinantes
aptos para o acréscimo
da sua divindade
 
Se eu quisesse cantar a saudade
faria desse canto uma epopeia -
- onde os heróis trovejariam
o poder da sua têmpora
e espadas flamejantes
viriam dar brilho incendiário
à noite tenebrosa
 
Se eu pensasse cantar a saudade
era a ti que cantava -
- no lume mordente do teu sopro
na potência serena do teu corpo
na humidade firme dos teus lábios
na solidez grandiosa dos teus braços
 
Se eu fizesse cantar a saudade
não haveria choros ou suspiros
entre a plateia amodorrada no silêncio -
- mas risos orgiásticos
e palmas venturosas
e danças trepidantes
no gume clamoroso do meio dia
 
Se eu deixasse cantar a saudade
chamar-lhe -ia nostalgia -
- porque és a pátria onde regresso
o húmus onde rebento
a seiva de onde broto
e a dor acontece
no limite da vinda de ti
 
 
 
Não canto pois a saudade
mesmo que me enleiem
os ecos de ontem
não achados nos rumores de hoje -
- e contudo canto-a
e contudo ergo-a
como um altar a um deus terreno
como uma prece silenciosa
em rituais por inventar
como uma bênção
uma comunhão
um hino
14 ottobre

NOME

 
 
René Magritte
 
 
 
 
NOME
 
 
Procura o teu nome  (vais encontrá-lo aqui inteiro)
Abre a luz dos teus olhos  (verás prodígios mil)
Unge de sol a coroa do teu corpo  (terás de ti a projecção perfeita)
Louva o dia nascente  ou a noite pregnante (serás divino)
Ouve o murmúrio do mar (chegar-te-á o grito que transportas)
 
Povoa de pensamentos a  fonte do teu ser: terás poder
Aumenta a força da raiz do teu sentir: serás amado
Urde o tecido da tua imaginação: viverás promessas
Liberta a torrente que tens presa na garganta: entoarás hinos
Ondeia o teu corpo em flutuações serenas: obterás descanso
 
Poisa feito ave nos canaviais e nas fontes
Alimenta-te do mel que escorre dos beirais
Une-te às pontas dos tecidos etéreos    
Lança-te nos braços que se abrem nas alturas
Olha no fundo dos lagos que te banham
 
Porque estás aqui - não precisas de vir
Antes de chegares  - já te havia encontrado
Um dia depois  - ainda permaneces
Longe e ausente  - és presença viva
Onde quer que sejas - eu serei contigo
 
 
13 ottobre

EMOÇÃO

 

"Nem o leão, nem o homem alado têm nada a ver com a ponte. Eles encarnam a melancolia daqueles que sabem que a verdadeira vida está sempre algures, é coisa que não existe." - R. Magritte

EMOÇÃO 

 

Eu vi pássaros

Vi flores

Vi o mar

Vi o céu

E brotaram as lágrimas:

Foi por ti emoção!

E quando a terra tremeu

E o sepulcro se abriu

Quando os vermes romperam

E saltaram faíscas

Emoção

Foste tu

Que livraste o meu pranto.

 

Tu quem és

Emoção

Que vagueias nos bosques?

Por ti estou ávida

Sequiosa de luz!

Por ti morro e ardo

Numa febre de dor!

Mas não quero que vás.

 

Eu subi a montanha

A mais alta de todas.

Eu subi onde as águias

Construíram os ninhos.

Eu subi e as nuvens

Adejavam no chão.

Eu subi!

E a neve se desfez

nos meus passos:

e um rio ficou

que era sangue

era luz…

E enquanto tu foste

Emoção

Após mim

Eras tu que guiavas

O meu voo de azul.

 

Emoção!

És cruel.

Tuas pontas de faca

Me traçaram o ventre

Foram cruzes e chagas

Foi destino afinal.

Mas não vás

Deixa estar.

Antes quero de ardor

Suspirar no deserto

Antes quero de fome

Bramir na montanha!

Se vier após mim

O teu rosto sem par

Se os teus olhos profundos

Me guiarem os passos

Se eu ouvir no caminho

Tua voz de silêncio

Eu não quero mais nada!

Que me importa o deserto?

Que me importam os vermes?

E a sede?

E a dor?

 

Ora eu vi uma sombra

No oceano de azul.

E uma vaga tremeu

E rebentou  a espuma.

Ficou branco o meu sol

E de medo tremeram

As gaivotas em bando.

 

Porquê uma sombra

No mar cristalino?

Porquê uma nuvem

Neste céu de loucura?

 

Emoção

Os teus olhos

Eram puros demais

Tinham luz em torrentes

Eram lírios do vale.

 

Emoção

Quem és tu?

Se ouviste o meu grito

Se afinal estás desperta

Que não morra essa vida

Que com ela me mata.

Porque eu sei quem tu és

E sem ti já não sou.

10 ottobre

OUTRA ANTÍTESE

 

 

Odilon Redon 

 

 

OUTRA ANTÍTESE

 

 

 

 

Quero expulsar o egoísmo

abatê-lo

depois incendiá-lo

e reduzi-lo a um monte pulverulento

de cinzas sem fragrância

quero despojar-me de mim

e ser

o coração e a mente

abertos e livres

para acolher o outro

e ser

o seu abraço e conforto

se ele quiser

 

 

quero arredar o desejo

e manter o silêncio

eivado de sons apenas meus

e permanecer tranquila e imune

«nos píncaros sem nada»

 

 

quero rejeitar palavras

abolir conceitos

exterminar declarações

nunca dizer

(amo-te

vem ter comigo

fazes-me falta)

e esperar que ele seja

e venha

o que quiser

e quando quiser

 

quero

 

quero

 

quero

 

e eis que os desejos deste querer

são a contradição intrínseca

da sua enunciação

e que afinal

 

não posso expulsar o egoísmo

nem despojar-me de mim

nem arredar o desejo

nem rejeitar palavras

ou abolir conceitos

porque querer fazê-lo

é começar a consentir em não fazê-lo

é deixar-me invadir

pelo oposto daquilo que quero

e abater-me

exangue

às portas da inextrincável antítese

das emoções e das razões

ao influxo insuportável

do sentir e do pensar

 

Será doença

 

 

Magritte

 

 

 

 

SERÁ  DOENÇA

 

Será doença

este sabor

esta vertigem

este frémito

esta ovação

que percorrem o meu corpo

e me fazem esvoaçar

tremer

palpitar

zumbir

feita ave do céu

terramoto

coração incendiado

abelha em libação

 

 

será doença

este pathos

criado

por  mim em mim

através

de um pedaço de infinito

entrevisto num outro eu

esta exaltação

que me vem das entranhas

e sobe em espirais concêntricas

ao coração

aos músculos

e ferve no sangue

tornado

ora demasiado espesso

ora volátil e indeciso

este prodígio

que a razão não consegue absorver

e no entanto

rompe em borbotões

por todas as aberturas da consciência

 

 

será doença

o fervor miraculoso

pela imagem

que a mim se amalgamou

e de mim não se arreda

e me penetra

cada concavidade

cada poro

cada nicho do ser que tenho

a ponto de já não distinguir

onde começo eu

e acaba o outro de mim

onde começa o outro

e acaba o eu de mim

 

será doença

esta certeza que me devolve

o corpo e o ser daquele

que apesar disso se esvai

em movimento concreto

por outros territórios

daquele

que não vejo nem toco

com os dedos

com o hálito

e no entanto persiste

subsiste

resiste

na memória

da minha pele desperta

no segredo do meu pensar veloz

na intimidade oblíqua

do meu sonho

 

será doença

querer

e depois sentir

que querer não devo

pedir

e por fim achar

que pedir não posso

desejar

e então saber

que desejar não basta

oferecer

e reparar

nas dimensões minguadas

da oferta

falar

e depois ter a certeza

que nenhuma palavra diz

o indizível segredo

de um mistério

nascido e não cumprido

urdido e não vivido

metáfora de tudo

evanescência

delíquio

prostração

desmaio

morte anunciada

 

sim

é doença

doença  invertida

e logo saúde

doença consentida

e logo domínio da doença

doença do corpo

alimento da alma

doença do excesso

repousando em quietude

e pathos

e loucura

e sonho

alucinação tremenda

e contudo

certezas absolutas

secretas

concretas

08 ottobre

Se tiveres que amar

 

 

 

Egon Schiele

 

 

 

 

 

 

SE TIVERES QUE AMAR

 

 

 

Se tiveres que amar

 ama

mas que o teu amor seja

o fogo tépido

que envolve o teu amado

o orvalho macio

que lhe afaga os cabelos

a brisa subtil

que lhe acaricia a fronte

a luz do entardecer

que lhe põe matizes de oiro

no gume do olhar

a frescura da manhã

que lhe abre os poros

para o nascer do dia

 

 

Se tiveres que amar

ama

mas que o teu amor seja

a oferta dos teus dons

sem exigir a troca

a cedência do teu íntimo

sem pedir a dele

a força dos teus braços

sem forçar enleios

o pensamento nocturno

(do teu sonho)

sem querer ver

os segredos subtis do teu amado

 

 

Se tiveres que amar

ama

mas deixa o teu amado

rir sozinho

nos campos pontilhados de estevas

deixa-o aspirar

(sem ti)

a fragrância das margens do rio

deixa-o passear pelos bosques

e flutuar na crista das ondas

sem quereres partir

(com ele)

em qualquer navegação

 

Se tiveres que amar

ama

mas oferece de ti

a plenitude  

à carência do teu amado

dá o sabor do teu beijo

à boca em abandono

prodigaliza leitos macios

e sabores delicados

aos sentidos de quem amas

mostra-lhe

a luz do teu olhar

em manhãs nevoentas

 

Se tiveres que amar

ama

prodigaliza

oferece

protege

acalma

abraça

mostra

deixa

 

 

Se tiveres que amar

ama

se tiveres que amar

ama

se tiveres que amar

ama

 

06 ottobre

SENTIDOS

 
Egon Schiele, Os Amantes, 1917
 
 
 
SENTIDOS
 
 
O meu pensamento segue-te persegue-te consegue-te
A minha mão alisa-te agarra-te sustém-te
Os meus lábios aspiram-te bebem-te acolhem-te
A minha pele comprime-te amarra-te liberta-te
Os meus olhos envolvem-te lêem-te afagam-te 
O meu olfacto sorve-te inala-te expira-te
Os meus ouvidos invadem-te escutam-te intuem-te  
 
 
(Vogo nos teus braços poderosos
Durmo no teu peito aconchegante
Levanto-me no lume do teu corpo
Afago-me por dentro do teu ser)
 
 
Plasmado no sangue do meu sangue
Bebo-te em taças fumegantes
E o rútilo vermelho que te acende
Incendeia a fogueira que já sou
 
Sendo tudo de ti em ti permanecendo
És tudo em mim e em mim te desvaneço
(E a alvorada vai rompendo a noite escura
E o dia urge em turbilhões de luz)