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13 settembre

O Farol - A Dança

      

[Degas]

 

A  DANÇA

 

           Algumas horas depois – o crepúsculo insinuava-se, cinzento, nas aberturas da casa – W.N. sentava-se, sozinho, no sofá cor de mel em frente à janela onde, numa manhã gloriosa, a águia arribara. Estava ali e sentia-se estranhamente calmo, como se nenhum outro desfecho pudesse convir àquele específico momento: de facto, para onde ir, na cidade de V., uma vez que deixara o hotel e não saberia como enfrentar a hospedeira e pedir-lhe o seu quarto de volta? Precisaria de dar explicações,  ela não se coibiria de o questionar e de lhe demonstrar surpresa! Acabou por aceitar a hospitalidade de A.S. que em nenhum momento da viagem de retorno da estação lhe largara o braço, como se temesse que ele se escapasse por qualquer encruzilhada ou desaparecesse numa esquina! «Não posso ficar em sua casa, não é conveniente», protestava ele, enquanto, batidos pela chuva fria, aguardavam um carro que os tirasse dali, «Não quero invadir o seu espaço, não posso…não é conveniente!». «Não é conveniente? Mas que quer isso dizer? Eu tenho quartos, vivo sozinha naquela casa grande, posso proporcionar-lhe conforto e terá a sua privacidade…Sou livre, entende? Nada lhe cobrarei, porque acredito na liberdade dos outros, entende?» Curiosamente, os dois repetiam certas palavras até à exaustão, como se precisassem obstinadamente de arranjar pretextos, de colocar tudo em causa a ver se, no final, uma aberta de possibilidades lhes garantiria a certeza da tomada de decisão. «Um homem e uma mulher, dois desconhecidos, assim sob o mesmo tecto, de um momento para o outro…parece-lhe conveniente?. «Eu sou livre, entende? Ser homem ou ser mulher pouco representa, não é a diferença de géneros que está em causa entre nós, entende?»

       Aturdido e acossado pela tempestade e pelo rumor da insistência da sua companheira e única leitora, ele deixou-se levar, não fez o mínimo gesto de repúdio quando ela indicou o próprio endereço ao motorista e depois arrastaram a pesada mala pelas escadas íngremes e ela abriu para ele um quarto com ligação directa a um pequeno escritório e anunciou, «Estes serão os seus aposentos, aqui trabalhou e viveu o meu pai há muitos anos!»

        Os dois espaços eram amplos e sóbrios, o quarto assemelhava-se a uma cela, com os elementos estritamente necessários para o acto de dormir, mas o escritório, por contraste, era quase sumptuoso. Havia estantes com livros cobrindo as paredes, subindo até ao tecto e uma larga e nobre secretária polida marcava o centro da quadra sobre um tapete rico de material espesso. Um cadeirão de couro assinalava o canto da leitura junto da janela larga e as luzes dos candeeiros marcavam com nitidez as diversas funcionalidades. Não pairava ali nenhum espírito, como se, fechados ao tempo, aqueles dois lugares houvessem mumificado. «O seu pai viveu aqui? Mas, não se nota, é tudo inócuo…», «Eu tornei-os anódinos, a estes dois sítios, libertei-os da presença dele, mandei pintar, estofar, assoalhar, deixei que o ar entrasse, continuamente, durante meses, expulsei da atmosfera que aqui se respirava todos os miasmas daquele homem! Ele viveu aqui, mas o certo é que já não vive! Por muito que procure, não encontrará nestes livros ou nestes móveis o mínimo sinal da presença dessa pessoa que, quando partiu definitivamente, eu decidi abolir por inteiro! Se lhe digo que ele era o meu pai é na medida exacta em que nasci pela sua intervenção física. Nada mais!». W.N. estremeceu perante o tom de voz daquela mulher, tão suave e delicada e contudo falando do pai com uma expressão glacial e uma  entoação por onde perpassava uma espécie de desprezo absolutamente isento de dor. «Não me julgue, ouviu? Não ceda à tentação de me condenar…aboli o meu pai, sim, e daí? Não é isso que prega também no Livro para Todos e para Ninguém? Não nos envia para o reino dos nossos filhos, deixando para trás o país dos nossos pais? Não é essa espécie de crueldade para com o passado, essa caminhada incessante para a auto-superação, em que ficamos a sós com o nosso próprio poder, a síntese do seu mandamento mais elevado? Considere-se um filho meu, já que sou a sua única leitora, e transponha o umbral deste espaço que asseptizei para si, mesmo sem saber que vinha!», «Deparei com uma construtora de enigmas, não há dúvida, foi certeira a minha busca!», «Instale-se, vamos, use os aposentos como quiser, faça deles a sua morada enquanto lhe aprouver!»

        Dizendo isto, A.S. deixou-o só. Durante uns momentos, W.N. deteve-se, imóvel, no centro da pequena biblioteca, passou os olhos pelos títulos dos livros, afagou, sem se dar conta, o couro da poltrona de leitura e, aos poucos, percebeu que o ambiente poderia pertencer-lhe…ao menos durante uns tempos…porque não?

        Estendeu-se na cama, percebeu que era austera, mas confortável, olhou a decoração simples, o armário sólido e a cadeira de torneado caprichoso, apreciou os candeeiros de latão revestidos de patine e os cortinados de veludo escuro entreabertos sobre uma musselina que deixava passar, atenuada, a neblina da tarde, e um sofrimento agudo espetou-se-lhe no peito, pois percebeu, nesse instante, que aquele sortilégio não lhe pertencia, que poderia, episodicamente, deixar ali uma espécie de marca e mais tarde ver aquele sítio como uma memória aprazível…mas ficar para sempre? Permanecer ali, paredes meias com uma mulher vibrante, também ela enigma, também ela só?

       A certa altura percebeu que batiam à porta, não soube se passaram minutos ou horas, talvez tivesse adormecido pois uma noite azulada orlava a musselina da janela. Levantou-se, alisou os cabelos para trás compôs o vestuário amarfanhado e deu uns passos até à porta.

       «Venha, preparei uma refeição, sem dúvida tem frio, decerto está esfomeado. Sente-se, coma, eu preciso de sair!» Dizendo isto conduziu-o à sala, onde todo o esplendor, subtraído aos quartos, ali pontificava em absoluto. Da lareira acesa saía um bafo morno, as luzes refulgiam, suaves mas profusas, os pratos lançavam um odor familiar, «Já percebi do que gosta, como vê, tem o seu chá, a sua sopa, os seus vegetais…se precisar de alguma coisa procure!»

        W.N. acabou de comer, surpreso com a selecção certeira dos ingredientes da refeição, atónito, porque a habitual enxaqueca parecia de todo arredada naquela noite e por fim sentou-se no sofá cor de mel onde o seu livro se abria, solto, como que casualmente. Apanhou-o e leu: “Ao homem e à mulher eis como os quero: ele pronto para a guerra, ela para a maternidade…” Suspirou e concentrou o pensamento na sua própria sentença, viu de que modo aquele seu estar ali desfazia por completo a máxima! O guerreiro, sim, exactamente, o guerreiro era ele, ele que, sem hesitar, saíra do comboio e acompanhara docilmente a mãe…e não fora exactamente assim que ela o tratara, ao conduzi-lo ao quarto, ao dar-lhe aposentos para viver, ao preparar-lhe a refeição? E contudo… e contudo…

     Quando recuperou do alheamento percebeu que já não estava sozinho, A.S. regressara e postara-se à sua frente. «Vejo que está a ler o seu próprio livro…ainda precisa de fazê-lo? Não conhece à saciedade tudo o que escreveu? Aí mesmo, aí estão as palavras terríveis que me obrigaram a partir à sua procura, que me fizeram violentá-lo e impedi-lo que partisse…Como pode um homem ver na mulher apenas e só a mãe? E como pode ela ser mãe, se o motor da maternidade está ausente na guerra? E não me diga que o descanso do guerreiro se dá no ventre da mulher para que ela engendre outros guerreiros…não aceito semelhante concepção dos sexos!», «Veja, eu disse-lhe desde o início que não sei lidar com as mulheres, talvez não as entenda de facto, talvez que esta sentença não passe de uma ignorância essencial em mim… «Admite-o? Consegue renegar as suas doutrinas, renegar-se, enquanto mestre, mesmo perante si mesmo?», «Não, renegar não é a palavra certa, mas há uma intensa disparidade entre o que escrevo, e o que sou enquanto escrevo, e o que faço, e o que sou enquanto faço. Na escrita sou o guerreiro que enuncio e mais, sou o Super Homem que preconizo, mas enquanto existente…eis aqui um decadente que se transcende, continuamente, no contrário de um decadente! Vejo a aurora dos tempos futuros e nele haverá guerreiros e mães, assim mesmo, na autonomia toda-poderosa da independência que conduz cada um às suas próprias caminhadas…», «Mas o filho? O filho? Também ele é projectado nessa autonomia de que fala, no próprio acto de nascer? A mãe cessa de o ser após o parto ou é-o na continuidade, até dar o filho à  sua singular existência? E o guerreiro procura sempre a guerra, mesmo em tempos de paz, ou inventa-a e deixa o filho que gerou no ventre da mãe sem referências de si? Não há lugar para famílias na sua concepção do mundo?», «Famílias?! Do que está a falar-me? Não me disse, ainda há pouco, que exorcizou por completo a presença do seu pai, que tornou asséptico e anódino o espaço onde ele respirou num certo tempo? A família não é uma condição natural dos homens, não é uma realidade que beneficie particularmente as relações humanas! Homem, mulher... repare, veja: são duas realidades contraditórias e contrárias, nada pode uni-las a não ser num artifício letal…e contudo é necessário gerar os homens futuros!», «Acha que sim? Acredita mesmo no que acaba de dizer? Não lhe parece que a solução da humanidade passa, exactamente, por suprimir novas gestações? Para quê perpetuar a decadência?», «E se a vontade de poder do homem quiser gerar o Super Homem? E se a decadência não for, em definitivo, a última etapa da existência e houver ainda um destino superior a granjear?»

       A.S. não resistiu a sorrir e ele viu. «Não acredita?», «Porque haveria de acreditar? Não sou crente, não aceito, em mim, mitos sobrenaturais ou desígnios humanos: como pode o homem negar os seus instintos até ao ponto de querer gerar um ser que o ultrapasse? Veja, repare como li as suas palavras, note que absorvi a sua sede torrencial de sentenciar sobre os homens. Quem, mas quem irá querer fazer nascer o Super Homem? E veja bem: não será essa, afinal, a tarefa da mulher? Não virá o dia em que o guerreiro estará para sempre dispensado de semear o filho no ventre da mãe?», «Julga que não a compreendo? Sei onde quer chegar, percebo porque se revolta quando prego um destino oposto para o homem e para a mulher…mas porque esqueceu o meu preceito da dança? Porque se fixou apenas na determinação de funções sem ver o que no fundo aproxima homens e mulheres?», «Sim, bem vejo, “mas ambos prontos para a dança e não só nos pés mas também na cabeça…” como se tudo fosse um jogo…como se afinal, guerra e maternidade não passassem de intervalos no rodopio existencial…», «E não é mesmo um jogo, e, ainda por cima, viciado, este que vamos vivendo? Repare, observe: eu sou o último dos decadentes, a doença corrói-me, dia após dia, o peso da dor solitária é cada vez mais avassalador, a vontade de me enterrar no olvido de onde não se regressa nunca ensombra-me as madrugadas…e contudo… contudo… transmuto-me quotidianamente e desperto, e sou capaz de dançar e de rir…mesmo que seja apenas no papel, mesmo que a cabeça me doa e os olhos lacrimejem…», «Dançar? Quer dançar? Tem dentro de si atrevimento para tanto? Olhe, veja, aqui estou eu, uma mulher, ei-lo aí, um homem... uma mãe, portanto, um guerreiro, sem dúvida, cada um na sua tarefa, mas ambos dançarinos! Venha!»

       A.S. estendeu as mãos, viu o seu hóspede hesitar, sentiu o tremor que lhe percorria o corpo inteiro, mas não desistiu, «Então? Ambos prontos para a dança e não só com os pés mas também na cabeça…» «Não, não vou dançar, não literalizarei essa metáfora, a dança de que falo existe no sangue das veias – outra vez o sangue – existe nos poros da pele, nos interstícios de luz filtrados pelos olhos, nas sinapses neuronais…», «E então, não é isso o corpo, não sente o sangue a formigar e a  aquecer-lhe os membros , a luz não está a inebriá-lo e a cérebro não  apela fortemente à necessidade de rodopiar?»

       Com um gesto delicado deu-lhe a mão e, inesperadamente, percebeu que ele se erguia, viu a tensão diluir-se e, quando o teve de pé à sua frente, percebeu que estava ali um dançarino! Sem música, a não ser a que o silêncio do aposento deixava passar num sussurro, ou a que os próprios ouvidos construíam, juntaram as mãos e em breve flutuaram enlaçados, numa sincronia rítmica que não poderia suspeitar-se antes, ela deixando flutuar os cabelos longos, atirada para longe a boina vermelha que os prendia, ele fazendo adejar as abas do casaco e o riso, em breve, o riso eclodiu… e ambos se deixaram cair no sofá, por fim vencidos...mas felizes e exangues!.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

02 settembre

O Farol - Guerra e Maternidade

       

 

       GUERRA E MATERNIDADE

 

          A.S. abriu o livro a que dera um uso idêntico ao que os crentes dão à bíblia e leu a primeira sentença que lhe caiu debaixo dos olhos: “Ao homem e à mulher, eis como os quero: ele próprio para a guerra, ela para a maternidade, mas ambos próprios para a dança, e não só nas pernas mas também na cabeça. E que se considere perdido todo o dia em que se não houver dançado pelo menos uma vez; e que se considere falsa toda a verdade que não foi acompanhada de risos.” E de novo, baixou sobre ela uma enorme inquietação: A guerra? A maternidade? E em que momento da vida do guerreiro e da mãe se dá o encontro? Quando, oh quando, o descanso do guerreiro encontra o ventre da mãe para que se gere o fruto? Nada, nenhuma alusão ao benefício da entrega, nenhum compadecimento com a ânsia da dádiva, nenhuma fuga para o aconchego secreto dos seres em sintonia, em amor. Homem e mulher, dois destinos, duas funções na vida.

      Uma vez mais precisou de questionar o autor do «Livro para Todos e para Ninguém». Mas haviam cedido a um afastamento tácito, nenhum deles ousava invadir o espaço do outro, principalmente agora que a intimidade dos encontros havidos parecia prenunciar novos horizontes; além do mais, o frio e a chuva assolavam a cidade de V.. W.N. dissera-lhe que não sobreviveria muitos dias na bruma e no gelo daquela latitude! Sem dúvida, demandara já territórios mais brilhantes e secos onde fosse capaz de respirar sem peias! Estranho destino o daquele fugitivus errans

      A seguir ao mandamento gélido dos destinos implacáveis do homem e da mulher, surgia a dança, essa luxúria que aparentemente os reconciliava, esse levantar as pernas em arabescos, esse latejar da cabeça em andamentos vibráteis. Mas a dança do guerreiro teria algo em comum com a dança que advém da experiência maternal? Juntos na dança, mas afinal separados ainda pela omnipotência das suas tarefas opostas!

     Inquieta, com a respiração arfante e os dedos enclavinhados na cabeça, A. S. pensava. «Preciso de o encontrar, agora tenho a certeza! Mas decerto passou demasiado tempo, sem dúvida já nem se lembra que existo e eu … eu…porque regressei assim a casa naquela noite, porque quebrei o sortilégio do chá a dois, servido no pequeno escritório da hospedaria rústica? Decerto ainda não é tarde, pode ser que, afinal, W. N. não tenha abandonado a cidade!»

        Precipitadamente, pegou num casaco e numa boina, enrolou os cabelos por debaixo da gola levantada, desceu as escadas num ímpeto, foi fustigada pelo vento glacial, abriu caminho por entre a multidão das duas da tarde e, quase correndo, cedo chegou à pequena casa depois da ponte. Só nesse momento percebeu que não sabia de facto o verdadeiro nome de W.N., ele usava um pseudónimo e nunca haviam sentido necessidade de esclarecer esse ponto! Hesitou uns minutos à porta da casa, mas o frio e a chuva empurraram-na pelo jardim fora e, quando se apercebeu, tinha entrado no pequeno vestíbulo. Não encontrou vivalma e por isso ousou subir as escadas, muito de mansinho, como se receasse acordar alguém. Quando chegou ao primeiro andar, reparou que a porta do quarto estava aberta e sentiu ruídos diversos vindos do interior. Alegrou-se, ele estava lá, ia poder falar-lhe, vê-lo, confrontá-lo com as suas verdades!

        Quando entrou na pequena saleta, percebeu que não havia um único objecto que sugerisse a presença do hóspede: desaparecera a enorme mala de couro com correias, nenhum caderno ou livro estavam abertos sobre a secretária, não havia flores frescas e a cama, que conseguiu entrever, estava desfeita e o colchão enrolado! No momento em que ia entrar notou a presença de alguém e deu de caras com uma mulher de ar maternal que acabara de fechar a janela e correr as cortinas. Olharam-se, ambas surpresas, a mulher levou a mão ao peito e soltou um suspiro de alívio, «Desculpe, assustou-me…mas, o que deseja?», «Ele, ele…foi embora?», «Agora mesmo, deve estar a chegar à estação…desta vez demorou mais do que eu calculava, nem sabe como lhe faz mal este clima enevoado e frio!», «À estação? Qual estação?», A.S. gritava em desespero, não lhe ocorria que o seu comportamento poderia despertar equívocos, «Diga-me, por favor, que estação?», «A da praça R., sei que parte para M. ,embora desta vez não mo tenha dito…mas ele faz sempre os mesmos trajectos…portanto…»

         A.S. não ouviu mais nada, virou as costas, alcançou a rua e sempre a correr, acotovelando gente, ouvindo alguns impropérios e murmurando desculpas, seguiu o caminho mais curto, tomou atalhos e, esbaforida, com a boina na mão e o cabelo loiro desgrenhado, entrou na estação. O edifício nobre e antigo, com mosaicos pintados relatando fulgores de outras épocas históricas, regurgitava de uma multidão atarefada sobraçando bagagens, os altifalantes anunciavam destinos e indicavam entradas e saídas…olhou os placards e percebeu que o comboio para M. ainda não havia saído, talvez encontrasse W.N. nas bilheteiras ou a caminho da gare!

     Adiantou-se por entre os transeuntes, ajeitou os cabelos deixou que a respiração serenasse e depois caminhou um pouco na direcção do Portão nº 5 de onde sairia o comboio. Não havia ninguém nas bilheteiras mas, a caminho do comboio, que dentro de minutos partiria para M., reconheceu a figura que procurava: com um pesado sobretudo castanho e um cachecol de quadrados, um chapéu de abas largas ocultando os cabelos fartos, W.N. caminhava devagar, segurando a pasta com as mãos enclavinhadas. Ah, como ela conhecia o poder do aperto galvânico daquelas mãos!

        «Espere», gritou ela, quando ele se preparava para subir os degraus da carruagem, «Não entre aí, ainda não terminamos a nossa conversa!» Quando ele se virou para trás, A.S. percebeu que não havia surpresa no rosto pálido, mas antes uma indisfarçável expressão de júbilo. Mais afoita, avançou pela plataforma e quando estava muito perto agarrou-lhe o braço, «Como pode pensar em ir-se embora deste modo? Não há então em si, nem uma réstia de consideração pelos outros? Não entendeu até onde conseguiu tocar-me? Primeiro, escrevi com sangue, depois, franqueei-lhe o interior de mim e, não se esqueça: foi no meu parapeito que a águia poisou…foi o tronco da minha árvore que a serpente enlaçou…», «Mas eu disse-lhe que partiria! Eu não suporto o Inverno em V.! Além disso…lembra-se como me deixou precipitadamente na outra noite? Ah, eu nunca soube lidar com mulheres, já lho disse!», «Mas esta mulher, que assim corre à sua procura, esta mulher com quem diz não saber lidar é a sua única leitora! Lembre-se que me visitou, lembre-se que se não tivesse ido a minha casa, eu jamais saberia quem é o escritor do livro que agora transformei numa espécie de bíblia! Isso não lhe dá obrigações?»,«O comboio vai partir! Se não entro agora já não sairei hoje de V. e tenho que ir, acredite que tenho!». Porém, A.S. não lhe largava o braço, um desespero tremendo tomara conta dela e a mente não discernia os actos que o corpo ia praticando, a fúria insensata com que o retinha e puxava para si assemelhava-se a um grito, a uma súplica que contudo não soltava. W.N. entendeu-a, dominou a sua própria necessidade, «Deixe-me ao menos retirar a minha bagagem…não poderia ficar… sem ela…»

       A.S. pôde por fim libertar o aperto com que o segurava firmemente, ele subiu devagar a escada do comboio, arrastou para fora a mala pesada e os dois assistiram à saída das carruagens, primeiro com uma lentidão exasperante e depois, à medida que a máquina ganhava velocidade, com a força violenta do gigante que afinal era.

 

 

17 agosto

O Farol - O Cântico à Noite

       

                                             

 

 

 

 

 

                                     O CÂNTICO À NOITE

 

 

          A.S. não soube se o professor tinha compreendido até que ponto fora eloquente o seu discurso, mas sentiu um extraordinário relaxamento, tão grande que um enorme bocejo fendeu os ares penúmbricos. «Finalmente afrouxou a tensão? Olho para si e percebo que grande parte da angústia se dissipou…será que as minhas palavras encontraram acolhimento? Será que tive sucesso com o auditório…uma vez, ao menos?»

            Afundada na cadeira de braços, a jovem dormia. W.N., perplexo, não sabia como lidar com a hóspede adormecida, tão pouco desejava acordá-la…ah como ele aprendera, na carne, os efeitos benéficos do sono após os delírios da insónia! Como ele entendia, com o sangue das próprias veias, o benefício do descanso depois das marteladas! Decidiu deixá-la estar, a cadeira, estofada e larga, era confortável e albergava com relativo conforto o corpo miúdo: tirou uma manta do armário, cobriu-a e deixou que a noite tombasse sobre a sala. Observou-a durante uns instantes, captou o oval do rosto, muito puro e límpido, o recorte da boca, pequena e rósea, o capricho do queixo, ligeiramente levantado, o nariz afilado, denunciador de altivez ou de tendência para perscrutar os longes, a massa de cabelos escurecidos pela sombra do crepúsculo e, num relance, o corpo sumido no abrigo amplo da cadeira e percebeu, com perplexidade, que não seria capaz de pronunciar-se sobre a beleza de A. S.! Uma certa harmonia estava patente nos traços, todos eles finos e como que delineados a rigor por mão hábil, um toque de luxúria dimanava dos caracóis esplendorosos da cabeleira e havia uma nota de fogo no olhar azul profundo, agora cerrado, mas profusamente captado antes. E contudo, ali, tão perto dela que podia sentir-lhe o bafo morno da respiração pausada ou mesmo afagar-lhe as mãos entrelaçadas, em descanso sobre o colo, nenhum sentimento ou sensação o impeliam para aquela mulher! Duas impressões lhe advieram desta constatação racional, entendeu, por um lado, que estar assim anestesiado em relação ao poder feminino lhe dava vantagens, naquele momento em que o cansaço submetera a si aquela mulher, numa inocência extrema; em contrapartida, não seria estranho que, enquanto homem, nenhuma agitação especial o comovesse perante uma visão assim encantadora? Ele captava-lhe o encanto, sorvia o odor levemente doce da pele, sentia o palpitar ligeiro do seio coberto…mas não conseguia definir em si nenhum sentimento de atracção! Não o perturbava minimamente o facto de a ver ali, adormecida e exposta, era como se aquele acto fosse tão natural como qualquer outro e ter, no seu quarto, rendida, uma criatura que há pouco tempo nem supunha existir sobre a terra, parecia-lhe o suceder lógico da sua estadia em V.: pois não estava ainda ali porque encontrara finalmente um leitor desconhecido, o primeiro, o único, um leitor estranho ao círculo dos seus amigos, esses que o haviam adulado nos inícios para depois se remeterem a um silêncio ofensivo? Sabia que os seus amigos liam as obras, que publicava e logo lhes enviava; mas há muito tempo que desistira de lhes pedir opiniões ou comentários que deveriam nascer de imediato após a leitura dos seus textos inflamados, mas, apesar disso, não chegavam nunca! Como era possível ficar em silêncio depois de ler semelhantes palavras? Como era possível não querer devolver um eco a quem soltava, de si, tais gritos?

            Decidiu sair um pouco, apanhar a brisa crepuscular já matizada com a humidade outonal, permitir que a sua inesperada visitante repousasse e então acompanhá-la a casa para despedir-se: tencionava partir dentro de um ou dois dias, o clima de V. não lhe era propício quando as temperaturas desciam e o ar trazia miasmas líquidos dos canais e ribeiros, precisava demandar outras paragens, sempre as mesmas, e contudo várias e novas como o seu também vário e móvel sentimento. A hora era de recolhimento, nas ruas desertas deambulavam sombras recortadas no poente e, rapidamente, um silêncio enigmático desceu na cidade. W.N. sentiu que vagueava num sortilégio, passaram-lhe num relance todas as palavras do cântico que escrevera horas antes, soube que a sua alma era um cantar de apaixonado e que a noite desvelava o sentido ardente da sua paixão. Ouvia os cânticos, no perpassar do vento nas folhas, no breve pio do mocho, nos lentos sussurros das águas quase estagnada, convertiam-se todos nos delírios da sua mente e nasciam hinos, soube que a música, toda a música era a sublime metamorfose dos sons naturais colhidos na génese anímica dos seres da natureza e parafraseados apenas por aquele que possuía o dom de os entrever. Foi acometido de euforia e os passos que continuava dando eram cada vez mais eloquentes de vitalidade como se os infernos dolorosos da doença e da angústia (essa outra debilidade mental) se houvessem esvaído para sempre. Quem sabe não seria capaz de suportar o tecido climático de V. e permanecer ali…para sempre?

            A.S. acordou lentamente e sorriu.Soube, de imediato, o que acontecera, percorreu o aposento com o olhar desperto viu as sombras da noite e um halo de luar a encher de prata os recantos vazios, sentiu a maciez da manta com que W.N. a havia coberto e uma felicidade tranquila desceu-lhe pelos membros relaxados. Só passados instantes tomou consciência de que estava só. Ergueu-se da cadeira, deu uns passos, observou os objectos pessoais do escritor, a pasta castanha que ele costumava trazer consigo, a grande mala de couro, presa com correias, deu mais alguns passos, viu que havia um caderno aberto sobre a mesa e acendeu o candeeiro. Não sentiu que estava a  invadir ou a quebrar fosse que segredo fosse, aquela folha aberta era um convite mudo à leitura. Observou a caligrafia intensa e miúda, com arabescos em arco nas maiúsculas, e notou que o texto não apresentava qualquer rasura ou denúncia de hesitação. Só teve tempo de ler alguns parágrafos pois, entretanto, a chave rodou na fechadura, a porta abriu-se e W.N. recortou-se no limiar.

            «Vejo que acordou, perdoe-me se a abandonei, mas não resisti a sair, o luar convidou-me e não suportei o seu apelo!», «Já que estamos em momento de perdões e a confidenciar tentações…eu não resisti, primeiro a adormecer e depois a ler o seu manuscrito…» «Quer que lho leia em voz alta? Ou talvez lho cante…» E dando uns passos, com o se dançasse, W.N. chegou junto da mesa, apoiou a mão esquerda à cadeira e leu: « “É noite; eis que fala mais alto a voz das caudalosas fontes. E também a minha alma é fonte caudalosa. É noite; eis que despertam os cantos de todos os apaixonados. E também a minha alma é o cantar de um apaixonado. Há uma sede em mim, insatisfeita, insaciável, que tenta erguer a voz. Há em mim um desejo de amor, um desejo que fala com a linguagem do amor. Sou luz: ai de mim! Porque não sou trevas? Mas a minha solidão é estar cingido de luz! E como vos abençoaria, mesmo a vós, pequenas estrelas cintilantes, pequenos vermes do céu! E a luz que me désseis chegaria para me encher de felicidade. Mas vivo prisioneiro na minha própria luz, reabsorvendo as chamas que de mim brotam.” Se aqui houvesse um piano tocava-lhe a música que acabei de compor…»

            A.S., dominada de comoção, encostou a cabeça ao ombro dele. Sentiu, como acontecera antes, um espasmo involuntário e o corpo do homem enrijeceu ao toque, «Porque endurece assim sempre que eu lhe toco? Apesar disso, acabou de recitar um poema de amor…», «Ah, não me entenderá nunca, apesar de eu ter chegado a supô-lo! É certo que o meu cântico à noite é uma oração apaixonada…mas este amor que canto é sem objecto! Esta paixão que transborda em mim, a mim regressa…», «Mas é claro, vive prisioneiro na sua própria luz, reabsorve as chamas que de si brotam…e não é essa afinal a essência única do amor? Repare naquela borboleta» – e apontou-lhe o insecto em torvelinho ao redor do candeeiro da rua – «também ela adeja em torno da luz que julga ser sua amiga e que tarde ou cedo a destruirá…nunca viu os corpos esfrangalhados destes seres da luz, secos e estéreis depois do rodopio? Por instantes, vi em si um homem feliz…»

            A.S. afastou-se dele, entristecida. «Sim, quase feliz, tenho uma música pronta, não lhe disse que podia cantar? E quaisquer palavras lhe convêm…venha comigo, ali em baixo há um piano, às vezes toco!»

            Desceram as escadas e entraram num aposento deserto. W.N. acendeu a luz e apareceu uma sala de estar aconchegada e simples, com duas poltronas, um sofá e uma mesa de apoio. «Venha, o piano está ao fundo, acendamos as velas!»

            De um momento para o outro, desligada a luz eléctrica demasiado invasiva, só avultava o recanto da sala mais afastado da porta, onde um piano antigo, de pernas torneadas e castiçais de latão doirado, abria o seu teclado alvinegro. «Venha, sente-se comigo, o banco é largo! Vou tocar muito de mansinho, não quero atrair as atenções!»

            De um momento para o outro a melodia rompeu os ares, uma melodia em si bemol, ajustada em absoluto aos sopros da noite e à vibração solitária das almas em transe. Recordou as palavras do poema e percebeu que W. N. tinha razão: cada nota parecia ter sido esculpida, de tal forma se ajustava às sílabas num ritmo tão sugestivo e natural que em poucos minutos ela própria conseguiu antecipar o som  que se seguia! O poema era, portanto, uma canção!

            Quando terminou o improviso, olhou para ela, e esperou. «Que hei-de dizer-lhe, que elogio espera de alguém que até hoje nenhuma experiência musical possuía e que, de um instante para o outro quase se tornou compositora também? Julgo que entendi, neste momento sublime, o poder das palavras…mas só de modo deficiente conseguiria expressar o que julgo ter entendido…», «Não vê que palavras e música têm um parentesco impossível de destruir? O verdadeiro esteta da língua sabe isso e jamais escreve sem intuir, para além ou para aquém da palavra, o seu ritmo melódico. Veja que o meu Cântico à Noite é um texto de prosa, nenhum artifício da rima ou do ritmo que é comum atribuir à poesia necessitei de emprestar-lhe para me soar a música, quando saí, há pouco, prestei atenção às parcas harmonias sonoras da cidade amodorrada e então a centelha musical começou de imediato a romper e eu sei que daqui para a frente nunca mais lerei este texto sem lhe adicionar mentalmente a melodia!», «Acho que o compreendo, à medida que vou lendo o seu livro, mesmo sem entender tudo, estremeço com a extraordinária harmonia sonora que dele emana e sou compelida a recitá-lo em voz alta, tenho  a certeza que um músico poderia escrever a partir deste texto um poema sinfónico, uma ópera…», «Não, não, ópera não!». W.N. levantou-se do banco, fechou o piano e foi pôr-se à janela de costas para A.S.; ela sentiu quer tinha entrado por um território perigoso, se bem que não fosse capaz de perceber a natureza de um tal território e de um tal perigo. Quando ele se voltou para ela, o júbilo desaparecera-lhe do semblante, as costas curvavam-se e a voz saiu entrecortada, «Há muito tempo que não oiço ópera…desde que o espírito da tragédia grega se ausentou… do único que eu supus… ser capaz de a redimir…Vamos embora daqui, tome comigo o chá da noite, eu próprio costumo prepará-lo no meu quarto!»

            Apagou as velas do piano, agarrou a mão da sua única leitora e subiram as escadas de volta, alumiados pelo luar que jorrava, intrépido, pela clarabóia.

 

             

           

           

           

13 agosto

O Farol - O Martelo

  

 

 

O MARTELO

 

     Porém, só passados alguns dias encontrou de novo W.N., apesar de ter feito uma lista exaustiva de todos os hotéis e hospedarias baratos existentes em V. , apesar de decidir regressar à livraria e interrogar o livreiro sobre a morada do escritor. O homem encolheu os ombros e encarou-a com frieza, «Como hei-de saber? Não sou editor, só vendo livros, e, tanto quanto sei, esse W.N. nunca está muitos dias no mesmo local…Muda constantemente de cidade e de país…» Afinal era verdade, e não um surto metafórico, o seu escritor era um errante, um fugitivo e, a esses, dificilmente o sedentário lança a rede!

            Não descobriu a morada ou o tugúrio de W.N., mas viu-o a caminhar em passo acelerado numa das avenidas centrais de V. e resolveu segui-lo. Não foi tarefa fácil, as passadas dele eram muito mais largas que as dela, havia uma multidão a deslizar pelas ruas e, decididamente, seguir pessoas por entre outras pessoas não era a sua vocação. Encontrou-o e perdeu-o dezenas de vezes e o único indício que, momentaneamente, tinha dele era a noção do ritmo dos seus passos, em tudo diferente do comum dos transeuntes. Por fim, uma paragem providencial, no início de uma ponte sobre o rio que atravessava a cidade, deu-lhe o avanço necessário: em poucos minutos pôde alcançá-lo e, silenciosamente, colocou-se a seu lado, apoiada à balaustrada sobre a massa de água verde-escuro.

            W.N. parecia cansado, a respiração arfante, o corpo meio derreado sobre o apoio, a tez pálida, «Por fim encontrei-o…e não foi fácil!». Ele olhou-a e, durante uns instantes, pareceu não a reconhecer, até que se voltou para ela. «Procurou-me? Mas creio que dissemos tudo já…», «Engana-se! E além disso…não deu pela falta dos seus óculos? Não precisa deles? São de tal modo invulgares que não me pareceu tarefa fácil substituí-los de repente…», «Os meus óculos? Sim, percebi que não os tinha, andei às cegas todos estes dias, mesmo agora só vejo de si um recorte. Mas confesso que é um benefício deixar de ver o mundo real, ou aparente, este, que é a visão comum de todos, e ficar atento ao que vejo por dentro! Não me preocupei com os óculos, sabe?». Desconcertada, A.S. não sabia o que dizer, mas retirou o embrulho da bolsa e entregou-lho, «Para todos os efeitos, deve precisar deles, de tempos a tempos, calculo, quando escreve, por exemplo, ou quando lê…», «Ultimamente não leio, preciso estar livre do pensamento dos outros, é necessário que dê à luz…e o parto avizinha-se a passos largos!». A.S. irritou-se. Aquele homem que viera procurá-la, em demanda do faroleiro, seu único leitor, aquele homem a quem desvendara algumas partes de si que jamais confessaria a ninguém, estava neste momento a dispensá-la! E nem um pouco de senso comum era possível inserir no diálogo, ele fugia constantemente para territórios apenas dele, sem consentir qualquer espécie de partilha! «Entendo perfeitamente que eu não lhe importe para nada, até julgo ter entendido a sua definição de egoísmo. Mas repare: e se a minha auto-preservação, enquanto pessoa, se o caminho que me conduz a mim mesma tiver sido alterado por si a tal ponto que só a sua palavra, a sua presença serão capazes de me reconduzir até mim…de novo? Percebe que tenho que o procurar? Percebe que, a partir do momento em que o encontro, não posso deixá-lo ir antes de esclarecer as minhas dúvidas?» A voz tremia-lhe a contragosto, soube que estava prestes a chorar e o local não era adequado a semelhantes manifestações sentimentais. «Peço que me desculpe, habitualmente não choro, mas há vários dias que não durmo…sinto um enorme esgotamento…e quer saber? Tem razão, e o livreiro também teve: o seu livro fez-me mal, as suas palavras ocultam um precipício no qual não desejo tombar!»

            W.N. recuperou do alheamento em que parecia totalmente submerso e encarou a companheira, «Vejo que está, de facto, perturbada, sei ou julgo saber de onde lhe advém semelhante comoção…Permita que seja eu a conduzi-la hoje, deixe-me levá-la até à minha toca!» Segurou-a pelos ombros, enclavinhou depois a mão no seu braço e, assim encostados e em silêncio, percorreram o resto da ponte, desembocando numa rua estreita onde se erguia uma casa de pedra, modesta e limpa, com portadas azuis nas janelas e vasos de flores ornamentando a entrada. W. N. deu-lhe passagem, subiram uma escada e, por fim,  ele abriu uma porta e fê-la entrar num aposento que era uma espécie de saleta ou escritório, antecâmara do quarto de dormir. «Peço-lhe, não procure aqui sinais de mim, não há, é um quarto asséptico, despersonalizado, exactamente como me convém!»

            De facto, o lugar não poderia ser mais comum, com os seus móveis triviais, ao estilo rústico da fachada da casa, e no entanto A.S. percebeu ali a mão feminina, uma denúncia de intimidade, na jarra de flores frescas sobre a cómoda, na almofada graciosa sobre a colcha bordada à mão, na dobra do lençol, imaculado, já aberta para o retiro do sono, no capricho florido dos cortinados, no brilho do soalho encerado de fresco! Mas W. N. não permitiu qualquer conjectura e, oferecendo-lhe a cadeira mais confortável, de braços, com uma almofada de tecido igual à colcha, foi anunciando, «Não escapo à compaixão da  minha hospedeira, como em tempos não escapei à da minha mãe e irmã! Qualquer coisa se desprende de mim, enquanto homem, que apela à piedade, vejo esse olhar e esse gesto em todas as mulheres que se aproximam de mim…mas acredite: são bem mais numerosas as que fogem! Quanto a si…deixe-me dizer-lhe que, de início, me desapontou o facto de o meu único leitor ser, não o faroleiro perdido na solidão do mar, mas uma jovem e frágil criatura do sexo feminino. Confesso que aquele acto insano de abrir as veias e escrever efectivamente com sangue fez vacilar o sentido do poder da minha palavra. Porém, ao mesmo tempo que quis fugir de si, logrado e ainda mais rendido ao amor fati da minha vida, entendi e senti uma vibração idêntica à minha no conjunto do seu ser», – e, enquanto dava passadas no aposento  gesticulava, envolvendo com a curva dos braços o lugar em que ela se sentava, dócil – «percebi afinidades intrínsecas que não quis, que não quero explorar…Há nas mulheres uma sedução diabólica que me faz tremer pois sei que não resiste ao meu vendaval, enquanto sedução, sei que se verte em raiva, em violência para me ferir onde sou mais vulnerável…Lembra-se do dia em que a visitei? Logo que entrei no seu espaço, veio ter comigo toda a luxúria desses seres voluptuosos, dessas feiticeiras de chicote na mão…estive ali pouco à vontade, como deve ter notado! Mas depois…depois…»

            Um grande silêncio caiu nos ares frescos da divisão, a tarde descia e as sombras imolavam os cantos numa aura ígnea feita da explosão final do dia. A.S. ergueu a voz, tornada rouca, no cerne da perturbação emotiva, «Não sabe nada de mim, é por isso que me fala de volúpia e de chicotes! Olhe, veja de que sou feita, sinta a minha pele: que diferença consegue sentir entre nós, que instintos lhe dizem que eu não posso ser diferente dessas que se apiedam de si, dessas que o abandonam?» Por instantes, ela fez com que ele parasse e lhe tocasse o tecido da face, fez com que ele abrisse a palma da mão e envolvesse por inteiro o seu rosto. «Diga-me: que emanou do meu toque? Piedade? Volúpia? Vá, espete a sua farpa derradeira!» «Neste momento tem-me nas mãos, ainda não entendeu? Eu vi, naquele dia em que passeámos juntos na floresta, no instante exacto em que trinquei a sua maçã e depois, quando a serpente me lançou um olhar cúmplice… «A serpente? Qual serpente?», «Ah, não a viu, ela esteve sempre enrolada em torno da árvore junto da qual comemos o farnel! Ela fez-me entender que nenhum perigo me advém de si: primeiro, a águia, mansa e familiar no parapeito da sua janela a indicar-me os voos perigosos entre os picos gelados, a seguir a serpente e o apelo à renovação…E até, veja bem, até os meus olhos, a minha capacidade de ver o mundo dos outros, mesmo eles ficaram consigo…» «E eu vim devolver-lhos! Mas veja o que me disse, veja a importância que deu ao facto de eu ter encontrado o que lhe permite ver!»

            W.N. deu uma ligeira gargalhada e a seguir suspirou e sentou-se ao lado dela. «Ver! Eu não preciso de ver, tenho visão que chegue, aqui dentro, nas sinuosidades do meu cérebro desperto, no latejar violento do meu sangue, no trabalho nem sempre linear dos meus órgãos! De que outro modo haveria de ser? Todos estes dias andei na rua, voltei ao quarto, fiz as minhas refeições…e no entanto, tem razão, só existe uma casa capaz de construir os meus óculos! E tem razão uma vez mais, sem eles não aguentaria muito tempo! Mas deixemos isso: o que descobriu no meu livro, que sortilégio é esse que a tem impedido de dormir? Mesmo sem os óculos – a minha falta de vista é psicológica, sabe, neste momento vejo perfeitamente – consigo notar o seu abatimento, na última vez que a vi não tinha esses olhos ornados de sombras violáceas…», «Ah, vou dizer-lhe, quem sabe se voltarei a encontrá-lo? Explique-me o subtítulo, diga-me por favor, como é que um livro pode ser escrito para todos e para ninguém! De uma forma ou de outra, vou assimilando as sua metáforas, mas este enunciado martela-me a tal ponto as horas da noite que não me permite o descanso!», «Martela! Que som extraordinário, o desta palavra, vinda assim, sem aviso, da sua boca! Como me sinto alegre, daquela alegria dançarina e vitoriosa, por saber que o som das minhas frases, mesmo que seja apenas um subtítulo, faz martelar as horas de alguém! Ouviu, uma a uma, todas as pancadas da meia-noite? E depois, em crescendo, a agonia da aurora até ao esplendor solar da manhã? Sentiu a angústia indizível  da necessidade de soletrar a raiz de tudo o que existe e de, contudo,  ter que vaguear num oceano de dúvidas dilacerantes? Porque hei-de explicar-lhe o sentido do meu subtítulo quando, afinal, o seu estado de vigília torturante justifica a manutenção do  segredo? Quando fui visitá-la (ou ao meu faroleiro leitor) levava comigo a esperança insana de ter por fim encontrado o verdadeiro auditório para a minha torrente... ou escoadouro, se quiser…mas o enigma, esse não poderia resolvê-lo, a metáfora, essa não irei explicar-lhe…Além do mais, já não sou professor!, «E assim me deixa, em angústia e divisão, lutando, noite após noite com a dúvida sobre saber se pertenço à classe de Todos ou se pelo contrário sou apenas Ninguém?», «Veja, veja bem: repare no que disse. Sou apenas Ninguém. Pronuncie outra vez essa  frase, Sou apenas Ninguém! Não percebe que apoucou a grandiosidade da sua própria sentença? Ser Ninguém eis a suprema condição do humano, ser Ninguém, eis o sublime cometimento que nos faz escapar à miséria do Todos! Mas não “apenas” Ninguém, nunca “apenas” Ninguém!», «Deveria antes dizer: Se sou apenas Todos ou se, pelo contrário, sou Ninguém?» «Não, oiça, nem uma coisa nem outra! A palavra apenas não serve a nenhum dos pronomes e, se hoje é Ninguém aquele que entende o meu livro, amanhã serão Todos e esses Todos serão o somatório glorioso de todos os Ninguéns… Pode ser que a sua insónia me diga que estou perante um Ninguém e que portanto escrevi o meu livro para si; pode ser que isso signifique que um dia a humanidade despertará ao som da minha voz para nascer como Todos! Logo, para quê a angústia, para quê esse dilaceramento que lhe faz mal, que lhe retira a vitalidade? Estando num ou no outro lado da sentença que o meu subtítulo preconiza, estará sempre na atmosfera do qual ele nasceu!» A.S. só pôde rejubilar: conseguira que aquele professor renegado o fosse uma vez mais, pois acabara de perceber, perante o som vigoroso do martelo, o lugar que lhe cabia no mundo de Todos.

 

11 agosto

O Farol - A Insónia

    

 

 

A INSÓNIA

 

      Nessa noite, A.S. não foi capaz de dormir. Durante horas leu o livro de W.N. até lhe doer a cabeça e as imagens se enredarem umas nas outras numa espécie de teia, de onde a aranha se ausentara, pois tudo ficara em grande confusão e nenhum fio encontrava o nexo. Percebeu que aquele não era um livro linear, pouco importava a história (se história tinha) e que começar a ler do princípio, do meio ou do fim também era indiferente…ou será que, por ela ser “Ninguém”, lhe parecia tal? Ou será que o livro para “Todos” tinha que ser lido como o são afinal…todos?

            Quando decidiu apagar a luz e tentar dormir percebeu que não era capaz. Longe de estar a ser martelada pelas cogitações profundas do livro, pelas sentenças, mandamentos e máximas que o autor parecia querer gravar a ferro e fogo, não só neste tempo mas pelos milénios além, A.S. preocupava-se acima de tudo com o subtítulo: que significava escrever um livro “para Todos e para Ninguém”? Havia naquela frase um paradoxo e ela revolvia-se, por entre os lençóis amarfanhados, tentando decifrá-lo. É claro que muito provavelmente tratava-se de uma redundância, de um jogo metafórico como “a escrita com sangue” ou o “torna-te em quem és” como a águia e a serpente, ou o mago persa da floresta…E ela enfurecia-se por não conseguir fugir à tentação de querer perceber tudo, soube que aquela irmanação pressentida durante o farnel no meio da floresta e o caminhar silencioso de braço dado pela cidade agora não passavam de uma espécie de mistificação! O delírio da insónia foi de tal modo intenso que teve a percepção nítida que nenhum escritor cruzara algum dia o seu umbral, que fora vítima de uma cilada dos sentidos e da imaginação, que criara ela própria o seu visitante…

            Depois de várias horas, pois assim lhe pareceram os segundos e os minutos passados no frenesim do pensamento que aguarda o sono, decidiu levantar-se e foi até à janela da sala, a mesma onde horas antes a águia aportara. Abriu-a de par em par e o vento frio da madrugada sobressaltou-a. Em simultâneo, sentiu-se revigorada e mesmo feliz, olhou a lua amarelada em quarto minguante bem acima do horizonte e murmurou, “É preciso aprender a amar-se a si próprio, assim o ensino, com um amor total e são, a fim de se permanecer fixo em si ao invés de vagabundear em todos os sentidos…”, e logo a seguir foi buscar o livro que deixara aberto sobre a cama e continuou, “Este vagabundear intitula-se amor do próximo, não existe palavra que tenha servido para cobrir maior número de mentiras e de hipocrisias, sobretudo entre aqueles que se tornavam intoleráveis a toda a gente…”

            Estas palavras, umas já aprendidas de cor, outras marteladas num murmúrio solene, estavam carregadas de enigma, e contudo qualquer coisa dentro de si lhe sussurrava uma definição nova de egoísmo, esse sentimento humano tão vilipendiado pelas morais e aqui erguido como suprema virtude. Amar o próximo é vagabundear em todos os sentidos, perder o centro, dar cobertura a mentiras e hipocrisias…

            Suspirou profundamente e deixou-se cair sobre o sofá. Uma nostalgia inusitada tomou-lhe conta do ser, gostava de ter ali o escritor, agora reduzido a uma espécie de fantasma pela sua imaginação delirante no ápice da insónia, queria perguntar-lhe o sentido  desta e de outras sentenças tão avessas aos mandamentos comuns da moral cristã, a única que havia praticado, aquela que um dia abandonara mas que não substituíra por nenhuma outra. Captou em si o enorme vazio deixado por essas ausências, ausências de rituais e de preces, ausências de meditações e de êxtases, experimentou um intenso frio espiritual agora percorrido pelo fogo do que lhe pareceu ser uma religião recém-inventada e ainda desprovida de templos ou de fiéis.

            Experimentava uma profunda alteração no mais íntimo de si mesma, já não era a eterna rapariguinha de olhar esquadrinhante, a adolescente em fuga do regime familiar ou a profissional das artes – ofício que aprendera para poder subsistir a sós. O Livro para Todos e para Ninguém, primeiro, a visita do seu autor, mais tarde e por fim o toque indeciso do homem, no caminho não marcado por palavras, feito a dois, mas como se fossem apenas um, desde a floresta até à porta da sua casa, deixara nela marcas indeléveis. Sentiu mesmo que a face mudara e que o corpo se tornara pesado, foi até ao espelho do quarto, onde os sinais do torvelinho insone permaneciam, aglutinados a uma espécie de bafo incendiário e contemplou-se demoradamente. Não, nada havia mudado, a face permanecia delicada, transparente e branca, os caracóis fulvos continuavam tão ruivos como antes e o corpo parecia ainda mais minguado…foi então que reparou num objecto caído no chão do quarto muito próximo da secretária onde ainda mantinha o tinteiro sangrento, um objecto escuro e absolutamente alheio. Estremeceu, olhou  em torno de si, como era possível não ter visto que aquele objecto não lhe pertencia, como era possível haver ali, no chão do seu quarto onde não deixava entrar ninguém uma coisa estranha e aparentemente perdida? Baixou-se e apanhou, a tremer, uma massa metálica e áspera que aos poucos reconheceu: eram os óculos de lentes escuras que W.N. usara para ler o seu manuscrito! Lembrou-se nitidamente da imagem de espanto e comiseração contrafeita que ele ostentava quando lhe pegou na mão e o afastou do seu triste manuscrito, evocou as hastes, penduradas no rosto…W.N. esquecera-se dos óculos... ali!

            Pegou-lhes com infinito cuidado, percebeu que não eram óculos comuns pois tinham várias lentes sobrepostas, teve a noção exacta de que quem assim precisava de um instrumento tão elaborado para ver, e contudo se mostrava capaz de observações tão exactas e profundas como as que fora fazendo enquanto conversavam, ou as que se soltavam sempre que abria ao acaso o livro devia possuir, algures, uma outra visão, bem mais acutilante que a física!

            Regressou à sala, viu  a alvorada a nascer, ao longe, e entendeu que aquele achado lhe dera o pretexto que faltava: agora teria que procurar W.N.! Agora nenhuma razão a impedia de lhe ir no encalço, de lhe descobrir o tugúrio – pois assim designara ele o seu quarto de hotel. A princípio desanimou: quantos hotéis modestos haveria na cidade? Como faria para encontrar o exacto, sem os percorrer a todos, exaustivamente?

            Por fim decidiu não pensar no assunto, sentiu, com agrado, que a sonolência a invadia e que se deitasse a cabeça na almofada dormiria de imediato e mais ainda: intuiu que, ao acordar saberia o modo exacto de encontrar o dono dos óculos perdidos.

           

09 agosto

O Farol - Ein Buch für Alle und Keinem

 

           

 

 

Ein Buch für Alle und Keinem

 

 

        Durante algum tempo, enquanto atravessavam a cidade, quente, apesar da brisa outonal, vibrante, na insensata corrida da multidão e dos veículos, não pronunciaram palavra alguma e os dois, perdidos no caos humano, tornaram-se figuras indistintas ou partículas ou átomos de um aglomerado inespecífico. A.S., contudo, conhecedora do ziguezaguear das ruas antigas de V., foi desenhando argutamente o percurso, vencendo o andamento tímido e sincopado de W. N. que, numa animação progressiva, soltou os membros e ergueu o rosto até alinhar os seus passos pelos dela.

            A certa altura desembocaram num parque quase deserto e aos poucos o parque citadino deu lugar a um bosque e o bosque à floresta. «Quem havia de dizer que a floresta opressiva dos homens daria lugar a este oásis?». W.N. falou alto e a voz, treinada no discurso, soou nítida e bem articulada. «Não lhe disse isso mesmo? As cidades não podem subsistir sem este contraponto de oxigénio e eu própria não seria capaz de residir em V. se não me acontecesse sonhar com estes ermos… Nem preciso de vir cá muitas vezes, basta-me a evocação para me sentir livre!» W.N. suspirou, «Tem sorte! Infelizmente, a mim, a evocação não chega, sou fisiologicamente incapaz de viver sob certos céus, ou neves, ou sóis…então só me resta errar por aqui e por ali em busca do meu lugar…que não tenho! Curiosamente, aqui, experimento uma paz que já não sentia há muito!». Dizendo isto olhou para a sua companheira que avançara um pouco e, numa pequena clareira entre árvores altas, desdobrara uma manta. «Venha cá! Trouxe um farnel, lembre-se que uma certa rigidez nos horários das refeições, um certo ritmo ou rotina, como quiser, é fisiologicamente importante!», «Mas como, como arranjou tudo isso? Não dei conta de nada…», «Pois não! Enquanto olhava os longes, procurando ver o destino da sua águia, eu tive tempo de enfiar na bolsa algumas coisas…tudo simples, como pode ver, tudo adequado a estômagos recalcitrantes!»

            Hesitando em sentar-se, W.N. olhava à sua volta. Assim, descontraído e sereno, parecia rejuvenescido, os olhos brilhavam e a própria estatura se elevara; A.S. atónita, observava a transfiguração do homem, acossado havia algumas horas, o semi-moribundo que apanhara à sua porta, sentia uma intimidade extraordinária com aquele escritor vindo nem ela sabia de onde, cujas palavras incendiárias lhe haviam feito cometer insanidades e percebeu que algo nela ganhara substância. Sentada na manta, com as pernas cruzadas à oriental, e os cabelos ondulando à volta do rosto infantil, apeteceu-lhe cantar, mas em vez disso soltou um assobio. «Sente-se aqui, venha, permita-se usufruir uma hora de prazer!»

            Sim, de prazer, pensou ele, prazer que pagarei amargamente daqui a pouco, prazer que trará o veneno de abandono, esse azorrague de mim para mim mesmo…de qualquer modo…porque não?

            Com elegância cruzou as pernas, ainda de pé, e deixou-se cair na manta púrpura. «Já imaginou o que sentiria caso esta floresta fosse também a habitação da serpente? Não, não estremeça, não quero assustá-la…mas só falta mesmo ela para compor o quadro deste dia!», «Não tenho medo de serpentes, sei que desde que saibamos lidar com a natureza, nada nela pode ser-nos prejudicial…mas não tenho  a certeza de estar preparada para um  tal encontro!», «Tem razão, é necessário estarmos prontos, precisamos de ver o longínquo e esquecermos o próximo e amarmos o longínquo mais do que o próximo…ensino-lhe o amor do longínquo! Pense na águia: foi a única vez que ela poisou na sua janela, não é verdade? Mais do que qualquer um dos homens de agora, estes por quem passo e me ignoram, ela sabe que somos feitos do mesmo material, moldados no mesmo barro! Por isso me escutou e por isso voou quando eu a persuadi disso!» Enquanto falava, W. N. entretinha-se a passar uma maçã vermelha de uma mão para a outra, até que deu uma dentada e cerrou os olhos em inesperado prazer. «Mas…agora me lembro…queria perguntar-lho há muito: como decidiu comprar o meu livro quando entrou na livraria? Entre tantos títulos porque escolheu exactamente o meu?». A.S. riu-se, «Sempre a omnipotência do eu a querer sugar todo o espaço! Estamos aqui, nada nos perturba o isolamento, deixámos para trás as grutas dos outros homens e já quer regressar…avanço consigo e não hesita em puxar-me para trás…quando fala em egoísmo, quando o defende proferindo sentenças em que apenas pretende encontrar-se a si mesmo…ah, é então só por isso que continua comigo?», «Mas….o que pensava? Esquece-se que fui procurá-la apenas porque era a minha única leitora? Esquece-se de que saí do meu tugúrio para encontrar face a face os meus leitores e foi consigo que deparei? O egoísmo é outra coisa!», «Pois bem, eu digo-lhe, veremos se quer conhecer a sua única leitora, veremos se o meu critério de selecção de livros satisfaz o seu orgulho». Ignorando o gesto de repúdio de W. N. que continuava saboreando a maçã, com um leve ruído húmido, A.S. prosseguiu, «Fui à livraria por tédio, se quer saber! Tinha andado às voltas na cidade, tudo me parecia desencantado e quando dei por mim estava a percorrer com os olhos os títulos em destaque da vitrina. Entrei, folheei alguns mas sabia que não iria comprar nada daquilo, ali exposto para atrair a plebe, detestei o toque das capas, como que envernizadas, odiei o brilho das letras, em relevo e fluorescentes, das inscrições com que os autores apelavam despudoradamente à venda! Alguns tinham cintas de cartão onde se lia: “Best seller em 14 países” ou “Adaptado ao cinema” e outras ninharias…então fui procurar nos fundos, nas prateleiras enigmáticas e modestas, tirei um e outro e subitamente um livro pouco volumoso caiu-me aos pés, ficou ali, aberto, como se estivesse a chamar-me! Apanhei-o e logo  encontrei a sua sentença, aquela de que tanto falámos já…soube que estava a ser tocada por uma espécie de nova melodia, nada nas palavras que li podia comparar-se à multidão das histórias que ornavam a montra e entupiam a passagem. Quanto ao  título… julgo que não o percebi: soou-me estranho o tom evangélico da frase, não gostei do cunho de religiosidade que me pareceu atravessar aquelas três palavras…foi o subtítulo que me convenceu a trazê-lo! Ein Buch für Alle und Keinem, esse, sim, foi o verdadeiro motor da minha compra! Como podia eu resistir à possibilidade de saber, por fim, se eu era “Todos” ou se era “Ninguém”? Como podia deixar ali um livro que me prometia entender a que talhão da humanidade pertenço? Foi assim que decidi comprar a sua obra, mesmo quando o livreiro me olhou compungido querendo dissuadir-me…já lhe contei…aliás, quanto mais ele me afastava do livro, mais a minha necessidade de o trazer era premente. Oiça-me bem: o livro falou comigo, o livro quis que eu o lesse! Ao que parece foi apenas o livro a manifestar uma tal vontade: também o seu autor ousa proferir que eu não o devia ler…»

            Perturbada, A.S. levantou-se e caminhou até uma árvore ao tronco da qual encostou a cabeça, subiu um pouco a manga da camisola do braço esquerdo e afagou cuidadosamente a cicatriz violácea. «Foi o livro que me mandou escrever com o sangue, sabe? Foi ele que encaminhou os meus gestos…»

            W.N. não se moveu, soube que não devia ter perguntado nada, entendeu que havia dramas e revoltas por detrás daquele corpo franzino, entreviu a cabeça escondida e soube que a cabeleira fulva era um albergue de segredos e dores. Resistiu à piedade que sentia nascer, reprimiu o início de ternura e só conseguiu dizer, «Venha, coma comigo, daqui a pouco os pássaros e as formigas darão conta da nossa refeição!».

            Não falaram mais até terminarem, nem sequer quando o sol entreabriu a cortina densa das árvores e lhes iluminou os rostos pálidos. Numa espécie de acordo tácito perceberam, cada um a seu modo, a existência de um nicho secreto muito frágil, prestes a romper-se e a abrir uma avalanche prodigiosa que os levaria perigosamente por caminhos que nenhum desejava percorrer naquele instante.

            Anoitecia já quando saíram da clareira no âmago da floresta. W.N. ouviu um rumor discreto, tão íntimo que parecia dimanar de si próprio, olhou para trás e viu a cabeça da serpente erguida, com os olhos faiscando na penumbra e o corpo enlaçando o tronco da árvore no centro do sítio onde há pouco haviam descansado. Sorriu francamente, percebeu que o dia ganhara, no seu todo, um significado profundo que viria tarde ou cedo a desvelar: sem pensar no que fazia agarrou o braço de A.S. que se lhe abandonou, cúmplice, e, num enfeitiçamento até ao momento desconhecido para qualquer um deles, regressaram à cidade.

05 agosto

O Farol - A visita da águia

 

 

 

 

 

      A VISITA DA ÁGUIA

 

 

       Nesse momento um restolho de asas, vindo da janela aberta ao sol do meio-dia, provocou em ambos um estremecimento simultâneo. A.S. levantou-se em sobressalto, mas W.N. segurou-lhe o braço com firmeza, «Não vê que afasta o seu visitante? Repare bem: é uma águia!»

       Poderosa, a ave aprumava-se no parapeito, exibindo o perfil adunco e (tal como antes acontecera) a sua imagem era a de uma sombra recortada, negra e imóvel, no ambiente banhado de luz.

       «Uma águia…como é possível?» sussurrou A.S., não ousando mover-se, «Espere, é bom sinal, a águia é um dos animais eleitos do solitário, ela sabe, como nenhum, viver bem alto, perto do sol…sem queimar a plumagem…mas falta o outro, o complemento, o rastejador…», «A serpente? Ah, não é hoje o dia em que quero encontrar uma serpente!». W.N., bruscamente animado e sem largar o braço da sua anfitriã e única leitora, apertou-lho mais como se quisesse deter o medo que sentia crescer no aposento, «A águia e a serpente, a coragem e a sabedoria, o animal das trevas, o insidioso, capaz de se enovelar formando o círculo perfeito, vivendo da terra, e o outro, este que paradoxalmente aqui aportou, eu diria que em perigo extremo, o ser das alturas…espere! Este animal enfrenta um risco enorme neste sítio, este animal que aqui poisou não pode estar aqui…é necessário que volte para os cumes a que pertence!»

       Agitadíssimo, W.N. largou o braço da sua companheira e aproximou-se da janela. A águia não se moveu, permitiu que o homem se acercasse, virou um pouco o corpo e encarou literalmente aquele que assim ousava enfrentá-la: tinha a cabeça branca, com as penas eriçadas, os olhos amarelos e como que incendiados e o bico fulvo entreabria-se. Atónita, A.S. reparou que os dois seres que daquele modo excepcional se fitavam eram semelhantes, o olhar acutilante tinha o mesmo fulgor, o perfil, onde o bico da ave correspondia ao nariz do homem, denunciava uma idêntica firmeza e as madeixas revoltas de um castanho claro, penteadas para trás poderiam bem equivaler à massa de penas douradas pelo sol!

      Aproximou-se também e sentiu o estremecimento da águia que se virou de frente para ela, semicerrando os olhos de âmbar, viu as asas recolhidas de um negro brilhante agitaram-se por segundos, observou as garras róseas firmemente presas no parapeito da janela. Emanava daquele animal um poder inesperado, como se nada houvesse de casual na insólita paragem e ele conhecesse razões inadiáveis para assim se abalançar ao voo sobre a cidade e a uma aterragem perigosa numa habitação humana.

      «Vieste visitar-me, bem sei, agora te conheço e te reconheço! Regressei para o meio dos homens e deixei-vos, meus animais queridos, sozinhos na montanha, depois de dez anos de convivência respeitosa. Acreditei ser o sol, que a todos nos iluminou no tempo do meu ascetismo voluntário, o único calor de que necessitáveis; vejo agora que fui para vós mais que uma rotina e que os teus instintos se substituíram à inteligência e as tuas asas souberam encontrar a estrada dos ares. Mas olha: corres perigo nesta cidade humana, demasiado humana, regressa às alturas, visita a caverna e nutre-te da tua própria solidão e grandeza. Não sacrifiques a inocência, não faças perigar a liberdade; voa, não te mantenhas fiel ao mestre que posso ter sido, habitua-te a renegar-me enquanto exemplo e alimenta as crias: eu sei que as deixaste para vires procurar-me e também pressinto que elas ainda não têm asas capazes de as conduzirem a si próprias!»

       Enquanto W.N. segredava este discurso ao ouvido da águia-real, A.S. sustinha a respiração, maravilhada: como era possível semelhante fenómeno decorrer ali, em frente dos seus olhos? Percebeu que desencadeara um milagre, só pelo facto de se ter tornado a única leitora do escritor malogrado que assim demandava conhecer aqueles que o liam. Teve consciência de que não lhe seria dado nunca entender os segredos do homem que, perante os seus olhos abismados, travava um diálogo fraterno com uma ave e viu-se bruscamente apoucada e insignificante frente aos dois seres recortados na luz, irmãos gémeos e confidentes. Não pronunciou uma palavra. Esperou.

       A águia permaneceu extática e sossegada durante uns momentos, como se o seu pequeno cérebro, sem dúvida palpitante por baixo da coroa de penas, necessitasse de um tempo para decifrar o código do liguajar humano. Por fim, abriu as asas, primeiro como se se espreguiçasse; depois deu um impulso ao corpo e fendeu os ares, sempre a direito, e a seguir, subindo mais e mais  num voo planado, tornou-se uma figura negra e indecisa, depois um ponto, até se desvanecer na lonjura.

       O sol já em declínio fizera crescer todas as sombras. W.N. deixou o parapeito da janela onde se apoiara esquecido, muito tempo depois de a águia encetar o caminho de regresso aos seus cumes, e foi ter com a sua anfitriã. Do acabrunhamento matinal nada restava nas linhas do rosto do homem assim transfigurado, «Terá sido um sinal, um augúrio? Devo encarar, uma vez mais, a crueldade insolente da sétima solidão e subir à montanha?»

       A.S. percebeu que semelhante interrogação não lhe era dirigida, viu com clareza que o homem questionava o seu próprio pensamento e apiedou-se. Ao mesmo tempo, disfarçou os sinais exteriores de compaixão, sabia que estava perante um decifrador de enigmas e de olhares e que nada seria mais vergonhoso para ele do que saber-se alvo da piedade alheia, “Todo aquele que se compadece perde força”, “Sê para os teus amigos um leito duro, mais útil lhes serás desse modo”, assim pregava o mestre dos aforismos.

       «Veio até aqui, não é verdade? Por duas vezes – a primeira no auge de uma cilada, como disse, pois não encontrou quem esperava ver, a segunda, no ápice de uma desorientação, afinal dirigida – os seus passos trouxeram-no até mim e veja: foi na janela da minha sala que a sua águia aportou e foi dela que levantou voo! Quem sabe não serei afinal eu o augúrio, o sinal e não a subida à sétima solidão, como diz?»

       «Sim, compreendo-a, vejo bem que a partir desta hora nos implicamos reciprocamente num destino irmão…vejo, mas não quero ver, pressinto todos os perigos de qualquer irmanação entre mim e os outros e, já lhe disse: as minhas palavras e porventura o hálito que de mim se desprende quando as pronuncio são territórios perigosos para os não-iniciados! Até hoje foi assim: todos os que quis como amigos, tarde ou cedo desertaram do lugar que lhes guardei junto de mim; os que vieram de livre vontade, fui eu que os escorracei com a desconfiança, com o rigor, com a tendência profunda para o nada que me reveste contra a minha vontade e que me envolve como uma auréola sacrílega! Não, não, melhor seria que eu nunca tivesse vindo!»

       A voz enrouquecera e os olhos aveludaram-se de lágrimas. A.S. viu-lhe o corpo tenso e tocou-lhe de mansinho: «Venha, desçamos até à rua, eu acompanho-o, mesmo na cidade há oásis de tranquilidade.»

 

 

      

      

 

 

03 agosto

O Farol - Luz Refractada

 

      

 

 

 LUZ REFRACTADA

 

 

 

     «Vejo que é frugal…». Sentados à mesa em silêncio, cada um parecia perdido nos seus próprios devaneios e foi A.S. que quebrou o encanto. «Sou, de facto, frugal: uma chávena de chá, uma tosta, um pouco de mel ou fruta…assim começo o meu dia. O carácter nevrótico da minha natureza, esta minha tendência para sofrer episódios de alucinação ou insónia, de não poder suportar a luz de certos locais, de me sentir perturbado e confuso nas grandes cidades exigem que seleccione cuidadosamente todos os meus hábitos e…sabe…a alimentação não passa de uma necessidade fisiológica…».

       A.S. continuava a comer, enquanto o escutava e começou a sentir-se perturbada, pois nenhuma refeição lhe era tão grata como um grande pequeno-almoço às primeiras horas do dia. «Deve achar-me de uma grosseria extrema! Enquanto debica a torrada e bebe a sua chávena de chá eu devoro uma refeição opípara!», «Não, não estou a observar o que come e sei bem que, de nós os dois, o excêntrico sou apenas eu! E agora percebo, vendo a sua jovialidade e juventude, a ligação à vida e à beleza, ao conforto e, sem dúvida, aos compromissos sociais…os meus livros não foram escritos para si! Os meus livros serão perniciosos para a sua natureza!», «Porque diz isso?», a voz de A.S. elevou-se, agastada e um pouco rouca, « Bastou estar à minha frente duas vezes para descobrir tudo sobre mim? Ou foi o episódio da  minha escrita com sangue?».

       W.N. levantou-se e caminhou uns passos ficando de costas para a janela. A luz do sol, que entrava sem peias, tornou a figura do homem um contorno negro e recortado com nitidez curiosamente agigantado.

       «Sim, cheguei a pensar no modo estranho como interpretou ou tornou literal essa metáfora…receei que cometesse suicídio…decerto foi esse pressentimento ou temor que me puseram em semi-delírio à porta da sua casa! Mas veja: agora que a contemplo aí, envolvida pela luz solar, resplendente, com os cabelos feitos auréola, comendo uma refeição eloquente descubro que o perigo não é esse…não, A.S. nunca será capaz de suicidar-se!»

       A jovem ergueu-se, limpou a boca, poisou delicadamente o guardanapo de linho sobre a mesa e encarou o homem que assim ousava ou pretendia conhecê-la e desvendá-la. De imediato, um constrangimento tomou posse dela, logo que deparou com aquela espécie de sombra à sua frente, mas recompôs-se e interpelou-o com uma certa rudeza, «Nunca serei capaz? Acredita mesmo no que está a dizer-me? Veja: quando cortei os pulsos e os amarrei no auge do delíquio, quem sabe se não foi o apelo da morte, e logo a apelo da vida, a contradição que me acometeu e que é própria de qualquer suicida? Quantos enforcados se desenforcariam, se pudessem, quantos envenenados tomariam o antídoto, se fossem a tempo…eu sei lá! A verdade é que quando li a sua sentença “escreve com o teu sangue e descobrirás que o sangue é o espírito” e julgando eu que o espírito é esse fluido etéreo que não se vê, que não tem peso, que paira em nós feito respiração ou fantasma…achei que encontraria a minha dimensão metafísica e me abandonariam os impulsos carnais…» Calou-se, pensativa. «E o que descobriu afinal, no momento em que as forças se lhe esvaíram, que ganho teve ao literalizar a metáfora que escrevi?», «Confesso que descobri pouco, muito pouco de mim e desse espírito a que chama sangue! Confesso que privada do meu sangue, pouco percebi do espírito e não ousei descobrir mais, porque não creio na vida após a morte!»

       W.N. deixou escapar uma espécie de risada, logo contida, como se sentisse vergonha de expressar fosse o que fosse, mas ela ouviu o suficiente para prosseguir: «Vê? Ri-se, não me toma a sério, nem a si tão pouco! Dizem que é um ateu e contudo, veja bem, se o sangue é o espírito, se para escrever com o sangue tenho que aceder à morte, não serão a imortalidade, a vida eterna que a religião promete, o caminho para a descoberta do espírito?», «Perdão…dizem que sou um ateu? Quem diz?», «O livreiro, claro, também ele achou que o seu livro não era para mim… e quer saber? Foi por isso mesmo que o comprei, foi por isso mesmo que o li! Como pode um livreiro saber, olhando para mim, o que devo ou não ler? Quanto a si… confesso que não vejo de onde pode vir-me o malefício das suas palavras…e muito menos entendo porque diz tal coisa…»

       W.N. mudou de posição, voltou-se para a janela e a ilusão fantasmagórica desapareceu, revelando o homem concreto de estatura razoável e cabeça esculpida, o homem sereno e amável com belos olhos e fronte de alabastro. A.S. aproximou-se dele e encarou-o, «Sabe? Nunca achei importante conhecer, face a face, o autor dos livros que leio, pelo contrário. Habituei-me a acreditar que uma coisa é a obra e outra, muito diferente, o seu autor… e no entanto…no entanto…Olhando para si, assim tão de perto, evocando as suas palavras poderosos, aquele mandamento grandioso “Torna-te em quem és!” e o outro “ Morre a tempo!» …julgo que já nem preciso de o ler, creio que a obra inteira penetrou o meu umbral no exacto instante em que aqui veio pela primeira vez!»

       W.N. que mantivera os olhos perdidos para lá da janela, onde a luz abrasante do sol reduzia a paisagem, antes concreta, da cidade, a uma reverberação simbiótica de cores vibrantes, voltou-se para a sua leitora – a única – e havia uma humidade cúmplice no veludo castanho dos olhos. «Entendeu por fim o significado da metáfora! Agora sabe que escrever com o sangue é pôr-se por inteiro nas linhas e nas páginas, é exaurir a substância vital e doá-la inteira a quem tiver o fogo e a velocidade suficientes para ser o leitor…Repare que eu escrevo logo a seguir “Quando se conhece o leitor, já nada se faz pelo leitor» e eu vim vê-la ao seu farol e eis que percebo a verdade da minha máxima! Percebo, repare no sentido deste verbo, acrescento racionalmente o que já era pura emoção, catarse mediúnica…nada posso fazer por si, já foi mais longe do que algum dia conseguirei ir, retirou sangue das veias e acedeu ao desmaio desvitalizador, mergulhou no olvido racional… Um dia virá em que outros mergulharão nestas fontes imaculadas que, por caminhos secretos, foram o seu baptismo…por enquanto tenho-a apenas a si!» Calou-se emocionado, a voz, grave e bem articulada, voz de orador e de profeta, tornara-se um sussurro velado.

       A.S. tomou-lhe o braço, voltou a perceber a crispação do homem intocável e intocado, e encaminhou-o com suavidade até ao cadeirão, agora incendiado na luz prodigiosa daquele meio-dia. «Crê afinal que o entendi? Já não lhe causa repugnância a memória do meu tinteiro ensanguentado e das linhas trôpegas com que segui à risca a sua ordem? Sim, porque os seus textos são ordens, as suas metáforas, mandamentos, e quer ser aprendido de cor!», «Sim, de cor, de coração, de sangue uma vez mais…talvez entender não seja a palavra exacta, eu diria que sentiu o apelo: e o perigo de que lhe falei reside aí mesmo! Duvido que a razão positiva e escalpelizadora venha a entender uma só das minhas máximas, escrevo por enigmas, enredo-me voluntariamente em paradoxos, nenhum erudito será capaz de penetrar, de facto, a verdade dos meus aforismos…mas aquele que os sente e que os amalgama ao próprio sangue…esse estará perdido, como eu próprio estou! Olhando para si, mulher franzina, delicada e contudo rodeada de beleza e de conforto, pujante de entusiasmo, vigorosa e rescendente a saúde…ah, como pode não sucumbir às calamidades que a minha obra anuncia e prega? Como pode esvaziar as veias num gesto limite, tresloucado e próximo da fatalidade, e apesar disso prosseguir a sua vida de luxúria e prazer que deste modo ostenta neste espaço encantador?», «Já não se lembra que, de facto, o local que me enuncia não é esta sala aberta ao frenesim social, mas a cela a que me recolho e onde me exercito na busca de mim, nos próprios antípodas da exuberância que – diz bem – também reflecte a minha verdade?», «Pois, bem vejo, o jogo de espelhos, a luz refractada que ora revela, ora oculta…o sol a incidir no lago ou a expandir-se no deserto, desenhando miragens…»

       Enquanto o sol atingia o zénite, tornando curtas as sombras das coisas, os dois calaram-se envoltos no sopro diáfano de uma osmose que os acometia sem que o quisessem.

31 luglio

O Farol - Fugitivus Errans

 

 

Caspar David Friedrich’s Wanderer Above the Mist [1818]

 

 FUGITIVUS ERRANS

 

     Foi então que começou a sentir-se perdido na cidade. Percebeu, à medida que caminhava - ele dava sempre passadas largas e rápidas - que a cidade nascia para o ritmo frenético do dia, os passeios regurgitavam de gente apressada, as ruas estavam pejadas de veículos e o vozear da multidão martelava-lhe as têmporas doridas. Sentiu-se completamente desorientado, e aquele local onde bruscamente desaguou podia ser nas imediações do hotel ou do outro lado da cidade, a própria cidade poderia ser um pântano ou um deserto ou um abismo, soube que em breve estaria tonto, que talvez desmaiasse...

       Quando recobrou a consciência estava estendido num sofá cor de mel e, abrindo bem os olhos, reconheceu a cabeleira fulva e os traços delicados da sua leitora!

       Tentou erguer-se, confundido e pouco à vontade, mas ela pôs-lhe a mão na fronte e fez com que ele se aquietasse «Fique, descanse um pouco, não se preocupe em perceber nada!»

       «Perceber, sim, perceber», murmurou para si próprio, «como se perceber  fosse tudo! Como se aquela que lhe afagava a cabeça esvaída - a sua leitora, a que escrevia literalmente com sangue - tivesse a menor noção do tumulto interior que o revolvia!» Resolveu obedecer-lhe, deixou-se embalar uns momentos na ligeira ondulação que os dedos finos deixavam na orla da sua pele e, aos poucos, a lucidez regressou, inteira. «Estou aqui, porquê? Não me lembro de ter subido as escadas, estou certo que não toquei a campainha…»

       Abriu os olhos, passou os dedos pelos cabelos revoltos e sentou-se no sofá, encarando a sua única leitora de modo decidido, «Explique-me como vim aqui ter!», «Acredito que não saiba…encontrei-o junto à minha porta, tinha o olhar perdido e tacteava a fechadura. Fiz com que entrasse, amparei-o até ao sofá e, quase instantaneamente, adormeceu! Foi assim!», «Peço que me perdoe, saí do meu hotel perfeitamente bem, ainda era muito cedo… mas depois…sabe…o tumulto da rua, o vozear das pessoas…penso que vagueei numa espécie de semi-consciência e se cheguei até aqui…» Calou-se, intrigado, mas A.S. não lhe permitiu o alheamento, «Chegou, efectivamente chegou e, se me é lícito interpretar o que acaba de contar-me, veio porque tinha a intenção de o fazer, mesmo que não conscientemente…decerto sentiu que eu poderia ser um porto de abrigo, uma directriz para dissolver a sua desorientação.»

       W.N. olhou-a espantado, nunca mulher alguma havia falado com ele daquela maneira, como se soubesse …como se pudesse ter sondado os seus abismos até ao fundo. «Sabe», falou, por fim, serenamente, «a minha vida está por um fio, nem sei como resisti tanto, supus que o meu destino seria retirar-me do mundo por volta dos trinta anos…como sucedeu com o meu pai de quem herdei o temperamento nevrótico. Apesar disso fui ressuscitando, viajei de crise em crise e de cidade em cidade, tornei-me fugitivus errans , soube que devo muitas palavras à humanidade e que talvez um dia me leiam e os homens se descubram! Por causa disso resisti tanto, ultrapassando-me incessantemente, subindo os degraus da existência sobre a minha própria cabeça…» A.S. interrompeu-o. «Bem sei, escreveu isso no livro…» W.N. fez um gesto com a mão e prosseguiu, «Mas agora creio que o final se avizinha, não tenho a certeza exacta de qual será esse final…a demência, a morte…qualquer um destes destinos aguarda-me e pode acontecer numa rua, no meio do campo, na montanha…poderia ter sido hoje mesmo!»

       Enquanto assim pronunciava este discurso premonitório, eivado de fatalismo, o olhar iluminara-se-lhe e chegou mesmo a erguer-se, levantando o braço.

       «Sei o que me espera, sei onde pertenço, passei silencioso por entre os homens do meu tempo e, pior ainda, ouvi-lhes o silêncio! Quando deixei de o suportar, quando os amigos se refugiaram de mim, quando eu próprio me refugiei deles, fui em busca dos meus leitores, não dos que já conhecia e me condenaram ao solipsismo, mas dos outros, dos que vão às livrarias…encontrei um único comprador, um só! E o livreiro disse-me que o homem vivia num farol…escreveu-me a morada num papel e então…com toda esta mística do farol, do isolamento, da imensidão marítima…segui as instruções e cheguei até aqui! Não diga nada, sei bem que não é um faroleiro e que esta casa não é um farol…julgo que fui vítima de uma cilada…mas o certo é que leu o meu livro, não é verdade?» A.S. suspirou, «Não lho mostrei já? Não tentei literalizar as suas metáforas? Bem sei que não é isso que espera de um leitor…percebo inteiramente que o espírito de que fala quando o equipara ao sangue (que eu derramei efectivamente) é o sublime entendimento que perpassa entre almas-irmãs…»

       W.N. dera uns passos na sala e olhava pela janela a cidade grande, mas longínqua. «Vê estas ruas, estas casas, esta gente? Estão ali, bem sei, mas desta altura, inscritas no horizonte, tão abaixo do céu, é como se fossem um aglomerado qualquer de matéria que pode bem ser mar ou deserto…e então, talvez a sua casa seja mesmo um farol, talvez eu tenha vindo encontrar realmente o meu faroleiro-leitor! Sabe o que significa farol, literalmente, como tanto gosta? É o nome de uma ilha – Faros - defronte de Alexandria, onde Ptolomeu Filadélfio mandou construir um instrumento de iluminação…o nome da ilha tornou-se o nome do luzeiro que orienta a navegação! Eu prefiro a metáfora porque apenas ela me permite ver esta casa como um farol e consentir que a sua habitante seja…faroleira!»

       Surpreendida com a tirada eloquente de um homem que minutos antes não dava acordo de si, A.S. olhava-o, com  êxtase. W.N. captou a luz jubilosa que irradiava do rosto dela e retirou-se da janela, «Não, por favor, nada tenho de admirável…não me contemple assim…»   

    «Espere! As suas palavras são de um professor, de um mestre…engano-me?», «Sim, engana-se, há muitos anos que renunciei à cátedra, desisti de ensinar, soube que a minha voz estava nos antípodas do tempo dos outros e que nada podia fazer junto de qualquer discípulo…aliás, eles próprios, foram desertando das minhas aulas para atmosferas mais ligeiras…e tornei-me errante…»

       A.S. deu uns passos na direcção do seu visitante, «Deixe-me perguntar-lhe o trivial: já comeu? Desculpe se o arrasto para a miséria comezinha da sobrevivência…mas não será o jejum a causa de um humor tão pessimista?» E, sem lhe dar tempo a responder, virou as costas e saiu do aposento.

23 luglio

O Farol - Eins tuth Noth

 
 
 

 

       EINS TUTH NOTH

         

 

 

       Acordou, exausto e atormentado pelo sonho recorrente que lhe surgia em momentos de extremo conflito interior, o sonho cujo protagonista era o próprio pai que se erguia do túmulo para agarrar uma criança que acolhia no seu manto e transportava consigo para baixo.           

      Desistira de tentar compreender o pesadelo, sempre achara que se tratava de uma premonição pois, no tempo em que lhe aconteceu pela primeira vez, houve uma morte a seguir, e fazia todo o sentido, para a sua consciência delirante, que o pai, já morto, viesse recolher o filho. Mas, passados tantos anos, nem sabia se devia dar crédito ao valor premonitório do sonho! É certo que o irmão tinha morrido, dias depois do pesadelo nítido, é certo que se sentiu perturbado com a relação quase directa entre o sonho e a realidade… mas naquela exacta noite, que premonição poderia advir da imagem recorrente?

       Não tentou dormir de novo, decidiu levantar-se e foi até à janela. A rua, em baixo, estava deserta e uma claridade rósea anunciava o dia em conflito com a luz amarelada dos candeeiros, vultos de árvores, sombras de edifícios, um banco de madeira brilhando ali ao lado…estava fresco, demasiado fresco para a estação e W.N. entrou no quarto, no auge de um arrepio que tanto poderia ser de frio como de temor.

       Recordou o estranho encontro com a mulher ruiva, estremeceu quando evocou a linha rubra ao longo do pulso e o texto lamentável escrito com sangue…nunca pensara que alguém fosse capaz de levar à letra o seu mandamento! Não se preocupava com o sentido literal das metáforas, o seu instinto lírico dizia-lhe que as palavras são a matéria por excelência da beleza e do sonho. E no entanto, ele, o profeta da verdade, o paladino do rigor existencial, não era capaz de admitir que o desvirtuassem daquele modo grosseiro: como ousara aquela mulher cortar as veias e escrever realmente com o sangue? Onde poderia ela querer chegar nos limites de semelhante acto, tão desvairado, quanto inútil? Ainda por cima tinha-lhe falado no chicote!

       Atravessou o quarto, sentindo o ranger da madeira sob os seus pés como uma verruma a perfurar-lhe o pensamento, foi até à mesa-de-cabeceira abriu a única gaveta e retirou uma fotografia emoldurada que contemplou. Lá estava a carroça semi-arruinada, os dois homens a fingir que a puxavam e, triunfante, com o chicote e as rédeas na mão, a mulher castigadora! Lá estava o trio, o domínio da mulher sobre os dois homens, a presença absoluta da valquíria, da feiticeira! E ele, no jogo, submetido, ali, como se fosse animal de carga!

       Irritado, voltou a ocultar o retrato na gaveta. Que sabia aquela mulher - a sua única leitora - para considerar que quem transporta o chicote é o homem? Porque acharia ela que a frase do livro pretendia significar o domínio do masculino?

       Uma espécie de sorriso nasceu-lhe por detrás do farto bigode, um sorriso de desencanto ou de desdém, um sorriso magoado e tímido…«Vai para junto das mulheres, não te esqueças do chicote!» O chicote delas, é claro, um chicote que pode muito bem ser feito de beleza e de sedução, um chicote de olhos aveludados e promessas intelectuais, esse é o chicote, esse é o símbolo da mulher perfeita, emancipada e gloriosa que deseja ter um séquito de carroceiros ao seu dispor!

       Percebeu que a manhã chegara definitivamente, o sol abria-se no rectângulo da janela.

       W.N. tomou a decisão de se preparar para sair, talvez desse um passeio a pé, gostava dos pensamentos que lhe ocorriam enquanto caminhava, de preferência em jejum, com as células revigoradas e o cérebro actuante. Saiu do pequeno quarto do hotel, onde ficava sempre que vinha a V., hotel modesto, quase pobre, mas familiar, onde todos sabiam que ele era um solitário, se bem que afectuoso e delicado, e ninguém o perturbava com olhares ou indiscrições, desceu as escadas cobertas com uma passadeira esgarçada e abriu a porta de mansinho.

       A cidade começava a despertar mas não era ainda o bulício intenso dos transeuntes ou a corrente insidiosa do tráfego. Àquela hora os raros caminhantes tinham objectivos precisos e deslocavam-se em silêncio, distribuindo jornais, deixando garrafas de leite nos portais ou movendo-se para as gares com determinação.

       W.N. respirou fundo e um alívio inusitado limpou-lhe os pulmões e aclarou-lhe as ideias, «Eins tuth Noth, «Só uma coisa é necessária». E a máxima gravada na memória ressurgiu dos arcanos da infância e martelou-lhe o cérebro por instantes, «Só uma coisa é necessária», e, naquela hora em que caminhava sem rumo definido pelas ruas quase desertas, percebeu que muito brevemente descobriria o Sentido e que o chicote e a escrita com sangue não passariam de metáforas vazias.  

18 luglio

O FAROL

      

 

 

O FAROL

 

(ESCREVER COM O SANGUE)

 

      

       W.N. suspirou profundamente e levou as mãos à fronte num gesto de enorme cansaço, «Preciso de ir, desculpe-me, não estou habituado…sinto uma forte dor de cabeça…», e no entanto permaneceu sentado, como se aguardasse uma última palavra da sua inesperada anfitriã. A.S. porém não se mexeu, sabia que qualquer gesto de ternura que intentasse afastaria o estranho visitante para sempre, sentia-lhe a hostilidade por detrás da aparente manifestação de fraqueza, percebia que se ele ousava proceder daquele modo era na exacta medida em que não a considerava: sentiu-se invisível e foi tão intensa a noção de que a sua presença não tinha qualquer significado para o homem, que assim se mantinha absorvido em profundo solilóquio, que não resistiu e agarrou-lhe o braço, «Venha cá, quero mostrar-lhe uma coisa!»

       W.N. levantou a cabeça, olhou em torno de si, como se não tivesse a noção do local em que se encontrava, e depois atentou na mulher, agora poderosa, erguida à sua frente com o braço estendido e a mão crispada sobre o seu braço rígido. Guardou o lenço, levantou-se e seguiu-a como um autómato.

       Deixaram a sala clara e ampla, atravessaram um corredor sombrio, até que ela abriu uma porta e o convidou a entrar num aposento, «Venha, entre, é o meu quarto, não pode parar agora!». W.N. hesitava, «Não, não, nunca entrei no quarto de uma mulher…a não ser em criança…a não ser no da minha mãe…ou irmã…», «Não, agora tem que perceber até ao fim o sentido da minha perturbação com o seu livro…entre!»

       O tom de voz da mulher, franzina e delicada, soou tão atroador que W.N. não resistiu e penetrou no espaço. Sóbrio e de uma simplicidade monástica, o quarto de dormir contrastava em absoluto com a exuberância da sala principal: uma cama de madeira com um dossel de tecido branco, uma mesa e uma cadeira, em frente à única janela, um armário escuro com as portas entreabertas perdido na sombra…«É aqui!» e indicava-lhe a mesa, «veja a minha escrita com sangue!»

       W.N. olhou-a, estupefacto e depois aproximou-se do lugar. A princípio não compreendeu o sentido do que tinha à frente dos olhos e fixou a sua companheira com uma interrogação compungida em toda a expressão do rosto. A seguir tirou os óculos do bolso, colocou-os desajeitadamente e observou a mesa.

       Uma espécie de tinteiro guardava ainda a coloração ressequida de uma tinta vermelho-escuro e uma pena tosca, feita de bambu, repousava sobre uma folha repleta do que lhe pareceu serem apenas garatujas.

       «Leia, pode ler, eu autorizo!», e acompanhou estas palavras com o gesto violento de agarrar o lote de folhas ostentando-o perante o homem acabrunhado que, de pé, em frente à mesa, tremia como um frangalho.

       W. N. pegou nas folhas e leu:

       Sim, escrever com o sangue, diz ele… escrevo com o sangue e dói, escrevo com o sangue e as forças esmorecem, tenho zumbidos no cérebro e a mão não acompanha a cadência do pensamento… mas escrevo com sangue, sim, sangue real aqui, pingando gota a gota, fazendo um lago rubro do que desejo… tinta… e vejo que enquanto escrevo fico atenta ao que vai acontecer a seguir, fico atenta ao desmaio inevitável… e continuo a escrever e o sangue a escorrer e depois…

       Não havia mais nada escrito na folha, apenas um borrão e uma espécie de rasto sumido de tinta alaranjada.

       «Então? Que lhe pareceu o meu texto escrito com sangue?», «Não percebo…é mesmo sangue?» «Claro! Não lhe disse há pouco que as metáforas ocultam um sentido literal e que só desvendando-o podemos ter a certeza de que cumprem o seu papel de metáforas?», «Disse, é certo que disse, mas não compreendo…o sangue é seu?», «”Escreve com o teu sangue e descobrirás que o sangue é o espírito” não é esta a sua sentença?», «Sim, mas é uma máxima existencial, um apelo à verdade…», «Ah, não me menospreze, crê que não o entendo? Julga mesmo que não sei o que quer dizer, de facto? Mas eu sou realista, eu tenho que experimentar as sensações porque, se o não fizer, então, tudo é mentira!», «Mas como fez? Ah, nunca pensei que as minhas palavras pudessem ser interpretadas a este ponto!», «Interpretadas?! Olhe, o meu gesto não foi de interpretação, a interpretação não passa de um jogo racional, o meu gesto foi de verdade existencial, foi de resistência corporal…E afinal, foi fácil!», «Fácil? Como pode ter sido fácil?», «Fácil, sim, muito fácil!», e acompanhou estas palavras com o gesto de puxar a manga do vestido para cima. «Vê aqui esta marca?», e exibiu um sulco castanho ainda em ferida a toda a largura do pulso esquerdo, «Com uma lâmina cortei a pele, abri a veia, fui deixando cair o sangue no tinteiro e enquanto tive força escrevi…um pouco antes de desmaiar, liguei o pulso e devo ter caído, não me lembro, acordei horas depois aqui estendida!»

       W. N. que ficara muito pálido, voltou a tirar o lenço e limpou o rosto, apoiou-se à coluna da cama e olhou a mulher à sua frente. A expressão dela denunciava um enorme desespero e também uns restos de mágoa, como se houvesse falhado uma missão importante e não pudesse compreender a sua existência daí em diante.

       «Não, não,», disse o homem numa espécie de sussurro, «eu não faço qualquer apelo ao suicídio…pelo menos não a si, não a si…» «Não a mim? Repare: porque está aqui, exactamente aqui, no meu quarto, na minha casa e não nesse tal farol de que me falou à entrada? Eu sou a sua única leitora!!! E confesso-lhe uma coisa: não percebo como conseguiu encontrar-me, há tanta gente em V.!»

       Olhou para a figura sumida de W.N., ainda com a folha na mão e os óculos pendurados, e uma compaixão súbita por aquele homem jovem, e contudo parecendo carregar nas costas o peso do mundo, fê-la retroceder o ímpeto agressivo. Retirou-lhe da mão as folhas, ajudou-o a endireitar-se e guiou-o até à sala.

       «Diga-me só como me encontrou, e, por favor, recomponha-se, sente-se aqui!» e indicou-lhe o sofá de veludo cor de mel.

       «Eu sou um solitário, o último dos solitários, escolhi sê-lo é uma missão de vida: só em absoluta solidão consigo ver os outros, só quando estou longe dos homens consigo entender o homem! Escrever é o meu trabalho, escrever é a minha luta diária contra a doença e o suicídio… mas não escrevo para mim…é para os outros que deixo o meu legado! E no entanto odeio os homens! E no entanto escrevo para eles, e não contente com isso, tento descobrir os meus leitores! Foi assim que cheguei até si! Os meus livros vendem-se tão pouco!…Um dia percorri todas as livrarias de V. e numa delas faltava um dos meus volumes…insisti com o livreiro e ele disse-me que o comprador era um homem estranho e sozinho, um faroleiro…deu-me a morada, e aqui estou!»

       A.S. levantou-se num ímpeto e debruçou-se sobre o homem que falava, numa voz límpida, quase melodiosa, como se houvesse sido destinada a cantar, e interrompeu-o. «Não, garanto-lhe, não sou, nunca fui UM faroleiro! Como podem ter-lhe dado a morada de um farol? Como pôde percorrer as ruas da cidade, subir as escadas de um prédio, entrar numa casa, numa sala e persistir nessa ideia absurda de que o faroleiro é o seu único leitor? Se tem um leitor num farol, garanto-lhe que não sou eu, têm que haver dois leitores!», «Não, não, aqui, em V. ninguém mais comprou o livro, asseguro-lhe! Também eu não entendo…também eu fiquei surpreso quando me abriu a porta! Terei que regressar à livraria…», «Mas que importa a livraria? Que importa que eu não viva num farol e muito menos seja um faroleiro? A verdade é que a morada que o livreiro lhe deu é a minha, a verdade é que comprei o seu livro, a verdade é que veio a minha casa porque eu, exactamente eu, esta mulher que aqui vê com o braço ainda purpúreo do sangue com que escrevi, seguindo o seu mandamento, o recebeu, talvez o esperasse, julgo que o esperava…», «Mas porque havia de esperar-me? Como poderia adivinhar que eu estava em V. e que, num acto de desespero, percorri, uma a uma, as livrarias da cidade só para saber se a minha palavra chegara a algum ouvido? É o desespero do solitário que o empurra para as ruas e avenidas, que o faz acotovelar as multidões em busca de um companheiro de martírio… e depois…e depois…»

       W.N. levantou-se, agarrou a pasta, endireitou o fato e enfrentou decidido a sua anfitriã, «Mas agora, tenho de ir…perdoe-me, tenho mesmo de ir…»

       E, sem se deixar impressionar perante o olhar desvairado de A.S., percorreu a sala até à porta, abriu-a e saiu.

      

 

 

14 luglio

O FAROL

                                                  
 
 
 
O FAROL
 

       W. N. subia as escadas precipitadamente. A respiração arfante tanto poderia traduzir cansaço como ansiedade e contudo os olhos escuros e velados por uma sombra errante de melancolia e audácia não traíam o sentimento profusamente expresso no tremor dos dedos, na incerteza dos passos, na curva acentuada do dorso que o obrigava a segurar-se firmemente ao corrimão oscilante. No segundo patamar parou bruscamente e levou a mão à testa como se quisesse expulsar dali o fantasma de um pensamento e essa testa, que alvejou por instantes ao clarão indeciso de uma réstia de luz filtrada pelo vidro do pequeno postigo da trapeira, revelou uma fronte surpreendente de cor marfínica, sólida e larga como se houvesse sido talhada em mármore e nenhuma ruga traía inquietação, nenhum suor perlava o cetim da pele: dir-se-ia estarmos perante uma face de menino! Toda a cabeça dele era, aliás, de uma candidez angélica e o rosto, coroado de cabelos fartos penteados para trás, anunciava corporeamente a intangibilidade profunda do solilóquio.

       Prosseguiu a subida, agora a um ritmo mais célere mas também convulso, como se o ruído das passadas, trilhando areias e pó, fosse o sinal audível do estertor mental que assim o atirava escada acima.

       O vestuário, descuidado, ainda que denunciador de um certo tipo de pessoas para quem a estética, e não o luxo ou a ostentação, comanda as linhas da vida oscilava-lhe em torno dos membros, fruto, decerto, do uso continuado, pois os tecidos primavam pela simplicidade; ou então havia emagrecido e não pudera ou não quisera ajustar o fato às novas dimensões.

       W.N. ia fazer uma visita e não estava habituado a semelhantes rituais da sociedade pois era praticamente um recluso voluntário, muito mais quando, por razões alheias à sua vontade, se via constrangido a habitar na cidade. Nos primeiros tempos, agradava-lhe o ruído do trânsito e das pessoas, estimulava-lhe o pensamento sorver pelas narinas os eflúvios em mescla da civilização e podia caminhar durante horas por avenidas e vielas sem notar o correr do tempo. Esta sensibilidade eufórica não durava mais do que um dia ou dois, muitas vezes era acometido de suores frios e de tonturas, bruscamente, quando dera ainda poucos passos pela calçada, ou mais adiante, quando já se perdera no tumulto: nos dois casos tinha dificuldade em orientar-se, olhava perdido à volta, os olhos arregalavam-se-lhe e então sabia que estava na hora de mergulhar nas suas quatro paredes. Nunca pedia ajuda a quem com ele cruzava e o olhava com comiseração, espanto ou desprezo, aprendera a dominar os picos de ansiedade destes momentos que aliás sabia poderem chegar a qualquer instante. Encostava-se ao muro de uma vivenda ou à grade de um pátio, baixava a cabeça um minuto ou dois e, quase recomposto, levantava a cabeça e às apalpadelas, como se tivesse cegado, encontrava sempre o seu destino. Este recluso decidira sair, portanto,  num dia de misoginia, paradoxalmente para quebrar as correntes do seu próprio e auto emparedamento e ali estava, arfante e agora muito pálido, frente a frente com uma porta pintada de verde, para além da qual estaria o objecto da sua visita.

       W.N. recuou e preparava-se para descer, no reconhecimento da impossibilidade psicológica de apertar a campainha que parecia, à sua mente confrangida, ter as dimensões do mundo inteiro. A meio do patamar parou, poisou a seu lado a pasta de couro castanho que transportava e tirou do bolso um lenço branco a que limpou primeiro a testa, depois a boca e por fim as mãos, finas e longas, do mesmo tecido marmóreo da fronte.  A luz da trapeira incendiou-lhe o olhar, e agora havia uma faísca demente nas pupilas dilatadas, uma faísca de inteligência fora do comum; e no entanto, o corpo, de estatura elevada enquanto subia, decrescera, quase sumira na indecisão do gesto, na corcova acentuada do dorso. Não chegou, contudo, a descer. Um súbito lampejo de energia fê-lo erguer a fronte e, pela segunda vez, enfrentou a porta verde, descascada e rota aqui e ali, e, com uma inesperada firmeza, apertou a campainha.

       W.N. estremeceu quando lhe foi devolvido o rugido estertoroso do toque subterrâneo, como se estivesse prestes a invadir o antro de um ogre, a gruta sacrossanta de um eremita. Contudo, a porta abriu-se de par em par, com uma facilidade e limpeza que não lhe parecia possível minutos antes e um vulto gracioso de mulher revestiu de luz o espaço desassombrado.

       «É esta então a minha leitora?, pensou, confuso e descrente, com um travo de lágrimas na garganta opressa, «Foi para ela que escrevi todos os meus aforismos e apóstrofes?»

       Mas não teve tempo de fazer qualquer gesto: com meiguice, a mulher pegou-lhe no braço, conduziu-o para o interior da casa e fechou suavemente a porta atrás de si.

       Apesar da pobreza da escadaria e dos patamares, a sala onde entraram era fresca e requintada, entrava pelas janelas abertas uma luz rica de princípio de Outono e os sofás de veludo cor de mel, as mesas de madeira nobre, as estantes repletas de livros, e as plantas, plantas de cores luxuriantes e no entanto deliciosas de sugestões primitivas teciam um halo mágico que, de imediato, transformaram aquela aventura exasperante na cidade tumultuosa e, depois, no delírio sofrido da ascensão pelos degraus rangentes,  num pesadelo agora desvanecido.

       A.S. indicou-lhe vagamente um lugar e W.N. sentou-se delicadamente, como se não ousasse deixar qualquer marca de si no espaço que franqueara e lhe parecia uma habitação sagrada. Olhou a sua anfitriã, não ousou proferir qualquer som, esperou que a voz dela quebrasse o encanto ou desfizesse o enigma: «Não, não é possível que aquela jovem franzina, de olhos azuis e cabeleira fulva, de pele diáfana e branca e gestos de dançarina seja, afinal, a minha única leitora, aqui, na grande cidade de V.! Um homem, sim, um fauno barbudo, um gigante de olhar sinistro, um terrível Cagliostro, tudo isso era esperado por detrás da porta temida, pois esses  mesmos são os destinatários preferenciais dos meus discursos sibilinos...mas aquela deusa, aquele ser volátil e sereno...não, não é possível, enganei-me!»

       A.S. sentara-se num cadeirão em frente do visitante, deixando as mãos abertas sobre o regaço. E, quando o silêncio estava prestes a  transformar-se numa  parede que nenhum deles poderia transpor, caso lhe consentissem a chegada, A.S. curvou-se um pouco em direcção a W. N. e disse: «A que devo a honra da sua ilustre visita?» Perplexo, o visitante olhou à sua volta, em direcção à janela aberta para um céu azul esbranquiçado e murmurou: «O meu leitor…o meu único leitor…vive num farol…», «Um farol?», respondeu em voz aguda A.S.,«Um farol? Mas chegue aqui, venha à janela: a minha casa pode bem ser o farol de que fala!», «Não, não! É um faroleiro mesmo, não usei a palavra farol como imagem!»

       Desta vez a fronte marmórea de W.N. perlou-se de suor, os ombros abateram-se e o olhar perdeu-se numa névoa cinzenta: «Não pode ser a minha única leitora…não pode!», «Porquê? Porque não me permite ser a sua leitora e porque não posso ser a única?», «Uma mulher…uma mulher…»

       A.S. levantou-se e deu uns passos nervosos pela sala, foi até ao fundo recolheu da mesa de leitura um livro aberto, colocou o dedo entre as páginas e dirigiu-se ao sofá onde W.N. se deixara ficar, absorto. «“De tudo o que se escreve, apenas amo o que se escreve com o próprio sangue: escreve com o teu sangue e descobrirás que o sangue é o espírito”. Ainda pouco mais li do que esta frase do seu livro, quando quero seguir em frente experimento…experimento…», «O quê? O que experimenta?» A voz de W.N. soou, grave e profunda no silêncio da sala, e os olhos, agora límpidos de um castanho de âmbar, aveludado e cristalino, emanavam surpresa e júbilo. «Sei bem que é uma metáfora…”escrever com o sangue” mas as implicações desse gesto…os efeitos dessa escrita…as metáforas sustentam-se no significado literal, sem isso nunca as entenderíamos. E então…» A.S. ficou calada, com o livro fechado entre as mãos, como se não conseguisse formular em palavras os pensamentos. W.N. levantou-se, endireitou as costas, procurou nos bolsos interiores do casaco e com sofreguidão retirou os óculos, redondos, de armação metálica e aproximou-se de A.S. e do livro que ela segurava vigorosamente. «As minhas metáforas não foram escritas para si! O sangue de que falo não deve cair sobre a sua cabeça!», «Porquê? Sim, porquê? Só porque eu, a leitora, a sua única leitora, afinal, não passo de uma mulher?» Pela primeira vez havia sarcasmo e dor na voz de A.S. e uma auréola  de solidão caiu-lhe na cabeça, bruscamente privada do seu resplendor fulvo. «Sim, sim, por ser mulher, não me entendo com as mulheres, não posso acreditar que elas me entendam! E aí está: parou na minha metáfora do sangue e da escrita, não conseguiu avançar na leitura…as mulheres e o sangue…as mulheres e o sangue não combinam!» «Não, eu li, ora oiça: “Ao homem e à mulher, eis como os quero: ele, pronto para a guerra, ela, para a maternidade…” e também: “Vais ter com as mulheres? Então não te esqueças do chicote!” Mulheres e sangue não combinam? Maternidade, chicote…agora pense comigo: quem serão afinal os especialistas em sangue?»

       W.N. dava passadas vigorosas pela sala e depois parava e puxava para trás os cabelos, que ao mesmo tempo desgrenhava, e olhava a sua única leitora com uma expressão alucinada. Ela percebeu a inquietação do seu visitante, dominou o início de azedume que a acometera e aproximou-se dele: «Venha, sente-se, converse comigo! Esqueça o facto de eu ser mulher, pode ser que o sexo não seja afinal a razão das minhas perplexidades, pode ser que eu seja uma especialista em sangue!»

       Ele deixou-se levar até ao sofá e ambos ficaram sentados, desta vez,  lado a lado, olhando numa espécie de conspiração tácita o livro aberto: “De tudo o que se escreve apenas amo o que se escreve com o próprio sangue: escreve com o teu sangue e descobrirás que o sangue é o espírito.”

      

 

 

27 maggio

O Despertar do Ditador

     

Francisco de Goya

 

 

O DESPERTAR DO DITADOR

      

 

 

     No seu apertado compartimento, o velho ditador remexia-se e, mesmo dormindo pesadamente, percebia que alguma coisa não estava bem, acabara-lhe aquela tranquilidade de que nem sequer tomara consciência, porque nenhum sonho ou visão lhe preenchera as horas durante três décadas ou mais. O sono deixara de ter poder catártico ou cataléptico e o velho senhor sentia o corpo esquálido e gelado percorrido por tremuras, assolado de formigamentos como se nunca mais pudesse descansar.

    O pior de tudo era o pensamento, esse que estivera ausente e agora recrudescia a cada instante, o pensamento fragmentário de toda uma vida em que se cruzavam memórias dispersas de várias idades e tempos todos enredados uns nos outros! E o pensamento dizia-lhe que fora uma personalidade ilustre, mas também odiada, e, em tempos, insignificante e depois solitária, que a solidão lhe pesou, mas que muitas vezes conseguiu aliviá-la em situações enviesadas de relacionamento humano, mais do que equívoco e depois o remorso e as conversas com o cardeal seu confessor que lhe dava penitências terríveis, E onde terei eu deixado o rosário?, e tentava mexer os dedos para procurar no bolso direito do casaco, mas a mão não lhe obedecia, ferreamente apertada na outra como se uma espessa camada de solda lhe houvesse amalgamado o corpo todo; e de novo o sono pacífico, sono de chumbo, onde um buraco negro lhe denunciava a incapacidade de perceber quem era e onde estava.

      Em casa, a mulher-a-dias, perturbada com o achado sagrado no chão de um escritório profano, sentindo que aquela era uma peça valiosa, pois ela bem via o relevo caprichoso das contas, formando pétalas delicadas de flores, a perfeição das formas e do rosto do Cristo crucificado, a nobreza do material, preservado e sólido, apesar da antiguidade, arrependia-se de o ter trazido consigo, Como se fora lembrar de o meter no bolso da bata quando podia tê-lo deixado simplesmente caído no local onde o encontrara? Receava as consequências do seu gesto impensado, decerto aquele rosário muito antigo era uma peça de coleccionador, ali presente, vá-se lá saber porquê, e, sem dúvida, naquele momento já haviam iniciado as buscas. Ora ela tornar-se-ia decerto a principal suspeita, Quem mais entrava no escritório do primeiro-ministro, assim, absolutamente só, quando ninguém exercia qualquer espécie de vigilância? Havia câmaras de video, é certo, mas, quando se baixou para apanhar o rosário e depois, quando precipitadamente o ocultou no bolso, percebeu, a posteriori claro, mas sem sombra de dúvidas, que esteve sempre fora do seu alcance. Portanto as suspeitas, se suspeitas houvesse, não teriam modo de a visar. Decidiu pois dormir descansada e, no dia seguinte, logo que fosse limpar o gabinete do primeiro-ministro deixaria cair o rosário discretamente no sítio onde primeiro o encontrara.

 

 

23 maggio

O DESPERTAR DO DITADOR

O DESPERTAR DO DITADOR

 

 

 Francisco Goya

 

 

        Depois de dormir descansado durante mais de três décadas, sem sonhos ou visões, com as mãos entrelaçadas sobre o peito e um velho rosário pendente dos dedos esquálidos, um primeiro tremor agitou-lhe o corpo escanzelado, pendente de um fato negro coçado nos cotovelos. Os olhos, ainda presos por debaixo das pálpebras cerradas, esboçaram um movimento ténue e o nervo eferente anunciou à zona cerebral respectiva um início mais que fugaz de pensamento. Depois voltou a adormecer, ou pelo menos pensou nisso quando, dias ou anos depois, as pálpebras abriram por completo e deu consigo sentado à mesa.

          Era um dia morno de Maio e, pela janela entreaberta do escritório (pois que de um escritório se tratava) entravam perfumes e sons de tal maneira intensos que o velho ditador não teve outro remédio senão afastar a cadeira e dirigir-se à janela. Custou-lhe muito aquele gesto, e os passos que necessitou de dar fizeram estalar todos os ossos do seu corpo velho, mas acabou por terminar a caminhada e pôde afastar a cortina e olhar o largo fronteiriço de onde emanava a inusitada agitação daquele dia.

          Havia traços brancos na rua pintados no asfalto de um passeio a outro, mesmo ali por debaixo de seu nariz de águia, muito afilado e quase transparente: o velho ditador não entendeu a simbologia de semelhante zebra e fixou nela os seus olhos encandeados pela reverberação solar. Bruscamente, os carros que desciam celeremente a via travaram ao mesmo tempo e um grupo de pessoas, com ar sossegado e decidido, atravessou a rua sem olhar para os lados e, volvidos alguns instantes, os carros arrancaram com inesperada pressa deixando a rua de novo calma e adormecida no calor do princípio da tarde.

          O velho ditador reflectiu, É verdade eis aqui as passadeiras e os semáforos, mas como é possível terem-nos instalado sem a minha autorização? E como sabe o povo o que fazer se ninguém lhe explicou ainda? Ora é sabido que o povo não é inteligente, eu não quero!

        Olhando mais para a frente, numa parede esburacada que havia num prédio semi-arruinado, o velho conseguiu ver, franzindo muito os olhos (onde teria ele deixado os óculos?) um conjunto de cartazes colados em banda com o rosto sorridente de um homem que ele reconhecia vagamente. Como é possível a polícia deixar ali aqueles papéis? E aquele rosto, aquele rosto…ah já sei, mandei-o prender, açoitar e torturar! E ali está ele a exibir-se, sorridente e bem-humorado!

        Desgostoso e cansado, como se arrastasse consigo o peso do mundo inteiro, regressou ao seu assento atrás da secretária. Procurou o telefone mas não encontrou o sólido aparelho preto, com um disco robusto a meio onde se marcavam os números e só pôde franzir a testa de descontentamento, pois tinha uma necessidade imperiosa de chamar o secretário e não era adequado ao seu alto cargo levantar-se e ir à porta procurar a telefonista.

        Mergulhou numa espécie de torpor logo que decidiu sentar-se de novo e só teve tempo de perceber que haviam retirado o crucifixo de pau-preto, único enfeite que permitia para a parede pintada de um austero cinzento. A seguir, mergulhou no sono.

      A funcionária de limpeza entrou no escritório sem bater pois àquela hora – um pouco depois do almoço – costumava fazer a primeira ronda de faxina limpando o pó, passando a esfregona pelo chão, endireitando os cortinados e outras ninharias, e sabia, por força desse hábito, que não havia ali ninguém, demorados os dirigentes em almoços de prazer ou circunstância. Não olhou à sua volta, conhecia sobejamente todos os recantos da sala, a tal ponto que poderia sem dificuldade perceber se o dono daquele escritório havia estado ali muito ou pouco tempo, sozinho ou acompanhado, se fumara às escondidas ou se naquele dia cumprira a lei, e até se estava nervoso ou descuidado, pois todos estes sinais lhe eram diariamente transmitidos pela atmosfera da sala, pela disposição dos objectos sobre a secretária ou dos poucos móveis normalmente colocados numa certa ordem – secretária, cadeira atrás, cadeira à frente, sofá junto da parede, mesa de apoio, tapete, candeeiro de pé – e, em geral, comprazia-se com a sua própria inteligência, pois embora fosse apenas mulher-a-dias aspirava a muito mais, logo que tivesse oportunidade.

        Quando afastou a cadeira de braços, estofada a couro preto, para assim concluir a rápida limpeza, um objecto enrodilhado no chão, próximo da zona onde habitualmente o primeiro-ministro apoiava os pés, chamou a sua atenção por ser de todo incomum. Não era um lápis ou caneta, nem sequer uma carteira esquecida, mas um grande rosário negro velhíssimo, de contas quase transparentes pelo uso, um rosário no sentido literal da palavra pois continha o triplo das contas dos terços homologados pela religião católica. A sua surpresa foi tão grande que não resistiu a apanhar o objecto e a analisá-lo demoradamente percebendo que era uma peça de artesanato antiga, feita de pau-preto, com um crucifixo de dimensões razoáveis onde se percebiam ainda nitidamente os contornos esculpidos do corpo do crucificado. Mas depois reflectiu, Como podia aquele rosário pertencer ao primeiro-ministro se - toda a gente sabia - o homem era ateu? Toda a gente sabia, é claro, embora ele não o declarasse em público pois era o dirigente de um país católico e não custava nada fingir devoção, desde que semelhante hipocrisia lhe garantisse a reeleição. Porém, a mulher de limpeza e a sua perspicácia, treinada no contacto silencioso com as altas personalidades, percebia bem que fingir devoção não levaria o fingidor ao extremo de transportar consigo um rosário daqueles, antiquado, gasto, com todos os sinais de um uso intensíssimo. Ouviu um barulho no corredor, percebeu que duas ou mais pessoas haviam parado no corredor muito perto da porta do escritório. Estremeceu; e, sem se dar conta inteiramente do que fazia, ocultou o rosário no bolso da bata, juntou os apetrechos de limpeza e saiu.

30 giugno

Vagabunda da Sombra

 

 

 

            

 

                                                          Florescimento da Primavera necrófila num piano de cauda (1933)
                                                                                                                       Salvador  Dalí

 

 

 

 

 

                     

 

 

 

                         VAGABUNDA DA SOMBRA

 

 

 

SÓ UM PIANO restou depois do vendaval, lá, no espaço cheio de árvores nuas, no tapete fofo de folhas arrancadas, entre pássaros desplumados, piando de frio.

         Só um piano e eu, vagabunda da sombra, com um rasto de vidas gotejando, um piano para o qual corri, meu único amigo, meu aliado falaz, minha esperança-palavra sem sentido algum.

         Eu toquei o piano, ébano brilhante em cinzência de catástrofe, eu toquei o piano e ele abriu-me os braços, braços imensos de música gigante, apertou-me os ouvidos no torno da mágica... um piano e eu.

Música falsa, invertida, corrompida, música-traição, que eu amei, rendida, a que entreguei meus ouvidos exangues, minha pele com pontos de arrepio, a que entreguei tudo o que tinha. Olhem, fiquei sem nada, nada meu, só tinha a música daquele piano de ébano polido entre aglutinação de lixos cindidos. Olhem, eu misturei-me com os sons das teclas mágicas, fundi-me de tal maneira com o ritmo dionisíaco, trágico e doce da melopeia que acrescentei a tudo – e deixei de ter um eu.

         Ah, piano traidor que, de repente, me expulsaste do teu ventre sonoro, ah, piano carrasco que me atiraste a lama barrenta que guardavas, pérfido, nas entranhas fechadas! Agora, o que me resta é a memória do teu som cristalino e as lágrimas gastas do desespero morto.

 

 

 

                                                                                  Fábulas e Mentiras

 

 

 

 

14 giugno

Diário de Bob

IV

 

 

Vincent Van Gogh,  Ameixieira Florida

 

 

IV

 

 

           

 

            Durou apenas meio ano a minha experiência na Casa Assombrada – foi assim que passei a designar aquele antro mesquinho, onde as coisas perdiam a cor e as pessoas se transformavam numa espécie de fantasmas. Sim, porque o Vasco – tal era o nome do meu raptor – tinha muitos amigos e amigas, todos de idade indecisa, todos ladrões, drogados e vagabundos... e eu, sempre que havia visitas, escondia-me no vão mal iluminado de uma escada, e esperava o fim do pesadelo.

            Ali acontecia de tudo.

            Às vezes, as conversas, prolongadas até de madrugada, tinham laivos de literatura e tocavam questões de natureza política ou filosófica: já que não havia televisão nem livros, fui sabendo, através delas, os sucessos da política nacional e internacional e obtive a narração dos escândalos e de todas as notícias do exterior. Nunca participei nessas tertúlias, nem tão pouco me mostrava muito, pois isso não parecia agradar ao Vasco que tinha um medo terrível que eu quisesse sair. É verdade: aos poucos, tornei-me o amparo psicológico daquele rapaz, sempre famélico, sempre com uma luz demoníaca no fundo dos olhos castanhos e secos; simultaneamente, dei comigo, mais uma vez, encarcerado, integrado numa existência que não saberia explicar ao certo, perdidos pais, irmãos e referências!

            Penso que, por causa disso, e para fugir ao tédio das horas do dia em que ficava completamente só, comecei a ler as minúsculas revistas, guardadas nas prateleiras do armário, em perfeita ordem.

A primeira coisa que me feriu foi a crueza de certos títulos.

Fiquei a lê-los, um após outro, a interiorizar as palavras em destaque, a remoer, num espanto que me eriçava os pêlos do dorso – sou muito sensível nessa zona do meu corpo! - o sentido daquele conjunto de frases absurdamente espantosas.

Depois, fechei as revistas e olhei as capas.

Invariavelmente traziam mulheres de uma beleza vulgar e espalhafatosa, em poses provocadoras – eu não diria provocantes ou eróticas –, ou casais jovens em posturas cheias de malícia. Ostentavam um nome feminino – Susana, Dina – e o seu tamanho sugeria consultas discretas ou ocultamento no escuro das bolsas das mulheres. Eram, como logo percebi, revistas femininas – ou dirigidas a um público feminino: há diferença nestas duas categorias – e a sua tiragem semanal, aliada ao preço baixo, sugeriram-me edições consideráveis e, portanto, muito público-leitor.

Folheei-as e li alguns artigos.

Superficialmente, tratavam de todos os assuntos, desde as intrigas das novelas televisivas, até aos pormenores banais da vida dos “famosos”, passando pelas receitas de culinária e de beleza e, – pasme-se! – chegavam a deter-se em psicologia e numa ou noutra abordagem científica, assinada por  doutores!

Obsessivamente regressei aos tais títulos. E desde logo os misturei todos numa dança frenética de palavras, curiosamente atravessadas por um cunho existencial muito peculiar.

 

 

Quero a mão dentro da vagina, menti e disse-lhe que sou virgem, ele engravidou outra mulher, gosto que me bata no acto sexual, sou ajudada por um homem casado e muito ciumento, faço-lhe telefonemas obscenos, pede que lhe morda o sexo, apaixonei-me por um gay, acaricia-me a vagina em público, serei ninfomaníaca?, será que ele me engana?, o meu pénis é torto, pratico sexo no gabinete, serei gay?, fazemos muito barulho na cama, tenho orgasmos ao telefone, amo duas mulheres, faço colecção de filmes pornográficos, visto a roupa interior dele, serei lésbica?, excito-me com um professor, quer que lhe bata, sinto dores na vagina, não tem erecções, masturbo-me após o acto sexual, a mulher do meu amigo beijou-me, adoro a penetração anal, quero trocar carícias com outro casal, não quero sexo anal, quero ter sexo com outro homem, o médico percebe que me masturbo?

 

Li com um estranho desagrado alguns dos artigos deste modo intitulados e senti-me muito deprimido, pois nenhum dos assuntos ali mencionados me parecia ter qualquer relevância em termos de informação cultural – era assim que eu entendia, até ao momento, a existência e o valor de livros e revistas – e não era capaz de assimilar a vantagem prática do aconselhamento que se seguia às insólitas questões dado por supostos psicólogos. Muito menos compreendia a razão que levaria o meu ex-carcereiro e actual amigo a trazer consigo para casa todos os dias dezenas e dezenas das referidas revistinhas.

Vim a percebê-lo mais tarde, muito perto do fim da minha estadia na Casa Assombrada.

Soube que, apesar de ladrão e de drogado, o Vasco era uma espécie de filantropo ou moralista e elegera como missão existencial à sua escala, privar os consultórios médicos e outros locais públicos, onde fazia as suas investidas, de semelhantes publicações! Pareceu-me um bem estranho motivo para permanecer vivo, mas, ao mesmo tempo, não pude deixar de nutrir por ele uma secreta admiração mesclada de pena pois, por muito que trabalhasse, por mais que percorresse sem cessar todos os antros onde tais revistas correm, céleres, de mão em mão e de olhos em olhos, como iria ele conseguir isolar o mundo de semelhante deboche literário?

Um dia, ao ver-me absorto na leitura, ele riu-se e comentou:

- Sabes? Eu sei que apreender essa sujeira dos quiosques e salas de espera não terá poder para acabar com a edição de tais abortos mas, pelo menos, estas que eu trago (e se vires bem tenho aqui milhares) não serão lidas, nunca mais, por ninguém! Penso que deste modo poderei estar a contribuir, à minha escala, para a limpeza do mundo!

Dei-lhe razão, claro. Mas ao mesmo tempo entendi que estava perante mais um idealista, semelhante à minha mãe adoptiva, tão criativa e tão ingénua em simultâneo, e que, ao saltar de uma vida para a outra, pouco tinha afinal evoluído em termos de conhecimento da espécie humana.

No dia em que mantivemos este curto diálogo sobre o roubo das execráveis revistas e seu motivo, o Vasco estava mais animado do que o costume e, olhando à sua volta, desatou a rir e propôs-me:

- Vamos incendiar esta lixeira?

A princípio não entendi por completo a ideia dele, pensei que estava a referir-se somente às revistas e acedi, com o entusiasmo moderado de que sou capaz: porém, cedo o vi despejar uma lata de um líquido mal cheiroso de uma cor avermelhada por cima, não só da estante das revistas, mas sobre mesas, cadeiras e até sobre o pobre catre que lhe servia de local de repouso. Achei que ele havia, definitivamente, enlouquecido, pois, enquanto atirava jactos do produto sobre todo o espaço, ria e tropeçava, encharcando-se ele próprio e rolando pelo chão viscoso, e eu, temendo pela minha sobrevivência (os meus instintos extremamente acutilantes entram em choque, de imediato, com a razão logo que pressentem a ameaça vital) aproveitei a insanidade temporária do Vasco e corri para a porta, que entretanto aprendera a abrir, disposto a sair dali logo que possível.

Foi então que o desastre aconteceu: o Vasco acendeu um fósforo, atirou-o para o meio do aposento e tudo se abriu numa súbita fogueira envolvendo papéis, móveis, estilhaçando os míseros vidros e, coisa acima de todas aterradora, abrangendo o corpo do rapaz que nada fez para escapar das chamas! Ignorou os meus esforços para o dissuadir da imolação, continuou a rir e a executar uma espécie de dança estulta e eu, Bob Tailor, só pude fugir daquele local com todas a energia de que fui capaz!

Escondido num beco próximo do armazém abandonado, cedo ouvi as sirenes de carros da polícia e de bombeiros, assisti ao modo como apagaram o incêndio e vi, com o terror e a emoção das lágrimas que não consigo verter, o Vasco ser transportado numa maca, inconsciente ou morto (nunca pude vir a sabê-lo!) para uma ambulância que o levou a alta velocidade dali para fora.

Uma vez mais entregue a mim mesmo e ainda desconhecedor, em absoluto, daquele mundo feito de ruas e casas, de gente e de veículos barulhentos e malcheirosos fiz o que havia feito há seis meses atrás: desatei a correr sempre para a frente, com os mesmos resultados da minha primeira e, até então, única corrida.

Foi bastante mais fácil, porém, esta minha derradeira fuga do que as circunstâncias de que me lembrava do meu primeiro contacto com o asfalto e os automóveis em delírio por ruas atravancadas. Estava frio e seco, podia correr sem aquela antiga e ainda memorável sensação de visco a colar-me ao chão os membros transidos; e assim cheguei, sem saber muito bem como, a uma espécie de largo com uma estátua de mulher no centro rodeada de pombas e, arquejando, deixei-me cair na relva, ligeiramente húmida.

Mal tivera tempo para me recompor da emoção e do cansaço quando ouvi chamarem o meu nome e o som era tão comovente e familiar que bruscamente fui invadido por uma calma tão intensa que só pude abrir a boca num bocejo prolongado.

Quando olhei, vi, como no meio de uma névoa brilhante, os cabelos longos e o rosto bem delineado da minha mãe adoptiva! Ela olhava-me com espanto mesclado de ternura (assim me pareceu) e, sem transição, fez um gesto mudo de convite e empurrou-me para dentro do carro, cuja porta deixara aberta. Por instantes senti o pavor antigo regressar, vi, como que em delírio, a corcova do homem monstruoso rescendendo a bafio de caverna e quis fugir, agarrei a porta com toda a força que ainda me restava e lutei pela minha liberdade. Foram em vão os meus esforços pois, com mão firme, a minha mãe adoptiva fez-me deslizar para o assento e olhou-me de um modo cúmplice como que a dizer-me que tudo estava resolvido e poderíamos doravante ser felizes.

Não me lembro de chegar a casa nem dos dias que se seguiram. Julgo que caí de cama com uma febre nervosa ou qualquer coisa do género, mas nada posso garantir quanto ao teor do meu sofrimento, se é que foi mesmo sofrimento, pois o tempo da minha recuperação foi de uma doçura indescritível. Um dia acordei e percebi que a casa onde nascera e de onde o intruso de olhos metálicos me havia feito desertar, recuperara toda a sua antiga placidez, ainda que dois ou três sinais denunciassem despojos de batalhas ainda não removidos. Havia um espelho partido, duas cortinas arrancadas, alguns quadros rasgados com a tela pendente; mas, como se não dessem por nada, as três mulheres, se bem que uma fosse ainda uma criança, pareciam mais unidas que nunca e, de momento, nada interessadas em remendar os rasgões. Acabei por restabelecer-me, ganhei a minha antiga vitalidade e um dia, quando a casa toda dormia, fui até à sala onde o velho computador, tão familiar como sempre fora, jazia inerte no seu apoio de madeira polida.

A princípio hesitei. Qualquer coisa mudara em mim durante aqueles meses insólitos, uma súbita e intensa necessidade de aderir por inteiro à minha autêntica identidade que, afinal, pouco ou nada tinha a ver com livros, televisão, artes e, como é óbvio, computadores. Porém, por outro lado, eu desejava muito narrar a minha história, tentar demonstrar, num esforço talvez superior à minha capacidade e inteligência, que também eu e, quem sabe, todos os que a mim se assemelham, temos vivências importantes, protagonizamos factos memoráveis e que, se estamos no mundo e dele nos apercebemos, ainda que nem sempre de modo nítido e pleno, é para podermos, dele, dar também o testemunho. Foi por isso que subi para a cadeira, carreguei no botão que – eu sabia-o! – abriria a luz fulgurante de um belo ecrã azul e, de um momento para o outro, seguro de mim como jamais estivera antes, comecei deste modo a minha narrativa:

 

O meu nome é Bob Tailor mas eu sei que só sou chamado deste modo porque um belo dia, há muitos anos atrás, julgo que durante a Segunda Guerra Mundial, os soldados americanos trouxeram um dos meus antepassados do Japão, o qual cedo se miscigenou, expandindo a linhagem, pelo menos de modo parcial. Segundo outros relatos, essa migração forçada terá acontecido por volta dos anos sessenta, altura em que a minha estirpe superior foi reconhecida no ocidente. Sou, portanto, oriundo do Japão e a minha linhagem remonta ao século VII, estando desde sempre associada a acontecimentos marcados pela sorte, pela prosperidade e pelas ocorrências felizes. O nome originário dos meus antepassados deveria ser qualquer coisa como Maneki-Neko, um título auspicioso entre os nipónicos; porém, logo que americanizado, por força da tal expatriação a que fomos submetidos, tornou-se Bobtail o que, em termos sonoros, nada tem já da língua do país das minhas referências étnicas.     

Sabendo isso, a minha mãe adoptiva decidiu baptizar-me como Bob Tailor, se bem que eu não seja americano, muito menos japonês, mas nascido e criado em Portugal, mais exactamente nesta casa onde escrevo e que me viu nascer, estranhamente, um dia depois da minha irmã gémea, que em nada se me assemelhava.

 

Fisicamente, sou muito elegante e esbelto, ainda que dotado de uma excelente musculatura, o que me torna um exemplar masculino pleno de atractivos. Se acrescentarmos ao retrato físico que de mim acabo de fazer, as minhas peculiaridades psicológicas ou de carácter, sem querer parecer vaidoso ou auto-complacente, afirmo, com toda a segurança, que sou propenso à tranquilidade, pauto-me por uma rigorosa escala de valores, onde a fidelidade avulta e, se me torno amigo de alguém, o que acontece com toda a facilidade, nada me arreda dos meus afectos. A curiosidade é outra das minhas tendências, o que por vezes traz dissabores sendo, contudo marca de génio aqui, no Japão, ou mesmo na América, países que me dizem respeito, mas para os quais não creio vir algum dia a viajar. Não tenho nenhuma dificuldade em adaptar-me, desde que o ambiente garanta a minha estabilidade física e emocional, gosto muito de conversar, se bem que o faça de modo assaz característico e perceba que nem sempre sou entendido pelos que me cercam, ainda que eu, Bob Tailor, os entenda perfeitamente, sem excepção.

Que companheiro mais precioso poderia desejar aquela que me habituei a considerar como mãe adoptiva, perdida a legítima em tenra idade, se, ainda por cima, pouco ou nada exijo dando-lhe em troca, e por inteiro, a fidelidade de que me sinto capaz?

          Efectivamente, nós, os felinos, não temos nada em comum com esses outros companheiros dos homens - os cães – que abanam a cauda e se deitam no chão como se fossem meros tapetes e, em pouco tempo, aprendem a fazer as mais humilhantes tarefas só para lhes agradarem. Não, nós, os gatos, precisamos acima de tudo de cultivar a independência, o que não significa que não estejamos dispostos a reconhecer quem nos ama e  acedamos a amar em retribuição…mas nunca permitimos que nos ponham uma coleira e nos exibam como troféus por praças e ruas. E, sabendo eu que os meus antepassados nipónicos foram venerados e transformados em ícones nos templos, poderia alguma vez sujeitar-me ao jugo, à escravidão?

          Eis pois que eu, Bob Tailor, sou, de facto, o senhor do meu lugar e, mesmo depois de escorraçado pelo meu rival de olhos faiscantes, cheiro nauseabundo e coluna torcida, consegui magicamente regressar, por instinto, ao local da minha origem e, vejam só! tive a percepção exacta do momento, pois à hora do meu regresso já o intruso havia partido para não regressar nunca mais!

 

 

                                                                                       

13 giugno

O Diário de Bob

                                                                                                                    

 

 

 

Giorgio De Chirico

 

                                                                

 

 

 

 III

 

 

            Devo confessar que não estava absolutamente nada preparado para o choque do ambiente, quente e febril, com que fui confrontado logo que pus os pés na rua.

            Era a primeira vez que pisava o asfalto e tive e nítida sensação da viscosidade do piso a travar-me a caminhada: como iria andar normalmente, se os passos se me enredavam, presos àquela substância pegajosa? Mas seria mesmo culpa do asfalto ou do medo que me tolhia os sentidos?

            O certo é que, passada a perplexidade inicial, desatei a correr sem hesitação, evitando os carros que deslizavam a toda a velocidade, tropeçando em gente que me insultava, ignorando qualquer referência ou sinal, nessa fuga desesperada que, mais tarde, não consegui explicar muito bem a mim próprio.

            De que fugia eu, afinal? Do monstro de olhar metálico, usurpador da minha paz quotidiana? Da minha mãe, enfeitiçada por não sei que fascínio doentio perante uma obra inexistente? Ou da minha impotência de indivíduo humilhado e inferior, incapaz de reclamar os seus direitos?

            Naquela altura, porém, não pensei em nada, tomado por um pânico absoluto e irracional. Confusamente, sentia que aquele mundo, dantes apenas pressentido nas minhas estadias à janela, efabulado nas descrições literárias ou nas reportagens da televisão, ali, ao vivo, era bem mais aterrador. Ou melhor: o que me fazia correr era o instinto, a necessidade absoluta de escapar a uma espécie de perigo, até ao momento ignorado na minha vida protegida e confortável.

            Não sabia que era capaz de correr tanto, ignorava a minha destreza no contorno dos mais inverosímeis obstáculos, nunca, nos meus sonhos de caçadas tumultuosas, eu tinha concebido semelhantes proezas de prestidigitação. Tentaram agarrar-me, quiseram levar-me preso, quase fui esmagado por um camião, cujo condutor guinchou impropérios inenarráveis! Apesar disso, continuei correndo, sempre para a frente, como se, algures, num ponto desconhecido, estivesse o meu novo destino e eu o soubesse, mesmo ignorando tudo o que conseguia ver.

             Houve um momento, porém, em que tive que parar.

            Era quase noite e eu vi, à minha frente, uma extensão enorme de areia, deserta, silenciosa, tranquila. Ao fundo, a água marulhava e eu percebi que havia chegado ao mar, pois vi um bando de gaivotas deitadas junto aos rochedos, inquietas, soltando gritos ininteligíveis, e senti o odor salgado e húmido do espaço.

            O mar!...

            Olhei-o pela primeira vez, à distância, na orla escura da areia.

            Era quase negro, metia medo, não se parecia nada com as imagens que já tinha visto, ora verdes, ora azuis e brancas, ou transparentes e cálidas, e o céu, acima, tinha laivos violetas de uma intensidade tenebrosa.

            Mantive-me quieto, rente ao chão, numa expectativa dolorosa e só então senti um cansaço infinito, uma lassidão invencível a quebrar-me a resistência: caí num sono profundo, sem memórias ou sonhos.

            Acordei de forma abrupta e percebi que já não estava à beira-mar, ao mesmo tempo que sentia um incómodo febril a percorrer-me todo o corpo. Queria abrir os olhos, mas as pálpebras, pesadas e, tanto quanto me foi dado perceber, inchadas, resistiam aos meus esforços dolorosos. Por fim ergui-me, dei dois passos cambaleantes e caí por terra sentindo uma dor aguda na perna esquerda.

            O que estava a acontecer-me? Porque me sentia alquebrado e dorido a ponto de mal conseguir mexer-me? E – mais importante ainda – que lugar era aquele e como tinha lá chegado?

            Estava dentro de uma espécie de salão, miseravelmente mobilado. Ali, não havia qualquer ordenação espacial já que, em simultâneo, a área parecia servir de quarto, cozinha, sala e casa de banho. Percebi que era dia, porque uma claridade baça entrava por dois pequenos postigos enxovalhados e também soube que continuava na cidade, pois ouvia o barulho dos motores e vozes, e passos de pessoas acima da minha cabeça.

            Dentro da casa não estava ninguém, se bem que a cama desfeita, restos de comida sobre a mesa e um odor peculiar a azedo e suor denunciassem a existência de, pelo menos, um habitante naquele lugar.

            Era tudo sujo, barato, ordinário, de tal modo repugnante que, apesar de sentir muita fome não consegui aproveitar nenhum dos restos que jaziam na mesa abandonada. Como era possível alguém viver numa tal imundície?

            Aos poucos fui recuperando, levantei-me e vi que tinha um inchaço na perna e que dali vinha o meu incómodo principal. Analisei cuidadosamente a ferida e soube que havia sido injectado enquanto dormia, pois só assim justificava a minha total inconsciência e o atordoamento inerente ao forte soporífero administrado. Aliás, vi a seringa e os apetrechos adequados à injecção e, quando reparei melhor, temi pela minha sobrevivência: estava tudo num estado tal de degradação que, provavelmente, já estava contaminado por uma dessas doenças horríveis que afectam os homens!

             A partir desse momento só pensei em sair dali o mais depressa possível.

            Arrastei-me até à porta: era de ferro e estava munida duma fechadura sólida, enferrujada e velha, mas trancada a tal ponto que nem se mexeu quando a empurrei com todas as forças de que dispunha! Quanto aos postigos, eram tão altos e tão exíguos que nunca me dariam passagem, mesmo que conseguisse atingi-los.

            O desespero invadiu-me, julguei ver chegada a minha última hora e desatei a procurar uma saída, atrás dos armários, por debaixo da mesa, nos recantos do aposento onde pululavam aranhas e sujidade... mas não, não havia qualquer buraco que eu pudesse alargar, qualquer hipótese de escavar um túnel, naquela cave feita de pedra!

            Percebi que tinha sido preso – aquilo só podia ser uma penitenciária – e eu estava ali porque fora apanhado em vagabundagem, depois da correria insensata, onde havia infringido sei lá quantas leis!... Decerto resisti à prisão e, por isso, tiveram que injectar-me com aquele produto amarelado cujos restos jaziam a um canto... porém, ao mesmo tempo, o espaço não se assemelhava a uma cadeia, não havia vestígios de grades, mais parecia uma habitação indigente daquelas que, até ao momento, eu só havia conhecido nos livros e nos filmes... Ora, o que poderia querer de mim o suposto habitante do tugúrio? E por onde andaria, deixando-me ali, fechado a sete chaves?

            Ah, como eu gostaria de ser capaz de chorar! Sentia um desespero e uma dor tão intensos, que me parecia estar à beira da loucura...

            Devo ter desmaiado entretanto pois, quando acordei, era noite escura e os meus olhos argutos, naquele momento, pouco divisavam para além das sombras monstruosas dos objectos e das imagens fantasmagóricas dos carros e dos transeuntes deformadas pelos vidros e projectadas nas paredes, qual filme de terror.

            E foi então que senti a chave a rodar na fechadura, a porta a abrir-se com um chiar lancinante, enquanto uma figura, que me pareceu gigantesca, se introduzia, à cautela, no aposento.

            Assustado, com o coração a bater num desatino, fui esconder-me atrás de um armário atulhado de papéis: a partir daí, pude observar o meu caçador.

            Logo que ele acendeu uma luz amarelada, percebi que não se tratava de um gigante e muito menos poderia meter-me medo aquela figura franzina de rapaz subnutrido. Poderia ter vinte, trinta anos... ou talvez apenas doze ou quinze... quem havia de dizer? O seu aspecto era frágil e desalinhado, a sua tez pálida, os seus movimentos indecisos; apesar disso, cantarolava e tinha um brilho astuto no olhar.

            Atirou para cima da mesa uma sacola e foi espalhando o conteúdo, metodicamente, ordenando as coisas por categorias: relógios, telemóveis, canetas, peças de metal de vários tamanhos e feitios, moedas e notas envelhecidas, carteiras de várias cores e tamanhos e – coisa acima de todas extravagante! – um lote de pequenas revistas, dessas que os quiosques exibem, com figuras de mulheres nas capas em poses provocantes ou sedutoras.

            Vi que estava perante um pequeno gatuno e, uma vez mais, temi pelo meu destino. Foi quando, estremecendo involuntariamente no meu esconderijo, derrubei o armário periclitante, que se precipitou no chão com estrondo.

            Confuso, o rapaz voltou-se para o lugar onde eu estava e, quando pensava que ele ia bater-me ou matar-me, oiço-o soltar uma gargalhada estrepitosa que não soube classificar: seria alegria ou sarcasmo? Troça ou boa disposição?

-          Ah, estás aí! – disse, num tom de voz surpreendentemente cavo – E agora? Não vens ajudar-me a arrumar o que deitaste abaixo? Vais ficar encolhido para o resto da vida?

         Não respondi nada, tentei fugir e esconder-me mas ele perseguiu-me e agarrou-me, revelando uma força de que não o supunha capaz.

         Deste modo teve início uma nova fase da minha vida.

         Vim a saber que o meu jovem companheiro era um sem-abrigo que tomara de assalto aquela oficina, abandonada nos subúrbios da cidade; sem família, sem emprego, fazia parte de um gang e vivia do produto de pequenos roubos do género daqueles que se alinhavam na mesa desarrumada. Falava muito e revelou-me que, quando me viu adormecido na praia, não resistiu a sequestrar-me, pois precisava de alguém como eu para partilhar a vida.

        A princípio não entendi como pôde ele perceber que eu era o companheiro ideal, só por me ver, encolhido e morto de cansaço, no areal: bem sei que sou uma personagem discreta e um óptimo companheiro, capaz de ouvir os outros sem exigir que me oiçam – fui assim habituado e já não saberia dizer se é essa a minha verdadeira natureza ou se a adquiri por força das circunstâncias – mas de que forma isso conseguiu revelar-se àquela personagem?

          Mais tarde, vim a compreender; mas naquele momento outras preocupações toldavam-me por completo o discernimento, tanto mais que o rapaz falava constantemente. Explicou-me, por exemplo, que a droga que me injectara não tinha qualquer efeito maléfico – era um simples soporífero surripiado de um certo consultório médico – embora, é claro, ele costumasse consumir drogas: e mostrou-me o horrível material que eu já tinha observado antes e a marca das picadelas ao longo do braço esquerdo... olhei-o com mágoa – eu começava a gostar daquela personagem esquisita – mas ele voltou a rir-se.

-          Que queres que faça? Começa-se por raiva, quando todos nos maltratam, quando a família nos não reconhece, e então descobre-se a sensação de poder, percebe-se que a pequena picada nos torna deuses... Que importa que vá viver pouco? O certo é que quando me injecto, sou, de facto, tudo o que queria ser... Nos outros momentos, não passo de um vagabundo raquítico!

Curiosamente, entendi-o na perfeição.

De facto, tenho observado nos homens uma ânsia de feitos, uma megalomania, a maior parte das vezes desastrosa, ou então uma parcimónia entediante, uma tendência para a rotina e para o conformismo e, quer nuns, quer noutros, uma vontade diferente, um desejo de aderir a outras vivências... invariavelmente, os vícios são o pano de fundo da vida de todos. Assim, que podia eu censurar àquele jovem de olhar puro, ainda que momentaneamente velado por uma espécie de nostalgia? Captava-lhe a pureza e entendia-lhe a nostalgia.

    Pediu-me desculpa por me ter trazido à força, disse-me que sempre procurara um companheiro como eu e a tentação havia sido superior ao seu respeito pelos semelhantes – ele achava-me “semelhante” a ele, o que não deixou de me surpreender e cativar – tanto mais que tinha consigo a seringa e o narcótico que roubara juntamente com outras drogas... Perguntou-me se queria ir embora, abriu-me a porta e eu pude ver as sombras da noite e sentir o cheiro intenso do subúrbio – um misto de óleo, ferrugem e peixe podre.          Toquei-lhe no braço, ligeiramente, e deixei-me estar, subitamente preso àquela existência marginal e desencantada, tão diversa da que eu havia conhecido até então, naquela que eu já designava, de mim para mim próprio, como “ a minha outra vida”.

 

 

                                                                                                              (continua)

12 giugno

Diário de Bob

 

 

GOYA, COLOSSUS

 

 

 

 

 

II

 

 

            A minha família de adopção não era grande, nem dada a convívios frequentes com gente do exterior: raramente passavam pela casa pessoas estranhas à rotina diária, vivida, essencialmente, à volta do estudo, da música e dos programas de televisão... e do computador, é claro!

            Eram três mulheres, se é que me faço entender, visto que a mais pequena era apenas uma criança, e a mãe – uma espécie de rapariga perene, com aparência e atitudes muitas vezes levianas, mas capaz de pensamentos profundos e de extraordinárias realizações artísticas de que, aliás (parecia-me), não era capaz de tirar partido – tratava das duas filhas sozinha, não existindo, na casa, aquilo que é comum chamar-se de “pai” ou “marido”.

            A princípio, não estranhei a composição desta família: eu próprio que posso dizer acerca do meu pai? Se alguma vez o tive – e duvido – nunca o vi, não tenho a menor ideia do que tal figura significa e nunca me ocorreu questionar  o mundo sobre a hipotética personagem, ou – quem sabe? – partir à sua procura. Pai?! Para quê?

            A própria mãe não representava grande coisa na minha vida e eu tinha-a substituído com toda a facilidade por aquela mulher-menina de cabelos longos... quanto à irmã que cheguei a conhecer, nunca me fez falta e as duas crianças da casa, ainda que a de quinze anos se mostrasse mais distante, iam desempenhando o papel de companheiras com sucesso relativo.

            Não sei muito bem que tipo de sentimentos nutria por elas.

    Às vezes, procuravam a minha companhia e rodeavam-me de carinhos; bruscamente, afastavam-me de toda e qualquer convivência, privando-me dos meus pequenos prazeres e procedendo como se eu nem sequer existisse. Pela parte que me toca, sentia-me profundamente insultado e humilhado com esta invisibilidade a que era forçado: nessas alturas, detestava-as, tinha vontade de me vingar, queria poder gritar-lhes que estava ali, que as entendia perfeitamente e que podia dedicar-me a elas muito mais do que pensavam: bastava que os olhos se lhes abrissem e me vissem como realmente sou. Mas tal nunca aconteceu e, por essa razão, há uma réstia de mágoa na minha relação com elas. Bem no fundo, penso que, à minha maneira, amava de facto aquelas três pessoas, ainda que só o viesse a perceber realmente tempos depois.

Vivemos juntos, os quatro, alguns anos.

De um momento para o outro, porém, sem que nada o fizesse prever, apareceu na casa outra personagem.

Quando digo que apareceu não falo de uma simples visita sem consequências de maior, denunciada, quando muito, pelo aparecimento do odor insuportável de pontas de cigarro esquecidas, um dia ou dois, nos cinzeiros, ou de conversas barulhentas, com muita música, perdidas pela noite... Esses factos, se bem que desagradáveis, não me afectavam particularmente, tanto mais que a rotina serena dos dias e das noites era logo retomada, devolvendo-me a paz das minhas actividades de criatura tranquila e caseira.

Ora, a personagem que apareceu ali, um certo dia de Primavera, entrou para ficar, introduzindo, na casa, alterações profundas e radicais que, infelizmente, só tarde de mais fui capaz de compreender.

Era um exemplar humano do sexo masculino e foi apresentado às filhas, pela mãe, num êxtase – que me pareceu ridículo – como o futuro companheiro: tencionavam casar daí a pouco.

Percebi que a notícia chocou as duas crianças, principalmente a mais velha, que não resistiu a chorar, mas, dados os argumentos da mãe, tudo pareceu harmonizar-se e o recém-chegado foi acolhido como se de um familiar próximo se tratasse.

Quanto a mim – e pela primeira vez na vida – dei comigo a experimentar uma resistência absoluta perante a presença física daquela pessoa, recusando toda e qualquer aproximação. Aliás, pareceu-me que a aversão era recíproca, já que não recebi dele a menor manifestação de simpatia, o que me surpreendeu um pouco (ter-me-á desiludido?), visto ser a minha companhia, normalmente, bem aceite e até apreciada, pelos desconhecidos.

Que hei-de dizer sobre esse homem, antes de mostrar como ele me conduziu até experiências memoráveis?

Não sou particularmente sensível ao aspecto físico das pessoas, pelo que prefiro deter-me, de preferência, nas peculiaridades dos seus comportamentos. Porém, jamais poderei esquecer dois pormenores, visíveis, de imediato, a qualquer olhar incauto, pois estavam ali, ao alcance dos sentidos.

Os olhos eram de um azul metálico e frio, mas deslavados, como se a luz pudesse desintegrar-lhes a capacidade de ver. Protegia-os sempre com óculos escuros, só os deixando expostos, quando a luminosidade era reduzida. Aqueles olhos frios agrediram-me com veemência quando os poisou, desdenhosamente, sobre mim. No mesmo instante senti um arrepio, percebi que os pêlos sensíveis do meu dorso se erguiam contra a minha vontade. Simultaneamente, eram olhos de cachorro batido, escondia-se tortura e solidão para lá daqueles cílios um pouco macerados; porém, uma ou duas vezes que consegui surpreender esse toque de abandono, nos olhos à beira das lágrimas, vi também o quanto ele se esforçou para readquirir a pose, cobrindo as pupilas azuis de um véu de vazio.

Portanto, se os olhos são o reflexo da alma, como diz um antigo provérbio, era possível ler, no tecido desbotado que compunha o olhar daquele homem, uma consciência martirizada e dúplice, capaz do abandono das lágrimas e, simultaneamente, da frieza tirânica da maldade.

A outra característica tinha a ver com a postura curvada, já que as costas se lhe deformavam, avultando sob a forma de uma corcova que o vestuário não conseguia disfarçar por completo.

Agora que evoco aquela personagem, que descrevo os seus traços, não resisto a um esboço de crítica: como pôde a minha mãe adoptiva acolher aquela personagem da forma apaixonada que eu vi acontecer, sendo tão evidentes os traços de degeneração emotiva ao simples observar de duas características físicas?

Que significa ter as costas curvadas e sofrer de doença degenerativa da coluna, a não ser que o paciente é incapaz de flexibilidade, se afunda numa rigidez demoníaca, nele patente de forma absoluta e que era, por completo, sincronizada com o olhar brutal e metálico dos seus olhos azuis implacáveis?

Decerto que os médicos e os psicólogos desdenhariam desta minha análise: que ousadia misturar inflexibilidade com doença óssea e dar aos olhos o estatuto privilegiado de denunciadores de carácter! Decerto, para tais especialistas, a inflexibilidade é um traço de carácter e a doença óssea degenerativa um produto do quadro genético, susceptível de tratamento farmacológico!

Poderá ser como eles querem. Porém, enquanto observei aquele homem, li-lhe, nos traços da fisionomia e na postura do corpo, toda a personalidade, e fi-lo quase no imediato da primeira aproximação, quando os pêlos se me levantaram e todo eu tremi de susto.

Por isso me questionava amiúde: como é possível que esta mulher, que eu conheço tão bem, que preza tanto a liberdade, que sabe ser generosa como poucos, queira unir-se a esta espécie de monstro, no sentido absoluto do termo?

Tudo nele era repelente, até o cheiro. Ele podia tomar banho até que a pele se esfarelasse, que nenhum odor artificial conseguiria subtrair o visco bafiento de um mofo muito antigo (mais tarde vim a saber que aquele homem vivia numa espécie de caverna sem janelas, onde a pedra nua deixava escapar miasmas, e esse facto veio fazer luz no quadro incompleto que até aí traçara: quem, sendo humano e civilizado, aceita viver numa caverna e cobrir-se de farrapos rescendentes a bolor?)

Então comecei a entender um pouco das atitudes da minha mãe, percebi que ela queria salvá-lo desse bafio, dessa torpeza, que alguma coisa terá visto nos olhos metálicos dele que – admito! – se iluminavam por vezes quando olhava para ela, e o que ela vira, levou-a a ponto de achar que valia a pena unirem-se e partilharem a vida... mas eu só conseguia tremer.

Algum tempo depois vim a compreender o resto.

A minha mãe de adopção era uma espécie de escritora. Se não consigo dar-lhe o estatuto completo que tal actividade possui é na justa medida em que os textos dela se quedavam, incompletos, pelas gavetas, e apenas um ou dois livros, sem sucesso, haviam saído da confinação da casa. Mas eu sei que lhe agradaria sobremaneira publicar as obras que tinha esboçadas, ainda que me pareça que lhe faltava a pertinácia necessária para abrir caminho nesse universo. Penso que o mundo dos homens, no que concerne às artes, é extremamente contraditório e perverso, elevando até ao cume obras não muito admiráveis e por vezes medíocres, enquanto vai deixando de fora, num anonimato desolador, os que, tendo génio, não sabem ou não querem bater às portas certas.

Creio que a minha mãe pertencia a esta categoria infeliz: sendo generosa, gostaria de partilhar as suas palavras com os outros; porém, não se decidia a trilhar os tais caminhos que, de um momento para o outro, podiam guindá-la à celebridade, e ia-se deixando ficar, imóvel e ausente, numa espécie de concha muito peculiar.

Porém, de vez em quando, era acometida por uma espécie de febre e punha-se a produzir furiosamente, como se daqueles momentos inflamados fosse depender todo o futuro... e eu sei que, nessas horas, ela era, não apenas genial, mas profundamente feliz. Embora acabasse por me habituar a esta espécie de ciclofrenia lúcida e, bem no íntimo, estivesse convencido de que, mais tarde ou mais cedo ela romperia as cadeias, confesso que nada me liga a ela, no que diz respeito à criação. Sou reflectido, circunspecto, penso e ajo com ponderação e equilíbrio e, quando decido levar a cabo uma tarefa, faço-o racionalmente – como disse, compreendo a emoção, percebo o significado das lágrimas, mas não sou capaz de expandir-me por essas vias.

Ora, aquele homem, estava ali para que ambos dessem forma efectiva a uma das obras literárias dela: por isso e só por isso o tinha ido visitar na caverna, por isso, também, nela se encontraram várias vezes depois. Logo que ela se convenceu, por razões que jamais conseguirei explicar eficazmente, da genialidade do colaborador, percebeu, numa espécie de delírio místico, que estava ali a sua alma-gémea e que, precisavam de estar juntos a tempo inteiro, a fim de darem à luz uma obra magnífica. Ao mesmo tempo acreditou que poderia salvá-lo do bafio, erguer-lhe as costas curvadas, adoçar o brilho metálico dos seus, apesar de tudo, belos olhos azuis.

E então, ainda antes do casamento anunciado, ele mudou-se para esta casa, trazendo uma onda de mofo dos seus dias de caverna, mas também vários aparelhos maravilhosos, semelhantes ao computador que eu  vinha usando há algum tempo, mas capazes de muito mais maravilhas.

      Nos primeiros dias mantive-me, cuidadosamente, à margem, afastado, por aquele halo de perversidade que nos separava em absoluto, dos magníficos computadores e demais aparelhos. Senti que toda e qualquer aproximação minha seria rejeitada, percebi que jamais ele me deixaria olhar – quanto mais tocar – aquelas peças fantásticas e percebi, ao mesmo tempo, que o  sentido da vida daquele homem estava ali, que podia andar desgrenhado e coberto de farrapos, mas jamais renunciaria ao fascínio total da tecnologia que manipulava com mão de mestre.

Porém, aproveitando os poucos momentos em que ele saía de casa – de noite, com ele presente, nunca me atrevi! – cheguei a tocar nos botões mágicos e a percorrer os teclados. Acontece que ele deu conta, conseguiu detectar a minha presença, eu vi, pela modo como me olhou, que ele estava disposto a defender de mim os seus tesouros, tanto quanto fosse possível!

Começou, primeiro, a fechar a porta do quarto sempre que saía, mesmo sabendo que a minha mãe não concordava com esse gesto – está sempre tudo aberto nesta casa! Mais tarde, estendeu a sua hostilidade por mim aos meus outros hábitos: e eu vi, aterrado, as minhas pequenas liberdades e ousadias a serem-me retiradas uma após outra, com a concordância monstruosa da minha mãe adoptiva que me pareceu, em absoluto, enfeitiçada e incapaz de ver que, de certo modo, estava a cometer um crime.

Aos poucos, fui ficando sozinho, a maior parte do tempo fechado no pequeno aposento que me servia de quarto, sem poder movimentar-me livremente pela casa, sem poder participar na vida da família que, de súbito se tornou parada e monótona como nunca. A casa, habitualmente alegre, cheia de vozes e de conversas estimulantes passou a ser sombria e quieta como um túmulo. Pelo menos, foi assim que eu a senti nas semanas que durou o meu insólito cativeiro.

Quando olhava a minha mãe não conseguia reconhecê-la: passara a euforia entusiástica dos primeiros dias, a obra que os juntara não avançava quase nada e ela, contrafeita e resignada, desviava de mim os olhos, sempre que eu lhe dirigia um apelo mudo. Percebi que ela sofria, percebi que ela estava a despojar-se demais em benefício de um monstro que, aos poucos, ia lançando os tentáculos e que não tardaria a destruí-la. Soube que eles não iam produzir nenhuma obra magnífica, vi que ele era um doente mental e que a pobre companheira seria, aos poucos, conduzida ao mesmo destino. Que poderia eu fazer?

Nada, já que a cegueira da paixão se apossara daquela mulher feita de fogo.

Nunca senti paixão fosse por quem fosse, mas reconheço, nos outros, essa doença, vejo de que modo ela tem um poder, quase sempre destrutivo, quando comanda os destinos da humanidade, quer se trate do arrojo sanguinário dos heróis das batalhas, quer se limite à força individual que atira os humanos uns sobre os outros na ânsia delirante da posse. Ora, aquela mulher a que tenho chamado mãe, é uma apaixonada e só consegue agir no fogo do entusiasmo, só faz, seja o que for, quando animada por essa espécie de febre irracional cujo nome é, entre os homens, paixão. E sei que ela se orgulha de ser assim, sei que prefere deixar a vida correr no improviso dos desejos fanáticos e que não se importa de cair bem fundo, desde que antes tenha andado a consumir-se, bem perto do sol! E então que podia eu fazer – repito – tanto mais que outras pessoas haviam tentado (em vão) suster tal avalanche?

Foi por isso que, num dia quente do princípio do verão, decidi abandonar a casa.

Aproveitei uma hora em que todos haviam saído, percorri os aposentos, numa espécie de despedida muda – não pude ver os computadores, fechados à chave, como se de um tesouro se tratasse – e, sem qualquer espécie de bagagem (eu não tinha nada a que pudesse realmente chamar meu) – abri devagarinho a porta e saí.

 

 

                                                                                                                 

 

 

                                                                                                                 (continua)

 

           

 

11 giugno

Diário de Bob

 

 

Vincent Van Gogh, O Quarto de Van Gogh ou Auto-Retrato

 

 

I

 

 

            O meu nome é Bob Tailor e dos meus progenitores só conheci a mãe, uma criatura magra, de olhos vivos e temperamento nervoso, com a qual nunca consegui identificar-me. Da minha irmã gémea, pouco consigo lembrar-me, nem sequer o nome retive, já que nos afastaram em tenra idade. Mas tenho a certeza que ela foi a preferida da minha mãe – com a qual, aliás, se parecia muito – pois, tanto quanto sei, partiram juntas um belo dia, deixando-me entregues a esta família que, aos poucos, vim a considerar como se fosse a minha própria.

            Ouvi dizer que o meu nascimento esteve envolvido em algum mistério, dado que vim ao mundo dois dias depois da minha irmã gémea, tendo características físicas e psicológicas em tudo distintas. Esta circunstância criou em mim a ideia de que não nasci, de facto, daquela mãe franzina, de traços pouco vincados – contrariamente a mim – e de inteligência vulgar, tendo vindo parar aqui por qualquer acaso indecifrável e para cumprir uma missão específica, nada comum aos seres da minha espécie.

            Sou forte, tenho olhos verdes e uma capacidade de percepção das coisas invulgar: todos os meus sentidos se empenham num objecto, quer seja de lazer ou de estudo, e nunca mais esqueço aquilo que apreendo. Sei que fui criado um pouco à margem da família de adopção: nem tudo estava sempre à minha inteira disposição, não podia mover-me pela casa com a liberdade dos outros ocupantes e, em geral, tive sempre que esperar pelo fim para obter a satisfação das minhas necessidades ou para conquistar pequenos privilégios. Adquiri a consciência da minha subalternidade na família, percebendo que, não sendo um criado – não me obrigavam a nenhuma tarefa – também não era propriamente da família, já que me recusavam certas regalias a que eu sentia ter direito.

            Por exemplo: não me era permitido sair de casa, a não ser que alguém o decidisse, o que raramente acontecia. Por isso, desenvolvi um medo terrível de tudo o que via para lá das janelas altas e, quando alguém entrava ou saía da casa, deixando a porta entreaberta, os ruídos e os cheiros do exterior, ao mesmo tempo que me fascinavam, provocavam-me uma profunda inquietação. Também não fui à escola, na altura própria, como acontecia com as crianças da casa – eram duas, de seis e quinze anos – nem tão-pouco me arranjaram um emprego, como acontecia com a dona da casa, uma profissional empenhada nas áreas da pedagogia e das artes.

            Nunca foi fácil comunicar com eles.

            A maior parte do tempo ignoravam-me, tratando-me como se eu não tivesse importância e eu, que os compreendia perfeitamente, sempre que falavam ou agiam, só em parte conseguia fazer-me entender. Acabei por habituar-me e, dado que não tinha dúvidas quanto ao afecto que todos nutriam por mim – uma vez, fui hospitalizado e pude sentir com que cuidados me trataram – passei a considerar normal aquele comportamento. Habituei-me a fazer às escondidas, o que não podia fazer à clara luz e com o consentimento de todos e, mesmo sabendo que desenvolvi comportamentos dissimulados, esmerando-me na hipocrisia, não estou arrependido, tanto mais que pude observar exactamente os mesmos hábitos nos que me rodeiam que, de vez em quando, mentem e disfarçam, uns perante os outros, com toda a tranquilidade. Se isso é normal, neles, que têm liberdade e podem fazer o que querem, inclusivamente no que concerne à intercomunicação, como haveria eu de achar as minhas atitudes erradas, tanto mais que se transformaram na única via para a minha educação?

            Foi assim que, com a acuidade visual a que já fiz alusão e me permite ver no escuro, passei a viver mais de noite que de dia, tanto mais que me deixavam dormir livremente sem desconfiarem que o meu sono diurno era a consequência de uma intensa actividade nocturna.

            Aprendi a ler com toda a facilidade, pois a filha mais nova da casa, afortunadamente, estava a começar a aprender as letras na escola e, como deixava os livros e os cadernos ao meu alcance era só apanhá-los e decifrar-lhes o sentido. A princípio custou e, às vezes tinha dúvidas, principalmente com os números; por fim, entendi que o meu domínio preferido era o das letras e descurei a matemática, a favor dos belos caracteres que havia, impressos nos livros, um pouco por toda a casa.

            Logo que percebi a técnica da leitura, desatei a ler desenfreadamente, noite após noite, tornando-me uma criatura muito culta, já que tive acesso a livros de todos os géneros, desde o romance ao ensaio literário e filosófico, desde a poesia à ciência, passando pela arte e pela religião. De dia, ouvia os noticiários e às vezes assistia a conversas sobre assuntos que me interessavam – principalmente questões ligadas ao comportamento humano, aquilo a que chamam Psicologia – e ria-me muitas vezes de mim para mim próprio, tal era o vazio de algumas das especulações feitas em torno deste ou daquele assunto, desta ou daquela personagem. Como podiam eles enganar-se tanto acerca de si próprios? Como havia eu de fazer para os levar a verem os erros que cometiam e que, aos poucos, estavam a destruir o mundo que é de todos?

            Aos poucos acabei entendendo o sentido da minha missão, percebi que eu, Bob Tailor, nascido de forma insólita, diferente de todos os que habitavam comigo, aparentemente abandonado pela mãe e pela irmã, sem qualquer identificação visível, do ponto de vista intelectual e físico, com quem, apesar disso, tinha que considerar meus semelhantes, estava ali para salvar o mundo.

            Logo que o entendi entrei numa depressão profunda.

            Através das minhas leituras tinha percebido o drama de todos os salvadores, tinha absorvido as grandes tragédias dos homens extraordinários. E era um desfile imenso de sacrificados, de loucos, de miseráveis, como se os homens não pudessem entender, no momento certo, a grandeza daqueles que amesquinhavam, para engrandecer depois.

            Jesus Cristo, por exemplo. Quantas vezes meditei, com o sentimento das lágrimas – já disse que sou incapaz de chorar, mesmo sabendo o que sentem aqueles que choram – no martírio daquele Crucificado, nas palavras e nos actos do Homem que veio salvar o mundo e que ninguém compreendeu! Mais ainda: apesar de, aparentemente, a Humanidade o venerar nas Igrejas e a sua doutrina ter feito nascer toda uma civilização e uma cultura, eu via, com toda a nitidez, que o cristianismo dos homens não passa de uma fraude oportunista, não é mais do que a resposta ora ingénua, ora perversa, para o medo profundo que inquieta o coração dos homens: eles temem perecer e encontrar o nada, temem o vazio para lá da vida carnal, temem o abismo do que desconhecem. E negoceiam com Cristo aquilo a que chamam alma.

            Não, eu não queria ser o Salvador, não tenho a ousadia de Sócrates, outra espécie de Jesus, outro incompreendido que a História venera, que a Filosofia transformou em símbolo, mas a quem a cicuta roubou a vida na Grécia antiga e que, até hoje, ninguém foi capaz de compreender e de seguir. Quem ousa, como Sócrates ousou, questionar este regime em que vivemos e se chama democracia e denunciar esta fraude clamorosa que deixa os homens cientes de que são livres, quando vivem imersos na mais profunda escravidão? Quem é capaz de pôr em prática a ironia e a maiêutica socráticas nas escolas e na vida? Ah, Sócrates, quando bebeste a cicuta, tu sabias, tal como Cristo na Cruz, que mais valia deixar os homens entregues a si próprios já que nada os salvará da cegueira! Por isso, e só por isso, vos deixastes matar.

            Também não tenho o génio de Van Gogh, nem a sua coragem, não me sinto capaz de renunciar ao conforto pelas causas da humanidade ou da arte. Também ele foi espoliado de si mesmo e morreu, lúcido, para que aqueles que amava e que o amaram pudessem gozar o preço que a morte acrescenta à genialidade ignorada em vida. Alguém te compreende, amigo? Hoje os teus lírios, os teus girassóis, as tuas cores que ninguém quis ver quando eras vivo rendem milhões aos que nunca te conheceram e que tu nunca amaste!

            Ora eu, Bob Tailor, aqui, confinado nesta espécie de gaiola, vejo o mundo passar à frente dos meus olhos, entendo-o como ninguém, sorvo-o à colherada dos livros e das conversas a que assisto, sem nunca poder participar, porque, ao que parece, a minha linguagem não pode ser entendida pelos que me rodeiam, eu, Bob Tailor, sei que tenho uma missão a realizar e que, se aqui vim parar, se a minha mãe me deixou e de ninguém me lembro que se aparente comigo é para poder cumpri-la!

            Passei os dias e as noites, ora dormindo, ora cismando. Deixei de ler, deixei de me interessar pelas conversas dos outros, deixei de ouvir noticiários, nunca mais olhei pela janela.

            Foi por essa altura que comecei a comer demais – era isso que diziam as pessoas, se bem que o meu apetite devorador me fizesse sentir exactamente o contrário – e sei que o meu peso redobrou enquanto a minha vitalidade decrescia e os membros se me tornavam flácidos.

            Nessa época, tinha descoberto o computador e tencionava prosseguir o treino da escrita – já expliquei que, antes da chegada dessa máquina à minha vida, nunca tinha conseguido escrever o que quer que fosse de inteligível – ainda que não tivesse a noção do que faria com os textos que conseguisse produzir. Porém, uma fatalidade que nada fazia prever impediu-me de continuar os meus exercícios nocturnos e – pior ainda! – afastou-me de casa durante muito tempo, precipitando-me em aventuras perigosas e levando-me a descobrir, à força, um mundo paralelo ao que até então havia sido o meu.

 

 

 

                                                                                                              (continua)

Diário de Bob

 

 

 

 

 

 

RENÉ MAGRITTE

 

 

 

 

PRÓLOGO

 

 

 

Toda a gente pensa que eu não sei escrever e, por isso, dificilmente conseguirei justificar a autoria deste livro.

            Eu próprio tive dúvidas quanto a chegar a consegui-lo, pois, durante anos, tentei -  sem sucesso ! – rabiscar garatujas em folhas de papel, achando que dera  expressão aos meus pensamentos mais secretos... porém, logo que tentava ler, percebia que nada daquilo fazia o menor sentido. Nem para mim – quanto mais para aqueles com quem sentia tanta necessidade de comunicar! E no entanto, sempre soube que tenho um talento inato para escrever, sempre soube que a escrita poderia dar a conhecer ao mundo um universo de experiências, que, de outro modo, permanecerá para sempre insondável!

            Vou explicar como sei isto com tanta certeza. Sou extremamente observador e, o que acima de tudo me interessa são as reacções humanas, principalmente quando as pessoas agem, pensando que ninguém as vê, quando falam ou gesticulam, julgando que não está ninguém presente. Embora não seja invisível – pelo contrário, ocupo um considerável espaço físico e psicológico! – espanta-me a facilidade com que sou ignorado, enquanto presença real! Pois bem: tanto pior para eles, já que vou conseguindo desvendá-los com a maior das facilidades.

            Descobri ser esta capacidade de análise que, como disse e penso, faz parte da minha natureza, o meio que os escritores utilizam para criarem as tramas a que chamam, pomposamente, romances ou novelas. A maior parte diz que inventa, que esta ou aquela personagem, esta ou aquela situação, nasceram, não de uma experiência real, concreta, mas do surto imaginativo! Como mentem esses escritores e como se deixam enganar os leitores e os críticos! Pelo que sei, pelo que oiço, pelo que tenho conseguido observar, quer se trate dos livros ou da vida real, não há ninguém que não se tome sempre a si próprio como protagonista de drama ou de comédia!

            Acontece que raramente os homens são capazes de se confessarem de um modo brutal, raramente admitem falar de si sem o disfarce da metáfora e, quando o fazem, os leitores reprovam-no e os críticos dizem que ele se deixou envolver na subjectividade, esquecendo o universal. Mas agora digam-me: como fugir ao poder da nossa mente, como saltar as fronteiras do eu e dar corpo a uma narração objectiva da qual possam estar ausentes todas as marcas dos sujeitos que, inevitavelmente, nós somos?

            Já me resignava a uma espécie de solipsismo a contra-gosto, quando fui surpreendido com a descoberta de um aparelho extraordinário.

            A princípio receei o sopro quase vivo que dele se desprendia e observei-o, à distância, cuidadosamente – sou, por natureza, cauteloso e, quando ajo, prefiro fazê-lo furtivamente, pois detesto ser surpreendido pelos outros, com marcas de susto na expressão.

            Mas, uma noite, quando o estranho aparelho estava ligado – eu vi e analisei uma panóplia de fios presos à corrente eléctrica – e, afortunadamente, o utilizador de circunstância tinha saído da sala, aproximei-me e toquei, ao de leve, na caixa cinzenta. A princípio não consegui evitar o pânico: aquela “coisa” desprendia uma energia tão intensa que senti os pêlos dos membros e das costas eriçarem-se. Fiquei a observar, de longe, durante alguns minutos.

            Entretanto, o dono da máquina voltou, deu uns toques numas teclas, também elas ligadas ao aparelho, esperou que uns sinais se abrissem num visor, parecido com a televisão, de igual modo preso por fios ao misterioso mecanismo vivo, e, baixando-se, premiu um botão. O sopro, de imediato, silenciou, como se a máquina tivesse morrido.

             Tenho uma faculdade fora do comum e é esta a altura certa para revelá-la: oriento-me muito bem na escuridão, não me atrapalho com os móveis, onde vejo as pessoas tropeçarem quando se aventuram sem acender as luzes, e, por isso, consigo distinguir nitidamente o que quero ver, mesmo na mais profunda das noites. Desse modo, logo que a sala ficou às escuras e vazia, e percebi que todos dormiam na casa, levantei-me, silenciosamente, e fui ter com a máquina.

            Foi fácil chegar ao botão mágico, mas não me dispus a ligá-lo, de imediato. Primeiro, tomei contacto, com a totalidade do aparelho, apreciei-lhe a textura ligeiramente rugosa e o cheiro para o qual não encontrei adjectivação. Não se assemelhava a nenhum dos odores familiares, presentes na casa, nada tinha em comum com o cheiro muito próprio dos livros – uma espécie de odor reminiscente de florestas, com um toque de verniz – ou dos sofás, carregados de todos os humores da vida humana desde o suor ao perfume, não tinha nada que lembrasse o calor tépido de um corpo e o seu latejar cheio de emanações agradáveis ao olfacto e, muito menos, poderia aproximar aquele cheiro aterrador do perfume delicioso da comida, a minha motivação mais intensa, a minha paixão, o meu vício! Não, decididamente, aquela máquina exótica nada tinha de familiar ou de aliciante, se a quiser caracterizar pela via dos sentidos, e o fascínio que ela exercia em mim era de uma natureza bem diversa.

            A princípio, não percebi essa atracção por um objecto tão invulgar e tão afastado, até à altura, do meu conhecimento e dos meus interesses: que poderia haver de comum entre mim, que respiro, que tenho células, que penso e sinto, que me desloco com autonomia para qualquer lugar que a minha vontade decida, e aquela “coisa” de perfil geométrico, dependente de fios e de botões para viver? Sim, porque eu sabia que “aquilo” era vivo e sabia-o pela respiração, pelo calor que dele se desprendia, mesmo no momento em que o observava, ali, aparentemente inanimado. Sabia-o, também, pelo efeito que produzia na minha pele, pelo eriçar involuntário de todos os pêlos do meu corpo, pela necessidade incontrolável de lhe sentir o poder, de me tornar íntimo da sua orgânica invisível. Portanto, eu tinha todas estas noções, através de mim, era a mim que eu sentia no contacto com aquele objecto insólito e, uma vez mais, a crença que, então, já havia desenvolvido de que tudo aquilo que sabemos o devemos única e exclusivamente ao nosso sentir, estava reforçada no conhecimento antecipado daquele aparelho, simultaneamente familiar e alheio.

            Por fim, decidi-me: afinal que poderia acontecer-me se carregasse no botão? Já conhecia todas as reacções, já sabia que, de imediato, se abriria no écran uma imagem e que, manipulando certas teclas, obteria certos efeitos... Sou muito observador, já o disse antes, e, desde que a máquina chegou a casa, eu analiso-a, enquanto o dono trabalha ou brinca... isso mesmo, brinca, porque também com aquilo é possível o divertimento, se bem que me pareça estranho o tipo de jogos a que os homens se entregam, manipulando teclas e imagens e me arrepie todo, a ponto de fugir, quando oiço o som dos jogos de terror que eles preferem e que a máquina emite com uma espécie de sofrimento – é verdade, eu sinto o sofrimento dela, eu sei que não é destruir edifícios, provocar guerras, soltar insultos e impropérios a vocação da caixa cinzenta que tanto me fascina. Sofro muito quando vejo que a obrigam a semelhante humilhação, sei bem que ela existe para outros fins... e adivinham como sei? Estava perto dela, sentia-lhe o calor e a respiração, quando vi que alguém estava a escrever um poema... sei que era um poema, porque o autor o leu em voz alta e falava do mar e das nuvens, do vento e de objectos perdidos na praia, de amores melancólicos e de solidão... eu não sei chorar, mas entendo o sentido das lágrimas que tantas vezes vi rolarem de outros olhos menos presos que os meus, e sei que aquele momento era um desses a suscitar lágrimas de emoção doce. Percebi que o sopro da máquina, nos instantes em que ajudou a produzir o poema, era parecido com a emoção que as lágrimas sugerem e entendi-lhe a vocação.

            Ciente de que aquele objecto – perdoem-me, mas enquanto não o conhecer bem, não sei que nome dar-lhe e, por isso, por enquanto, chamar-lhe-ei máquina, ou coisa, ou objecto – não poderia causar-me danos, ainda que não pudesse reconhecer-me, por enquanto (e eu sabia que havia o risco de ser rejeitado) – carreguei no botão. Não consegui logo o efeito pretendido, fui ver se, por acaso, não teriam sido desligados os fios, numa qualquer precaução do dono. Não, não era isso, apenas inexperiência minha, falta de precisão no premir do botão e força, sim foi preciso carregar com uma certa força para que a respiração da máquina se tornasse audível! Mas, quando por fim, consegui aquela espécie de milagre, foi um encantamento: afinal, não fui rejeitado, afinal a máquina reconheceu-me e pôde abrir-se para mim, tal como costumava fazê-lo com os outros!

            Naquele momento, que jamais esquecerei e que foi o início da aventura que me trouxe até aqui, percebi a importância de observar as coisas, entendi de que forma ver, ouvir e registar na memória são os actos constitutivos de toda a sabedoria. Tantas vezes olhara as mãos do dono da máquina a correr nas teclas, tantas vezes lera os sinais impressos no écran e vira como ele fazia para obter este ou aquele resultado, que consegui, logo à primeira, descobrir como fazer para expressar em palavras os meus pensamentos. É claro que, no início, fui lento, cometi erros, as palavras saíam a custo, o texto crescia devagar e, essa primeira noite de trabalho não produziu grandes frutos. Quando dei conta, os galos cantavam, a luz entrava pelos interstícios da janela e eu tinha as pálpebras pesadas e a cabeça tonta. Além disso, daí a pouco, a casa estaria cheia dos ruídos habituais de todas as manhãs e a partir de então, teria que resignar-me à invisibilidade, tanto mais que a máquina era utilizada diariamente e eu não teria a mínima hipótese de chegar perto.

            Por isso, apaguei tudo aquilo que tinha escrito e desliguei a máquina.

            Adormeci instantaneamente e tive um sonho estranho, em nada semelhante às habituais cenas de caça e de comida que me agitam as noites.

            Vi-me, vestido a rigor – fato preto, tipo smoking, camisa branca e laço – sentado numa plateia, ladeado de celebridades de ambos os sexos. As luzes cintilavam, os perfumes entonteciam, as vozes faziam eco por cima da minha cabeça e, dentro de mim, sentia  um orgulho tão intenso que me parecia poder explodir a qualquer instante.

            Um grande palco com os reposteiros vermelhos afastados ostentava uma decoração fantástica feita de plantas luxuriantes e luzes, muitas luzes de todas as cores do arco-íris. Duas personagens – um homem e uma mulher que me pareceram deuses – iam chamando pelos nomes dos que se sentavam comigo na plateia e, após um breve discurso, entregavam um troféu de cristal que deixava o contemplado em êxtase. Muitos deles nem conseguiam falar, outros choravam mesmo, ali, no palco, e depois, quando desciam, pareciam caminhar sobre as nuvens.

            Por fim, ouvi chamarem o meu nome, ouvi aplausos de todos os lados, vi que me olhavam, à espera que me erguesse e fosse até ao palco. Em pânico, encolhi-me completamente, deslizei na cadeira e afundei-me no chão, ondulei através dos milhares de sapatos que ocupavam todo o espaço e foi então que um imenso coro de gargalhadas, me apunhalou, me perseguiu, me ensurdeceu... acordei aflito, vi que tinha escorregado da almofada e senti o corpo húmido de suor.

            Contrariamente aos meus hábitos, naquela manhã fiquei mais um pouco deitado, não sei se a tentar convocar de novo o sono e a forçar a continuação do sonho ou apenas porque o cansaço me entorpecia os membros, enquanto a cabeça não conseguia organizar coerentemente os pensamentos. De qualquer modo, não fui capaz de dormir mais e passei todo o dia numa espécie de torpor, comendo mais do que o costume e desejando, numa ansiedade frenética, que a noite me permitisse regressar ao aparelho e prosseguir a minha aventura.

            Quanto ao sonho, acabei por esquecê-lo e desisti de interpretá-lo. Como poderei algum dia estar numa situação daquelas, como poderei eu regozijar-me vestido daquele modo, asfixiado entre gente perfumada – os aromas eram uma mescla intolerável! – e extasiar-me só porque me dão, entre ovações, um simples boneco de vidro?

            Porém, ao mesmo tempo que depreciava o prazer autêntico que me lembrava de ter sentido no sonho, crescia em mim uma dúvida: e se, de facto, eu desejasse, muito no íntimo, aquela espécie de glória, tão humana? E se, afinal, as minhas aspirações não diferissem assim tanto das dos outros, que se sentavam ao meu lado na sala e quase desmaiavam de prazer quando recebiam o troféu?

            Percebi também que tenho muito medo de competir com “eles”, que prefiro observá-los a misturar-me nos seus estranhos rituais... sou então, um ser ambíguo e paradoxal que não consegue ao certo situar-se numa categoria específica de desejos e intenções?

            De qualquer modo, à noite, já me havia recomposto das impressões da vivência onírica e, por isso, quando acedi às teclas da máquina e o écran se iluminou, quando a sua respiração pausada me acariciou os membros, aplacando-me os nervos tensos, tudo se organizou em mim e escrevi o primeiro texto coerente da minha vida.

            Nessa noite, logo que a madrugada me mostrou a urgência de sair dali e me deitei, confortavelmente, para dormir, não houve qualquer pesadelo: apenas me acompanharam as habituais imagens de caçadas espantosas à mistura com delirantes repastos de iguarias de todos os géneros e cores (quem disse que os sonhos eram a preto e branco? Como poderiam ser brancos, ou pretos, aqueles pratos repletos da mais extraordinária profusão de carnes e peixes de toda a gama das cores do arco-íris?)

            Porém – embora eu não o soubesse na altura – aquela noite seria a última que eu teria, durante muito tempo, para me sentar ali, enquanto todos dormiam e escrever os meus pensamentos secretos, já que um acontecimento horrível, que nenhum indício me fez adivinhar, veio ter comigo no dia seguinte, modificando por completo a minha existência.

 

 

                                                                                                                                                                                                                                (continua)