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13 settembre O Farol - A Dança [Degas]
A DANÇA
Algumas horas depois – o crepúsculo insinuava-se, cinzento, nas aberturas da casa – W.N. sentava-se, sozinho, no sofá cor de mel em frente à janela onde, numa manhã gloriosa, a águia arribara. Estava ali e sentia-se estranhamente calmo, como se nenhum outro desfecho pudesse convir àquele específico momento: de facto, para onde ir, na cidade de V., uma vez que deixara o hotel e não saberia como enfrentar a hospedeira e pedir-lhe o seu quarto de volta? Precisaria de dar explicações, ela não se coibiria de o questionar e de lhe demonstrar surpresa! Acabou por aceitar a hospitalidade de A.S. que em nenhum momento da viagem de retorno da estação lhe largara o braço, como se temesse que ele se escapasse por qualquer encruzilhada ou desaparecesse numa esquina! «Não posso ficar em sua casa, não é conveniente», protestava ele, enquanto, batidos pela chuva fria, aguardavam um carro que os tirasse dali, «Não quero invadir o seu espaço, não posso…não é conveniente!». «Não é conveniente? Mas que quer isso dizer? Eu tenho quartos, vivo sozinha naquela casa grande, posso proporcionar-lhe conforto e terá a sua privacidade…Sou livre, entende? Nada lhe cobrarei, porque acredito na liberdade dos outros, entende?» Curiosamente, os dois repetiam certas palavras até à exaustão, como se precisassem obstinadamente de arranjar pretextos, de colocar tudo em causa a ver se, no final, uma aberta de possibilidades lhes garantiria a certeza da tomada de decisão. «Um homem e uma mulher, dois desconhecidos, assim sob o mesmo tecto, de um momento para o outro…parece-lhe conveniente?. «Eu sou livre, entende? Ser homem ou ser mulher pouco representa, não é a diferença de géneros que está em causa entre nós, entende?» Aturdido e acossado pela tempestade e pelo rumor da insistência da sua companheira e única leitora, ele deixou-se levar, não fez o mínimo gesto de repúdio quando ela indicou o próprio endereço ao motorista e depois arrastaram a pesada mala pelas escadas íngremes e ela abriu para ele um quarto com ligação directa a um pequeno escritório e anunciou, «Estes serão os seus aposentos, aqui trabalhou e viveu o meu pai há muitos anos!» Os dois espaços eram amplos e sóbrios, o quarto assemelhava-se a uma cela, com os elementos estritamente necessários para o acto de dormir, mas o escritório, por contraste, era quase sumptuoso. Havia estantes com livros cobrindo as paredes, subindo até ao tecto e uma larga e nobre secretária polida marcava o centro da quadra sobre um tapete rico de material espesso. Um cadeirão de couro assinalava o canto da leitura junto da janela larga e as luzes dos candeeiros marcavam com nitidez as diversas funcionalidades. Não pairava ali nenhum espírito, como se, fechados ao tempo, aqueles dois lugares houvessem mumificado. «O seu pai viveu aqui? Mas, não se nota, é tudo inócuo…», «Eu tornei-os anódinos, a estes dois sítios, libertei-os da presença dele, mandei pintar, estofar, assoalhar, deixei que o ar entrasse, continuamente, durante meses, expulsei da atmosfera que aqui se respirava todos os miasmas daquele homem! Ele viveu aqui, mas o certo é que já não vive! Por muito que procure, não encontrará nestes livros ou nestes móveis o mínimo sinal da presença dessa pessoa que, quando partiu definitivamente, eu decidi abolir por inteiro! Se lhe digo que ele era o meu pai é na medida exacta em que nasci pela sua intervenção física. Nada mais!». W.N. estremeceu perante o tom de voz daquela mulher, tão suave e delicada e contudo falando do pai com uma expressão glacial e uma entoação por onde perpassava uma espécie de desprezo absolutamente isento de dor. «Não me julgue, ouviu? Não ceda à tentação de me condenar…aboli o meu pai, sim, e daí? Não é isso que prega também no Livro para Todos e para Ninguém? Não nos envia para o reino dos nossos filhos, deixando para trás o país dos nossos pais? Não é essa espécie de crueldade para com o passado, essa caminhada incessante para a auto-superação, em que ficamos a sós com o nosso próprio poder, a síntese do seu mandamento mais elevado? Considere-se um filho meu, já que sou a sua única leitora, e transponha o umbral deste espaço que asseptizei para si, mesmo sem saber que vinha!», «Deparei com uma construtora de enigmas, não há dúvida, foi certeira a minha busca!», «Instale-se, vamos, use os aposentos como quiser, faça deles a sua morada enquanto lhe aprouver!» Dizendo isto, A.S. deixou-o só. Durante uns momentos, W.N. deteve-se, imóvel, no centro da pequena biblioteca, passou os olhos pelos títulos dos livros, afagou, sem se dar conta, o couro da poltrona de leitura e, aos poucos, percebeu que o ambiente poderia pertencer-lhe…ao menos durante uns tempos…porque não? Estendeu-se na cama, percebeu que era austera, mas confortável, olhou a decoração simples, o armário sólido e a cadeira de torneado caprichoso, apreciou os candeeiros de latão revestidos de patine e os cortinados de veludo escuro entreabertos sobre uma musselina que deixava passar, atenuada, a neblina da tarde, e um sofrimento agudo espetou-se-lhe no peito, pois percebeu, nesse instante, que aquele sortilégio não lhe pertencia, que poderia, episodicamente, deixar ali uma espécie de marca e mais tarde ver aquele sítio como uma memória aprazível…mas ficar para sempre? Permanecer ali, paredes meias com uma mulher vibrante, também ela enigma, também ela só? A certa altura percebeu que batiam à porta, não soube se passaram minutos ou horas, talvez tivesse adormecido pois uma noite azulada orlava a musselina da janela. Levantou-se, alisou os cabelos para trás compôs o vestuário amarfanhado e deu uns passos até à porta. «Venha, preparei uma refeição, sem dúvida tem frio, decerto está esfomeado. Sente-se, coma, eu preciso de sair!» Dizendo isto conduziu-o à sala, onde todo o esplendor, subtraído aos quartos, ali pontificava em absoluto. Da lareira acesa saía um bafo morno, as luzes refulgiam, suaves mas profusas, os pratos lançavam um odor familiar, «Já percebi do que gosta, como vê, tem o seu chá, a sua sopa, os seus vegetais…se precisar de alguma coisa procure!» W.N. acabou de comer, surpreso com a selecção certeira dos ingredientes da refeição, atónito, porque a habitual enxaqueca parecia de todo arredada naquela noite e por fim sentou-se no sofá cor de mel onde o seu livro se abria, solto, como que casualmente. Apanhou-o e leu: “Ao homem e à mulher eis como os quero: ele pronto para a guerra, ela para a maternidade…” Suspirou e concentrou o pensamento na sua própria sentença, viu de que modo aquele seu estar ali desfazia por completo a máxima! O guerreiro, sim, exactamente, o guerreiro era ele, ele que, sem hesitar, saíra do comboio e acompanhara docilmente a mãe…e não fora exactamente assim que ela o tratara, ao conduzi-lo ao quarto, ao dar-lhe aposentos para viver, ao preparar-lhe a refeição? E contudo… e contudo… Quando recuperou do alheamento percebeu que já não estava sozinho, A.S. regressara e postara-se à sua frente. «Vejo que está a ler o seu próprio livro…ainda precisa de fazê-lo? Não conhece à saciedade tudo o que escreveu? Aí mesmo, aí estão as palavras terríveis que me obrigaram a partir à sua procura, que me fizeram violentá-lo e impedi-lo que partisse…Como pode um homem ver na mulher apenas e só a mãe? E como pode ela ser mãe, se o motor da maternidade está ausente na guerra? E não me diga que o descanso do guerreiro se dá no ventre da mulher para que ela engendre outros guerreiros…não aceito semelhante concepção dos sexos!», «Veja, eu disse-lhe desde o início que não sei lidar com as mulheres, talvez não as entenda de facto, talvez que esta sentença não passe de uma ignorância essencial em mim… «Admite-o? Consegue renegar as suas doutrinas, renegar-se, enquanto mestre, mesmo perante si mesmo?», «Não, renegar não é a palavra certa, mas há uma intensa disparidade entre o que escrevo, e o que sou enquanto escrevo, e o que faço, e o que sou enquanto faço. Na escrita sou o guerreiro que enuncio e mais, sou o Super Homem que preconizo, mas enquanto existente…eis aqui um decadente que se transcende, continuamente, no contrário de um decadente! Vejo a aurora dos tempos futuros e nele haverá guerreiros e mães, assim mesmo, na autonomia toda-poderosa da independência que conduz cada um às suas próprias caminhadas…», «Mas o filho? O filho? Também ele é projectado nessa autonomia de que fala, no próprio acto de nascer? A mãe cessa de o ser após o parto ou é-o na continuidade, até dar o filho à sua singular existência? E o guerreiro procura sempre a guerra, mesmo em tempos de paz, ou inventa-a e deixa o filho que gerou no ventre da mãe sem referências de si? Não há lugar para famílias na sua concepção do mundo?», «Famílias?! Do que está a falar-me? Não me disse, ainda há pouco, que exorcizou por completo a presença do seu pai, que tornou asséptico e anódino o espaço onde ele respirou num certo tempo? A família não é uma condição natural dos homens, não é uma realidade que beneficie particularmente as relações humanas! Homem, mulher... repare, veja: são duas realidades contraditórias e contrárias, nada pode uni-las a não ser num artifício letal…e contudo é necessário gerar os homens futuros!», «Acha que sim? Acredita mesmo no que acaba de dizer? Não lhe parece que a solução da humanidade passa, exactamente, por suprimir novas gestações? Para quê perpetuar a decadência?», «E se a vontade de poder do homem quiser gerar o Super Homem? E se a decadência não for, em definitivo, a última etapa da existência e houver ainda um destino superior a granjear?» A.S. não resistiu a sorrir e ele viu. «Não acredita?», «Porque haveria de acreditar? Não sou crente, não aceito, em mim, mitos sobrenaturais ou desígnios humanos: como pode o homem negar os seus instintos até ao ponto de querer gerar um ser que o ultrapasse? Veja, repare como li as suas palavras, note que absorvi a sua sede torrencial de sentenciar sobre os homens. Quem, mas quem irá querer fazer nascer o Super Homem? E veja bem: não será essa, afinal, a tarefa da mulher? Não virá o dia em que o guerreiro estará para sempre dispensado de semear o filho no ventre da mãe?», «Julga que não a compreendo? Sei onde quer chegar, percebo porque se revolta quando prego um destino oposto para o homem e para a mulher…mas porque esqueceu o meu preceito da dança? Porque se fixou apenas na determinação de funções sem ver o que no fundo aproxima homens e mulheres?», «Sim, bem vejo, “mas ambos prontos para a dança e não só nos pés mas também na cabeça…” como se tudo fosse um jogo…como se afinal, guerra e maternidade não passassem de intervalos no rodopio existencial…», «E não é mesmo um jogo, e, ainda por cima, viciado, este que vamos vivendo? Repare, observe: eu sou o último dos decadentes, a doença corrói-me, dia após dia, o peso da dor solitária é cada vez mais avassalador, a vontade de me enterrar no olvido de onde não se regressa nunca ensombra-me as madrugadas…e contudo… contudo… transmuto-me quotidianamente e desperto, e sou capaz de dançar e de rir…mesmo que seja apenas no papel, mesmo que a cabeça me doa e os olhos lacrimejem…», «Dançar? Quer dançar? Tem dentro de si atrevimento para tanto? Olhe, veja, aqui estou eu, uma mulher, ei-lo aí, um homem... uma mãe, portanto, um guerreiro, sem dúvida, cada um na sua tarefa, mas ambos dançarinos! Venha!» A.S. estendeu as mãos, viu o seu hóspede hesitar, sentiu o tremor que lhe percorria o corpo inteiro, mas não desistiu, «Então? Ambos prontos para a dança e não só com os pés mas também na cabeça…» «Não, não vou dançar, não literalizarei essa metáfora, a dança de que falo existe no sangue das veias – outra vez o sangue – existe nos poros da pele, nos interstícios de luz filtrados pelos olhos, nas sinapses neuronais…», «E então, não é isso o corpo, não sente o sangue a formigar e a aquecer-lhe os membros , a luz não está a inebriá-lo e a cérebro não apela fortemente à necessidade de rodopiar?» Com um gesto delicado deu-lhe a mão e, inesperadamente, percebeu que ele se erguia, viu a tensão diluir-se e, quando o teve de pé à sua frente, percebeu que estava ali um dançarino! Sem música, a não ser a que o silêncio do aposento deixava passar num sussurro, ou a que os próprios ouvidos construíam, juntaram as mãos e em breve flutuaram enlaçados, numa sincronia rítmica que não poderia suspeitar-se antes, ela deixando flutuar os cabelos longos, atirada para longe a boina vermelha que os prendia, ele fazendo adejar as abas do casaco e o riso, em breve, o riso eclodiu… e ambos se deixaram cair no sofá, por fim vencidos...mas felizes e exangues!.
02 settembre O Farol - Guerra e Maternidade
GUERRA E MATERNIDADE
A.S. abriu o livro a que dera um uso idêntico ao que os crentes dão à bíblia e leu a primeira sentença que lhe caiu debaixo dos olhos: “Ao homem e à mulher, eis como os quero: ele próprio para a guerra, ela para a maternidade, mas ambos próprios para a dança, e não só nas pernas mas também na cabeça. E que se considere perdido todo o dia em que se não houver dançado pelo menos uma vez; e que se considere falsa toda a verdade que não foi acompanhada de risos.” E de novo, baixou sobre ela uma enorme inquietação: A guerra? A maternidade? E em que momento da vida do guerreiro e da mãe se dá o encontro? Quando, oh quando, o descanso do guerreiro encontra o ventre da mãe para que se gere o fruto? Nada, nenhuma alusão ao benefício da entrega, nenhum compadecimento com a ânsia da dádiva, nenhuma fuga para o aconchego secreto dos seres em sintonia, em amor. Homem e mulher, dois destinos, duas funções na vida. Uma vez mais precisou de questionar o autor do «Livro para Todos e para Ninguém». Mas haviam cedido a um afastamento tácito, nenhum deles ousava invadir o espaço do outro, principalmente agora que a intimidade dos encontros havidos parecia prenunciar novos horizontes; além do mais, o frio e a chuva assolavam a cidade de V.. W.N. dissera-lhe que não sobreviveria muitos dias na bruma e no gelo daquela latitude! Sem dúvida, demandara já territórios mais brilhantes e secos onde fosse capaz de respirar sem peias! Estranho destino o daquele fugitivus errans… A seguir ao mandamento gélido dos destinos implacáveis do homem e da mulher, surgia a dança, essa luxúria que aparentemente os reconciliava, esse levantar as pernas em arabescos, esse latejar da cabeça em andamentos vibráteis. Mas a dança do guerreiro teria algo em comum com a dança que advém da experiência maternal? Juntos na dança, mas afinal separados ainda pela omnipotência das suas tarefas opostas! Inquieta, com a respiração arfante e os dedos enclavinhados na cabeça, A. S. pensava. «Preciso de o encontrar, agora tenho a certeza! Mas decerto passou demasiado tempo, sem dúvida já nem se lembra que existo e eu … eu…porque regressei assim a casa naquela noite, porque quebrei o sortilégio do chá a dois, servido no pequeno escritório da hospedaria rústica? Decerto ainda não é tarde, pode ser que, afinal, W. N. não tenha abandonado a cidade!» Precipitadamente, pegou num casaco e numa boina, enrolou os cabelos por debaixo da gola levantada, desceu as escadas num ímpeto, foi fustigada pelo vento glacial, abriu caminho por entre a multidão das duas da tarde e, quase correndo, cedo chegou à pequena casa depois da ponte. Só nesse momento percebeu que não sabia de facto o verdadeiro nome de W.N., ele usava um pseudónimo e nunca haviam sentido necessidade de esclarecer esse ponto! Hesitou uns minutos à porta da casa, mas o frio e a chuva empurraram-na pelo jardim fora e, quando se apercebeu, tinha entrado no pequeno vestíbulo. Não encontrou vivalma e por isso ousou subir as escadas, muito de mansinho, como se receasse acordar alguém. Quando chegou ao primeiro andar, reparou que a porta do quarto estava aberta e sentiu ruídos diversos vindos do interior. Alegrou-se, ele estava lá, ia poder falar-lhe, vê-lo, confrontá-lo com as suas verdades! Quando entrou na pequena saleta, percebeu que não havia um único objecto que sugerisse a presença do hóspede: desaparecera a enorme mala de couro com correias, nenhum caderno ou livro estavam abertos sobre a secretária, não havia flores frescas e a cama, que conseguiu entrever, estava desfeita e o colchão enrolado! No momento em que ia entrar notou a presença de alguém e deu de caras com uma mulher de ar maternal que acabara de fechar a janela e correr as cortinas. Olharam-se, ambas surpresas, a mulher levou a mão ao peito e soltou um suspiro de alívio, «Desculpe, assustou-me…mas, o que deseja?», «Ele, ele…foi embora?», «Agora mesmo, deve estar a chegar à estação…desta vez demorou mais do que eu calculava, nem sabe como lhe faz mal este clima enevoado e frio!», «À estação? Qual estação?», A.S. gritava em desespero, não lhe ocorria que o seu comportamento poderia despertar equívocos, «Diga-me, por favor, que estação?», «A da praça R., sei que parte para M. ,embora desta vez não mo tenha dito…mas ele faz sempre os mesmos trajectos…portanto…» A.S. não ouviu mais nada, virou as costas, alcançou a rua e sempre a correr, acotovelando gente, ouvindo alguns impropérios e murmurando desculpas, seguiu o caminho mais curto, tomou atalhos e, esbaforida, com a boina na mão e o cabelo loiro desgrenhado, entrou na estação. O edifício nobre e antigo, com mosaicos pintados relatando fulgores de outras épocas históricas, regurgitava de uma multidão atarefada sobraçando bagagens, os altifalantes anunciavam destinos e indicavam entradas e saídas…olhou os placards e percebeu que o comboio para M. ainda não havia saído, talvez encontrasse W.N. nas bilheteiras ou a caminho da gare! Adiantou-se por entre os transeuntes, ajeitou os cabelos deixou que a respiração serenasse e depois caminhou um pouco na direcção do Portão nº 5 de onde sairia o comboio. Não havia ninguém nas bilheteiras mas, a caminho do comboio, que dentro de minutos partiria para M., reconheceu a figura que procurava: com um pesado sobretudo castanho e um cachecol de quadrados, um chapéu de abas largas ocultando os cabelos fartos, W.N. caminhava devagar, segurando a pasta com as mãos enclavinhadas. Ah, como ela conhecia o poder do aperto galvânico daquelas mãos! «Espere», gritou ela, quando ele se preparava para subir os degraus da carruagem, «Não entre aí, ainda não terminamos a nossa conversa!» Quando ele se virou para trás, A.S. percebeu que não havia surpresa no rosto pálido, mas antes uma indisfarçável expressão de júbilo. Mais afoita, avançou pela plataforma e quando estava muito perto agarrou-lhe o braço, «Como pode pensar em ir-se embora deste modo? Não há então em si, nem uma réstia de consideração pelos outros? Não entendeu até onde conseguiu tocar-me? Primeiro, escrevi com sangue, depois, franqueei-lhe o interior de mim e, não se esqueça: foi no meu parapeito que a águia poisou…foi o tronco da minha árvore que a serpente enlaçou…», «Mas eu disse-lhe que partiria! Eu não suporto o Inverno em V.! Além disso…lembra-se como me deixou precipitadamente na outra noite? Ah, eu nunca soube lidar com mulheres, já lho disse!», «Mas esta mulher, que assim corre à sua procura, esta mulher com quem diz não saber lidar é a sua única leitora! Lembre-se que me visitou, lembre-se que se não tivesse ido a minha casa, eu jamais saberia quem é o escritor do livro que agora transformei numa espécie de bíblia! Isso não lhe dá obrigações?»,«O comboio vai partir! Se não entro agora já não sairei hoje de V. e tenho que ir, acredite que tenho!». Porém, A.S. não lhe largava o braço, um desespero tremendo tomara conta dela e a mente não discernia os actos que o corpo ia praticando, a fúria insensata com que o retinha e puxava para si assemelhava-se a um grito, a uma súplica que contudo não soltava. W.N. entendeu-a, dominou a sua própria necessidade, «Deixe-me ao menos retirar a minha bagagem…não poderia ficar… sem ela…» A.S. pôde por fim libertar o aperto com que o segurava firmemente, ele subiu devagar a escada do comboio, arrastou para fora a mala pesada e os dois assistiram à saída das carruagens, primeiro com uma lentidão exasperante e depois, à medida que a máquina ganhava velocidade, com a força violenta do gigante que afinal era.
17 agosto O Farol - O Cântico à Noite
O CÂNTICO À NOITE
A.S. não soube se o professor tinha compreendido até que ponto fora eloquente o seu discurso, mas sentiu um extraordinário relaxamento, tão grande que um enorme bocejo fendeu os ares penúmbricos. «Finalmente afrouxou a tensão? Olho para si e percebo que grande parte da angústia se dissipou…será que as minhas palavras encontraram acolhimento? Será que tive sucesso com o auditório…uma vez, ao menos?» Afundada na cadeira de braços, a jovem dormia. W.N., perplexo, não sabia como lidar com a hóspede adormecida, tão pouco desejava acordá-la…ah como ele aprendera, na carne, os efeitos benéficos do sono após os delírios da insónia! Como ele entendia, com o sangue das próprias veias, o benefício do descanso depois das marteladas! Decidiu deixá-la estar, a cadeira, estofada e larga, era confortável e albergava com relativo conforto o corpo miúdo: tirou uma manta do armário, cobriu-a e deixou que a noite tombasse sobre a sala. Observou-a durante uns instantes, captou o oval do rosto, muito puro e límpido, o recorte da boca, pequena e rósea, o capricho do queixo, ligeiramente levantado, o nariz afilado, denunciador de altivez ou de tendência para perscrutar os longes, a massa de cabelos escurecidos pela sombra do crepúsculo e, num relance, o corpo sumido no abrigo amplo da cadeira e percebeu, com perplexidade, que não seria capaz de pronunciar-se sobre a beleza de A. S.! Uma certa harmonia estava patente nos traços, todos eles finos e como que delineados a rigor por mão hábil, um toque de luxúria dimanava dos caracóis esplendorosos da cabeleira e havia uma nota de fogo no olhar azul profundo, agora cerrado, mas profusamente captado antes. E contudo, ali, tão perto dela que podia sentir-lhe o bafo morno da respiração pausada ou mesmo afagar-lhe as mãos entrelaçadas, em descanso sobre o colo, nenhum sentimento ou sensação o impeliam para aquela mulher! Duas impressões lhe advieram desta constatação racional, entendeu, por um lado, que estar assim anestesiado em relação ao poder feminino lhe dava vantagens, naquele momento em que o cansaço submetera a si aquela mulher, numa inocência extrema; em contrapartida, não seria estranho que, enquanto homem, nenhuma agitação especial o comovesse perante uma visão assim encantadora? Ele captava-lhe o encanto, sorvia o odor levemente doce da pele, sentia o palpitar ligeiro do seio coberto…mas não conseguia definir em si nenhum sentimento de atracção! Não o perturbava minimamente o facto de a ver ali, adormecida e exposta, era como se aquele acto fosse tão natural como qualquer outro e ter, no seu quarto, rendida, uma criatura que há pouco tempo nem supunha existir sobre a terra, parecia-lhe o suceder lógico da sua estadia em V.: pois não estava ainda ali porque encontrara finalmente um leitor desconhecido, o primeiro, o único, um leitor estranho ao círculo dos seus amigos, esses que o haviam adulado nos inícios para depois se remeterem a um silêncio ofensivo? Sabia que os seus amigos liam as obras, que publicava e logo lhes enviava; mas há muito tempo que desistira de lhes pedir opiniões ou comentários que deveriam nascer de imediato após a leitura dos seus textos inflamados, mas, apesar disso, não chegavam nunca! Como era possível ficar em silêncio depois de ler semelhantes palavras? Como era possível não querer devolver um eco a quem soltava, de si, tais gritos? Decidiu sair um pouco, apanhar a brisa crepuscular já matizada com a humidade outonal, permitir que a sua inesperada visitante repousasse e então acompanhá-la a casa para despedir-se: tencionava partir dentro de um ou dois dias, o clima de V. não lhe era propício quando as temperaturas desciam e o ar trazia miasmas líquidos dos canais e ribeiros, precisava demandar outras paragens, sempre as mesmas, e contudo várias e novas como o seu também vário e móvel sentimento. A hora era de recolhimento, nas ruas desertas deambulavam sombras recortadas no poente e, rapidamente, um silêncio enigmático desceu na cidade. W.N. sentiu que vagueava num sortilégio, passaram-lhe num relance todas as palavras do cântico que escrevera horas antes, soube que a sua alma era um cantar de apaixonado e que a noite desvelava o sentido ardente da sua paixão. Ouvia os cânticos, no perpassar do vento nas folhas, no breve pio do mocho, nos lentos sussurros das águas quase estagnada, convertiam-se todos nos delírios da sua mente e nasciam hinos, soube que a música, toda a música era a sublime metamorfose dos sons naturais colhidos na génese anímica dos seres da natureza e parafraseados apenas por aquele que possuía o dom de os entrever. Foi acometido de euforia e os passos que continuava dando eram cada vez mais eloquentes de vitalidade como se os infernos dolorosos da doença e da angústia (essa outra debilidade mental) se houvessem esvaído para sempre. Quem sabe não seria capaz de suportar o tecido climático de V. e permanecer ali…para sempre? A.S. acordou lentamente e sorriu.Soube, de imediato, o que acontecera, percorreu o aposento com o olhar desperto viu as sombras da noite e um halo de luar a encher de prata os recantos vazios, sentiu a maciez da manta com que W.N. a havia coberto e uma felicidade tranquila desceu-lhe pelos membros relaxados. Só passados instantes tomou consciência de que estava só. Ergueu-se da cadeira, deu uns passos, observou os objectos pessoais do escritor, a pasta castanha que ele costumava trazer consigo, a grande mala de couro, presa com correias, deu mais alguns passos, viu que havia um caderno aberto sobre a mesa e acendeu o candeeiro. Não sentiu que estava a invadir ou a quebrar fosse que segredo fosse, aquela folha aberta era um convite mudo à leitura. Observou a caligrafia intensa e miúda, com arabescos em arco nas maiúsculas, e notou que o texto não apresentava qualquer rasura ou denúncia de hesitação. Só teve tempo de ler alguns parágrafos pois, entretanto, a chave rodou na fechadura, a porta abriu-se e W.N. recortou-se no limiar. «Vejo que acordou, perdoe-me se a abandonei, mas não resisti a sair, o luar convidou-me e não suportei o seu apelo!», «Já que estamos em momento de perdões e a confidenciar tentações…eu não resisti, primeiro a adormecer e depois a ler o seu manuscrito…» «Quer que lho leia em voz alta? Ou talvez lho cante…» E dando uns passos, com o se dançasse, W.N. chegou junto da mesa, apoiou a mão esquerda à cadeira e leu: « “É noite; eis que fala mais alto a voz das caudalosas fontes. E também a minha alma é fonte caudalosa. É noite; eis que despertam os cantos de todos os apaixonados. E também a minha alma é o cantar de um apaixonado. Há uma sede em mim, insatisfeita, insaciável, que tenta erguer a voz. Há em mim um desejo de amor, um desejo que fala com a linguagem do amor. Sou luz: ai de mim! Porque não sou trevas? Mas a minha solidão é estar cingido de luz! E como vos abençoaria, mesmo a vós, pequenas estrelas cintilantes, pequenos vermes do céu! E a luz que me désseis chegaria para me encher de felicidade. Mas vivo prisioneiro na minha própria luz, reabsorvendo as chamas que de mim brotam.” Se aqui houvesse um piano tocava-lhe a música que acabei de compor…» A.S., dominada de comoção, encostou a cabeça ao ombro dele. Sentiu, como acontecera antes, um espasmo involuntário e o corpo do homem enrijeceu ao toque, «Porque endurece assim sempre que eu lhe toco? Apesar disso, acabou de recitar um poema de amor…», «Ah, não me entenderá nunca, apesar de eu ter chegado a supô-lo! É certo que o meu cântico à noite é uma oração apaixonada…mas este amor que canto é sem objecto! Esta paixão que transborda em mim, a mim regressa…», «Mas é claro, vive prisioneiro na sua própria luz, reabsorve as chamas que de si brotam…e não é essa afinal a essência única do amor? Repare naquela borboleta» – e apontou-lhe o insecto em torvelinho ao redor do candeeiro da rua – «também ela adeja em torno da luz que julga ser sua amiga e que tarde ou cedo a destruirá…nunca viu os corpos esfrangalhados destes seres da luz, secos e estéreis depois do rodopio? Por instantes, vi em si um homem feliz…» A.S. afastou-se dele, entristecida. «Sim, quase feliz, tenho uma música pronta, não lhe disse que podia cantar? E quaisquer palavras lhe convêm…venha comigo, ali em baixo há um piano, às vezes toco!» Desceram as escadas e entraram num aposento deserto. W.N. acendeu a luz e apareceu uma sala de estar aconchegada e simples, com duas poltronas, um sofá e uma mesa de apoio. «Venha, o piano está ao fundo, acendamos as velas!» De um momento para o outro, desligada a luz eléctrica demasiado invasiva, só avultava o recanto da sala mais afastado da porta, onde um piano antigo, de pernas torneadas e castiçais de latão doirado, abria o seu teclado alvinegro. «Venha, sente-se comigo, o banco é largo! Vou tocar muito de mansinho, não quero atrair as atenções!» De um momento para o outro a melodia rompeu os ares, uma melodia em si bemol, ajustada em absoluto aos sopros da noite e à vibração solitária das almas em transe. Recordou as palavras do poema e percebeu que W. N. tinha razão: cada nota parecia ter sido esculpida, de tal forma se ajustava às sílabas num ritmo tão sugestivo e natural que em poucos minutos ela própria conseguiu antecipar o som que se seguia! O poema era, portanto, uma canção! Quando terminou o improviso, olhou para ela, e esperou. «Que hei-de dizer-lhe, que elogio espera de alguém que até hoje nenhuma experiência musical possuía e que, de um instante para o outro quase se tornou compositora também? Julgo que entendi, neste momento sublime, o poder das palavras…mas só de modo deficiente conseguiria expressar o que julgo ter entendido…», «Não vê que palavras e música têm um parentesco impossível de destruir? O verdadeiro esteta da língua sabe isso e jamais escreve sem intuir, para além ou para aquém da palavra, o seu ritmo melódico. Veja que o meu Cântico à Noite é um texto de prosa, nenhum artifício da rima ou do ritmo que é comum atribuir à poesia necessitei de emprestar-lhe para me soar a música, quando saí, há pouco, prestei atenção às parcas harmonias sonoras da cidade amodorrada e então a centelha musical começou de imediato a romper e eu sei que daqui para a frente nunca mais lerei este texto sem lhe adicionar mentalmente a melodia!», «Acho que o compreendo, à medida que vou lendo o seu livro, mesmo sem entender tudo, estremeço com a extraordinária harmonia sonora que dele emana e sou compelida a recitá-lo em voz alta, tenho a certeza que um músico poderia escrever a partir deste texto um poema sinfónico, uma ópera…», «Não, não, ópera não!». W.N. levantou-se do banco, fechou o piano e foi pôr-se à janela de costas para A.S.; ela sentiu quer tinha entrado por um território perigoso, se bem que não fosse capaz de perceber a natureza de um tal território e de um tal perigo. Quando ele se voltou para ela, o júbilo desaparecera-lhe do semblante, as costas curvavam-se e a voz saiu entrecortada, «Há muito tempo que não oiço ópera…desde que o espírito da tragédia grega se ausentou… do único que eu supus… ser capaz de a redimir…Vamos embora daqui, tome comigo o chá da noite, eu próprio costumo prepará-lo no meu quarto!» Apagou as velas do piano, agarrou a mão da sua única leitora e subiram as escadas de volta, alumiados pelo luar que jorrava, intrépido, pela clarabóia.
13 agosto O Farol - O Martelo
O MARTELO
Porém, só passados alguns dias encontrou de novo W.N., apesar de ter feito uma lista exaustiva de todos os hotéis e hospedarias baratos existentes em V. , apesar de decidir regressar à livraria e interrogar o livreiro sobre a morada do escritor. O homem encolheu os ombros e encarou-a com frieza, «Como hei-de saber? Não sou editor, só vendo livros, e, tanto quanto sei, esse W.N. nunca está muitos dias no mesmo local…Muda constantemente de cidade e de país…» Afinal era verdade, e não um surto metafórico, o seu escritor era um errante, um fugitivo e, a esses, dificilmente o sedentário lança a rede! Não descobriu a morada ou o tugúrio de W.N., mas viu-o a caminhar em passo acelerado numa das avenidas centrais de V. e resolveu segui-lo. Não foi tarefa fácil, as passadas dele eram muito mais largas que as dela, havia uma multidão a deslizar pelas ruas e, decididamente, seguir pessoas por entre outras pessoas não era a sua vocação. Encontrou-o e perdeu-o dezenas de vezes e o único indício que, momentaneamente, tinha dele era a noção do ritmo dos seus passos, em tudo diferente do comum dos transeuntes. Por fim, uma paragem providencial, no início de uma ponte sobre o rio que atravessava a cidade, deu-lhe o avanço necessário: em poucos minutos pôde alcançá-lo e, silenciosamente, colocou-se a seu lado, apoiada à balaustrada sobre a massa de água verde-escuro. W.N. parecia cansado, a respiração arfante, o corpo meio derreado sobre o apoio, a tez pálida, «Por fim encontrei-o…e não foi fácil!». Ele olhou-a e, durante uns instantes, pareceu não a reconhecer, até que se voltou para ela. «Procurou-me? Mas creio que dissemos tudo já…», «Engana-se! E além disso…não deu pela falta dos seus óculos? Não precisa deles? São de tal modo invulgares que não me pareceu tarefa fácil substituí-los de repente…», «Os meus óculos? Sim, percebi que não os tinha, andei às cegas todos estes dias, mesmo agora só vejo de si um recorte. Mas confesso que é um benefício deixar de ver o mundo real, ou aparente, este, que é a visão comum de todos, e ficar atento ao que vejo por dentro! Não me preocupei com os óculos, sabe?». Desconcertada, A.S. não sabia o que dizer, mas retirou o embrulho da bolsa e entregou-lho, «Para todos os efeitos, deve precisar deles, de tempos a tempos, calculo, quando escreve, por exemplo, ou quando lê…», «Ultimamente não leio, preciso estar livre do pensamento dos outros, é necessário que dê à luz…e o parto avizinha-se a passos largos!». A.S. irritou-se. Aquele homem que viera procurá-la, em demanda do faroleiro, seu único leitor, aquele homem a quem desvendara algumas partes de si que jamais confessaria a ninguém, estava neste momento a dispensá-la! E nem um pouco de senso comum era possível inserir no diálogo, ele fugia constantemente para territórios apenas dele, sem consentir qualquer espécie de partilha! «Entendo perfeitamente que eu não lhe importe para nada, até julgo ter entendido a sua definição de egoísmo. Mas repare: e se a minha auto-preservação, enquanto pessoa, se o caminho que me conduz a mim mesma tiver sido alterado por si a tal ponto que só a sua palavra, a sua presença serão capazes de me reconduzir até mim…de novo? Percebe que tenho que o procurar? Percebe que, a partir do momento em que o encontro, não posso deixá-lo ir antes de esclarecer as minhas dúvidas?» A voz tremia-lhe a contragosto, soube que estava prestes a chorar e o local não era adequado a semelhantes manifestações sentimentais. «Peço que me desculpe, habitualmente não choro, mas há vários dias que não durmo…sinto um enorme esgotamento…e quer saber? Tem razão, e o livreiro também teve: o seu livro fez-me mal, as suas palavras ocultam um precipício no qual não desejo tombar!» W.N. recuperou do alheamento em que parecia totalmente submerso e encarou a companheira, «Vejo que está, de facto, perturbada, sei ou julgo saber de onde lhe advém semelhante comoção…Permita que seja eu a conduzi-la hoje, deixe-me levá-la até à minha toca!» Segurou-a pelos ombros, enclavinhou depois a mão no seu braço e, assim encostados e em silêncio, percorreram o resto da ponte, desembocando numa rua estreita onde se erguia uma casa de pedra, modesta e limpa, com portadas azuis nas janelas e vasos de flores ornamentando a entrada. W. N. deu-lhe passagem, subiram uma escada e, por fim, ele abriu uma porta e fê-la entrar num aposento que era uma espécie de saleta ou escritório, antecâmara do quarto de dormir. «Peço-lhe, não procure aqui sinais de mim, não há, é um quarto asséptico, despersonalizado, exactamente como me convém!» De facto, o lugar não poderia ser mais comum, com os seus móveis triviais, ao estilo rústico da fachada da casa, e no entanto A.S. percebeu ali a mão feminina, uma denúncia de intimidade, na jarra de flores frescas sobre a cómoda, na almofada graciosa sobre a colcha bordada à mão, na dobra do lençol, imaculado, já aberta para o retiro do sono, no capricho florido dos cortinados, no brilho do soalho encerado de fresco! Mas W. N. não permitiu qualquer conjectura e, oferecendo-lhe a cadeira mais confortável, de braços, com uma almofada de tecido igual à colcha, foi anunciando, «Não escapo à compaixão da minha hospedeira, como em tempos não escapei à da minha mãe e irmã! Qualquer coisa se desprende de mim, enquanto homem, que apela à piedade, vejo esse olhar e esse gesto em todas as mulheres que se aproximam de mim…mas acredite: são bem mais numerosas as que fogem! Quanto a si…deixe-me dizer-lhe que, de início, me desapontou o facto de o meu único leitor ser, não o faroleiro perdido na solidão do mar, mas uma jovem e frágil criatura do sexo feminino. Confesso que aquele acto insano de abrir as veias e escrever efectivamente com sangue fez vacilar o sentido do poder da minha palavra. Porém, ao mesmo tempo que quis fugir de si, logrado e ainda mais rendido ao amor fati da minha vida, entendi e senti uma vibração idêntica à minha no conjunto do seu ser», – e, enquanto dava passadas no aposento gesticulava, envolvendo com a curva dos braços o lugar em que ela se sentava, dócil – «percebi afinidades intrínsecas que não quis, que não quero explorar…Há nas mulheres uma sedução diabólica que me faz tremer pois sei que não resiste ao meu vendaval, enquanto sedução, sei que se verte em raiva, em violência para me ferir onde sou mais vulnerável…Lembra-se do dia em que a visitei? Logo que entrei no seu espaço, veio ter comigo toda a luxúria desses seres voluptuosos, dessas feiticeiras de chicote na mão…estive ali pouco à vontade, como deve ter notado! Mas depois…depois…» Um grande silêncio caiu nos ares frescos da divisão, a tarde descia e as sombras imolavam os cantos numa aura ígnea feita da explosão final do dia. A.S. ergueu a voz, tornada rouca, no cerne da perturbação emotiva, «Não sabe nada de mim, é por isso que me fala de volúpia e de chicotes! Olhe, veja de que sou feita, sinta a minha pele: que diferença consegue sentir entre nós, que instintos lhe dizem que eu não posso ser diferente dessas que se apiedam de si, dessas que o abandonam?» Por instantes, ela fez com que ele parasse e lhe tocasse o tecido da face, fez com que ele abrisse a palma da mão e envolvesse por inteiro o seu rosto. «Diga-me: que emanou do meu toque? Piedade? Volúpia? Vá, espete a sua farpa derradeira!» «Neste momento tem-me nas mãos, ainda não entendeu? Eu vi, naquele dia em que passeámos juntos na floresta, no instante exacto em que trinquei a sua maçã e depois, quando a serpente me lançou um olhar cúmplice… «A serpente? Qual serpente?», «Ah, não a viu, ela esteve sempre enrolada em torno da árvore junto da qual comemos o farnel! Ela fez-me entender que nenhum perigo me advém de si: primeiro, a águia, mansa e familiar no parapeito da sua janela a indicar-me os voos perigosos entre os picos gelados, a seguir a serpente e o apelo à renovação…E até, veja bem, até os meus olhos, a minha capacidade de ver o mundo dos outros, mesmo eles ficaram consigo…» «E eu vim devolver-lhos! Mas veja o que me disse, veja a importância que deu ao facto de eu ter encontrado o que lhe permite ver!» W.N. deu uma ligeira gargalhada e a seguir suspirou e sentou-se ao lado dela. «Ver! Eu não preciso de ver, tenho visão que chegue, aqui dentro, nas sinuosidades do meu cérebro desperto, no latejar violento do meu sangue, no trabalho nem sempre linear dos meus órgãos! De que outro modo haveria de ser? Todos estes dias andei na rua, voltei ao quarto, fiz as minhas refeições…e no entanto, tem razão, só existe uma casa capaz de construir os meus óculos! E tem razão uma vez mais, sem eles não aguentaria muito tempo! Mas deixemos isso: o que descobriu no meu livro, que sortilégio é esse que a tem impedido de dormir? Mesmo sem os óculos – a minha falta de vista é psicológica, sabe, neste momento vejo perfeitamente – consigo notar o seu abatimento, na última vez que a vi não tinha esses olhos ornados de sombras violáceas…», «Ah, vou dizer-lhe, quem sabe se voltarei a encontrá-lo? Explique-me o subtítulo, diga-me por favor, como é que um livro pode ser escrito para todos e para ninguém! De uma forma ou de outra, vou assimilando as sua metáforas, mas este enunciado martela-me a tal ponto as horas da noite que não me permite o descanso!», «Martela! Que som extraordinário, o desta palavra, vinda assim, sem aviso, da sua boca! Como me sinto alegre, daquela alegria dançarina e vitoriosa, por saber que o som das minhas frases, mesmo que seja apenas um subtítulo, faz martelar as horas de alguém! Ouviu, uma a uma, todas as pancadas da meia-noite? E depois, em crescendo, a agonia da aurora até ao esplendor solar da manhã? Sentiu a angústia indizível da necessidade de soletrar a raiz de tudo o que existe e de, contudo, ter que vaguear num oceano de dúvidas dilacerantes? Porque hei-de explicar-lhe o sentido do meu subtítulo quando, afinal, o seu estado de vigília torturante justifica a manutenção do segredo? Quando fui visitá-la (ou ao meu faroleiro leitor) levava comigo a esperança insana de ter por fim encontrado o verdadeiro auditório para a minha torrente... ou escoadouro, se quiser…mas o enigma, esse não poderia resolvê-lo, a metáfora, essa não irei explicar-lhe…Além do mais, já não sou professor!, «E assim me deixa, em angústia e divisão, lutando, noite após noite com a dúvida sobre saber se pertenço à classe de Todos ou se pelo contrário sou apenas Ninguém?», «Veja, veja bem: repare no que disse. Sou apenas Ninguém. Pronuncie outra vez essa frase, Sou apenas Ninguém! Não percebe que apoucou a grandiosidade da sua própria sentença? Ser Ninguém eis a suprema condição do humano, ser Ninguém, eis o sublime cometimento que nos faz escapar à miséria do Todos! Mas não “apenas” Ninguém, nunca “apenas” Ninguém!», «Deveria antes dizer: Se sou apenas Todos ou se, pelo contrário, sou Ninguém?» «Não, oiça, nem uma coisa nem outra! A palavra apenas não serve a nenhum dos pronomes e, se hoje é Ninguém aquele que entende o meu livro, amanhã serão Todos e esses Todos serão o somatório glorioso de todos os Ninguéns… Pode ser que a sua insónia me diga que estou perante um Ninguém e que portanto escrevi o meu livro para si; pode ser que isso signifique que um dia a humanidade despertará ao som da minha voz para nascer como Todos! Logo, para quê a angústia, para quê esse dilaceramento que lhe faz mal, que lhe retira a vitalidade? Estando num ou no outro lado da sentença que o meu subtítulo preconiza, estará sempre na atmosfera do qual ele nasceu!» A.S. só pôde rejubilar: conseguira que aquele professor renegado o fosse uma vez mais, pois acabara de perceber, perante o som vigoroso do martelo, o lugar que lhe cabia no mundo de Todos.
11 agosto O Farol - A Insónia
A INSÓNIA
Nessa noite, A.S. não foi capaz de dormir. Durante horas leu o livro de W.N. até lhe doer a cabeça e as imagens se enredarem umas nas outras numa espécie de teia, de onde a aranha se ausentara, pois tudo ficara em grande confusão e nenhum fio encontrava o nexo. Percebeu que aquele não era um livro linear, pouco importava a história (se história tinha) e que começar a ler do princípio, do meio ou do fim também era indiferente…ou será que, por ela ser “Ninguém”, lhe parecia tal? Ou será que o livro para “Todos” tinha que ser lido como o são afinal…todos? Quando decidiu apagar a luz e tentar dormir percebeu que não era capaz. Longe de estar a ser martelada pelas cogitações profundas do livro, pelas sentenças, mandamentos e máximas que o autor parecia querer gravar a ferro e fogo, não só neste tempo mas pelos milénios além, A.S. preocupava-se acima de tudo com o subtítulo: que significava escrever um livro “para Todos e para Ninguém”? Havia naquela frase um paradoxo e ela revolvia-se, por entre os lençóis amarfanhados, tentando decifrá-lo. É claro que muito provavelmente tratava-se de uma redundância, de um jogo metafórico como “a escrita com sangue” ou o “torna-te em quem és” como a águia e a serpente, ou o mago persa da floresta…E ela enfurecia-se por não conseguir fugir à tentação de querer perceber tudo, soube que aquela irmanação pressentida durante o farnel no meio da floresta e o caminhar silencioso de braço dado pela cidade agora não passavam de uma espécie de mistificação! O delírio da insónia foi de tal modo intenso que teve a percepção nítida que nenhum escritor cruzara algum dia o seu umbral, que fora vítima de uma cilada dos sentidos e da imaginação, que criara ela própria o seu visitante… Depois de várias horas, pois assim lhe pareceram os segundos e os minutos passados no frenesim do pensamento que aguarda o sono, decidiu levantar-se e foi até à janela da sala, a mesma onde horas antes a águia aportara. Abriu-a de par em par e o vento frio da madrugada sobressaltou-a. Em simultâneo, sentiu-se revigorada e mesmo feliz, olhou a lua amarelada em quarto minguante bem acima do horizonte e murmurou, “É preciso aprender a amar-se a si próprio, assim o ensino, com um amor total e são, a fim de se permanecer fixo em si ao invés de vagabundear em todos os sentidos…”, e logo a seguir foi buscar o livro que deixara aberto sobre a cama e continuou, “Este vagabundear intitula-se amor do próximo, não existe palavra que tenha servido para cobrir maior número de mentiras e de hipocrisias, sobretudo entre aqueles que se tornavam intoleráveis a toda a gente…” Estas palavras, umas já aprendidas de cor, outras marteladas num murmúrio solene, estavam carregadas de enigma, e contudo qualquer coisa dentro de si lhe sussurrava uma definição nova de egoísmo, esse sentimento humano tão vilipendiado pelas morais e aqui erguido como suprema virtude. Amar o próximo é vagabundear em todos os sentidos, perder o centro, dar cobertura a mentiras e hipocrisias… Suspirou profundamente e deixou-se cair sobre o sofá. Uma nostalgia inusitada tomou-lhe conta do ser, gostava de ter ali o escritor, agora reduzido a uma espécie de fantasma pela sua imaginação delirante no ápice da insónia, queria perguntar-lhe o sentido desta e de outras sentenças tão avessas aos mandamentos comuns da moral cristã, a única que havia praticado, aquela que um dia abandonara mas que não substituíra por nenhuma outra. Captou em si o enorme vazio deixado por essas ausências, ausências de rituais e de preces, ausências de meditações e de êxtases, experimentou um intenso frio espiritual agora percorrido pelo fogo do que lhe pareceu ser uma religião recém-inventada e ainda desprovida de templos ou de fiéis. Experimentava uma profunda alteração no mais íntimo de si mesma, já não era a eterna rapariguinha de olhar esquadrinhante, a adolescente em fuga do regime familiar ou a profissional das artes – ofício que aprendera para poder subsistir a sós. O Livro para Todos e para Ninguém, primeiro, a visita do seu autor, mais tarde e por fim o toque indeciso do homem, no caminho não marcado por palavras, feito a dois, mas como se fossem apenas um, desde a floresta até à porta da sua casa, deixara nela marcas indeléveis. Sentiu mesmo que a face mudara e que o corpo se tornara pesado, foi até ao espelho do quarto, onde os sinais do torvelinho insone permaneciam, aglutinados a uma espécie de bafo incendiário e contemplou-se demoradamente. Não, nada havia mudado, a face permanecia delicada, transparente e branca, os caracóis fulvos continuavam tão ruivos como antes e o corpo parecia ainda mais minguado…foi então que reparou num objecto caído no chão do quarto muito próximo da secretária onde ainda mantinha o tinteiro sangrento, um objecto escuro e absolutamente alheio. Estremeceu, olhou em torno de si, como era possível não ter visto que aquele objecto não lhe pertencia, como era possível haver ali, no chão do seu quarto onde não deixava entrar ninguém uma coisa estranha e aparentemente perdida? Baixou-se e apanhou, a tremer, uma massa metálica e áspera que aos poucos reconheceu: eram os óculos de lentes escuras que W.N. usara para ler o seu manuscrito! Lembrou-se nitidamente da imagem de espanto e comiseração contrafeita que ele ostentava quando lhe pegou na mão e o afastou do seu triste manuscrito, evocou as hastes, penduradas no rosto…W.N. esquecera-se dos óculos... ali! Pegou-lhes com infinito cuidado, percebeu que não eram óculos comuns pois tinham várias lentes sobrepostas, teve a noção exacta de que quem assim precisava de um instrumento tão elaborado para ver, e contudo se mostrava capaz de observações tão exactas e profundas como as que fora fazendo enquanto conversavam, ou as que se soltavam sempre que abria ao acaso o livro devia possuir, algures, uma outra visão, bem mais acutilante que a física! Regressou à sala, viu a alvorada a nascer, ao longe, e entendeu que aquele achado lhe dera o pretexto que faltava: agora teria que procurar W.N.! Agora nenhuma razão a impedia de lhe ir no encalço, de lhe descobrir o tugúrio – pois assim designara ele o seu quarto de hotel. A princípio desanimou: quantos hotéis modestos haveria na cidade? Como faria para encontrar o exacto, sem os percorrer a todos, exaustivamente? Por fim decidiu não pensar no assunto, sentiu, com agrado, que a sonolência a invadia e que se deitasse a cabeça na almofada dormiria de imediato e mais ainda: intuiu que, ao acordar saberia o modo exacto de encontrar o dono dos óculos perdidos.
09 agosto O Farol - Ein Buch für Alle und Keinem
Ein Buch für Alle und Keinem
Durante algum tempo, enquanto atravessavam a cidade, quente, apesar da brisa outonal, vibrante, na insensata corrida da multidão e dos veículos, não pronunciaram palavra alguma e os dois, perdidos no caos humano, tornaram-se figuras indistintas ou partículas ou átomos de um aglomerado inespecífico. A.S., contudo, conhecedora do ziguezaguear das ruas antigas de V., foi desenhando argutamente o percurso, vencendo o andamento tímido e sincopado de W. N. que, numa animação progressiva, soltou os membros e ergueu o rosto até alinhar os seus passos pelos dela. A certa altura desembocaram num parque quase deserto e aos poucos o parque citadino deu lugar a um bosque e o bosque à floresta. «Quem havia de dizer que a floresta opressiva dos homens daria lugar a este oásis?». W.N. falou alto e a voz, treinada no discurso, soou nítida e bem articulada. «Não lhe disse isso mesmo? As cidades não podem subsistir sem este contraponto de oxigénio e eu própria não seria capaz de residir em V. se não me acontecesse sonhar com estes ermos… Nem preciso de vir cá muitas vezes, basta-me a evocação para me sentir livre!» W.N. suspirou, «Tem sorte! Infelizmente, a mim, a evocação não chega, sou fisiologicamente incapaz de viver sob certos céus, ou neves, ou sóis…então só me resta errar por aqui e por ali em busca do meu lugar…que não tenho! Curiosamente, aqui, experimento uma paz que já não sentia há muito!». Dizendo isto olhou para a sua companheira que avançara um pouco e, numa pequena clareira entre árvores altas, desdobrara uma manta. «Venha cá! Trouxe um farnel, lembre-se que uma certa rigidez nos horários das refeições, um certo ritmo ou rotina, como quiser, é fisiologicamente importante!», «Mas como, como arranjou tudo isso? Não dei conta de nada…», «Pois não! Enquanto olhava os longes, procurando ver o destino da sua águia, eu tive tempo de enfiar na bolsa algumas coisas…tudo simples, como pode ver, tudo adequado a estômagos recalcitrantes!» Hesitando em sentar-se, W.N. olhava à sua volta. Assim, descontraído e sereno, parecia rejuvenescido, os olhos brilhavam e a própria estatura se elevara; A.S. atónita, observava a transfiguração do homem, acossado havia algumas horas, o semi-moribundo que apanhara à sua porta, sentia uma intimidade extraordinária com aquele escritor vindo nem ela sabia de onde, cujas palavras incendiárias lhe haviam feito cometer insanidades e percebeu que algo nela ganhara substância. Sentada na manta, com as pernas cruzadas à oriental, e os cabelos ondulando à volta do rosto infantil, apeteceu-lhe cantar, mas em vez disso soltou um assobio. «Sente-se aqui, venha, permita-se usufruir uma hora de prazer!» Sim, de prazer, pensou ele, prazer que pagarei amargamente daqui a pouco, prazer que trará o veneno de abandono, esse azorrague de mim para mim mesmo…de qualquer modo…porque não? Com elegância cruzou as pernas, ainda de pé, e deixou-se cair na manta púrpura. «Já imaginou o que sentiria caso esta floresta fosse também a habitação da serpente? Não, não estremeça, não quero assustá-la…mas só falta mesmo ela para compor o quadro deste dia!», «Não tenho medo de serpentes, sei que desde que saibamos lidar com a natureza, nada nela pode ser-nos prejudicial…mas não tenho a certeza de estar preparada para um tal encontro!», «Tem razão, é necessário estarmos prontos, precisamos de ver o longínquo e esquecermos o próximo e amarmos o longínquo mais do que o próximo…ensino-lhe o amor do longínquo! Pense na águia: foi a única vez que ela poisou na sua janela, não é verdade? Mais do que qualquer um dos homens de agora, estes por quem passo e me ignoram, ela sabe que somos feitos do mesmo material, moldados no mesmo barro! Por isso me escutou e por isso voou quando eu a persuadi disso!» Enquanto falava, W. N. entretinha-se a passar uma maçã vermelha de uma mão para a outra, até que deu uma dentada e cerrou os olhos em inesperado prazer. «Mas…agora me lembro…queria perguntar-lho há muito: como decidiu comprar o meu livro quando entrou na livraria? Entre tantos títulos porque escolheu exactamente o meu?». A.S. riu-se, «Sempre a omnipotência do eu a querer sugar todo o espaço! Estamos aqui, nada nos perturba o isolamento, deixámos para trás as grutas dos outros homens e já quer regressar…avanço consigo e não hesita em puxar-me para trás…quando fala em egoísmo, quando o defende proferindo sentenças em que apenas pretende encontrar-se a si mesmo…ah, é então só por isso que continua comigo?», «Mas….o que pensava? Esquece-se que fui procurá-la apenas porque era a minha única leitora? Esquece-se de que saí do meu tugúrio para encontrar face a face os meus leitores e foi consigo que deparei? O egoísmo é outra coisa!», «Pois bem, eu digo-lhe, veremos se quer conhecer a sua única leitora, veremos se o meu critério de selecção de livros satisfaz o seu orgulho». Ignorando o gesto de repúdio de W. N. que continuava saboreando a maçã, com um leve ruído húmido, A.S. prosseguiu, «Fui à livraria por tédio, se quer saber! Tinha andado às voltas na cidade, tudo me parecia desencantado e quando dei por mim estava a percorrer com os olhos os títulos em destaque da vitrina. Entrei, folheei alguns mas sabia que não iria comprar nada daquilo, ali exposto para atrair a plebe, detestei o toque das capas, como que envernizadas, odiei o brilho das letras, em relevo e fluorescentes, das inscrições com que os autores apelavam despudoradamente à venda! Alguns tinham cintas de cartão onde se lia: “Best seller em 14 países” ou “Adaptado ao cinema” e outras ninharias…então fui procurar nos fundos, nas prateleiras enigmáticas e modestas, tirei um e outro e subitamente um livro pouco volumoso caiu-me aos pés, ficou ali, aberto, como se estivesse a chamar-me! Apanhei-o e logo encontrei a sua sentença, aquela de que tanto falámos já…soube que estava a ser tocada por uma espécie de nova melodia, nada nas palavras que li podia comparar-se à multidão das histórias que ornavam a montra e entupiam a passagem. Quanto ao título… julgo que não o percebi: soou-me estranho o tom evangélico da frase, não gostei do cunho de religiosidade que me pareceu atravessar aquelas três palavras…foi o subtítulo que me convenceu a trazê-lo! Ein Buch für Alle und Keinem, esse, sim, foi o verdadeiro motor da minha compra! Como podia eu resistir à possibilidade de saber, por fim, se eu era “Todos” ou se era “Ninguém”? Como podia deixar ali um livro que me prometia entender a que talhão da humanidade pertenço? Foi assim que decidi comprar a sua obra, mesmo quando o livreiro me olhou compungido querendo dissuadir-me…já lhe contei…aliás, quanto mais ele me afastava do livro, mais a minha necessidade de o trazer era premente. Oiça-me bem: o livro falou comigo, o livro quis que eu o lesse! Ao que parece foi apenas o livro a manifestar uma tal vontade: também o seu autor ousa proferir que eu não o devia ler…» Perturbada, A.S. levantou-se e caminhou até uma árvore ao tronco da qual encostou a cabeça, subiu um pouco a manga da camisola do braço esquerdo e afagou cuidadosamente a cicatriz violácea. «Foi o livro que me mandou escrever com o sangue, sabe? Foi ele que encaminhou os meus gestos…» W.N. não se moveu, soube que não devia ter perguntado nada, entendeu que havia dramas e revoltas por detrás daquele corpo franzino, entreviu a cabeça escondida e soube que a cabeleira fulva era um albergue de segredos e dores. Resistiu à piedade que sentia nascer, reprimiu o início de ternura e só conseguiu dizer, «Venha, coma comigo, daqui a pouco os pássaros e as formigas darão conta da nossa refeição!». Não falaram mais até terminarem, nem sequer quando o sol entreabriu a cortina densa das árvores e lhes iluminou os rostos pálidos. Numa espécie de acordo tácito perceberam, cada um a seu modo, a existência de um nicho secreto muito frágil, prestes a romper-se e a abrir uma avalanche prodigiosa que os levaria perigosamente por caminhos que nenhum desejava percorrer naquele instante. Anoitecia já quando saíram da clareira no âmago da floresta. W.N. ouviu um rumor discreto, tão íntimo que parecia dimanar de si próprio, olhou para trás e viu a cabeça da serpente erguida, com os olhos faiscando na penumbra e o corpo enlaçando o tronco da árvore no centro do sítio onde há pouco haviam descansado. Sorriu francamente, percebeu que o dia ganhara, no seu todo, um significado profundo que viria tarde ou cedo a desvelar: sem pensar no que fazia agarrou o braço de A.S. que se lhe abandonou, cúmplice, e, num enfeitiçamento até ao momento desconhecido para qualquer um deles, regressaram à cidade. 05 agosto O Farol - A visita da águia
A VISITA DA ÁGUIA
Nesse momento um restolho de asas, vindo da janela aberta ao sol do meio-dia, provocou em ambos um estremecimento simultâneo. A.S. levantou-se em sobressalto, mas W.N. segurou-lhe o braço com firmeza, «Não vê que afasta o seu visitante? Repare bem: é uma águia!» Poderosa, a ave aprumava-se no parapeito, exibindo o perfil adunco e (tal como antes acontecera) a sua imagem era a de uma sombra recortada, negra e imóvel, no ambiente banhado de luz. «Uma águia…como é possível?» sussurrou A.S., não ousando mover-se, «Espere, é bom sinal, a águia é um dos animais eleitos do solitário, ela sabe, como nenhum, viver bem alto, perto do sol…sem queimar a plumagem…mas falta o outro, o complemento, o rastejador…», «A serpente? Ah, não é hoje o dia em que quero encontrar uma serpente!». W.N., bruscamente animado e sem largar o braço da sua anfitriã e única leitora, apertou-lho mais como se quisesse deter o medo que sentia crescer no aposento, «A águia e a serpente, a coragem e a sabedoria, o animal das trevas, o insidioso, capaz de se enovelar formando o círculo perfeito, vivendo da terra, e o outro, este que paradoxalmente aqui aportou, eu diria que em perigo extremo, o ser das alturas…espere! Este animal enfrenta um risco enorme neste sítio, este animal que aqui poisou não pode estar aqui…é necessário que volte para os cumes a que pertence!» Agitadíssimo, W.N. largou o braço da sua companheira e aproximou-se da janela. A águia não se moveu, permitiu que o homem se acercasse, virou um pouco o corpo e encarou literalmente aquele que assim ousava enfrentá-la: tinha a cabeça branca, com as penas eriçadas, os olhos amarelos e como que incendiados e o bico fulvo entreabria-se. Atónita, A.S. reparou que os dois seres que daquele modo excepcional se fitavam eram semelhantes, o olhar acutilante tinha o mesmo fulgor, o perfil, onde o bico da ave correspondia ao nariz do homem, denunciava uma idêntica firmeza e as madeixas revoltas de um castanho claro, penteadas para trás poderiam bem equivaler à massa de penas douradas pelo sol! Aproximou-se também e sentiu o estremecimento da águia que se virou de frente para ela, semicerrando os olhos de âmbar, viu as asas recolhidas de um negro brilhante agitaram-se por segundos, observou as garras róseas firmemente presas no parapeito da janela. Emanava daquele animal um poder inesperado, como se nada houvesse de casual na insólita paragem e ele conhecesse razões inadiáveis para assim se abalançar ao voo sobre a cidade e a uma aterragem perigosa numa habitação humana. «Vieste visitar-me, bem sei, agora te conheço e te reconheço! Regressei para o meio dos homens e deixei-vos, meus animais queridos, sozinhos na montanha, depois de dez anos de convivência respeitosa. Acreditei ser o sol, que a todos nos iluminou no tempo do meu ascetismo voluntário, o único calor de que necessitáveis; vejo agora que fui para vós mais que uma rotina e que os teus instintos se substituíram à inteligência e as tuas asas souberam encontrar a estrada dos ares. Mas olha: corres perigo nesta cidade humana, demasiado humana, regressa às alturas, visita a caverna e nutre-te da tua própria solidão e grandeza. Não sacrifiques a inocência, não faças perigar a liberdade; voa, não te mantenhas fiel ao mestre que posso ter sido, habitua-te a renegar-me enquanto exemplo e alimenta as crias: eu sei que as deixaste para vires procurar-me e também pressinto que elas ainda não têm asas capazes de as conduzirem a si próprias!» Enquanto W.N. segredava este discurso ao ouvido da águia-real, A.S. sustinha a respiração, maravilhada: como era possível semelhante fenómeno decorrer ali, em frente dos seus olhos? Percebeu que desencadeara um milagre, só pelo facto de se ter tornado a única leitora do escritor malogrado que assim demandava conhecer aqueles que o liam. Teve consciência de que não lhe seria dado nunca entender os segredos do homem que, perante os seus olhos abismados, travava um diálogo fraterno com uma ave e viu-se bruscamente apoucada e insignificante frente aos dois seres recortados na luz, irmãos gémeos e confidentes. Não pronunciou uma palavra. Esperou. A águia permaneceu extática e sossegada durante uns momentos, como se o seu pequeno cérebro, sem dúvida palpitante por baixo da coroa de penas, necessitasse de um tempo para decifrar o código do liguajar humano. Por fim, abriu as asas, primeiro como se se espreguiçasse; depois deu um impulso ao corpo e fendeu os ares, sempre a direito, e a seguir, subindo mais e mais num voo planado, tornou-se uma figura negra e indecisa, depois um ponto, até se desvanecer na lonjura. O sol já em declínio fizera crescer todas as sombras. W.N. deixou o parapeito da janela onde se apoiara esquecido, muito tempo depois de a águia encetar o caminho de regresso aos seus cumes, e foi ter com a sua anfitriã. Do acabrunhamento matinal nada restava nas linhas do rosto do homem assim transfigurado, «Terá sido um sinal, um augúrio? Devo encarar, uma vez mais, a crueldade insolente da sétima solidão e subir à montanha?» A.S. percebeu que semelhante interrogação não lhe era dirigida, viu com clareza que o homem questionava o seu próprio pensamento e apiedou-se. Ao mesmo tempo, disfarçou os sinais exteriores de compaixão, sabia que estava perante um decifrador de enigmas e de olhares e que nada seria mais vergonhoso para ele do que saber-se alvo da piedade alheia, “Todo aquele que se compadece perde força”, “Sê para os teus amigos um leito duro, mais útil lhes serás desse modo”, assim pregava o mestre dos aforismos. «Veio até aqui, não é verdade? Por duas vezes – a primeira no auge de uma cilada, como disse, pois não encontrou quem esperava ver, a segunda, no ápice de uma desorientação, afinal dirigida – os seus passos trouxeram-no até mim e veja: foi na janela da minha sala que a sua águia aportou e foi dela que levantou voo! Quem sabe não serei afinal eu o augúrio, o sinal e não a subida à sétima solidão, como diz?» «Sim, compreendo-a, vejo bem que a partir desta hora nos implicamos reciprocamente num destino irmão…vejo, mas não quero ver, pressinto todos os perigos de qualquer irmanação entre mim e os outros e, já lhe disse: as minhas palavras e porventura o hálito que de mim se desprende quando as pronuncio são territórios perigosos para os não-iniciados! Até hoje foi assim: todos os que quis como amigos, tarde ou cedo desertaram do lugar que lhes guardei junto de mim; os que vieram de livre vontade, fui eu que os escorracei com a desconfiança, com o rigor, com a tendência profunda para o nada que me reveste contra a minha vontade e que me envolve como uma auréola sacrílega! Não, não, melhor seria que eu nunca tivesse vindo!» A voz enrouquecera e os olhos aveludaram-se de lágrimas. A.S. viu-lhe o corpo tenso e tocou-lhe de mansinho: «Venha, desçamos até à rua, eu acompanho-o, mesmo na cidade há oásis de tranquilidade.»
03 agosto O Farol - Luz Refractada
LUZ REFRACTADA
«Vejo que é frugal…». Sentados à mesa em silêncio, cada um parecia perdido nos seus próprios devaneios e foi A.S. que quebrou o encanto. «Sou, de facto, frugal: uma chávena de chá, uma tosta, um pouco de mel ou fruta…assim começo o meu dia. O carácter nevrótico da minha natureza, esta minha tendência para sofrer episódios de alucinação ou insónia, de não poder suportar a luz de certos locais, de me sentir perturbado e confuso nas grandes cidades exigem que seleccione cuidadosamente todos os meus hábitos e…sabe…a alimentação não passa de uma necessidade fisiológica…». A.S. continuava a comer, enquanto o escutava e começou a sentir-se perturbada, pois nenhuma refeição lhe era tão grata como um grande pequeno-almoço às primeiras horas do dia. «Deve achar-me de uma grosseria extrema! Enquanto debica a torrada e bebe a sua chávena de chá eu devoro uma refeição opípara!», «Não, não estou a observar o que come e sei bem que, de nós os dois, o excêntrico sou apenas eu! E agora percebo, vendo a sua jovialidade e juventude, a ligação à vida e à beleza, ao conforto e, sem dúvida, aos compromissos sociais…os meus livros não foram escritos para si! Os meus livros serão perniciosos para a sua natureza!», «Porque diz isso?», a voz de A.S. elevou-se, agastada e um pouco rouca, « Bastou estar à minha frente duas vezes para descobrir tudo sobre mim? Ou foi o episódio da minha escrita com sangue?». W.N. levantou-se e caminhou uns passos ficando de costas para a janela. A luz do sol, que entrava sem peias, tornou a figura do homem um contorno negro e recortado com nitidez curiosamente agigantado. «Sim, cheguei a pensar no modo estranho como interpretou ou tornou literal essa metáfora…receei que cometesse suicídio…decerto foi esse pressentimento ou temor que me puseram em semi-delírio à porta da sua casa! Mas veja: agora que a contemplo aí, envolvida pela luz solar, resplendente, com os cabelos feitos auréola, comendo uma refeição eloquente descubro que o perigo não é esse…não, A.S. nunca será capaz de suicidar-se!» A jovem ergueu-se, limpou a boca, poisou delicadamente o guardanapo de linho sobre a mesa e encarou o homem que assim ousava ou pretendia conhecê-la e desvendá-la. De imediato, um constrangimento tomou posse dela, logo que deparou com aquela espécie de sombra à sua frente, mas recompôs-se e interpelou-o com uma certa rudeza, «Nunca serei capaz? Acredita mesmo no que está a dizer-me? Veja: quando cortei os pulsos e os amarrei no auge do delíquio, quem sabe se não foi o apelo da morte, e logo a apelo da vida, a contradição que me acometeu e que é própria de qualquer suicida? Quantos enforcados se desenforcariam, se pudessem, quantos envenenados tomariam o antídoto, se fossem a tempo…eu sei lá! A verdade é que quando li a sua sentença “escreve com o teu sangue e descobrirás que o sangue é o espírito” e julgando eu que o espírito é esse fluido etéreo que não se vê, que não tem peso, que paira em nós feito respiração ou fantasma…achei que encontraria a minha dimensão metafísica e me abandonariam os impulsos carnais…» Calou-se, pensativa. «E o que descobriu afinal, no momento em que as forças se lhe esvaíram, que ganho teve ao literalizar a metáfora que escrevi?», «Confesso que descobri pouco, muito pouco de mim e desse espírito a que chama sangue! Confesso que privada do meu sangue, pouco percebi do espírito e não ousei descobrir mais, porque não creio na vida após a morte!» W.N. deixou escapar uma espécie de risada, logo contida, como se sentisse vergonha de expressar fosse o que fosse, mas ela ouviu o suficiente para prosseguir: «Vê? Ri-se, não me toma a sério, nem a si tão pouco! Dizem que é um ateu e contudo, veja bem, se o sangue é o espírito, se para escrever com o sangue tenho que aceder à morte, não serão a imortalidade, a vida eterna que a religião promete, o caminho para a descoberta do espírito?», «Perdão…dizem que sou um ateu? Quem diz?», «O livreiro, claro, também ele achou que o seu livro não era para mim… e quer saber? Foi por isso mesmo que o comprei, foi por isso mesmo que o li! Como pode um livreiro saber, olhando para mim, o que devo ou não ler? Quanto a si… confesso que não vejo de onde pode vir-me o malefício das suas palavras…e muito menos entendo porque diz tal coisa…» W.N. mudou de posição, voltou-se para a janela e a ilusão fantasmagórica desapareceu, revelando o homem concreto de estatura razoável e cabeça esculpida, o homem sereno e amável com belos olhos e fronte de alabastro. A.S. aproximou-se dele e encarou-o, «Sabe? Nunca achei importante conhecer, face a face, o autor dos livros que leio, pelo contrário. Habituei-me a acreditar que uma coisa é a obra e outra, muito diferente, o seu autor… e no entanto…no entanto…Olhando para si, assim tão de perto, evocando as suas palavras poderosos, aquele mandamento grandioso “Torna-te em quem és!” e o outro “ Morre a tempo!» …julgo que já nem preciso de o ler, creio que a obra inteira penetrou o meu umbral no exacto instante em que aqui veio pela primeira vez!» W.N. que mantivera os olhos perdidos para lá da janela, onde a luz abrasante do sol reduzia a paisagem, antes concreta, da cidade, a uma reverberação simbiótica de cores vibrantes, voltou-se para a sua leitora – a única – e havia uma humidade cúmplice no veludo castanho dos olhos. «Entendeu por fim o significado da metáfora! Agora sabe que escrever com o sangue é pôr-se por inteiro nas linhas e nas páginas, é exaurir a substância vital e doá-la inteira a quem tiver o fogo e a velocidade suficientes para ser o leitor…Repare que eu escrevo logo a seguir “Quando se conhece o leitor, já nada se faz pelo leitor» e eu vim vê-la ao seu farol e eis que percebo a verdade da minha máxima! Percebo, repare no sentido deste verbo, acrescento racionalmente o que já era pura emoção, catarse mediúnica…nada posso fazer por si, já foi mais longe do que algum dia conseguirei ir, retirou sangue das veias e acedeu ao desmaio desvitalizador, mergulhou no olvido racional… Um dia virá em que outros mergulharão nestas fontes imaculadas que, por caminhos secretos, foram o seu baptismo…por enquanto tenho-a apenas a si!» Calou-se emocionado, a voz, grave e bem articulada, voz de orador e de profeta, tornara-se um sussurro velado. A.S. tomou-lhe o braço, voltou a perceber a crispação do homem intocável e intocado, e encaminhou-o com suavidade até ao cadeirão, agora incendiado na luz prodigiosa daquele meio-dia. «Crê afinal que o entendi? Já não lhe causa repugnância a memória do meu tinteiro ensanguentado e das linhas trôpegas com que segui à risca a sua ordem? Sim, porque os seus textos são ordens, as suas metáforas, mandamentos, e quer ser aprendido de cor!», «Sim, de cor, de coração, de sangue uma vez mais…talvez entender não seja a palavra exacta, eu diria que sentiu o apelo: e o perigo de que lhe falei reside aí mesmo! Duvido que a razão positiva e escalpelizadora venha a entender uma só das minhas máximas, escrevo por enigmas, enredo-me voluntariamente em paradoxos, nenhum erudito será capaz de penetrar, de facto, a verdade dos meus aforismos…mas aquele que os sente e que os amalgama ao próprio sangue…esse estará perdido, como eu próprio estou! Olhando para si, mulher franzina, delicada e contudo rodeada de beleza e de conforto, pujante de entusiasmo, vigorosa e rescendente a saúde…ah, como pode não sucumbir às calamidades que a minha obra anuncia e prega? Como pode esvaziar as veias num gesto limite, tresloucado e próximo da fatalidade, e apesar disso prosseguir a sua vida de luxúria e prazer que deste modo ostenta neste espaço encantador?», «Já não se lembra que, de facto, o local que me enuncia não é esta sala aberta ao frenesim social, mas a cela a que me recolho e onde me exercito na busca de mim, nos próprios antípodas da exuberância que – diz bem – também reflecte a minha verdade?», «Pois, bem vejo, o jogo de espelhos, a luz refractada que ora revela, ora oculta…o sol a incidir no lago ou a expandir-se no deserto, desenhando miragens…» Enquanto o sol atingia o zénite, tornando curtas as sombras das coisas, os dois calaram-se envoltos no sopro diáfano de uma osmose que os acometia sem que o quisessem. 31 luglio O Farol - Fugitivus Errans
Caspar David Friedrich’s Wanderer Above the Mist [1818]
FUGITIVUS ERRANS
Foi então que começou a sentir-se perdido na cidade. Percebeu, à medida que caminhava - ele dava sempre passadas largas e rápidas - que a cidade nascia para o ritmo frenético do dia, os passeios regurgitavam de gente apressada, as ruas estavam pejadas de veículos e o vozear da multidão martelava-lhe as têmporas doridas. Sentiu-se completamente desorientado, e aquele local onde bruscamente desaguou podia ser nas imediações do hotel ou do outro lado da cidade, a própria cidade poderia ser um pântano ou um deserto ou um abismo, soube que em breve estaria tonto, que talvez desmaiasse... Quando recobrou a consciência estava estendido num sofá cor de mel e, abrindo bem os olhos, reconheceu a cabeleira fulva e os traços delicados da sua leitora! Tentou erguer-se, confundido e pouco à vontade, mas ela pôs-lhe a mão na fronte e fez com que ele se aquietasse «Fique, descanse um pouco, não se preocupe em perceber nada!» «Perceber, sim, perceber», murmurou para si próprio, «como se perceber fosse tudo! Como se aquela que lhe afagava a cabeça esvaída - a sua leitora, a que escrevia literalmente com sangue - tivesse a menor noção do tumulto interior que o revolvia!» Resolveu obedecer-lhe, deixou-se embalar uns momentos na ligeira ondulação que os dedos finos deixavam na orla da sua pele e, aos poucos, a lucidez regressou, inteira. «Estou aqui, porquê? Não me lembro de ter subido as escadas, estou certo que não toquei a campainha…» Abriu os olhos, passou os dedos pelos cabelos revoltos e sentou-se no sofá, encarando a sua única leitora de modo decidido, «Explique-me como vim aqui ter!», «Acredito que não saiba…encontrei-o junto à minha porta, tinha o olhar perdido e tacteava a fechadura. Fiz com que entrasse, amparei-o até ao sofá e, quase instantaneamente, adormeceu! Foi assim!», «Peço que me perdoe, saí do meu hotel perfeitamente bem, ainda era muito cedo… mas depois…sabe…o tumulto da rua, o vozear das pessoas…penso que vagueei numa espécie de semi-consciência e se cheguei até aqui…» Calou-se, intrigado, mas A.S. não lhe permitiu o alheamento, «Chegou, efectivamente chegou e, se me é lícito interpretar o que acaba de contar-me, veio porque tinha a intenção de o fazer, mesmo que não conscientemente…decerto sentiu que eu poderia ser um porto de abrigo, uma directriz para dissolver a sua desorientação.» W.N. olhou-a espantado, nunca mulher alguma havia falado com ele daquela maneira, como se soubesse …como se pudesse ter sondado os seus abismos até ao fundo. «Sabe», falou, por fim, serenamente, «a minha vida está por um fio, nem sei como resisti tanto, supus que o meu destino seria retirar-me do mundo por volta dos trinta anos…como sucedeu com o meu pai de quem herdei o temperamento nevrótico. Apesar disso fui ressuscitando, viajei de crise em crise e de cidade em cidade, tornei-me fugitivus errans , soube que devo muitas palavras à humanidade e que talvez um dia me leiam e os homens se descubram! Por causa disso resisti tanto, ultrapassando-me incessantemente, subindo os degraus da existência sobre a minha própria cabeça…» A.S. interrompeu-o. «Bem sei, escreveu isso no livro…» W.N. fez um gesto com a mão e prosseguiu, «Mas agora creio que o final se avizinha, não tenho a certeza exacta de qual será esse final…a demência, a morte…qualquer um destes destinos aguarda-me e pode acontecer numa rua, no meio do campo, na montanha…poderia ter sido hoje mesmo!» Enquanto assim pronunciava este discurso premonitório, eivado de fatalismo, o olhar iluminara-se-lhe e chegou mesmo a erguer-se, levantando o braço. «Sei o que me espera, sei onde pertenço, passei silencioso por entre os homens do meu tempo e, pior ainda, ouvi-lhes o silêncio! Quando deixei de o suportar, quando os amigos se refugiaram de mim, quando eu próprio me refugiei deles, fui em busca dos meus leitores, não dos que já conhecia e me condenaram ao solipsismo, mas dos outros, dos que vão às livrarias…encontrei um único comprador, um só! E o livreiro disse-me que o homem vivia num farol…escreveu-me a morada num papel e então…com toda esta mística do farol, do isolamento, da imensidão marítima…segui as instruções e cheguei até aqui! Não diga nada, sei bem que não é um faroleiro e que esta casa não é um farol…julgo que fui vítima de uma cilada…mas o certo é que leu o meu livro, não é verdade?» A.S. suspirou, «Não lho mostrei já? Não tentei literalizar as suas metáforas? Bem sei que não é isso que espera de um leitor…percebo inteiramente que o espírito de que fala quando o equipara ao sangue (que eu derramei efectivamente) é o sublime entendimento que perpassa entre almas-irmãs…» W.N. dera uns passos na sala e olhava pela janela a cidade grande, mas longínqua. «Vê estas ruas, estas casas, esta gente? Estão ali, bem sei, mas desta altura, inscritas no horizonte, tão abaixo do céu, é como se fossem um aglomerado qualquer de matéria que pode bem ser mar ou deserto…e então, talvez a sua casa seja mesmo um farol, talvez eu tenha vindo encontrar realmente o meu faroleiro-leitor! Sabe o que significa farol, literalmente, como tanto gosta? É o nome de uma ilha – Faros - defronte de Alexandria, onde Ptolomeu Filadélfio mandou construir um instrumento de iluminação…o nome da ilha tornou-se o nome do luzeiro que orienta a navegação! Eu prefiro a metáfora porque apenas ela me permite ver esta casa como um farol e consentir que a sua habitante seja…faroleira!» Surpreendida com a tirada eloquente de um homem que minutos antes não dava acordo de si, A.S. olhava-o, com êxtase. W.N. captou a luz jubilosa que irradiava do rosto dela e retirou-se da janela, «Não, por favor, nada tenho de admirável…não me contemple assim…» «Espere! As suas palavras são de um professor, de um mestre…engano-me?», «Sim, engana-se, há muitos anos que renunciei à cátedra, desisti de ensinar, soube que a minha voz estava nos antípodas do tempo dos outros e que nada podia fazer junto de qualquer discípulo…aliás, eles próprios, foram desertando das minhas aulas para atmosferas mais ligeiras…e tornei-me errante…» A.S. deu uns passos na direcção do seu visitante, «Deixe-me perguntar-lhe o trivial: já comeu? Desculpe se o arrasto para a miséria comezinha da sobrevivência…mas não será o jejum a causa de um humor tão pessimista?» E, sem lhe dar tempo a responder, virou as costas e saiu do aposento. 23 luglio O Farol - Eins tuth Noth![]()
EINS TUTH NOTH
Acordou, exausto e atormentado pelo sonho recorrente que lhe surgia em momentos de extremo conflito interior, o sonho cujo protagonista era o próprio pai que se erguia do túmulo para agarrar uma criança que acolhia no seu manto e transportava consigo para baixo. Desistira de tentar compreender o pesadelo, sempre achara que se tratava de uma premonição pois, no tempo em que lhe aconteceu pela primeira vez, houve uma morte a seguir, e fazia todo o sentido, para a sua consciência delirante, que o pai, já morto, viesse recolher o filho. Mas, passados tantos anos, nem sabia se devia dar crédito ao valor premonitório do sonho! É certo que o irmão tinha morrido, dias depois do pesadelo nítido, é certo que se sentiu perturbado com a relação quase directa entre o sonho e a realidade… mas naquela exacta noite, que premonição poderia advir da imagem recorrente? Não tentou dormir de novo, decidiu levantar-se e foi até à janela. A rua, em baixo, estava deserta e uma claridade rósea anunciava o dia em conflito com a luz amarelada dos candeeiros, vultos de árvores, sombras de edifícios, um banco de madeira brilhando ali ao lado…estava fresco, demasiado fresco para a estação e W.N. entrou no quarto, no auge de um arrepio que tanto poderia ser de frio como de temor. Recordou o estranho encontro com a mulher ruiva, estremeceu quando evocou a linha rubra ao longo do pulso e o texto lamentável escrito com sangue…nunca pensara que alguém fosse capaz de levar à letra o seu mandamento! Não se preocupava com o sentido literal das metáforas, o seu instinto lírico dizia-lhe que as palavras são a matéria por excelência da beleza e do sonho. E no entanto, ele, o profeta da verdade, o paladino do rigor existencial, não era capaz de admitir que o desvirtuassem daquele modo grosseiro: como ousara aquela mulher cortar as veias e escrever realmente com o sangue? Onde poderia ela querer chegar nos limites de semelhante acto, tão desvairado, quanto inútil? Ainda por cima tinha-lhe falado no chicote! Atravessou o quarto, sentindo o ranger da madeira sob os seus pés como uma verruma a perfurar-lhe o pensamento, foi até à mesa-de-cabeceira abriu a única gaveta e retirou uma fotografia emoldurada que contemplou. Lá estava a carroça semi-arruinada, os dois homens a fingir que a puxavam e, triunfante, com o chicote e as rédeas na mão, a mulher castigadora! Lá estava o trio, o domínio da mulher sobre os dois homens, a presença absoluta da valquíria, da feiticeira! E ele, no jogo, submetido, ali, como se fosse animal de carga! Irritado, voltou a ocultar o retrato na gaveta. Que sabia aquela mulher - a sua única leitora - para considerar que quem transporta o chicote é o homem? Porque acharia ela que a frase do livro pretendia significar o domínio do masculino? Uma espécie de sorriso nasceu-lhe por detrás do farto bigode, um sorriso de desencanto ou de desdém, um sorriso magoado e tímido…«Vai para junto das mulheres, não te esqueças do chicote!» O chicote delas, é claro, um chicote que pode muito bem ser feito de beleza e de sedução, um chicote de olhos aveludados e promessas intelectuais, esse é o chicote, esse é o símbolo da mulher perfeita, emancipada e gloriosa que deseja ter um séquito de carroceiros ao seu dispor! Percebeu que a manhã chegara definitivamente, o sol abria-se no rectângulo da janela. W.N. tomou a decisão de se preparar para sair, talvez desse um passeio a pé, gostava dos pensamentos que lhe ocorriam enquanto caminhava, de preferência em jejum, com as células revigoradas e o cérebro actuante. Saiu do pequeno quarto do hotel, onde ficava sempre que vinha a V., hotel modesto, quase pobre, mas familiar, onde todos sabiam que ele era um solitário, se bem que afectuoso e delicado, e ninguém o perturbava com olhares ou indiscrições, desceu as escadas cobertas com uma passadeira esgarçada e abriu a porta de mansinho. A cidade começava a despertar mas não era ainda o bulício intenso dos transeuntes ou a corrente insidiosa do tráfego. Àquela hora os raros caminhantes tinham objectivos precisos e deslocavam-se em silêncio, distribuindo jornais, deixando garrafas de leite nos portais ou movendo-se para as gares com determinação. W.N. respirou fundo e um alívio inusitado limpou-lhe os pulmões e aclarou-lhe as ideias, «Eins tuth Noth, «Só uma coisa é necessária». E a máxima gravada na memória ressurgiu dos arcanos da infância e martelou-lhe o cérebro por instantes, «Só uma coisa é necessária», e, naquela hora em que caminhava sem rumo definido pelas ruas quase desertas, percebeu que muito brevemente descobriria o Sentido e que o chicote e a escrita com sangue não passariam de metáforas vazias. 18 luglio O FAROL
O FAROL
(ESCREVER COM O SANGUE)
W.N. suspirou profundamente e levou as mãos à fronte num gesto de enorme cansaço, «Preciso de ir, desculpe-me, não estou habituado…sinto uma forte dor de cabeça…», e no entanto permaneceu sentado, como se aguardasse uma última palavra da sua inesperada anfitriã. A.S. porém não se mexeu, sabia que qualquer gesto de ternura que intentasse afastaria o estranho visitante para sempre, sentia-lhe a hostilidade por detrás da aparente manifestação de fraqueza, percebia que se ele ousava proceder daquele modo era na exacta medida em que não a considerava: sentiu-se invisível e foi tão intensa a noção de que a sua presença não tinha qualquer significado para o homem, que assim se mantinha absorvido em profundo solilóquio, que não resistiu e agarrou-lhe o braço, «Venha cá, quero mostrar-lhe uma coisa!» W.N. levantou a cabeça, olhou em torno de si, como se não tivesse a noção do local em que se encontrava, e depois atentou na mulher, agora poderosa, erguida à sua frente com o braço estendido e a mão crispada sobre o seu braço rígido. Guardou o lenço, levantou-se e seguiu-a como um autómato. Deixaram a sala clara e ampla, atravessaram um corredor sombrio, até que ela abriu uma porta e o convidou a entrar num aposento, «Venha, entre, é o meu quarto, não pode parar agora!». W.N. hesitava, «Não, não, nunca entrei no quarto de uma mulher…a não ser em criança…a não ser no da minha mãe…ou irmã…», «Não, agora tem que perceber até ao fim o sentido da minha perturbação com o seu livro…entre!» O tom de voz da mulher, franzina e delicada, soou tão atroador que W.N. não resistiu e penetrou no espaço. Sóbrio e de uma simplicidade monástica, o quarto de dormir contrastava em absoluto com a exuberância da sala principal: uma cama de madeira com um dossel de tecido branco, uma mesa e uma cadeira, em frente à única janela, um armário escuro com as portas entreabertas perdido na sombra…«É aqui!» e indicava-lhe a mesa, «veja a minha escrita com sangue!» W.N. olhou-a, estupefacto e depois aproximou-se do lugar. A princípio não compreendeu o sentido do que tinha à frente dos olhos e fixou a sua companheira com uma interrogação compungida em toda a expressão do rosto. A seguir tirou os óculos do bolso, colocou-os desajeitadamente e observou a mesa. Uma espécie de tinteiro guardava ainda a coloração ressequida de uma tinta vermelho-escuro e uma pena tosca, feita de bambu, repousava sobre uma folha repleta do que lhe pareceu serem apenas garatujas. «Leia, pode ler, eu autorizo!», e acompanhou estas palavras com o gesto violento de agarrar o lote de folhas ostentando-o perante o homem acabrunhado que, de pé, em frente à mesa, tremia como um frangalho. W. N. pegou nas folhas e leu: Sim, escrever com o sangue, diz ele… escrevo com o sangue e dói, escrevo com o sangue e as forças esmorecem, tenho zumbidos no cérebro e a mão não acompanha a cadência do pensamento… mas escrevo com sangue, sim, sangue real aqui, pingando gota a gota, fazendo um lago rubro do que desejo… tinta… e vejo que enquanto escrevo fico atenta ao que vai acontecer a seguir, fico atenta ao desmaio inevitável… e continuo a escrever e o sangue a escorrer e depois… Não havia mais nada escrito na folha, apenas um borrão e uma espécie de rasto sumido de tinta alaranjada. «Então? Que lhe pareceu o meu texto escrito com sangue?», «Não percebo…é mesmo sangue?» «Claro! Não lhe disse há pouco que as metáforas ocultam um sentido literal e que só desvendando-o podemos ter a certeza de que cumprem o seu papel de metáforas?», «Disse, é certo que disse, mas não compreendo…o sangue é seu?», «”Escreve com o teu sangue e descobrirás que o sangue é o espírito” não é esta a sua sentença?», «Sim, mas é uma máxima existencial, um apelo à verdade…», «Ah, não me menospreze, crê que não o entendo? Julga mesmo que não sei o que quer dizer, de facto? Mas eu sou realista, eu tenho que experimentar as sensações porque, se o não fizer, então, tudo é mentira!», «Mas como fez? Ah, nunca pensei que as minhas palavras pudessem ser interpretadas a este ponto!», «Interpretadas?! Olhe, o meu gesto não foi de interpretação, a interpretação não passa de um jogo racional, o meu gesto foi de verdade existencial, foi de resistência corporal…E afinal, foi fácil!», «Fácil? Como pode ter sido fácil?», «Fácil, sim, muito fácil!», e acompanhou estas palavras com o gesto de puxar a manga do vestido para cima. «Vê aqui esta marca?», e exibiu um sulco castanho ainda em ferida a toda a largura do pulso esquerdo, «Com uma lâmina cortei a pele, abri a veia, fui deixando cair o sangue no tinteiro e enquanto tive força escrevi…um pouco antes de desmaiar, liguei o pulso e devo ter caído, não me lembro, acordei horas depois aqui estendida!» W. N. que ficara muito pálido, voltou a tirar o lenço e limpou o rosto, apoiou-se à coluna da cama e olhou a mulher à sua frente. A expressão dela denunciava um enorme desespero e também uns restos de mágoa, como se houvesse falhado uma missão importante e não pudesse compreender a sua existência daí em diante. «Não, não,», disse o homem numa espécie de sussurro, «eu não faço qualquer apelo ao suicídio…pelo menos não a si, não a si…» «Não a mim? Repare: porque está aqui, exactamente aqui, no meu quarto, na minha casa e não nesse tal farol de que me falou à entrada? Eu sou a sua única leitora!!! E confesso-lhe uma coisa: não percebo como conseguiu encontrar-me, há tanta gente em V.!» Olhou para a figura sumida de W.N., ainda com a folha na mão e os óculos pendurados, e uma compaixão súbita por aquele homem jovem, e contudo parecendo carregar nas costas o peso do mundo, fê-la retroceder o ímpeto agressivo. Retirou-lhe da mão as folhas, ajudou-o a endireitar-se e guiou-o até à sala. «Diga-me só como me encontrou, e, por favor, recomponha-se, sente-se aqui!» e indicou-lhe o sofá de veludo cor de mel. «Eu sou um solitário, o último dos solitários, escolhi sê-lo é uma missão de vida: só em absoluta solidão consigo ver os outros, só quando estou longe dos homens consigo entender o homem! Escrever é o meu trabalho, escrever é a minha luta diária contra a doença e o suicídio… mas não escrevo para mim…é para os outros que deixo o meu legado! E no entanto odeio os homens! E no entanto escrevo para eles, e não contente com isso, tento descobrir os meus leitores! Foi assim que cheguei até si! Os meus livros vendem-se tão pouco!…Um dia percorri todas as livrarias de V. e numa delas faltava um dos meus volumes…insisti com o livreiro e ele disse-me que o comprador era um homem estranho e sozinho, um faroleiro…deu-me a morada, e aqui estou!» A.S. levantou-se num ímpeto e debruçou-se sobre o homem que falava, numa voz límpida, quase melodiosa, como se houvesse sido destinada a cantar, e interrompeu-o. «Não, garanto-lhe, não sou, nunca fui UM faroleiro! Como podem ter-lhe dado a morada de um farol? Como pôde percorrer as ruas da cidade, subir as escadas de um prédio, entrar numa casa, numa sala e persistir nessa ideia absurda de que o faroleiro é o seu único leitor? Se tem um leitor num farol, garanto-lhe que não sou eu, têm que haver dois leitores!», «Não, não, aqui, em V. ninguém mais comprou o livro, asseguro-lhe! Também eu não entendo…também eu fiquei surpreso quando me abriu a porta! Terei que regressar à livraria…», «Mas que importa a livraria? Que importa que eu não viva num farol e muito menos seja um faroleiro? A verdade é que a morada que o livreiro lhe deu é a minha, a verdade é que comprei o seu livro, a verdade é que veio a minha casa porque eu, exactamente eu, esta mulher que aqui vê com o braço ainda purpúreo do sangue com que escrevi, seguindo o seu mandamento, o recebeu, talvez o esperasse, julgo que o esperava…», «Mas porque havia de esperar-me? Como poderia adivinhar que eu estava em V. e que, num acto de desespero, percorri, uma a uma, as livrarias da cidade só para saber se a minha palavra chegara a algum ouvido? É o desespero do solitário que o empurra para as ruas e avenidas, que o faz acotovelar as multidões em busca de um companheiro de martírio… e depois…e depois…» W.N. levantou-se, agarrou a pasta, endireitou o fato e enfrentou decidido a sua anfitriã, «Mas agora, tenho de ir…perdoe-me, tenho mesmo de ir…» E, sem se deixar impressionar perante o olhar desvairado de A.S., percorreu a sala até à porta, abriu-a e saiu.
14 luglio O FAROLO FAROL
W. N. subia as escadas precipitadamente. A respiração arfante tanto poderia traduzir cansaço como ansiedade e contudo os olhos escuros e velados por uma sombra errante de melancolia e audácia não traíam o sentimento profusamente expresso no tremor dos dedos, na incerteza dos passos, na curva acentuada do dorso que o obrigava a segurar-se firmemente ao corrimão oscilante. No segundo patamar parou bruscamente e levou a mão à testa como se quisesse expulsar dali o fantasma de um pensamento e essa testa, que alvejou por instantes ao clarão indeciso de uma réstia de luz filtrada pelo vidro do pequeno postigo da trapeira, revelou uma fronte surpreendente de cor marfínica, sólida e larga como se houvesse sido talhada em mármore e nenhuma ruga traía inquietação, nenhum suor perlava o cetim da pele: dir-se-ia estarmos perante uma face de menino! Toda a cabeça dele era, aliás, de uma candidez angélica e o rosto, coroado de cabelos fartos penteados para trás, anunciava corporeamente a intangibilidade profunda do solilóquio. Prosseguiu a subida, agora a um ritmo mais célere mas também convulso, como se o ruído das passadas, trilhando areias e pó, fosse o sinal audível do estertor mental que assim o atirava escada acima. O vestuário, descuidado, ainda que denunciador de um certo tipo de pessoas para quem a estética, e não o luxo ou a ostentação, comanda as linhas da vida oscilava-lhe em torno dos membros, fruto, decerto, do uso continuado, pois os tecidos primavam pela simplicidade; ou então havia emagrecido e não pudera ou não quisera ajustar o fato às novas dimensões. W.N. ia fazer uma visita e não estava habituado a semelhantes rituais da sociedade pois era praticamente um recluso voluntário, muito mais quando, por razões alheias à sua vontade, se via constrangido a habitar na cidade. Nos primeiros tempos, agradava-lhe o ruído do trânsito e das pessoas, estimulava-lhe o pensamento sorver pelas narinas os eflúvios em mescla da civilização e podia caminhar durante horas por avenidas e vielas sem notar o correr do tempo. Esta sensibilidade eufórica não durava mais do que um dia ou dois, muitas vezes era acometido de suores frios e de tonturas, bruscamente, quando dera ainda poucos passos pela calçada, ou mais adiante, quando já se perdera no tumulto: nos dois casos tinha dificuldade em orientar-se, olhava perdido à volta, os olhos arregalavam-se-lhe e então sabia que estava na hora de mergulhar nas suas quatro paredes. Nunca pedia ajuda a quem com ele cruzava e o olhava com comiseração, espanto ou desprezo, aprendera a dominar os picos de ansiedade destes momentos que aliás sabia poderem chegar a qualquer instante. Encostava-se ao muro de uma vivenda ou à grade de um pátio, baixava a cabeça um minuto ou dois e, quase recomposto, levantava a cabeça e às apalpadelas, como se tivesse cegado, encontrava sempre o seu destino. Este recluso decidira sair, portanto, num dia de misoginia, paradoxalmente para quebrar as correntes do seu próprio e auto emparedamento e ali estava, arfante e agora muito pálido, frente a frente com uma porta pintada de verde, para além da qual estaria o objecto da sua visita. W.N. recuou e preparava-se para descer, no reconhecimento da impossibilidade psicológica de apertar a campainha que parecia, à sua mente confrangida, ter as dimensões do mundo inteiro. A meio do patamar parou, poisou a seu lado a pasta de couro castanho que transportava e tirou do bolso um lenço branco a que limpou primeiro a testa, depois a boca e por fim as mãos, finas e longas, do mesmo tecido marmóreo da fronte. A luz da trapeira incendiou-lhe o olhar, e agora havia uma faísca demente nas pupilas dilatadas, uma faísca de inteligência fora do comum; e no entanto, o corpo, de estatura elevada enquanto subia, decrescera, quase sumira na indecisão do gesto, na corcova acentuada do dorso. Não chegou, contudo, a descer. Um súbito lampejo de energia fê-lo erguer a fronte e, pela segunda vez, enfrentou a porta verde, descascada e rota aqui e ali, e, com uma inesperada firmeza, apertou a campainha. W.N. estremeceu quando lhe foi devolvido o rugido estertoroso do toque subterrâneo, como se estivesse prestes a invadir o antro de um ogre, a gruta sacrossanta de um eremita. Contudo, a porta abriu-se de par em par, com uma facilidade e limpeza que não lhe parecia possível minutos antes e um vulto gracioso de mulher revestiu de luz o espaço desassombrado. «É esta então a minha leitora?, pensou, confuso e descrente, com um travo de lágrimas na garganta opressa, «Foi para ela que escrevi todos os meus aforismos e apóstrofes?» Mas não teve tempo de fazer qualquer gesto: com meiguice, a mulher pegou-lhe no braço, conduziu-o para o interior da casa e fechou suavemente a porta atrás de si. Apesar da pobreza da escadaria e dos patamares, a sala onde entraram era fresca e requintada, entrava pelas janelas abertas uma luz rica de princípio de Outono e os sofás de veludo cor de mel, as mesas de madeira nobre, as estantes repletas de livros, e as plantas, plantas de cores luxuriantes e no entanto deliciosas de sugestões primitivas teciam um halo mágico que, de imediato, transformaram aquela aventura exasperante na cidade tumultuosa e, depois, no delírio sofrido da ascensão pelos degraus rangentes, num pesadelo agora desvanecido. A.S. indicou-lhe vagamente um lugar e W.N. sentou-se delicadamente, como se não ousasse deixar qualquer marca de si no espaço que franqueara e lhe parecia uma habitação sagrada. Olhou a sua anfitriã, não ousou proferir qualquer som, esperou que a voz dela quebrasse o encanto ou desfizesse o enigma: «Não, não é possível que aquela jovem franzina, de olhos azuis e cabeleira fulva, de pele diáfana e branca e gestos de dançarina seja, afinal, a minha única leitora, aqui, na grande cidade de V.! Um homem, sim, um fauno barbudo, um gigante de olhar sinistro, um terrível Cagliostro, tudo isso era esperado por detrás da porta temida, pois esses mesmos são os destinatários preferenciais dos meus discursos sibilinos...mas aquela deusa, aquele ser volátil e sereno...não, não é possível, enganei-me!» A.S. sentara-se num cadeirão em frente do visitante, deixando as mãos abertas sobre o regaço. E, quando o silêncio estava prestes a transformar-se numa parede que nenhum deles poderia transpor, caso lhe consentissem a chegada, A.S. curvou-se um pouco em direcção a W. N. e disse: «A que devo a honra da sua ilustre visita?» Perplexo, o visitante olhou à sua volta, em direcção à janela aberta para um céu azul esbranquiçado e murmurou: «O meu leitor…o meu único leitor…vive num farol…», «Um farol?», respondeu em voz aguda A.S.,«Um farol? Mas chegue aqui, venha à janela: a minha casa pode bem ser o farol de que fala!», «Não, não! É um faroleiro mesmo, não usei a palavra farol como imagem!» Desta vez a fronte marmórea de W.N. perlou-se de suor, os ombros abateram-se e o olhar perdeu-se numa névoa cinzenta: «Não pode ser a minha única leitora…não pode!», «Porquê? Porque não me permite ser a sua leitora e porque não posso ser a única?», «Uma mulher…uma mulher…» A.S. levantou-se e deu uns passos nervosos pela sala, foi até ao fundo recolheu da mesa de leitura um livro aberto, colocou o dedo entre as páginas e dirigiu-se ao sofá onde W.N. se deixara ficar, absorto. «“De tudo o que se escreve, apenas amo o que se escreve com o próprio sangue: escreve com o teu sangue e descobrirás que o sangue é o espírito”. Ainda pouco mais li do que esta frase do seu livro, quando quero seguir em frente experimento…experimento…», «O quê? O que experimenta?» A voz de W.N. soou, grave e profunda no silêncio da sala, e os olhos, agora límpidos de um castanho de âmbar, aveludado e cristalino, emanavam surpresa e júbilo. «Sei bem que é uma metáfora…”escrever com o sangue” mas as implicações desse gesto…os efeitos dessa escrita…as metáforas sustentam-se no significado literal, sem isso nunca as entenderíamos. E então…» A.S. ficou calada, com o livro fechado entre as mãos, como se não conseguisse formular em palavras os pensamentos. W.N. levantou-se, endireitou as costas, procurou nos bolsos interiores do casaco e com sofreguidão retirou os óculos, redondos, de armação metálica e aproximou-se de A.S. e do livro que ela segurava vigorosamente. «As minhas metáforas não foram escritas para si! O sangue de que falo não deve cair sobre a sua cabeça!», «Porquê? Sim, porquê? Só porque eu, a leitora, a sua única leitora, afinal, não passo de uma mulher?» Pela primeira vez havia sarcasmo e dor na voz de A.S. e uma auréola de solidão caiu-lhe na cabeça, bruscamente privada do seu resplendor fulvo. «Sim, sim, por ser mulher, não me entendo com as mulheres, não posso acreditar que elas me entendam! E aí está: parou na minha metáfora do sangue e da escrita, não conseguiu avançar na leitura…as mulheres e o sangue…as mulheres e o sangue não combinam!» «Não, eu li, ora oiça: “Ao homem e à mulher, eis como os quero: ele, pronto para a guerra, ela, para a maternidade…” e também: “Vais ter com as mulheres? Então não te esqueças do chicote!” Mulheres e sangue não combinam? Maternidade, chicote…agora pense comigo: quem serão afinal os especialistas em sangue?» W.N. dava passadas vigorosas pela sala e depois parava e puxava para trás os cabelos, que ao mesmo tempo desgrenhava, e olhava a sua única leitora com uma expressão alucinada. Ela percebeu a inquietação do seu visitante, dominou o início de azedume que a acometera e aproximou-se dele: «Venha, sente-se, converse comigo! Esqueça o facto de eu ser mulher, pode ser que o sexo não seja afinal a razão das minhas perplexidades, pode ser que eu seja uma especialista em sangue!» Ele deixou-se levar até ao sofá e ambos ficaram sentados, desta vez, lado a lado, olhando numa espécie de conspiração tácita o livro aberto: “De tudo o que se escreve apenas amo o que se escreve com o próprio sangue: escreve com o teu sangue e descobrirás que o sangue é o espírito.”
27 maggio O Despertar do Ditador
Francisco de Goya
O DESPERTAR DO DITADOR
No seu apertado compartimento, o velho ditador remexia-se e, mesmo dormindo pesadamente, percebia que alguma coisa não estava bem, acabara-lhe aquela tranquilidade de que nem sequer tomara consciência, porque nenhum sonho ou visão lhe preenchera as horas durante três décadas ou mais. O sono deixara de ter poder catártico ou cataléptico e o velho senhor sentia o corpo esquálido e gelado percorrido por tremuras, assolado de formigamentos como se nunca mais pudesse descansar. O pior de tudo era o pensamento, esse que estivera ausente e agora recrudescia a cada instante, o pensamento fragmentário de toda uma vida em que se cruzavam memórias dispersas de várias idades e tempos todos enredados uns nos outros! E o pensamento dizia-lhe que fora uma personalidade ilustre, mas também odiada, e, em tempos, insignificante e depois solitária, que a solidão lhe pesou, mas que muitas vezes conseguiu aliviá-la em situações enviesadas de relacionamento humano, mais do que equívoco e depois o remorso e as conversas com o cardeal seu confessor que lhe dava penitências terríveis, E onde terei eu deixado o rosário?, e tentava mexer os dedos para procurar no bolso direito do casaco, mas a mão não lhe obedecia, ferreamente apertada na outra como se uma espessa camada de solda lhe houvesse amalgamado o corpo todo; e de novo o sono pacífico, sono de chumbo, onde um buraco negro lhe denunciava a incapacidade de perceber quem era e onde estava. Em casa, a mulher-a-dias, perturbada com o achado sagrado no chão de um escritório profano, sentindo que aquela era uma peça valiosa, pois ela bem via o relevo caprichoso das contas, formando pétalas delicadas de flores, a perfeição das formas e do rosto do Cristo crucificado, a nobreza do material, preservado e sólido, apesar da antiguidade, arrependia-se de o ter trazido consigo, Como se fora lembrar de o meter no bolso da bata quando podia tê-lo deixado simplesmente caído no local onde o encontrara? Receava as consequências do seu gesto impensado, decerto aquele rosário muito antigo era uma peça de coleccionador, ali presente, vá-se lá saber porquê, e, sem dúvida, naquele momento já haviam iniciado as buscas. Ora ela tornar-se-ia decerto a principal suspeita, Quem mais entrava no escritório do primeiro-ministro, assim, absolutamente só, quando ninguém exercia qualquer espécie de vigilância? Havia câmaras de video, é certo, mas, quando se baixou para apanhar o rosário e depois, quando precipitadamente o ocultou no bolso, percebeu, a posteriori claro, mas sem sombra de dúvidas, que esteve sempre fora do seu alcance. Portanto as suspeitas, se suspeitas houvesse, não teriam modo de a visar. Decidiu pois dormir descansada e, no dia seguinte, logo que fosse limpar o gabinete do primeiro-ministro deixaria cair o rosário discretamente no sítio onde primeiro o encontrara.
23 maggio O DESPERTAR DO DITADORO DESPERTAR DO DITADOR
Francisco Goya
Depois de dormir descansado durante mais de três décadas, sem sonhos ou visões, com as mãos entrelaçadas sobre o peito e um velho rosário pendente dos dedos esquálidos, um primeiro tremor agitou-lhe o corpo escanzelado, pendente de um fato negro coçado nos cotovelos. Os olhos, ainda presos por debaixo das pálpebras cerradas, esboçaram um movimento ténue e o nervo eferente anunciou à zona cerebral respectiva um início mais que fugaz de pensamento. Depois voltou a adormecer, ou pelo menos pensou nisso quando, dias ou anos depois, as pálpebras abriram por completo e deu consigo sentado à mesa. Era um dia morno de Maio e, pela janela entreaberta do escritório (pois que de um escritório se tratava) entravam perfumes e sons de tal maneira intensos que o velho ditador não teve outro remédio senão afastar a cadeira e dirigir-se à janela. Custou-lhe muito aquele gesto, e os passos que necessitou de dar fizeram estalar todos os ossos do seu corpo velho, mas acabou por terminar a caminhada e pôde afastar a cortina e olhar o largo fronteiriço de onde emanava a inusitada agitação daquele dia. Havia traços brancos na rua pintados no asfalto de um passeio a outro, mesmo ali por debaixo de seu nariz de águia, muito afilado e quase transparente: o velho ditador não entendeu a simbologia de semelhante zebra e fixou nela os seus olhos encandeados pela reverberação solar. Bruscamente, os carros que desciam celeremente a via travaram ao mesmo tempo e um grupo de pessoas, com ar sossegado e decidido, atravessou a rua sem olhar para os lados e, volvidos alguns instantes, os carros arrancaram com inesperada pressa deixando a rua de novo calma e adormecida no calor do princípio da tarde. O velho ditador reflectiu, É verdade eis aqui as passadeiras e os semáforos, mas como é possível terem-nos instalado sem a minha autorização? E como sabe o povo o que fazer se ninguém lhe explicou ainda? Ora é sabido que o povo não é inteligente, eu não quero! Olhando mais para a frente, numa parede esburacada que havia num prédio semi-arruinado, o velho conseguiu ver, franzindo muito os olhos (onde teria ele deixado os óculos?) um conjunto de cartazes colados em banda com o rosto sorridente de um homem que ele reconhecia vagamente. Como é possível a polícia deixar ali aqueles papéis? E aquele rosto, aquele rosto…ah já sei, mandei-o prender, açoitar e torturar! E ali está ele a exibir-se, sorridente e bem-humorado! Desgostoso e cansado, como se arrastasse consigo o peso do mundo inteiro, regressou ao seu assento atrás da secretária. Procurou o telefone mas não encontrou o sólido aparelho preto, com um disco robusto a meio onde se marcavam os números e só pôde franzir a testa de descontentamento, pois tinha uma necessidade imperiosa de chamar o secretário e não era adequado ao seu alto cargo levantar-se e ir à porta procurar a telefonista. Mergulhou numa espécie de torpor logo que decidiu sentar-se de novo e só teve tempo de perceber que haviam retirado o crucifixo de pau-preto, único enfeite que permitia para a parede pintada de um austero cinzento. A seguir, mergulhou no sono. A funcionária de limpeza entrou no escritório sem bater pois àquela hora – um pouco depois do almoço – costumava fazer a primeira ronda de faxina limpando o pó, passando a esfregona pelo chão, endireitando os cortinados e outras ninharias, e sabia, por força desse hábito, que não havia ali ninguém, demorados os dirigentes em almoços de prazer ou circunstância. Não olhou à sua volta, conhecia sobejamente todos os recantos da sala, a tal ponto que poderia sem dificuldade perceber se o dono daquele escritório havia estado ali muito ou pouco tempo, sozinho ou acompanhado, se fumara às escondidas ou se naquele dia cumprira a lei, e até se estava nervoso ou descuidado, pois todos estes sinais lhe eram diariamente transmitidos pela atmosfera da sala, pela disposição dos objectos sobre a secretária ou dos poucos móveis normalmente colocados numa certa ordem – secretária, cadeira atrás, cadeira à frente, sofá junto da parede, mesa de apoio, tapete, candeeiro de pé – e, em geral, comprazia-se com a sua própria inteligência, pois embora fosse apenas mulher-a-dias aspirava a muito mais, logo que tivesse oportunidade. Quando afastou a cadeira de braços, estofada a couro preto, para assim concluir a rápida limpeza, um objecto enrodilhado no chão, próximo da zona onde habitualmente o primeiro-ministro apoiava os pés, chamou a sua atenção por ser de todo incomum. Não era um lápis ou caneta, nem sequer uma carteira esquecida, mas um grande rosário negro velhíssimo, de contas quase transparentes pelo uso, um rosário no sentido literal da palavra pois continha o triplo das contas dos terços homologados pela religião católica. A sua surpresa foi tão grande que não resistiu a apanhar o objecto e a analisá-lo demoradamente percebendo que era uma peça de artesanato antiga, feita de pau-preto, com um crucifixo de dimensões razoáveis onde se percebiam ainda nitidamente os contornos esculpidos do corpo do crucificado. Mas depois reflectiu, Como podia aquele rosário pertencer ao primeiro-ministro se - toda a gente sabia - o homem era ateu? Toda a gente sabia, é claro, embora ele não o declarasse em público pois era o dirigente de um país católico e não custava nada fingir devoção, desde que semelhante hipocrisia lhe garantisse a reeleição. Porém, a mulher de limpeza e a sua perspicácia, treinada no contacto silencioso com as altas personalidades, percebia bem que fingir devoção não levaria o fingidor ao extremo de transportar consigo um rosário daqueles, antiquado, gasto, com todos os sinais de um uso intensíssimo. Ouviu um barulho no corredor, percebeu que duas ou mais pessoas haviam parado no corredor muito perto da porta do escritório. Estremeceu; e, sem se dar conta inteiramente do que fazia, ocultou o rosário no bolso da bata, juntou os apetrechos de limpeza e saiu. 30 giugno Vagabunda da Sombra
Florescimento da Primavera necrófila num piano de cauda (1933)
VAGABUNDA DA SOMBRA
SÓ UM PIANO restou depois do vendaval, lá, no espaço cheio de árvores nuas, no tapete fofo de folhas arrancadas, entre pássaros desplumados, piando de frio. Só um piano e eu, vagabunda da sombra, com um rasto de vidas gotejando, um piano para o qual corri, meu único amigo, meu aliado falaz, minha esperança-palavra sem sentido algum. Eu toquei o piano, ébano brilhante em cinzência de catástrofe, eu toquei o piano e ele abriu-me os braços, braços imensos de música gigante, apertou-me os ouvidos no torno da mágica... um piano e eu. Música falsa, invertida, corrompida, música-traição, que eu amei, rendida, a que entreguei meus ouvidos exangues, minha pele com pontos de arrepio, a que entreguei tudo o que tinha. Olhem, fiquei sem nada, nada meu, só tinha a música daquele piano de ébano polido entre aglutinação de lixos cindidos. Olhem, eu misturei-me com os sons das teclas mágicas, fundi-me de tal maneira com o ritmo dionisíaco, trágico e doce da melopeia que acrescentei a tudo – e deixei de ter um eu. Ah, piano traidor que, de repente, me expulsaste do teu ventre sonoro, ah, piano carrasco que me atiraste a lama barrenta que guardavas, pérfido, nas entranhas fechadas! Agora, o que me resta é a memória do teu som cristalino e as lágrimas gastas do desespero morto.
Fábulas e Mentiras
14 giugno Diário de BobIV
Durou apenas meio ano a minha experiência na Casa Assombrada – foi assim que passei a designar aquele antro mesquinho, onde as coisas perdiam a cor e as pessoas se transformavam numa espécie de fantasmas. Sim, porque o Vasco – tal era o nome do meu raptor – tinha muitos amigos e amigas, todos de idade indecisa, todos ladrões, drogados e vagabundos... e eu, sempre que havia visitas, escondia-me no vão mal iluminado de uma escada, e esperava o fim do pesadelo.
Ali acontecia de tudo.
Às vezes, as conversas, prolongadas até de madrugada, tinham laivos de literatura e tocavam questões de natureza política ou filosófica: já que não havia televisão nem livros, fui sabendo, através delas, os sucessos da política nacional e internacional e obtive a narração dos escândalos e de todas as notícias do exterior. Nunca participei nessas tertúlias, nem tão pouco me mostrava muito, pois isso não parecia agradar ao Vasco que tinha um medo terrível que eu quisesse sair. É verdade: aos poucos, tornei-me o amparo psicológico daquele rapaz, sempre famélico, sempre com uma luz demoníaca no fundo dos olhos castanhos e secos; simultaneamente, dei comigo, mais uma vez, encarcerado, integrado numa existência que não saberia explicar ao certo, perdidos pais, irmãos e referências!
Penso que, por causa disso, e para fugir ao tédio das horas do dia em que ficava completamente só, comecei a ler as minúsculas revistas, guardadas nas prateleiras do armário, em perfeita ordem.
A primeira coisa que me feriu foi a crueza de certos títulos.
Fiquei a lê-los, um após outro, a interiorizar as palavras em destaque, a remoer, num espanto que me eriçava os pêlos do dorso – sou muito sensível nessa zona do meu corpo! - o sentido daquele conjunto de frases absurdamente espantosas.
Depois, fechei as revistas e olhei as capas.
Invariavelmente traziam mulheres de uma beleza vulgar e espalhafatosa, em poses provocadoras – eu não diria provocantes ou eróticas –, ou casais jovens em posturas cheias de malícia. Ostentavam um nome feminino – Susana, Dina – e o seu tamanho sugeria consultas discretas ou ocultamento no escuro das bolsas das mulheres. Eram, como logo percebi, revistas femininas – ou dirigidas a um público feminino: há diferença nestas duas categorias – e a sua tiragem semanal, aliada ao preço baixo, sugeriram-me edições consideráveis e, portanto, muito público-leitor.
Folheei-as e li alguns artigos.
Superficialmente, tratavam de todos os assuntos, desde as intrigas das novelas televisivas, até aos pormenores banais da vida dos “famosos”, passando pelas receitas de culinária e de beleza e, – pasme-se! – chegavam a deter-se em psicologia e numa ou noutra abordagem científica, assinada por doutores!
Obsessivamente regressei aos tais títulos. E desde logo os misturei todos numa dança frenética de palavras, curiosamente atravessadas por um cunho existencial muito peculiar.
“Quero a mão dentro da vagina, menti e disse-lhe que sou virgem, ele engravidou outra mulher, gosto que me bata no acto sexual, sou ajudada por um homem casado e muito ciumento, faço-lhe telefonemas obscenos, pede que lhe morda o sexo, apaixonei-me por um gay, acaricia-me a vagina em público, serei ninfomaníaca?, será que ele me engana?, o meu pénis é torto, pratico sexo no gabinete, serei gay?, fazemos muito barulho na cama, tenho orgasmos ao telefone, amo duas mulheres, faço colecção de filmes pornográficos, visto a roupa interior dele, serei lésbica?, excito-me com um professor, quer que lhe bata, sinto dores na vagina, não tem erecções, masturbo-me após o acto sexual, a mulher do meu amigo beijou-me, adoro a penetração anal, quero trocar carícias com outro casal, não quero sexo anal, quero ter sexo com outro homem, o médico percebe que me masturbo?
Li com um estranho desagrado alguns dos artigos deste modo intitulados e senti-me muito deprimido, pois nenhum dos assuntos ali mencionados me parecia ter qualquer relevância em termos de informação cultural – era assim que eu entendia, até ao momento, a existência e o valor de livros e revistas – e não era capaz de assimilar a vantagem prática do aconselhamento que se seguia às insólitas questões dado por supostos psicólogos. Muito menos compreendia a razão que levaria o meu ex-carcereiro e actual amigo a trazer consigo para casa todos os dias dezenas e dezenas das referidas revistinhas.
Vim a percebê-lo mais tarde, muito perto do fim da minha estadia na Casa Assombrada.
Soube que, apesar de ladrão e de drogado, o Vasco era uma espécie de filantropo ou moralista e elegera como missão existencial à sua escala, privar os consultórios médicos e outros locais públicos, onde fazia as suas investidas, de semelhantes publicações! Pareceu-me um bem estranho motivo para permanecer vivo, mas, ao mesmo tempo, não pude deixar de nutrir por ele uma secreta admiração mesclada de pena pois, por muito que trabalhasse, por mais que percorresse sem cessar todos os antros onde tais revistas correm, céleres, de mão em mão e de olhos em olhos, como iria ele conseguir isolar o mundo de semelhante deboche literário?
Um dia, ao ver-me absorto na leitura, ele riu-se e comentou:
- Sabes? Eu sei que apreender essa sujeira dos quiosques e salas de espera não terá poder para acabar com a edição de tais abortos mas, pelo menos, estas que eu trago (e se vires bem tenho aqui milhares) não serão lidas, nunca mais, por ninguém! Penso que deste modo poderei estar a contribuir, à minha escala, para a limpeza do mundo!
Dei-lhe razão, claro. Mas ao mesmo tempo entendi que estava perante mais um idealista, semelhante à minha mãe adoptiva, tão criativa e tão ingénua em simultâneo, e que, ao saltar de uma vida para a outra, pouco tinha afinal evoluído em termos de conhecimento da espécie humana.
No dia em que mantivemos este curto diálogo sobre o roubo das execráveis revistas e seu motivo, o Vasco estava mais animado do que o costume e, olhando à sua volta, desatou a rir e propôs-me:
- Vamos incendiar esta lixeira?
A princípio não entendi por completo a ideia dele, pensei que estava a referir-se somente às revistas e acedi, com o entusiasmo moderado de que sou capaz: porém, cedo o vi despejar uma lata de um líquido mal cheiroso de uma cor avermelhada por cima, não só da estante das revistas, mas sobre mesas, cadeiras e até sobre o pobre catre que lhe servia de local de repouso. Achei que ele havia, definitivamente, enlouquecido, pois, enquanto atirava jactos do produto sobre todo o espaço, ria e tropeçava, encharcando-se ele próprio e rolando pelo chão viscoso, e eu, temendo pela minha sobrevivência (os meus instintos extremamente acutilantes entram em choque, de imediato, com a razão logo que pressentem a ameaça vital) aproveitei a insanidade temporária do Vasco e corri para a porta, que entretanto aprendera a abrir, disposto a sair dali logo que possível.
Foi então que o desastre aconteceu: o Vasco acendeu um fósforo, atirou-o para o meio do aposento e tudo se abriu numa súbita fogueira envolvendo papéis, móveis, estilhaçando os míseros vidros e, coisa acima de todas aterradora, abrangendo o corpo do rapaz que nada fez para escapar das chamas! Ignorou os meus esforços para o dissuadir da imolação, continuou a rir e a executar uma espécie de dança estulta e eu, Bob Tailor, só pude fugir daquele local com todas a energia de que fui capaz!
Escondido num beco próximo do armazém abandonado, cedo ouvi as sirenes de carros da polícia e de bombeiros, assisti ao modo como apagaram o incêndio e vi, com o terror e a emoção das lágrimas que não consigo verter, o Vasco ser transportado numa maca, inconsciente ou morto (nunca pude vir a sabê-lo!) para uma ambulância que o levou a alta velocidade dali para fora.
Uma vez mais entregue a mim mesmo e ainda desconhecedor, em absoluto, daquele mundo feito de ruas e casas, de gente e de veículos barulhentos e malcheirosos fiz o que havia feito há seis meses atrás: desatei a correr sempre para a frente, com os mesmos resultados da minha primeira e, até então, única corrida.
Foi bastante mais fácil, porém, esta minha derradeira fuga do que as circunstâncias de que me lembrava do meu primeiro contacto com o asfalto e os automóveis em delírio por ruas atravancadas. Estava frio e seco, podia correr sem aquela antiga e ainda memorável sensação de visco a colar-me ao chão os membros transidos; e assim cheguei, sem saber muito bem como, a uma espécie de largo com uma estátua de mulher no centro rodeada de pombas e, arquejando, deixei-me cair na relva, ligeiramente húmida.
Mal tivera tempo para me recompor da emoção e do cansaço quando ouvi chamarem o meu nome e o som era tão comovente e familiar que bruscamente fui invadido por uma calma tão intensa que só pude abrir a boca num bocejo prolongado.
Quando olhei, vi, como no meio de uma névoa brilhante, os cabelos longos e o rosto bem delineado da minha mãe adoptiva! Ela olhava-me com espanto mesclado de ternura (assim me pareceu) e, sem transição, fez um gesto mudo de convite e empurrou-me para dentro do carro, cuja porta deixara aberta. Por instantes senti o pavor antigo regressar, vi, como que em delírio, a corcova do homem monstruoso rescendendo a bafio de caverna e quis fugir, agarrei a porta com toda a força que ainda me restava e lutei pela minha liberdade. Foram em vão os meus esforços pois, com mão firme, a minha mãe adoptiva fez-me deslizar para o assento e olhou-me de um modo cúmplice como que a dizer-me que tudo estava resolvido e poderíamos doravante ser felizes.
Não me lembro de chegar a casa nem dos dias que se seguiram. Julgo que caí de cama com uma febre nervosa ou qualquer coisa do género, mas nada posso garantir quanto ao teor do meu sofrimento, se é que foi mesmo sofrimento, pois o tempo da minha recuperação foi de uma doçura indescritível. Um dia acordei e percebi que a casa onde nascera e de onde o intruso de olhos metálicos me havia feito desertar, recuperara toda a sua antiga placidez, ainda que dois ou três sinais denunciassem despojos de batalhas ainda não removidos. Havia um espelho partido, duas cortinas arrancadas, alguns quadros rasgados com a tela pendente; mas, como se não dessem por nada, as três mulheres, se bem que uma fosse ainda uma criança, pareciam mais unidas que nunca e, de momento, nada interessadas em remendar os rasgões. Acabei por restabelecer-me, ganhei a minha antiga vitalidade e um dia, quando a casa toda dormia, fui até à sala onde o velho computador, tão familiar como sempre fora, jazia inerte no seu apoio de madeira polida.
A princípio hesitei. Qualquer coisa mudara em mim durante aqueles meses insólitos, uma súbita e intensa necessidade de aderir por inteiro à minha autêntica identidade que, afinal, pouco ou nada tinha a ver com livros, televisão, artes e, como é óbvio, computadores. Porém, por outro lado, eu desejava muito narrar a minha história, tentar demonstrar, num esforço talvez superior à minha capacidade e inteligência, que também eu e, quem sabe, todos os que a mim se assemelham, temos vivências importantes, protagonizamos factos memoráveis e que, se estamos no mundo e dele nos apercebemos, ainda que nem sempre de modo nítido e pleno, é para podermos, dele, dar também o testemunho. Foi por isso que subi para a cadeira, carreguei no botão que – eu sabia-o! – abriria a luz fulgurante de um belo ecrã azul e, de um momento para o outro, seguro de mim como jamais estivera antes, comecei deste modo a minha narrativa:
O meu nome é Bob Tailor mas eu sei que só sou chamado deste modo porque um belo dia, há muitos anos atrás, julgo que durante a Segunda Guerra Mundial, os soldados americanos trouxeram um dos meus antepassados do Japão, o qual cedo se miscigenou, expandindo a linhagem, pelo menos de modo parcial. Segundo outros relatos, essa migração forçada terá acontecido por volta dos anos sessenta, altura em que a minha estirpe superior foi reconhecida no ocidente. Sou, portanto, oriundo do Japão e a minha linhagem remonta ao século VII, estando desde sempre associada a acontecimentos marcados pela sorte, pela prosperidade e pelas ocorrências felizes. O nome originário dos meus antepassados deveria ser qualquer coisa como Maneki-Neko, um título auspicioso entre os nipónicos; porém, logo que americanizado, por força da tal expatriação a que fomos submetidos, tornou-se Bobtail o que, em termos sonoros, nada tem já da língua do país das minhas referências étnicas.
Sabendo isso, a minha mãe adoptiva decidiu baptizar-me como Bob Tailor, se bem que eu não seja americano, muito menos japonês, mas nascido e criado em Portugal, mais exactamente nesta casa onde escrevo e que me viu nascer, estranhamente, um dia depois da minha irmã gémea, que em nada se me assemelhava.
Fisicamente, sou muito elegante e esbelto, ainda que dotado de uma excelente musculatura, o que me torna um exemplar masculino pleno de atractivos. Se acrescentarmos ao retrato físico que de mim acabo de fazer, as minhas peculiaridades psicológicas ou de carácter, sem querer parecer vaidoso ou auto-complacente, afirmo, com toda a segurança, que sou propenso à tranquilidade, pauto-me por uma rigorosa escala de valores, onde a fidelidade avulta e, se me torno amigo de alguém, o que acontece com toda a facilidade, nada me arreda dos meus afectos. A curiosidade é outra das minhas tendências, o que por vezes traz dissabores sendo, contudo marca de génio aqui, no Japão, ou mesmo na América, países que me dizem respeito, mas para os quais não creio vir algum dia a viajar. Não tenho nenhuma dificuldade em adaptar-me, desde que o ambiente garanta a minha estabilidade física e emocional, gosto muito de conversar, se bem que o faça de modo assaz característico e perceba que nem sempre sou entendido pelos que me cercam, ainda que eu, Bob Tailor, os entenda perfeitamente, sem excepção.
Que companheiro mais precioso poderia desejar aquela que me habituei a considerar como mãe adoptiva, perdida a legítima em tenra idade, se, ainda por cima, pouco ou nada exijo dando-lhe em troca, e por inteiro, a fidelidade de que me sinto capaz?
Efectivamente, nós, os felinos, não temos nada em comum com esses outros companheiros dos homens - os cães – que abanam a cauda e se deitam no chão como se fossem meros tapetes e, em pouco tempo, aprendem a fazer as mais humilhantes tarefas só para lhes agradarem. Não, nós, os gatos, precisamos acima de tudo de cultivar a independência, o que não significa que não estejamos dispostos a reconhecer quem nos ama e acedamos a amar em retribuição…mas nunca permitimos que nos ponham uma coleira e nos exibam como troféus por praças e ruas. E, sabendo eu que os meus antepassados nipónicos foram venerados e transformados em ícones nos templos, poderia alguma vez sujeitar-me ao jugo, à escravidão?
Eis pois que eu, Bob Tailor, sou, de facto, o senhor do meu lugar e, mesmo depois de escorraçado pelo meu rival de olhos faiscantes, cheiro nauseabundo e coluna torcida, consegui magicamente regressar, por instinto, ao local da minha origem e, vejam só! tive a percepção exacta do momento, pois à hora do meu regresso já o intruso havia partido para não regressar nunca mais!
13 giugno O Diário de Bob |
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