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29 maggio

A Poética da Imagem

 
 
 
 
 
 
 
Regina Sardoeira, Recriação a Partir de uma Serigrafia de Cruzeiro Seixas, Óleo s/ tela
 
 
 
 
 
A POÉTICA DA IMAGEM
 
 
A imagem pende soberana no arquétipo do nosso sonhar
desenrola-se em finas camadas de luz crepuscular
e ao levantarmos as dobras do mar sereno
ouvimos cascatas
melodias enfim
sonoras gargalhadas
ou talvez desfraldemos bandeiras de vitórias efémeras
enquanto a lua engendra
pedaços mortiços de luar obscuro
e uma terra grávida
parece querer desenhar passos de saltimbanco
em território devastado
e eu soube
sempre soube
que as arcadas do palácio pendiam
nos gonzos envelhecidos de qualquer batente arruinado
gelosia ou parapeito
do sonho para sempre oculto
enquanto por detrás do voo infantil de uma ave
ou mais para a frente
a lua chorava sua ânsia crescente
e talvez um ou dois vagabundos quisessem triunfar
amarrando cordas aos braços desvelados
por entre um fato de arlequim
e através de golpes certeiros
puderam resignar-se
por fim
ao silêncio
04 maggio

Fanfarra de Iniquidade

 
 
Miscelânea em base real 
 
 
 
 
 
 
FANFARRA DE INIQUIDADE
 
 
Uns pedaços de matéria animada não sei de que fluidos eis o que somos e no entanto cremo-nos  vizinhos da omnipotência 
qualquer lampejo de suposto génio faz-nos crer que a divindade veio ter connosco para nos dotar das asas 
da imortalidade
da supremacia
 tudo o que afinal vai empurrando homens contra homens munidos que estão
não de inteligência
mas de armas todas essa armas que vos puseram nas mãos e não vos coibís de usar a esmo
normalmente atingindo o incauto
o indefeso
o mais pequeno
que heroísmo 
talvez não gostemos de nós
ou então
amamo-nos em demasia
esquecemo-nos de levantar os olhos para outras alturas que não as nossas minguadas montanhas de coisa nenhuma
ah os homens
com as mulheres incluídas
no bolso deles é claro
cada um com a sua pequena mesquinhez  tranformada em grande odisseia
odisseia baça
e contudo revestida de milhares de cintilações
aspiradas de miríades de cristais impressos nas rochas
eles próprios mesquinhos e inócuos
até lhes apontarmos
nós todos
a nossa cupidez
eu não sei que grandeza tenho ou temos
nada é igual a nada
e de tanto sussurro recolhido à entrada das fontes e dos túneis
já não conseguimos ouvir outra coisa
que não seja o nosso próprio tumulto
feito fanfarra de iniquidade
13 gennaio

Comentário Filosófico

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
(...)Ora, viver sem filosofar é ter os olhos fechados e nunca se esforçar por abri-los; e o prazer de ver todas as coisas que a nossa vista descobre não é nada comparado com a satisfação que dá o conhecimento das que se encontram pela filosofia; e enfim, este estudo é mais necessário para regular os nossos costumes e nos conduzir nesta vida do que os nossos olhos para guiarem os nossos passos.(...)
 
                                                  René Descartes, Princípios da Filosofia
 
 

          Segundo o ponto de vista do autor, o filosofar é um bem mais precioso do que a vista pois é muito mais intenso o prazer que se obtém com o conhecimento dado pela filosofia do que aquele que resulta da visão de tudo o que conseguimos alcançar através do uso dos olhos, já que o filosofar é um excelente auxiliar para nos guiar na vida.

            Mas, se fossemos privados, bruscamente, da visão, sem dúvida consideraríamos esse o nosso bem mais elevado pois, habituados a conduzir os nossos passos através desse sentido físico, seríamos subitamente precipitados num enorme desconforto. Nesses momentos iniciais, certamente não daríamos apreço a todos os conhecimentos obtidos pelo filosofar, crentes de que nos havia sido retirado o maior dos nossos bens.

            No entanto, com o tempo, aprenderíamos a escutar a voz interior e a ver de dentro para fora, ou seja, a usar todo o esclarecimento obtido através do estudo para suprir a deficiência causada pela falta de visão. E poderíamos descobrir a importância de todos os outros sentidos, até então menos desenvolvidos, ficando aptos, doravante, a utilizá-los como substitutos da visão que nos faltara.

            Por outro lado, o exemplo utilizado por Descartes é uma metáfora, ou seja, quando ele fala em «olhos» está a querer significar capacidade de orientação, discernimento na busca do caminho correcto, perspicácia na análise dos nossos actos, clareza nas tomadas de decisão. Portanto, a visão a que o filósofo alude é muito mais do que o uso dos olhos físicos com os quais vemos o mundo à nossa volta, sendo, por excelência, a consciência lúcida da nossa caminhada de seres humanos.

            De acordo com esta perspectiva, é possível, então, admitir que, mesmo com os olhos fechados, podemos obter um maior entendimento do mundo que nos rodeia já que, a maior parte das vezes, limitamo-nos a lançar um olhar distraído sobre as coisas, esquecendo-nos de as observar, de reparar nelas. Ora a filosofia e o exercício do filosofar persistente e contínuo possibilitam, a todo aquele que os pratica, uma visão muito mais apurada, quer no sentido físico do termo – ver com os olhos – quer no metafórico – ver com o nosso sentido interior.

            Podemos então discordar e concordar simultaneamente com Descartes: discordar, se acaso levarmos ao pé da letra a superioridade que ele atribui à filosofia relativamente à visão, pois ninguém na posse das suas faculdades mentais aceitaria privar-se da visão para aceder ao olhar filosófico; mas concordar em pleno, se entendermos que o olhar a que o filósofo se refere é o olhar integral, aquele que desperta para as coisas dentro e fora de nós e pode tudo observar claramente mesmo na mais completa escuridão.

            Em conclusão: filosofar é ver, ver com uma espécie de visão esclarecida, ver para orientarmos os passos nas decisões existenciais de todos os dias, ver para nos conseguirmos adaptar ao mundo e dele darmos testemunho. O autor compara com justeza o uso dos olhos e o exercício da visão como metáfora desse olhar o mundo, simultaneamente observando e analisando cada partícula do real e podendo, desse modo, obter da vida muito maior prazer e benefício do que se nunca nos dispuséssemos a filosofar no verdadeiro sentido que a palavra comporta.

 

 

                      Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.

 

    Livro dos Conselhos, in O Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago

 

 

 
 
 
 
09 gennaio

Comentário filosófico

“O único problema do nosso tempo é saber como se hão-de guindar as massas à vida e à cultura. Mais nada. A ciência tem pés, e anda por si. A arte vai de vento em popa no seu caminho, já glorioso de resto. Mas há uma grande parte da humanidade que nem sequer sabe andar ainda. E não há dúvida que é preciso ensiná-la a saber. Como? É o que resta saber. Os quadros da nossa cultura têm possibilidades que não foram nem de longe esgotadas (…) Mas para isso não basta só uma doutrina. É preciso também uma devoção humanitária.”

 

 

Miguel Torga, Diário IV, Coimbra

 

 

                    

                               Caricatura de Miguel Torga por David Pintor

           

 

 

 

           Segundo o ponto de vista do autor o grande problema da humanidade não passa pelo desenvolvimento da arte ou da ciência, porque qualquer uma delas tem o seu rumo garantido. O que falta ao homem de agora é o acesso à cultura; mas, para que tal possa desencadear-se, não bastam as doutrinas, sendo necessário aquilo a que Miguel Torga chama “uma devoção humanitária”.

            Mas, depois de analisada e sintetizada a perspectiva do autor, é legítimo questionarmo-nos sobre o que entende Miguel Torga por cultura e em que medida é que a cultura resolve as grandes questões de fundo do ser humano. Será que ele está a referir-se ao conhecimento puro, à especulação abstracta? Será que ele pretende afirmar que a aquisição de saber, o estudo e tudo o mais que é comum associarmos à palavra cultura é suficiente para elevar as massas à vida, ensinando-as a andar?

            Sem dúvida que o autor usa o termo cultura numa acepção mais ampla ou seja segundo a óptica que caracteriza a humanidade como sendo simultaneamente produtora e produto da cultura. De facto, desde que o homem é homem (e mesmo para chegar a sê-lo) que lhe foi necessário transformar o meio, quer cultivando os campos e criando aquilo a que hoje chamamos agricultura, quer construindo habitações, instrumentos, etc. e, progressivamente, alcançando conquistas tecnológicas que foram fazendo dele o que hoje é. Nessa ordem de ideias, o homem produziu uma natureza cultural que o transformou, produzindo-o enquanto homem.

            Ora, realizando toda essa tarefa cultural, patente na transformação contínua do seu habitat, a humanidade desviou-se, cada vez mais da sua génese, a ponto de nem sempre se reconhecer nas suas próprias aquisições e produções culturais, gerando, por essa razão, atentados à sua qualidade de vida, levando tão longe a transformação cultural que acabará por não conseguir sobreviver no seu próprio mundo. Daí que surja a necessidade de educar as massas, mostrando-lhes como usar a tecnologia, como usufruir do enorme avanço de que dispõem, sem lesarem o seu próprio ambiente, lesando-se, por isso, a si próprias.

            Todavia, afirma Torga, não basta só uma doutrina, ou seja, não será pelas teorias que essa educação e essa ascensão das massas poderão processar-se, visto que a nossa cultura enveredou por certos caminhos – os da investigação especulativa, os do desenvolvimento económico, os da acumulação de riquezas entre muitos outros – atingindo patamares espantosos de progresso, mas deixando por explorar os caminhos da pura compreensão do fenómeno humano. E é por essa razão que o autor fala em “devoção humanitária”.

            De facto, urge que a humanidade, individual e colectivamente, entenda que a sua sobrevivência, a médio e a longo prazo, depende, essencialmente, da qualidade que conseguir imprimir ao seu estilo de vida e então, a devoção humanitária de que fala Miguel Torga terá que brotar da própria consciência dos seres humanos que, criando bens inestimáveis, condição de melhor nível de vida, nem sempre sabem estabelecer a fronteira entre o que pode e o que deve ser feito. Escreve Roger Garaudy : “ Nem tudo o que pode ser feito deve ser feito. Fabricar bombas atómicas, ir à Lua, fazer viver de forma vegetativa homens, cuja degradação biológica é irreversível, manipular amanhã a herança genética, circular à velocidade do som, nada disso constitui em si mesmo um bem absoluto.” (in Palavra de Homem)

            Se detivermos a nossa atenção neste excerto entenderemos o que Miguel Torga pretende exprimir quando fala em cultura e em devoção humanitária. Os exemplos que Garaudy refere – construir bombas atómicas, ir à Lua…etc. – são, sem dúvida, produtos da tecnologia e, portanto, aquisições culturais. Porém, podendo ser feitos, deverão sê-lo? Ou seja: constituirão, em si mesmos, produtos culturais inestimáveis?

            Necessário se torna, então, levar a cabo um profundo exame em que todos e cada um se compenetrem da qualidade do seu estilo de vida e decidam abolir o que de negativo existe e nos vai empobrecendo, enquanto seres humanos com dignidade e direitos já estabelecidos, e incrementar acções capazes de erguerem outros valores e outros estilos de vida aptos para nos restituírem o nosso verdadeiro mundo.

            Em conclusão: se, a certos níveis, a humanidade atingiu patamares elevados de evolução, nomeadamente do ponto de vista artístico e científico, a verdade é que, em termos culturais, ainda não há uma plena consciencialização das massas, em ordem a dignificarem o estatuto que lhes é conferido pela evolução a que conseguiram aceder.

Comentário filosófico


 

 

                                                     

                                          Retrato de Miguel Torga a carvão de Isolino Vaz

 

 

 

 

 

                                                              Comentário filosófico

 

«A minha luta é para encontrar o centro, o núcleo de toda uma infinidade de justificações, que superficialmente parecem satisfazer-me e são, afinal, folhas caducas do meu tronco. Determinar, numa palavra, que causa última me conduz, que força polariza os meus actos. Mas estou longe dessa descoberta. Eliminei o divino, porque era divino e eu sou humano; superei o pecado porque viver sem pecado é um absurdo moral; e consegui perceber que a vida não é trágica por estar balizada pelo nascimento e pela morte, que são condições da existência e não negação dela.»

 

Miguel Torga, Diário IV, Coimbra

 

 

 

 

Segundo o ponto de vista do autor e segundo a sua experiência de ser pensante, a luta pela definição dos fins últimos da sua existência, capazes de lhe orientarem os passos na vida, só superficialmente o satisfaz, dados os permanentes conflitos do próprio pensamento e os perpétuos antagonismos entre o divino e o humano, a moral e o pecado, a vida e a morte.

Mas, ao eliminar o divino, manifestando, neste contexto, uma posição ateísta e, ao justificar essa eliminação declarando-se humano por exclusão do divino, o autor não consegue de modo nenhum afastar da mente o problema da existência de Deus. Com efeito, ser ateu ou “eliminar o divino” é negar Deus; e esta mesma palavra – ateu – constitui o próprio cerne do que se pretende negar. Como é possível negar a existência seja do que for, sem a ela ter aderido, ao menos enquanto ideia? Esta adesão a um Deus conceptual encontra-se presente, aliás, na primeira parte do texto, quando o autor afirma que a sua luta é “para encontrar o centro”, “o núcleo de todas as justificações”, “ a causa última que me conduz”,“ a força que me polariza”. Retirando de si, enquanto humano, a componente divina que o tornaria espírito, o autor poderia resolver com toda a facilidade os problemas provenientes da sua luta para encontrar o próprio centro, já que o humano, desarreigado do divino, é um mero animal em luta pela sobrevivência. Aliás, essa mesma dedução está implícita no modo como Miguel Torga afirma ter superado o pecado: considerando que viver sem pecado é um absurdo moral, o autor destaca-se e descompromete-se das noções vigentes de Bem e de Mal, que desde sempre nortearam todo e qualquer comportamento moral. Assume-se como amoral – ou seja, sem moral – como se assumiu ateu – ou seja, sem Deus.

Mais próxima da animalidade simples e desprovida de razão do que da humanidade complexa, porque racional, a posição de Torga desafia os alicerces de toda a cultura ocidental, centrada num dualismo fundador, que faz do homem a integração harmoniosa da alma e do corpo.

Por fim, e como corolário das afirmações precedentes, o autor analisa uma das mais antigas perplexidades do homem, essa inevitabilidade da morte que está impressa em cada um na hora do nascimento e lhe aponta o limite para o qual vai, inexoravelmente, tendendo.

Miguel Torga afirma que a vida não é trágica, pelo simples facto de se conter, inteira, naquele pequeno traço que estabelece a união entre as duas datas-limite: a do nascimento e a da morte. Ao reiterar esta conclusão, entra em choque com os valores cristãos, por exemplo, que ostentam, como visão trágica, o sofrimento de Jesus Cristo na cruz, sofrimento predestinado e consentido, dada a certeza, garantida pela crença, de uma ressurreição, tornada possibilidade redentora dessa mesma tragédia. A tragédia de Cristo é, não apenas a vida, mas o seu desenlace terrível no alto do Calvário; e a essa visão trágica corresponderá, segundo a crença, a nossa própria trajectória de humanos, feitos à semelhança de Deus, irmãos de Cristo, Ele próprio filho de Deus e, portanto, sujeitos como Ele foi ao sofrimento, à dor e à expiação do sofrimento consumada na morte. Mas, à semelhança do que aconteceu no acto da ressurreição de Jesus, também nós ressurgiremos após o fim da existência terrena, para assim nos redimirmos da tragédia de viver.

Miguel Torga não considera trágica a existência humana pelo facto banal de conduzir necessariamente à morte, visto ser essa a própria razão de ser de tudo o que existe na natureza, fora e dentro de nós. A morte não nega a vida, sendo antes a sua condição e, para chegarmos a tal conclusão, basta observarmos o desenvolvimento de uma planta, cujas fases sucessivas desde a raiz ao fruto se vão continuamente excluindo e, mesmo o fruto, necessita atingir a maturação e abrir-se, pela auto-destruição, a fim de libertar sementes, condição de novas plantas e de novos frutos. E assim, o ser humano, sendo natureza, não escapa a idêntico destino e apenas o apego a uma existência, da qual seremos inelutavelmente excluídos um dia, nos faz sentir a morte como uma tragédia negadora da vida, através da qual nos afirmamos e à qual queremos dar continuidade para além da fronteira da data-limite.

Em conclusão: os argumentos negadores do divino e da moral e afirmadores da morte, como componente intrínseca da vida apontam todos para uma noção ateísta da existência em que o autor desarreiga de si, enquanto homem, a componente divina reivindicada pela crença cristã. Todavia, não há dúvida que a sua característica de ser racional e, por isso, pensante, o conduz, inevitavelmente, a levantar semelhantes questões e, nessa medida, a não ter alternativa a não ser admiti-las, pelo menos enquanto conceitos.

22 dicembre

Eu Me Meu Minha

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre o cavalo Nietzsche chorou!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu me meu minha

homem

despe-te de ti mesmo

e torna-te

HOMEM!

 

Que pode interessar à Humanidade o teu eu lamentoso ou inchado desdenhoso ou retorcido que pode querer a humanidade de ti mero fragmento de poeira ridícula abanada daqui para ali por ventos que sempre hão-de transcender-te?

Homem

deixa o eu quero

o eu sou

o eu choro

o eu rio

o eu sofro

começa a dizer nós

não o nós

 eu e tu

que para ti há-de ser ainda uma forma de dizer

 eu mais eu

 mas o nós verdadeiramente o nós

esse que envolve todos os homens

 

 

NÓS

assim

com esta maiúscula estreme

onde cabes tu

e caibo eu

e cabem os outros todos

 

Há dois egoísmos

um famélico e indigente

próprio do verme que se encolhe para não ser pisado

e esse lamuria

eu eu eu

por todas as esquinas

em todos os tons

de todas as formas

 

 mas há um egoísmo superabundante em que o eu é sempre um EU e em si envolve toda a Humanidade tornando-se gigantescamente um Nós

Escuta a voz universal a vibrar dentro de ti desentranha-a do teu centro e desentranha-te com ela e verás que crescerás para lá de ti mesmo

perder-te-ás mil vezes ondulando ou rastejando na dúvida de não te encontrares

mas que importa isso?

é apenas o teu eu que está a dissolver-se no todo primordial de que és parte e te dá significado

 

Se gemes se sofres se lanças atoardas no ar vazio é porque és cindido tornaste-te criatura una e jamais te encontrarás enquanto não mergulhares para te dissolveres no âmago da corrente universal onde a unidade te dará a única razão do teu ser

 

Entretanto esconde o teu eu esse eu pequenino e auto-complacente deixa-o repousar ou ser revoluteado

(que importa?)

põe-no no gelo ou deixa que o fogo o purifique

 

Faz a viagem

é tempo!

 

Quando regressares trarás contigo um outro EU que não precisará de enunciar-se tal como agora fazem esses pequeninos

eu me meu minha

e que bem fechado na sua caverna ou livre pelas aragens cristalinas de amanheceres imaculados não quererá mais gritar por si mesmo pois aprendeu a ser TODOS

 

 

 

(Dedico este texto a todos os que querem ser algo mais que a pequenez do seu eu e dirijo-o em primeiro lugar contra mim e contra Os Farrapos que de mim própria transcrevi e que já não me dizem; em vez de apagar o texto, vitupero-o!)

 

25 novembre

Um Homem Morre

 
 
                                                                                                                                                     
                                            
 
 
 
 
                                                    
 
                                                                                          KLIMT, LIFE AND DEATH
 
 
 
 
Um homem morre um certo dia e leva consigo o segredo da vida ninguém jamais poderá equacionar o peso dos momentos decisivos ou adivinhar os pensamentos fugidios que lhe perpassam a mente no segundo derradeiro Dizemos derradeiro e nem tão pouco sabemos se este derradeiro será de facto derradeiro para aquele que morre escapa-nos essa dimensão intangível escapa-nos esse suspiro final esse parar lento do coração esse balbucio lento do cérebro que talvez não seja capaz de registar o instante final e  se achamos que existe um depois um para além das fronteiras do corpo e das energias palpáveis da matéria é na exacta medida em que a racionalidade quantas vezes disfarçada de crença ou de religiosidade recusa a finitude e prende-se de modo obsessivo ao prodígio da eternidade feita espírito esvoaçando etereamente na dimensão do infinito Conceptualizar a morte não é possível nunca e por isso quedamo-nos perplexos defronte desses umbrais misteriosos para nós e no entanto naturais na dialéctica da existência e da vida antítese propulsora de uma síntese criadora em que da terra nasce vida e da vida nasce terra Acrescentamento decerto chegará a haver ou talvez o próprio acrescentamento a que chamamos muitas vezes evolução não passe do ciclo vicioso dos acontecimentos terrenos esses que se desdobram à superfície de um planeta rolante incansavelmente rolante em torno de si mesmo incansavelmente rolante em torno do astro de onde recebe a luz e a seiva
Um homem morre e passa a ser um rasto de memória uma poeira de tempo um pequeno traço entre  duas datas limites um intervalo sempre considerado curto por mais extensa que tenha sido a duração medida em anos desse lapso de respiração desses batimentos compassados de um músculo propulsor corrente de vida marcador de emoções
Um homem morre e escrevemos uma espécie de murmúrio reminiscente onde as palavras são ecos de sons que ouvimos de latejar de pulsos de olhares derradeiros desse que outrora se ergueu impante para o âmago das coisas terrenas e acabou perdido de si como despojo para a terra e para os outros Nada mais pode acrescentar-se já que a dialéctica se cumpriu
23 luglio

Filóbia

 

ESCHER, RELATIVITY
 
 
 
É como filósofa que hoje decido apresentar-me ao público-leitor. Mas, desenganem-se, ser-se filósofo não é o que normalmente se pensa, é muito menos e muito mais do que o estereótipo criado ao longo dos séculos.
Todos nós nascemos com predisposições naturais que o futuro se encarrega de incrementar ou reprimir.
A filosofia é esse embrião sagrado que se mistura no sangue e vai crescendo ao mesmo tempo que os membros. É como a cor dos nossos olhos ou o formato do nosso rosto que, uma vez fixados, só o artifício tem poderes para alterar. Como explicar a cor dos olhos, ou melhor, como justificar perante o mundo que seja aquela e não outra qualquer? Mas que a cor está lá e que veio de dentro, pelos mecanismos fisiológicos que a biologia só mediocremente explica, isso não me parece dar azo a dúvidas. E então, ser filósofo é o resultado de uma aglutinação de forças íntimas como o sangue que corre nas veias, que alimenta o impulso vital, mas que corre silencioso nas estradas sinuosas do nosso lado de dentro.
Desiludidos?
Mas digam-me: que há de mais belo na existência do que o latejar da vida na plenitude da força anímica? Que há de mais esplendoroso que a flor que desabrocha na magnificência da seiva que explode?
Assim sendo,a filosofia é a seiva das plantas e o sangue do homem correndo sempre para um mar transcendente, lugar privilegiado dos rios, ribeiros e riachos que são a centelha filosófica dos homens.
Choca-vos a palavra transcendente? Paciência: por nenhuma outra, neste mundo, a trocarei.
Eu sei que os homens de hoje estão dominados por medos que nem no segredo do seu íntimo ousam a si próprios confessar. Por essa razão, e para esquecerem o pavor da finitude terrestre, atropelam-se em correrias insensatas, divertem-se em rituais absurdos, caminham para nenhures, com a cabeça cheia daquilo a que chamam, ufanamente, objectivos.
Da transcendência têm um pavor inominável. A transcendência provoca-lhes arrepios, perla-lhes de suor a fronte exaurida e não querem, sequer, ouvir falar dela. Dizem: tenho muito que fazer para perder o meu tempo com fantasias. Ou então: é fascinante como tema de conversa, mas eu tenho o meu trabalho, as minhas responsabilidades, sou um homem sério!
Porém, meus amigos, a filosofia também está lá, neles, como o sangue  que lhes lateja nas têmporas. Só que, os infelizes optaram pela seriedade e esqueceram a vida, optaram pelo compromisso estéril dos "grandes objectivos" e desdenharam da centelha filosófica que lhes anima o próprio sangue.
Vou dizer-vos um segredo: eu não gosto da palavra filosofia. Vou também explicar-vos porquê.
Para quem sabe uns rudimentos de grego o significado da palavra não suscitará dúvidas: é o "amor à sabedoria" que os gregos propugnavam.
Ora, amar a sabedoria é querer caminhar para a posse total do conhecimento, é perseguir as causas primeiras e as respostas últimas e encontrar a chave que abriria todas as fechaduras do conhecimento. Mais de vinte e cinco séculos de especulação sapientíssima levaram-nos ao beco sem saída da ignorância total.
Despertai ó sábios, ó eruditos, ó cientistas, ó vós todos que subis à cátedra debitando avalanches de conceitos: a ignorância é tudo o que temos.
Amor à sabedoria? Sim, eu acredito nos gregos porque foram eles que, simultaneamente, abriram e fecharam os portões da filosofia. Foram eles que iniciaram a busca, pelo amor, da verdade do mundo e que, cônscios da impenetrabilidade do segredo, se quedaram nas esferas paradisíacas do cepticismo lúcido. Porque, caríssimos sábios, o cepticismo lúcido que não busca o saber é a porta aberta para a mais fascinante das aventuras humanas: o amor à vida, ou a Filóbia, neologismo que os dicionários ainda não registam mas que neste nosso século XXI é o termo correspondente à filosofia do século VII a. C.
E o que é, então, essa Filóbia? Aqui, sim, estou aberta para falar-vos.
É o amor à vida desde o âmago das células que não vemos e que são o tecido da nossa vida até ao gigantismo incomensurável do universo com o qual somos unos.
Conhecer? Para quê?
Continuais a amar a flor dissecada e rotulada até à pequenez dos estames? Sentis carinho pela cobaia enlouquecida que sujeitais à aviltação das experiências?
Sábios, ó sábios e cientistas que deixais que vos embranqueçam os cabelos na paixão da sabedoria: não interpreteis mal o que vos digo. Nutro por vós uma grande simpatia e sei que, honestamente, acreditais estar a salvar o mundo. Só que, de facto, se o mundo houvesse de ser salvo  por essa via teríamos hoje quaisquer indícios ou até - quem sabe? - talvez já estivesse salvo.
Consultai então o vosso íntimo: do fundo das células que vos alimentam a criação vêdes melhoria na humanidade? Achais que a natureza é, hoje, com tantos e tão profundíssimos trabalhos que levastes a cabo, mais bela, mais produtiva,mais benéfica para todos os seus habitantes?
Filósofa, eis o que sou porque é a palavra que todos conhecem: a outra, inventei-a eu para poder dizer-vos que talvez a grande resposta para a crise do nosso tempo seja, não o amor à sabedoria, mas o amor à vida e, por isso, a Filóbia!
13 maggio

Isadora Duncan

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"Os pensamentos das mulheres originam-se no abdómen e dirigem-se para cima, ao passo que os pensamentos dos homens originam-se na cabeça e dirigem-se para baixo."

 

(Pensamento de Isadora Duncan)

 

Não sei se ela tem razão em absoluto, não será deste modo a 100%, mas hoje inclino-me a concordar com ela e por isso é o pensamento que deixo, como se fosse meu!