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18 gennaio

A Greve de 19 de Janeiro de 2009

 
 
 
 
A GREVE DE 19 DE JANEIRO DE 2009
(dois anos depois do decreto-lei 15/2007, do Ministério da Educação, que urdiu o Estatuto da Carreira Docente)
 
 
 
 
        Amanhã vou fazer greve e isso incomoda-me.
        Reflectindo sobre o momento absurdo que percorre este meu mundo, onde muitos milhares de pessoas de todas as idades estão quotidianamente envolvidas - falo, é claro, dos professores e dos alunos, em primeiro lugar, mas também dos funcionários administrativos e dos encarregados de educação (que todos eles constituem a escola) - percebo que é mais do que tempo de nos devolverem (a todos) o patamar de normalidade que necessitamos para podermos desempenhar os nossos papéis interactivos. Confesso que, felizmente, não pertenço àquele número de professores que, por desgaste, ou incapacidade, ou doença, ou seja lá o que for - têm vindo a prejudicar os seus alunos por culpa desta luta múltipla a que estamos a ser obrigados há já dois anos: amanhã comemora-se (ao contrário) o Decereto-Lei nº15/2007,  de 19 de Janeiro que estabeleceu o  Estatuto da Carreira Docente e que rebaixou, até a um limite nunca antes visto, a nossa dignidade profissional e humana. Mas, se não pertenço a esse número, é na medida em que tenho feito um esforço titânico para lutar nas múltiplas frentes a que esta ignomínia me obriga, e, ainda assim, entrar diariamente nas aulas com serenidade e cumprir o meu primeiro dever - ensinar.
       Por isso, e na exacta medida em que do citado documento emanaram as linhas da avaliação a que querem jungir-nos, vou fazer greve e espero que a mobilização dos meus colegas ainda esteja na ordem dos seus pensamentos, para comandar os seus actos, no dia de amanhã e que, massivamente, aguentem mais um dia de luta. Sim, de luta e também de privação, porque o salário do dia de greve é-nos descontado e as matérias, não leccionadas amanhã aos alunos, terão que ser repostas mais tarde; de luta, porque tudo faremos para que a nossa voz chegue tão longe quanto pudermos ( e bem vejo que não é muito, porque os meios de comunicação social estão enfeudados ao regime  ou aos interesses privados e só relatam o que lhes dá benefício ou audiência, e este assunto já não tem poder para abrir noticiários) e é por essa razão que irei à rádio  (da zona de localização da minha escola, é claro!) falar dos motivos que nos empurram para a greve.
Um deles é a divisão da classe docente em duas categorias : O PROFESSOR TITULAR e o PROFESSOR.
        Poderíamos pensar que uma tal divisão assenta em critérios de excelência e que os Titulares seriam os melhores de entre todos, tendo essa verificação ocorrido na sequência de provas dadas e logo de mérito reconhecido. Mas não é, de facto, isso, que determina a titularidade.
       Acontece que no ano lectivo de 2006-2007 surgiu um concurso, aberto a professores com mais de 15 anos de serviço e colocados no 8º escalão, ou acima dele, um concurso, meramente burocrático, através do qual o candidato registaria todos os cargos que desempenhou durante os sete anos anteriores, recebendo estes mesmos cargos pontuação variável, consoante a sua importância.                
      Importância essa, note-se, que nada tinha a ver com competência pedagógica ou científica, no âmbito da verdadeira função do professor ( o ensino), mas com serviços , chefias e especializações várias, quantas vezes ocasião de ausência do professor da escola, por via do cumprimento desses cargos. Obviamente, ganhou o título aquele que foi mais vezes, nesses últimos sete anos, presidente disto ou daquilo, coordenador deste ou daquele sector, mestre ou candidato a mestre ou doutor, nesta ou naquela área, e não aquele que  durante toda uma vida (15, 20, 30 anos) mais deu ao ensino e aos alunos na sala de aula. Logo que ganharam o título e dele foram empossados, essa categoria recém-criada de professores, transformou-se, por decreto, em avaliadora dos seus colegas (os professores)  sem que alguém se lembrasse de dar-lhes a formação necessária ou de averiguar se, de facto, os titulares eram ou não competentes, ou mesmo suficientes, para procederem à complexa tarefa de recolher dados, elaborar grelhas, observar os avaliandos em pormenor, esmiuçar todos e cada um  dos seus «pupilos» (os colegas) de modo a proferirem uma sentença avaliadora.
      Claro que não eram nem uma coisa nem outra, e foi por essa razão que, após manifestações e greves, a avaliação foi, efectivamente, suspensa no ano lectivo passado e se procedeu a um simulacro de avaliação dos professores contratados que dela necessitavam para poderem ser colocados no ano seguinte ( avaliação essa que foi tão mal feita que teve que ser corrigida este ano : por exemplo, todos os que foram avaliados com Muito Bom ou Excelente, no ano passado, viram este ano essas classificações transformadas em Bom!). Esta consequência de um processo mal engendrado, e logo remendado múltiplas vezes, prende-se com outras das razões da nossa luta: é que nem todos os professores, realmente muito bons ou excelentes, têm direito a semelhante classificação visto que a cada escola serão atribuídas quotas (ainda não foram!), e essas quotas vão determinar quantos professores em cada escola vão poder ser avaliados com tais notas. Ou seja: não importa que eu (ou outro qualquer) seja excelente e que o demonstre através do meu desempenho. É necessário que haja quotas suficientes na minha escola para que eu (ou ele) possa aspirar a ser classificada como mereço e, confesso, ainda não consegui compreender como vão os avaliadores resolver este problema e escolher quem, em idênticas circunstâncias de mérito, merece obter o Excelente ou o Muito Bom e quem terá que ficar de fora! Já estabeleci uma analogia com a avaliação que faço periodicamente aos meus alunos e não saberia proceder se acaso só dispusesse de, por exemplo, 5 possibilidades para atribuir a classificação de 17, 18 ou 19 valores, em 120 alunos!
      Ciente das dificuldades e dos erros de semelhante modelo de avaliação e depois de muita agitação, nas ruas, onde foram levadas a cabo manifestações com dimensões inéditas, nas escolas, onde as reuniões se multiplicaram e, um pouco por todo o país, foram surgindo manifestos, abaixo-assinados etc., surgiu um alegado modelo de avaliação simplificado mas - espantem-se! - de onde foi retirada a essência do que deve caracterizar a competência do docente - a componente científica e pedagógica, os resultados dos alunos - para se fixar apenas em elementos meramente burocráticos, traduzidos em evidências de acções individuais em prol do benefício próprio e outras que nada dizem do real desempenho profissional do docente.
       Além disso, e porque foi abundantemente demonstrado que os avaliadores não eram, nem suficientes, nem especializados em todas as áreas científicas, o ministério decretou que fossem «equiparados a titulares para efeitos de avaliação» alguns Professores não Titulares, os quais não passam de meros fantoches, visto que a avaliação, agora, depois de pretensamente simplificada, não visa a componente científico-pedagógica do docente ou os resultados dos seus alunos, mas meras tarefas ostentatórias de pseudo-participação em actividades feitas à pressa e outras, de cunho burocrático e, apenas se o docente solicitar que as suas aulas sejam observadas, o avaliador terá algum papel - e tal deverá obrigatoriamente  acontecer, caso alguém solicite a menção classificativa de Muito Bom ou de Excelente!
       Fazem sentido  semelhantes procedimentos, a que ainda se ousa chamar, enfaticamente, «modelo de avaliação de desempenho docente»? Faz sentido ser avaliado por meras burocracias ou pseudo-acções com vista ao benefício individual, e assim ter apenas Bom e poder avançar (se avançar) lentamente na carreira? Faz sentido solicitar Muito Bom ou Excelente, obrigar os avaliadores ao trabalho de assistir a aulas para no fim terem que ser indeferidas as solicitações dos avaliados porque as quotas não permitem dar-lhes a nota pretendida (ainda que possam considerar que a merecem)? Faz sentido que um professor contratado ( e muitos são-no há mais de dez anos, porque a carreira congelou por razões economicistas e esses profissionais não entraram nos quadros), depois de ser aprovado por uma universidade, depois de ter realizado o estágio profissional e nos tais dez anos ou mais de serviço ter adquirido experiência docente, faz sentido que ele necessite de submeter-se a um exame que pode afastá-lo da carreira, caso não obtenha determinada classificação, atirando-o para o desemprego? Faz sentido estarmos quase no final de Janeiro, praticamente a meio do ano lectivo e não termos ainda orientações precisas sobre como vai ser, de facto, a nossa avaliação?
     Sou professora e, como tal, avaliadora de alunos. Seria dramático se, neste momento, eu não tivesse a menor noção de como vou fazer para melhorar o desempenho dos meus alunos e os mantivesse, por isso, à deriva, sem saberem o que ou como estudar!
     Portanto, farei greve amanhã e voltarei a fazer quantas vezes forem necessárias, porque o prazo de diálogo inteligente e concertado já expirou há muito e só resta a guerra como recurso último, quando o entendimento falha e a democracia se estilhaça em não sei quantos bocados.
03 gennaio

Diógenes, O Cínico

       

 

Diógenes, de John William Waterhouse, mostrando a sua lâmpada, o seu barril e as cebolas das quais se nutria.

 

         Diógenes de Sínope, em grego antigo "Διογένης Σινωπεύς" (c. 413 a.C., Sinop, hoje na Turquia – c. 323 a.C., Corinto), foi um filósofo grego e talvez o maior representante do Cinismo. Essa escola filosófica foi fundada por Antístenes de Atenas, que fora discípulo de Sócrates e mestre de Diógenes.

         Segundo Diógenes Laércio, a morte de Diógenes ocorreu no mesmo dia em que Alexandre, o Grande, morreu na Babilónia. Outra lenda conta que Sócrates morreu no dia em que Diógenes nasceu.

         Segundo a tradição, Diógenes vivia a deambular pelas ruas na mais completa miséria até que um dia foi aprisionado por piratas para, posteriormente, ser vendido como escravo. Um homem com boa educação chamado Xeníades  comprou-o. De imediato, pôde constatar a inteligência do seu novo escravo e confiou-lhe tanto a administração dos seus bens quanto a educação dos seus filhos.

         Diógenes levou ao extremo os preceitos cínicos de seu mestre Antístenes. Foi o exemplo vivo que perpetuou a indiferença cínica perante o mundo. Desprezava a opinião pública e parece ter vivido numa pipa ou barril. Os  seus únicos bens eram um alforge, um bastão e uma tigela (que simbolizavam o desapego e auto-suficiência perante o mundo),  ficando conhecido como o filósofo que vivia como um cão.

         A felicidade - entendida como autodomínio e liberdade - era a verdadeira realização de uma vida. A sua filosofia combatia o prazer, o desejo e a luxúria pois isto impedia a auto-suficiência. A virtude - como em Aristóteles - deveria ser praticada e isto era mais importante que as teorias sobre a virtude.

         Diógenes é tido como o primeiro homem a afirmar, "Sou uma criatura do mundo (cosmos), e não de um estado ou uma cidade (polis) particular", manifestando assim um cosmopolitismo relativamente raro no seu tempo.

         Diógenes parece ter escrito tragédias ilustrativas da condição humana e também uma República que teria influenciado Zenão de Cítio, fundador do estoicismo. De facto, a influência cínica sobre o estoicismo é bastante saliente.

         Provavelmente, Diógenes foi o mais folclórico dos filósofos. São inúmeras as histórias que se contavam sobre ele, já na Antiguidade. É famosa, por exemplo, a história de que  saía em plena luz do dia com uma lanterna acesa, procurando por homens verdadeiros (ou seja, homens auto-suficientes e virtuosos). Igualmente famosa é a sua história com Alexandre, o Grande, que, ao encontrá-lo, ter-lhe-ia perguntado o que poderia fazer por ele. Acontece que devido à posição em que se encontrava, Alexandre fazia-lhe sombra. Diógenes, então, olhando para o Sol, disse: "Não me tires o que não me podes dar!" (variante: "deixa-me estar ao meu sol"). Essa resposta impressionou vivamente Alexandre, que, na volta, ouvindo os seus oficiais zombarem de Diógenes, disse: "Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes." Outra história famosa é a de que, tendo sido repreendido por estar a masturbar-se em público, simplesmente exclamou: "Oh! Mas que pena que não se possa viver apenas esfregando a barriga!" Diz-se que um dia Diógenes foi visto a pedir esmola a uma estátua. Perguntaram-lhe o motivo de tal conduta e ele respondeu "por dois motivos: primeiro é que ela é cega e não me vê, e segundo é que eu me acostumo a não receber nada  de alguém e  a não depender de ninguém."

          Em parte por causa de seu comportamento escandaloso, os escritos de Diógenes caíram no quase total esquecimento. Com efeito, a politeia (a República) escrita por Diógenes, remenda e apoia-se mais tarde na politeia de Zenão (um estóico), ataca numerosos valores do mundo grego, preconizando, entre outros, a antropofagia, a liberdade sexual total, a indiferença à sepultura, a igualdade entre homens e mulheres, a negação do sagrado, a supressão das armas e da moeda e o repúdio à arrecadação em prol da cidade e das suas leis. Por outro lado, Diógenes considerava o amor como sendo absurdo: ninguém deve apegar-se a outra pessoa. Por muitas destas razões Diógenes de Sínope é considerado um precursor do Anarquismo no período clássico.

         Certos estóicos, portanto próximos da corrente cínica de Diógenes, parecem ter preferido dissimular e esquecer essa herança julgada «embaraçosa».

 

(Fonte:http://pt.wikipedia.org/)

 

19 dicembre

«Binómio Mortal»

 

Dalí Atomicus, Philip Halsman, Fotógrafo (1906-1979) 

 

 

 

«BINÓMIO MORTAL»

 

 

«O que pode em geral dizer-se pode dizer-se claramente; acerca daquilo de que se não pode falar tem que se ficar em silêncio.». (Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus, p.131)»

 

«Neste mortal binómio Ministério/professores alguém quererá – de facto – salvar os alunos?» (Maria João Avilez, Sábado, in Público, 12 Dezembro 2008)

 

Desde que li no jornal Público a frase em epígrafe de Maria João Avilez que penso obstinadamente na sentença que encerra o livro, também citado, de Wittgenstein.

A citação de Wittgenstein é dupla e daria azo a inúmeras especulações mas não é especular que pretendo e é por isso que ela me serve tão bem. Vejamos: posso, em geral, dizer alguma coisa sobre algum assunto? Posso dizê-lo claramente. Não posso falar deste ou daquele assunto? Devo calar-me. E então eu posso falar de ensino, de avaliação de alunos e de professores, de filosofia, de métodos pedagógicos e por aí adiante. «Posso», porque sou professora, em primeiro lugar; e «posso falar claramente» porque estou imbuída do espírito do problema em que se tornou o ensino em Portugal. Por outro lado, Maria João Avilez é jornalista, não está imbuída do mesmo espírito que eu e, por essa razão não pode falar deste assunto; logo deve calar-se.

Como sei tão claramente que a autora desta frase não pode falar daquilo que não sabe e que, por isso, devia calar-se?

Se ela soubesse sobre o que está a escrever nunca afirmaria que os alunos estão desprotegidos no interior daquilo a que chama «mortal binómio Ministério/Professores»; e não o sustentaria porque, sendo professora, estaria no «teatro» da sala de aula a cumprir o seu papel exactamente como em tempos mais pacíficos, pois é precisamente o que eu, enquanto professora, tenho feito e, comigo, milhares de professores em todo o país. Sei-o, portanto, desse saber pessoal, e também porque o verifico, quotidianamente, no funcionamento da minha escola. Sei que apesar do tumulto gerado à nossa volta, apesar de estarmos efectivamente em luta, não por capricho ou por mera teimosia, mas porque efectivamente estamos a ser punidos, quais bodes expiatórios, e atirados para uma batalha que em nada tem favorecido a nossa imagem pública, batalha essa que, aos poucos, se transformou num amontoado de procedimentos absurdos e de desvarios onde ninguém sabe muito bem o seu verdadeiro papel, apesar de tudo isso, o que se passa nas salas de aula entre alunos e professores não tem sofrido a menor beliscadura. Posso falar disto e posso fazê-lo claramente porque, chegados que estamos ao final do primeiro período, posso afirmar que cumpri integralmente o meu horário lectivo e não-lectivo, respeitei as planificações múltiplas que realizei, levei a cabo junto dos meus alunos todas as acções necessárias e possíveis para que eles sentissem que eu sou a professora que já conheciam e que sempre fui.

O que se passa é apenas isto: nós, professores, continuamos a dar as aulas e a cumprir todos os deveres inerentes à nossa função pelo que, ao nível das aulas e da assistência aos alunos, tudo continua no seu lugar; por outro lado, é a nossa vida pessoal que está a ser violentamente agredida, é no plano estritamente individual, familiar e social que esta guerra desigual, travada com armas também desiguais, tem espalhado os seus efeitos devastadores.

Os alunos estão, por isso, verdadeiramente salvos, os professores não só não os abandonaram como, mesmo embrenhados em batalhas burocráticas, em batalhas reivindicativas, em batalhas de gestão pessoal do tempo e por aí adiante continuam firmemente a comparecer todos os dias nas salas de aula e a cumprir o seu papel. Posso falar disso e faço-o claramente: sou professora, participo como todos na guerra a que a jornalista chama «mortal binómio Ministério/Professores» mas não deixei, um dia sequer de comparecer na escola para cumprir o meu horário integralmente. Não deixei de elaborar testes e de os corrigir, durante o fim-de-semana e pela noite dentro, não deixei de planificar minuciosamente todas as aulas e cada uma, não deixei de definir planos e estratégias direccionados para o sucesso real dos alunos que lecciono.

Considerar que existe um «binómio mortal Ministério/Professores» é proferir um absurdo já que um binómio é uma combinação harmoniosa de duas partes não podendo por isso ser mortal - o significado latente desta expressão usada pela jornalista anula-se a si próprio: um binómio resolve-se segundo os padrões matemáticos, a morte é o fim de todas as resoluções vitais, pelo que não existem binómios mortais!

E então recupero Wittgenstein e digo a jornalistas, políticos, advogados, engenheiros, agricultores (…) que «o que pode em geral dizer-se pode dizer-se claramente; acerca daquilo de que se não pode falar tem que se ficar em silêncio.»

 

 

22 novembre

A Avaliação do Desempenho Docente (Parte II)

 
 
 
 
    
 
 
 
A AVALIAÇÃO DO DESEMPRNHO DOCENTE (PARTE II)
 
 
 
Pode parecer, a um público menos atento ou informado, que  a alegada simplificação do processo de avaliação do desempenho docente decidida ontem em conselho de ministros e anunciada, em primeira pessoa, pela ministra da educação resolve os problemas dos docentes que podem daqui em diante sossegar, levando para a frente o ano lectivo e as suas actividades, com ânimo renovado. Contudo, não é isso que os professores sentem, pois, o que primeiro solicitaram e depois exigiram não foi contemplado, ou seja: a suspensão imediata deste modelo e a sua substituição por outro.
Dizer que, na essência, o modelo nem foi "beliscado"  (palavra utilizada pela ministra da educação) significa exactamente que se mantêm os vícios de base - a saber: a divisão dos professores em duas categorias, a transformação automática de professores titulares em avaliadores, a necessidade de continuar a coleccionar fichas de registos,  ainda que em menor número ou simplificadas, as aulas assistidas a pedido e para quem queira ter Muito Bom ou Excelente (sofisma extraordinário uma vez que, a manter-se o regime das quotas, nem vejo como irá chegar-se a este ponto), a omissão de recursos efectivos capazes de contribuirem para a real formação dos professores e consequente melhoria da qualidade de ensino prestada - e, por outro lado, algumas das alterações urdidas, parecendo que simplificam, vêm obrigar a toda uma revisão daquilo que já havia sido feito e, logo a regressar ao início do processo. Por exemplo: alterar neste momento os horários dos avaliadores, quando estamos a menos de um mês do final do primeiro período lectivo, irá provocar, sem qualquer dúvida, alterações nos horários de outros docentes e, ao mesmo tempo, nos dos alunos, pois os horários estão em estreita dependência uns dos outros o que será causa de perturbação, descontentamento e readaptação. Retirar, agora, da definição dos objectivos dos professores os resultados dos alunos invalida todo o trabalho já efectuado até ao momento (nomeadamente os dois dias de avaliação intercalar, em que nos debruçámos sobre os resultados dos testes diagnóstico, sobre os resultados dos alunos no ano enterior, definindo estratégias, com vista ao sucesso) e reenvia este processo para o próximo ano, uma vez que, se o modelo vai manter-se, na essência, este parâmetro continuará a aplicar-se, sendo somente adiado. Dizer que os professores serão avaliados por docentes da sua área disciplinar é, teoricamente, fácil; contudo, continuando essa tarefa a pertencer exclusivamente aos titulares e continuando a não haver titulares em todas as áreas, não vejo como poderá isto acontecer na prática, a menos que os docentes exijam avaliadores vindos de fora o que (basta raciocinar um pouco) trará dificuldades de vária ordem: os avaliados terão que solicitar um avaliador creditado e esse avaliador terá que ser encontrado e estar disponível, de acordo com o horário do docente e de acordo com o seu próprio horário.
A manobra do conselho de ministros - porque, segundo as informações veiculadas, a alteração proveio do conselho de ministros e não do ministério da educação - é francamente política e logo eleitoralista, visa confundir a opinião pública que, cansada de tanta agitação em torno de um assunto cujos meandros lhe escapam, pois só a classe docente os conhece na íntegra, ficará convencida de que afinal as reivindicações foram atendidas (quando a ministra diz, mentindo, que não recebeu quaisquer pedidos de suspensão da avaliação), que o governo recuou, quando se limitou a retirar do conjunto do modelo alguns itens, mas apenas por enquanto, e não irá entender que os protestos continuem. Os próprios professores denunciam cansaço, ou seja, perante tantos movimentos de avanço e recuo, de inflexibilidade e de aparente abertura, muitos docentes já nem saberão nesta hora o que fazer ou como proceder.
As contradições e falsidades da ministra da educação -  que, atendendo ao facto de ser ministra e logo, segundo o sentido intrínseco da palavra,dever «servir» e, em acréscimo, da educação, o que teria que fazer dela um modelo, pois é isso que devem ser, antes de mais, os educadores -  são, neste momento, em tão grande número, que talvez nem seja possível registá-las todas.
Em primeiro lugar, ela considerou o modelo de avaliação de desempenho exequível, logo fácil, atribuindo, posteriormente, as dificuldades à incapacidade dos docentes de entender os meandros do processo; a seguir, veio declarar que o facto de estar a ser difícil de aplicá-lo, na prática, se deveria exclusivamente ao estilo dos professores portugueses que gostam de fazer tudo muito bem e que, por isso, acabam complicando o que, no fundo, é fácil. Por fim, assume de novo que , afinal, o modelo é difícil, e dispõe-se a simplificar! Por outro lado, os professores pregam que a abundância de registos e fichas a serem produzidas torna o modelo burocrático em excesso; a ministra diz que só há duas fichas para preencher e que a burocracia advém da já citada mania que os professores têm de executar tudo muito bem; por fim, admite a carga burocrática do processo e propala a necessidade de reduzir o volume das fichas! Desde Março de 2008 (pelo menos) que os professores  se movimentam no sentido de pedir a suspensão deste modelo, propondo efectivamente, outros procedimentos. O que faz a ministra? Simplifica o modelo em 2007/2008, deixa passar o Verão e, em Setembro, atira com o modelo para as escolas exactamente como estava antes de ser simplificado! Após alguns meses de tentativa de aplicá-lo, obedecendo, os professores dão-se conta, agora com renovada acutilância (pois começaram, de facto, a proceder no sentido de aplicá-lo) dos seus vícios, das suas ambiguidades, das suas injustiças e da sua inexequibilidade em muitos parâmetros; protestam de novo, ainda mais esmagadoramente, multiplicam as tomadas de posição nas escolas, ao longo do país, enviando para o ministério pedidos de suspensão, exigências de suspensão, abaixo-assinados em que as escolas decidem suspender o que não podem executar. A ministra declara que não recebeu qualquer pedido de suspensão, muito menos qualquer proposta-substituta do modelo, o que foi efectivamente realizado e apresentado, quer pelos sindicatos, quer pelos grupos parlamentares, quer por grupos de professores para tal creditados.
Que pensar de tudo isto e, pior ainda, o que fazer?
Pela parte que me toca prossigo a minha tarefa principal: vou todos os dias para a  escola, dou as aulas, elaboro testes e corrijo-os, cumpro as «horas-extra», ou seja, aqueles tempos em que tenho que estar na Biblioteca (porque assim o diz o meu horário) ou aquelas horas em que tenho que substituir professores em falta (confesso que estou a ficar especialista em inventar tarefas e exercícios para alunos de 7º ano, com professor ausente - e eu que até agora achava que , sendo professora de filosofia só deveria leccionar alunos do ensino secundário, ou seja, a partir do 10º ano, vejo-me forçada a inventar planos de aula para outras faixas etárias substituindo professores de disciplinas variadas - e, apesar da extrema confusão e perplexidade que vejo pairar sobre mim e à minha volta continuo a ser acima de tudo professora!
 
19 novembre

SUSPENSÃO DA AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO DOCENTE NA ESCOLA SECUNDÁRIA DE MARCO DE CANAVESES

 

 

SUSPENSÃO DA AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO DOCENTE NA ESCOLA SECUNDÁRIA DE MARCO DE CANAVESES

 

Lecciono na Escola Secundária c/ 3º CEB de Marco de Canaveses e orgulho-me de ter elaborado o texto de reivindicação da suspensão deste modelo de avaliação de desempenho docente, o qual foi posteriormente lido pelos signatários e pontualmente rectificado (em termos semânticos, que não de conteúdo), posto o que a comunidade docente assinou (esmagadoramente) e o Conselho Pedagógico ratificou, suspendendo, desse modo, o processo de avaliação de desempenho em curso.

                                                           

 

                                            

  ESCOLA SECUNDÁRIA C/ 3º CEB DE MARCO DE CANAVESES

 

 

 

SUSPENSÃO DO PROCESSO DE AVALIAÇÃO DOCENTE

 

 ABAIXO-ASSINADO

 

Os docentes da Escola Secundária c/ 3º CEB do Marco de Canaveses reivindicam que o Processo de Avaliação de Desempenho, definido pelo Decreto Regulamentar n.º 2/2008 seja suspenso, atendendo a inúmeros factores dos quais se destaca, de modo global, o seu carácter complexo, moroso, desadequado e ambíguo. Por outro lado, o modelo não foi negociado, os professores não foram ouvidos o que contraria o disposto na Constituição da República Portuguesa

Artigo 43.º
(Liberdade de aprender e ensinar)

1. É garantida a liberdade de aprender e ensinar.

2. O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas.

 Artigo 77.º
(Participação democrática no ensino)

1. Os professores e alunos têm o direito de participar na gestão democrática das escolas, nos termos da lei.

2. A lei regula as formas de participação das associações de professores, de alunos, de pais, das comunidades e das instituições de carácter científico na definição da política de ensino.

E, por essa razão, uma vez que os principais agentes da educação – os professores, nas escolas – não foram consultados ou ouvidos, nem lhes foi pedido qualquer espécie de contributo relativamente a este modelo de Avaliação de Desempenho dele ressaltam incoerências técnicas que, por não serem cabalmente compreendidas, ou por resultarem impraticáveis, mergulham o corpo docente em perplexidades e angústias provocando desestabilização de um modo geral e, dessa maneira, prejudicando, na prática, o trabalho com os alunos que deveria ser a sua prioridade.

De facto, à medida que o processo se vai desenvolvendo e o volume das obrigações acrescidas vai sendo desdobrado em múltiplas reuniões e sucessivas notas de serviço, com modelos de grelhas e de registos cujo preenchimento deverá tornar-se o quotidiano da tarefa docente, o corpo docente individual e colectivamente, em todos os graus da hierarquia, desde o Conselho Executivo, até ao simples Professor, passando pelo Professor/Titular/Avaliador percebeu já que o modelo é, não só impraticável, como danoso para o equilíbrio psicológico, físico e mental dos profissionais do ensino.

O facto de ser impraticável e de, apesar de tudo, a Escola estar a fazer todas as diligências para o tornar praticável é um absurdo e tem provocado um ambiente íntimo de desespero em todos e cada um dos docentes, ao mesmo tempo que vai fomentando danos graves e profundos no quotidiano da escola. Daqui resultam, como não podia deixar de ser consequências perniciosas no que concerne à qualidade prática de ensino e aprendizagem.

Ao carácter complexo e burocrático do processo, acrescenta-se o facto de a Escola não possuir condições efectivas de trabalho que o possibilitem, nomeadamente no que diz respeito à disponibilização de horas para tal efeito. Esta circunstância conduz a que, para além dos horários, já de si sobrecarregados, dos docentes, e da necessária preparação das aulas, da elaboração e correcção dos testes de avaliação entre outras tarefas correntes, os docentes vejam as suas horas de vivência sócio-familiar e de descanso seriamente comprometidas. Esta situação verificada e comprovada nesta data, em que a Escola tem feito todos os esforços para viabilizar o modelo de avaliação de desempenho imposto pelo Ministério da Educação viola, especificamente, o

 

Artigo 59.º

(Direitos dos trabalhadores)

 

Alíneas b), c) e d) da Constituição da República Portuguesa, cujo teor é o seguinte:

 

  1. Todos os trabalhadores, sem distinção de idade, sexo, raça, cidadania, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, têm direito:

 

b) A organização do trabalho em condições socialmente dignificantes, de forma a facultar a realização pessoal e a permitir a conciliação da actividade profissional com a vida familiar;

c) A prestação do trabalho em condições de higiene, segurança e saúde;

d) Ao repouso e aos lazeres, a um limite máximo da jornada de trabalho, ao descanso semanal e a férias periódicas pagas.

Viola igualmente o 

Artigo 67.º
(Família)

1. A família, como elemento fundamental da sociedade, tem direito à protecção da sociedade e do Estado e à efectivação de todas as condições que permitam a realização pessoal dos seus membros.

2. Incumbe ao Estado assegurar as condições de trabalho, retribuição e repouso a que os trabalhadores têm direito (nomeadamente):

h) Promover, através da concertação das várias políticas sectoriais, a conciliação da actividade profissional com a vida familiar.

O modelo de avaliação de desempenho, imposto aos professores pelo Ministério da Educação, impele fortemente à complexificação e traduz-se num crescente artificialismo, desviando a avaliação dos mais elementares princípios de equidade, justiça e universalidade, numa afronta acrescida à dignidade dos professores.

A avaliação entre pares, estabelecendo um sistema hierárquico artificial, através da distinção entre professores titulares e professores não titulares, dá lugar a situações inverosímeis que descredibilizam o próprio processo e lhe retiram qualquer legitimidade. De facto, o estatuto da Carreira Docente elimina esta noção de paridade pois discrimina os professores em dois grupos, a saber: Professores Titulares e Professores,

Artigo 34º do ECD

Natureza e Estrutura da Carreira Docente

2 – A carreira docente desenvolve-se pelas categorias hierarquizadas de:

a)      Professor;

b)      Professor Titular.

em que os segundos, apenas porque pontuaram mais no Concurso para Professores Titulares e não porque sejam mais experientes ou cientifica e pedagogicamente mais competentes, se transformaram automaticamente em avaliadores dos primeiros e logo detentores de um poder que elimina de imediato a paridade anunciada.

Por outro lado, o Artigo 10º do Estatuto da Carreira Docente estipula que o docente deve

            b) Orientar o exercício das suas funções por critérios de qualidade, procurando o seu permanente aperfeiçoamento e tendo como objectivo a excelência.

No entanto, contraditoriamente, a classificação, não apenas de Excelente mas também de Muito Bom, atribuída no termo do processo de avaliação de desempenho, encontra-se sujeita a quotas atribuídas às escolas, por sua vez baseadas na avaliação externa, o que, na prática, impedirá à esmagadora maioria dos docentes a obtenção dessas classificações, não podendo pois atingir o objectivo de excelência que a alínea b) do artigo 10º do ECD estabelece. Na prática, o docente trabalha para a excelência, realizando a multiplicidade de tarefas que a sua função exige e este modelo de avaliação multiplica e cumprindo a orientação da alínea citada do ECD, mas, mesmo sendo excelente, a sua prestação não conseguirá obter tal classificação por via das quotas!

Um outro aspecto nocional evidente, que põe em causa gravemente a credibilidade do próprio modelo, patenteia-se na inclusão dos resultados dos alunos no resultado da avaliação de cada docente, fazendo realçar assim a compreensão, nitidamente subjacente ao modelo, segundo o qual o sucesso educativo depende unicamente do professor. O peso do aproveitamento dos alunos no resultado da avaliação dos professores, que atinge na generalidade dos casos 7% do valor final obtido (podendo atingir os 10%), constitui um convite vicioso à distorção de práticas e processos, colocando os professores perante dilemas moralmente inaceitáveis, sugeridos por uma manifesta pressão para a consecução do sucesso educativo a todo o custo.

Ciente dos factores críticos que transcorriam do próprio modelo adoptado, o próprio Conselho Científico para a Avaliação de Professores (CCAP), nomeado pelo Ministério da Educação através do Decreto Regulamentar n.º 4/2008, de 5 de Fevereiro, veio recentemente (num relatório datado de Julho de 2008), patentear o reducionismo resultante da vinculação excessiva dos resultados dos alunos ao desempenho docente, lembrando que "a utilização dos resultados escolares e a análise da sua evolução, para efeitos de avaliação de desempenho, não deve desligar-se do contexto particular da turma e dos seus alunos, nem limitar-se, de forma alguma, a uma mera leitura estatística dos resultados", acrescentando que, "no contexto da complexidade do processo de aprendizagem, não é possível determinar e aferir com rigor até que ponto a acção de determinado docente foi exclusivamente responsável pelos resultados obtidos, conforme a literatura científica consensualmente refere".

No mesmo relatório (Princípios orientadores sobre a organização do processo de Avaliação do Desempenho Docente), e numa óbvia concretização das fundadas preocupações quanto à apressada e autocrática efectuação do modelo vigente, o CCAP avisa explicitamente o Ministério da Educação quanto ao "risco de a avaliação se constituir num acto irrelevante para o desenvolvimento profissional dos docentes, sem impacto na melhoria das aprendizagens dos alunos, que conviria evitar desde o início", prevenindo em suplemento para o que – neste ano lectivo – reproduz exactamente a realidade quotidiana das nossas escolas, representada no estrangulamento resultante da "burocratização excessiva, [na] emergência ou reforço de conflitualidades desnecessárias e [no] desvio das finalidades formativas e reguladoras que um processo de avaliação do desempenho profissional deve conter".

Por todas estas razões e apelando, por fim, ao disposto no Código de Procedimento Administrativo, Secção III, Da Invalidade do Acto Administrativo, Artigo 133º, Actos Nulos, que declara

1 – São nulos os actos a que falte qualquer dos elementos essenciais cominem expressamente essa forma de invalidade.

2 – São designadamente actos nulos:

c)      Os actos cujo objecto seja impossível, ininteligível (…);

d)      Os actos que ofendam o conteúdo essencial de um direito fundamental;

e)      Os actos praticados sob coacção.

os docentes da Escola Secundária c/ 3º CEB de Marco de Canaveses reivindicam a suspensão do modelo de avaliação de desempenho imposto aos docentes pelo Ministério da Educação.

 

 (Seguem-se as assinaturas.)

 

 

 

05 maggio

Lançamento de O Pulo do Lobo

 
 
                                                                                                                                                                                                                       
 
 
 Lançamento de O Pulo do Lobo
Biblioteca Albano Sardoeira
Amarante
 
(Da esquerda para a direita: Francisco Assis, euro-deputado, Armindo Abreu, Presidente da Câmara de Amarante, Hélder Carvalho, Professor de Filosofia, Regina Sardoeira, a autora - À esquerda de Francisco Assis, que co-apresentou o livro, estava Rui Grácio, o editor da Pé de Página que , no momento da apreentação, proferiu as palavras que transcrevo abaixo, como comentário ao livro que acabara de editar.)
 
 
                                                                                    
 
 
 
 
Comentário:
«O Pulo do Lobo» apresenta um enredo aparentemente simples. Todo ele gira em torno do encontro de duas pessoas — uma mulher e um homem — que se cruzam num local carregado de simbolismo para ambos e que está associado aos ritos de passagem que a existência de cada um destes personagens lhes exige.

Mas, ter-se-á notado, referi que o enredo é aparentemente simples. Porque, de facto, o seu desenrolar, mais do que se transformar numa novela em que se sucedem acontecimentos e novos episódios, remete constantemente, e de uma forma implícita, para uma meditação sobre a existência.

A mulher que escreve este livro é, de facto, filósofa, no sentido em que gosta de dimensionar a realidade através da turbulência da problematicidade. Mas, ao contrário da ideia generalizada que se tem dos filósofos, é na dimensão prática, ligada à vida e às pessoas, aos sentires e aos conflitos, que reside o campo onde vale a pena actuar filosoficamente.

Criação literária, a presente ficção é também a aplicação de uma atitude filosófica. Uma aplicação não explícita, ou seja, que não tem o fim em si mesma, mas implícita, no sentido de sem ser preciso invocar abertamente a filosofia, a autora faz aparecê-la na sua indissociabilidade com a vida, mesmo da vida mais aparentemente mundana.

De facto, a existência das personagens principais — Joana e Sérgio — carrega o peso de percursos traumáticos («ambos estamos feridos pela vida», p. 73, ou «soube que transportávamos abismos semelhantes», p. 83) e partilha a mesma vontade de libertação dos grilhões dos traumas, de ultrapassagem da barreira do sofrimento, de reconciliação com a vida e com a serenidade.

Mas, estas dimensões psicológica e sociológica das personagens —, geograficamente enquadradas no espaço em que são referências Mértola e Sevilha — são magistralmente exploradas e doseadas na sua desocultação, na construção do suspense da narrativa e conduzem, afinal, a questões de maior alcance existencial.

Estas, por um lado, evidenciam-se como dilemas éticos quando a tónica é posta na tensão conflitual da articulação entre a carne e o espírito.

Refira-se, aliás, que esta é uma dualidade que percorre, como tensão constante, todo o livro e é, curiosamente, acompanhada de uma reincidente alusão ao imperativo categórico de Kant.

No entanto, revelando-se a vertente ética algo insuficiente, assoma também a dimensão da religião, com tudo o que ela transporta: a relação com o todo, a reintegração do homem no sentido, a existência como missão, a sede de transcendência, a relação com o absoluto.

Literariamente, queria sublinhar de novo a forma simultaneamente suave, doseada e cativante como a autora nos vai desvendando a vida que as personagens carregam, a encruzilhada existencial que enfrentam e os passos do trabalho de exorcismo que, na forma de uma comunhão improvável, se acaba por estabelecer.

Com uma escrita que nos envolve na curiosidade e no suspense, em capítulos bem proporcionados que diversificam a acção e tornam fluente a narrativa, com um domínio apreciável da técnica que integra os diálogos no correr do texto sem o recurso aos tradicionais travessões ou à referência necessariamente explícita a quem está a falar, a autora alia a densidade dos temas existenciais suscitados pelo percurso das suas personagens com o prazer da palavra que, transposto para o leitor, fornece a este a possibilidade de uma fruição literária estimulante e enriquecedora.

Por todas estas razões, foi com agrado que pudemos acolher a Regina Sardoeira como nova autora da Pé de Página Editores e, sabendo que ninguém escapa a lei de que os caminhos se fazem caminhando, contamos que este seja um passo tão promissor como fecundo, que é como quem diz, que novos trabalhos — pois de trabalho se trata — possam nascer e chegar à partilha com os leitores.

Rui Grácio
 
 
 
Ouvir estas palavras proferidas exactamente por aquele que assumiu publicar a obra em primeiríssima escolha -não tive necessidade de recorrer a nenhuma outra editora, nem de usar a influência fosse de quem fosse - fez-me augurar um futuro promissor para o livro, assim comentado pelo próprio editor que também é escritor, que também pode considerar-se filósofo. E contudo já lá vão dois anos e o livro dorme nas prateleiras da casa que o fez nascer!!!
Além disso, Francisco Assis, que, para além de político conhecido do público em geral, é filósofo e que, acreditem, não se expõe publicamente por uma insignificância qualquer, também ali esteve e falou de improviso sobre a obra que leu, que meditou e que compreendeu. Comentou-a magistralmente, de improviso, como disse, pelo que não tenho o texto exacto para transcrever; e mesmo o elemento mais jovem da mesa, também ele professor de filosofia e quem sabe? potencial filósofo soube dar testemunho de um livro que o tocou.
Há muitos livros, bem sei, demasiados talvez; eu também leio, sabem, e longos anos de prática na leitura e na escrita dão-me um certo estatuto, a saber: sei distinguir o bom do mau, o literário do não-literário, o útil do inútil, o perene do efémero. É lamentável que este livro, este Pulo do Lobo, assim engalanado pelas palavras dos outros, se perca, incógnito, na poeira de certos gabinetes, enquanto a pseudo-literatura vai ganhando terreno! (Ganhará? De vez em quando não sei se ser um best-seller, neste nosso mundo, não será pior do que estiolar no abandono...de qualquer modo, enquanto achar que vale a pena, lutarei pelo meu livro!)

 

18 novembre

Online

 

 

 

                                                                   

                                                                                                                                                                                                                

                                                                                 René Magritte, Ao Encontro do Prazer

 

 

 

 

Ora bem: hoje vou escrever o texto que julgo faltar, quando se cumpre aproximadamente um ano e nove meses de vigência desta minha página. Vou falar da ética da internet e do messenger, vou tentar expor um conjunto de ideias sobre o que me parece ser a dominante comum dos frequentadores destes meios de comunicação.

Fá-lo-ei utilizando um exemplo e contando uma história.

Por razões profissionais (sou professora de Filosofia), convivo diariamente com jovens, muito jovens, naquela faixa etária tida como crítica, pois se situa entre os 14 e os 17 anos de idade. Se, de qualquer modo, conhecem as peculiaridades desta geração e se, por outro lado, são capazes de conceber o que significa iniciar adolescentes na tarefa do pensamento, talvez consigam situar-se no contexto da minha narrativa.

Aconteceu na sexta-feira passada, dia 16 de Novembro, por volta das 16 horas da tarde, quando decorria a penúltima das minhas aulas do dia. Veio a lume o tema da internet, do messenger e dos diálogos online e, de um modo natural, achei por bem alertar os alunos para as potenciais fraudes ou mesmo para os perigos inerentes ao uso destas ferramentas, de um modo leviano.

Foi então que uma das minhas alunas – jovem de 14 anos, de olhar vivo e corpo franzino – me disse o seguinte:

- Posso contar-lhe o que me aconteceu há dias quando estava no messenger?

Dei-lhe autorização, e ela continuou:

- Estava a falar com um homem e ele pediu-me que ligasse a câmara pois ia ligar também a dele… sabe o que eu vi que ele estava a fazer?

Fiquei à espera.

- Posso dizer, exactamente, as palavras que eu conheço? Não leva a mal?

Dei-lhe autorização.

- O homem estava para ali a “bater uma punheta”! E era um velho, professora, ainda se fosse novo…

Houve uma reacção moderada à revelação, o que me levou a concluir que aquele grupo de jovens não era muito alheio a semelhantes ocorrências; contei, inclusivamente, com o auxílio pronto de dois rapazes que ensinaram a colega:

- Não é assim que se diz… ele estava a masturbar-se!

Vim para casa com uma série de pensamentos contraditórios, e até hoje não decidi se vou ou não tratar o assunto pelas vias pedagógicas, lançando um alerta aos pais que assim dotam os filhos de instrumentos de trabalho cujas virtualidades desconhecem e de cuja utilização não fazem o necessário controlo.

De qualquer modo, esta experiência veio ao encontro de certas reflexões que tenho levado a cabo nestes últimos dias e que versam a ética muito específica dos utilizadores da internet e do messenger. Por isso, decidi partilhá-la com os leitores e tecer algumas considerações.

Há algum tempo a esta parte apercebi-me da existência do navegador solitário destes rios, quantas vezes lamacentos e pútridos, e que são estas mesmas águas nas quais também viajo e no contexto das quais tenho encontrado alguns vizinhos e companheiros. Verifiquei a existência de uma linguagem padronizada, recheada de expressões e ícones e também a forma fácil e até despudorada com que as pessoas se exibem (ou se ocultam, mostrando exactamente o que não são). Sei que, a coberto de uma espécie de anonimato e sabendo usar as palavras certas, é possível estender mantos de sedução até ao outro lado e desencadear uma rede de fascínio muito peculiar em que o incauto pode cair ou, se não é inocente, partilhar o jogo até onde for capaz.

Houve uma altura em que pensei: afinal, não há diferença nenhuma entre conhecer uma pessoa na Internet ou, por exemplo, na rua, numa festa, num café…Se este contacto for o ponto de partida para o encontro face a face… porque não?

Mas depois entendi algumas coisas: primeiro que a sedução online, parecendo vigorosa, verdadeira, extrema, ao transitar para o dia a dia (se transitar) torna-se numa miragem, num vazio, num engano. Entendi que as ligações online são fáceis e que quando nasce o desejo de as confrontar com a palpabilidade do encontro ao vivo tudo se desvanece, nada começa, nada se realiza ou, quando se intenta uma tal aventura, raramente ela é coroada de sucesso para ambas as partes. Entendi que na maioria dos casos, o cibernauta solitário prefere continuar o jogo online em vez de o travar na vida quotidiana ou então, satisfeita a curiosidade de ver com os olhos ou, quem sabe? até tocar com o corpo a/o interlocutor(a) do teclado, já não quer voltar a vê-la(o) porque se habituou à face mascarada e não gostou do que viu do outro lado, e muito menos quer abrir as suas portas. Entendi que não se consegue passar daqui, desta virtualidade simultaneamente fascinante e odiosa, para os caminhos árduos das relações verídicas, travadas a dois, no jogo real do mundo concreto. Ou, se acaso alguém o conseguir, essa será a excepção e nunca a regra.

Vejo, com espanto e temor, que os jovens e os menos jovens iniciam e terminam relações através das sms e do messenger; que nem se dão ao trabalho de confrontarem face a face os sentimentos que desencadearam no outro e deixaram morrer em si; que se engendram sentimentos virtuais, que se faz sexo virtual, usando uma linguagem esteriotipada, que serve para toda a gente. Percebo que é possível estar online com várias pessoas ao mesmo tempo, envolvido numa espécie de orgia cibernética e dizer e enviar tudo o que se quiser, oculto que se está no anonimato, num nickname, numa fotografia falsa, numa mistificação, doentia e corrosiva, por um lado, tentadora e fascinante, por outro.

Percebo que é necessário muito mais tacto e elevação moral quando conhecemos alguém por este meio, do que nos processos tradicionais de encontro, enamoramento e assumpção de relacionamento; mas percebo também que o que acontece geralmente é o contrário, pois a ética e a moral ficam às portas do messenger, absolutamente anuladas quando nos espreita apenas uma fotografia no canto superior direito do ecrã , pois nada daquilo é a sério, aquilo  não é uma pessoa, mas mais um ícone como os que temos à mão para substituir as palavras. Os valores e os princípios da ética e da moral apanham-se mais tarde, quando se desliga o botão e vamos, offline, continuar a vida com pessoas a sério.

Depois de perceber isto tudo através de uma pesquisa em que usei de disfarces para aferir as minhas convicções, em que deixei o jogo iniciar-se para o travar no momento certo (nunca lesei ninguém, nunca iludi fosse quem fosse, testando deste modo e de forma positiva a força dos meus próprios padrões éticos) não deixei de usar a internet, nem fechei a minha página ou o messenger, pois reconheço a tais ferramentas virtudes indispensáveis ao nosso tempo. No entanto, tornei-me ainda mais céptica do que era antes, no que concerne ao carácter do ser humano.

Eu já ouvira histórias de orgias ao vivo, de trocas de casais, de partilha de mulheres e de homens em relações ambíguas, para lá do que, de vez em quando, extravasa do pequeno ecrã para a minha sala de estar; mas acreditava que tais situações decorriam de um esvaziamento intelectual e moral próprio de certas áreas sociais e de certos grupos humanos bem definidos. Regozijava-me por me sentir numa outra esfera de interacção humana e de toda essa sub-vida ou quem sabe? de  todo esse prodigioso surto de imaginação sexual activa; de repente, olho para o lado e lá estou eu a teclar palavras numa máquina, lá estou eu tornada testemunha de romances online, e, pior ainda: vejo os jovens muito jovens que eu devo despertar para a vida viciados nestas dimensões reles da existência e absolutamente incapazes de alinhavar um pensamento existencial coeso.

Eis o que queria partilhar com os meus leitores de ocasião nesta espécie de fórum onde me movimento por razões que creio elevadas, mas por onde, de tempos a tempos, perpassa o bafo de atmosferas decididamente muito mais baixas que a minha e virtualmente desprezíveis.

 

 

 

 

26 ottobre

A leveza ou o peso?

 

                                                                                                                                                                   

                             

 

 

 

 

 

                                                           

 

 

                         

 

                                                                                                                           René Magritte

                                                                                                                                         

 

                                                                    

 

                                                                         1

 A ideia do eterno retorno é uma ideia misteriosa, e uma ideia com a qual
Nietzsche muitas vezes deixou perplexos outros filósofos: pensar que tudo se
repete da mesma forma como um dia o experimentamos, e que a própria
repetição se repete ad infinitum! O que significa esse mito louco?

De um ponto de vista negativo, o mito do eterno retorno afirma que uma vida
que desaparece de uma vez por todas, que não retorna, é como uma sombra -
sem peso, morta de antemão; quer tenha sido horrível, linda ou sublime, o seu
horror, sublimidade ou beleza não significam coisa alguma. Uma tal vida não
merece atenção maior do que uma guerra entre dois reinos africanos no século
XIV, uma guerra que em nada alterou os destinos do mundo, ainda que centenas
de milhares de negros tenham perecido em excruciante tormento.

Algo se alterará nessa guerra entre dois reinos africanos do século XIV, se
ela porventura se repetir sempre, retornando eternamente?

Sim: ela se tornará uma massa sólida, constantemente protuberante,
irreparável na sua inanidade.

Se a Revolução Francesa se repetisse eternamente, os historiadores franceses
sentiriam menos orgulho de Robespierre. Como, porém, lidam com algo que
jamais se repetirá, os anos sangrentos da Revolução transformaram-se em
meras palavras, teorias e discussões; tornaram-se mais leves que plumas,
incapazes de assustar quem quer que seja. Há uma diferença infinita entre um
Robespierre que ocorre uma única vez na história e outro que retorna
eternamente, decepando cabeças francesas.

Concordemos, pois, em que a ideia do eterno retorno implica uma perspectiva
a partir da qual as coisas se mostram diferentemente de como as conhecemos:
mostram-se privadas da circunstância atenuante de sua natureza transitória.
Essa circunstância atenuante impede-nos de chegar a um veredicto. Afinal,
como condenar algo que é efémero, transitório? No ocaso da dissolução, tudo
é iluminado pela aura da nostalgia, até mesmo a guilhotina.

Não faz muito tempo, surpreendi-me experimentando uma sensação absolutamente inacreditável.

 Folheando um livro sobre Hitler, comovi-me com alguns dos seus retratos: lembravam a minha infância.

 Eu cresci durante a guerra; vários membros de minha família pereceram nos campos de concentração de Hitler;

 mas o que foram as suas mortes comparadas às memórias de um período já perdido de minha vida, um período que jamais retornaria?

Essa reconciliação com Hitler revela a profunda perversidade moral de um
mundo que repousa essencialmente na inexistência do retorno, pois, num tal
mundo, tudo é perdoado de antemão e, portanto, cinicamente permitido.

                                                                               2

Se cada segundo de nossas vidas se repete infinitas vezes, somos pregados à
eternidade feitos Jesus Cristo na cruz. É uma perspectiva aterrorizante. No
mundo do eterno retorno, o peso da responsabilidade insuportável recai sobre
cada movimento que fazemos. Foi por isso que Nietzsche chamou a ideia do
eterno retorno o mais pesado dos fardos (das schwerste Gewicht).

Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, então as nossas vidas
contrapõem-se a ele em toda a sua esplêndida leveza.

Mas será o peso, de facto, deplorável, e esplêndida a leveza?

O mais pesado dos fardos esmaga-nos; sob seu peso, afundamos, somos pregados ao chão. E, no entanto, na poesia amorosa de todas as épocas, a mulher anseia por sucumbir ao peso do corpo do homem. O mais pesado dos fardos é, pois, simultaneamente, uma imagem da mais intensa plenitude da vida. Quanto mais pesado o fardo, mais as nossas vidas se aproximam da terra, fazendo-se tanto mais reais e verdadeiras.

Inversamente, a ausência absoluta de um fardo faz com que o homem se torne
mais leve do que o ar, fá-lo alçar-se às alturas, abandonar a terra e a sua
existência terrena, tornando-o apenas parcialmente real, os seus movimentos tão
livres quanto insignificantes.

O que escolheremos então? O peso ou a leveza?

Parménides levantou essa mesma questão no sexto século antes de Cristo. Ele
via o mundo dividido em pares opostos: luz/escuridão, fineza/rudeza,
calor/frio, ser/não-ser. A uma metade da oposição, chamou positiva (luz,
fineza, calor, ser); à outra, negativa. Nós poderíamos achar essa divisão em
um pólo positivo e outro negativo infantilmente simples, não fosse por uma
dificuldade: qual é o positivo, o peso ou a leveza?

Parménides respondeu: a leveza é positiva; o peso, negativo.

Tinha ou não razão? Essa é a questão. Certo é apenas que a oposição
leveza/peso é a mais misteriosa, a mais ambígua de todas.

                                                                       3

Há muitos anos venho pensando em Tomas, mas somente à luz dessas reflexões
pude vê-lo claramente. Vi-o, postado junto à janela de seu apartamento,
olhando através do pátio para as paredes do outro lado, sem saber o que
fazer.

Ele conhecera Teresa umas três semanas antes, numa cidadezinha checa. Não
haviam passado sequer uma hora juntos. Ela acompanhara-o até à estação,
aguardando a seu lado até que ele embarcasse no trem. Dez dias mais tarde,
foi visitá-lo. Fizeram amor no dia em que ela chegou. À noite, ela caiu de
cama com febre e, gripada, passou uma semana inteira no apartamento dele.

Tomas acabou por nutrir um amor inexplicável por aquela completa
desconhecida; ela parecia-lhe uma criança, uma criança que alguém colocara
num cesto de vime revestido de alcatrão e enviara rio abaixo, para que Tomas o
apanhasse às margens de sua cama.

Teresa ficou com ele uma semana, até se recuperar, regressando em seguida
para a sua cidade, a uns duzentos quilómetros de Praga. E chegou então o
momento que mencionei há pouco e que vejo como a chave de sua vida: postado
junto à janela, ele olhava por sobre o pátio para as paredes defronte,
ponderando.

Devia chamá-la de volta a Praga para sempre? Temia a responsabilidade. Se a
convidasse, ela viria, oferecendo-lhe a própria vida.

Ou devia evitar uma aproximação? Nesse caso, ela permaneceria sendo uma
empregada num restaurante de hotel de uma cidade do interior, e ele jamais a
veria de novo.

Queria ou não que ela viesse?

Olhando por sobre o pátio para as paredes defronte, ele procurava uma
resposta.

(...)

Olhando por sobre o pátio para as paredes sujas, Tomas percebeu que não
tinha a menor ideia se aquilo era histeria ou amor.

E afligiu-se por, numa situação na qual um homem de verdade saberia de
imediato como agir, estar vacilando e privando de seu sentido os momentos
mais belos que já vivera (ajoelhado à beira da cama, pensando que não
sobreviveria se ela morresse).

Irritou-se consigo próprio, até perceber que, na verdade, era bastante
natural que não soubesse o que queria.

Jamais nos é possível saber o que queremos, pois, vivendo uma única vida,
não podemos compará-la às nossas vidas anteriores, ou aperfeiçoá-la em vidas
futuras.

Era melhor ficar com Teresa ou sozinho?

Não há como testar qual decisão é a melhor, porque não há base para
comparação. Vivemos as coisas conforme elas se apresentam, desavisados, 
como um actor entrando frio em cena. E de que vale a vida, se o primeiro
ensaio para ela é ela própria? É por isso que a vida é sempre como um
esboço. Não, "esboço" não é bem a palavra, porque um esboço constitui-se das
linhas gerais de alguma coisa, a base de uma pintura, ao passo que esse
esboço que é a nossa vida é um esboço de coisa alguma, linhas gerais de
pintura nenhuma.

Einmal ist keinmal, diz Tomas a si mesmo. O que só acontece uma vez, afirma
o provérbio alemão, melhor seria que não tivesse acontecido. Se temos uma
única vida para viver, melhor seria não ter vivido.

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Milan Kundera, A insustentável leveza do ser, Parte 1, capítulos 1, 2 e 3 (trecho). A tradução acima, de Sergio Tellaroli (a partir da edição inglesa: The Unbearable Lightness of Being, London, faber and faber, 1987, translation from the Czech by Michael Henry Heim), é apenas um exercício.

30 settembre

VER AS PRÓPRIAS COSTAS...

 
 
 
VER AS PRÓPRIAS COSTAS...
 
 
Se só tivermos as palavras para tecer as pontes da comunicação, o universo do diálogo fica inevitavelmente truncado. Se ainda por cima ignorarmos os rostos daqueles com quem falamos ou se, mesmo conhecendo-os, usamos um processo mediato de conversa como é este da escrita e não conseguimos juntar à palavra dita a expressão do rosto, o trejeito da boca, ou as rugas que a emoção imprime na face daquele que dialoga, então nunca saberemos a verdadeira substância do diálogo. Sendo assim, digam-me, valerá a pena ainda falar para os outros, esperar que nos respondam e valorizar, como verdades, o que nos dizem?
Por mim, respondo que sim, que vale. Por isso  e para isso abri este espaço de convívio e obstino-me há oito meses em prosseguir.
Senti, no entanto, vontade de fazer uma espécie de análise do que tem acontecido. Reparo que por aqui tem passado um ínfimo nímero de leitores se me ativer aos que, passando, comentam. Sei, porque me foi dito, que outros aqui têm vindo... mas esses, e eventualmente  outros de quem não sei o nome, não escrevem nada... nem a isso são obrigados, é claro!
Mas atentem agora no sentido destes espaços que a web nos faculta. Eles existem para possibilitarem troca, para criarem ocasiões de diálogo e, quem sabe? fazer despontar nos outros a chama que parecia apagada e  bruscamente irrompe! Quantas pessoas têm muito que dizer e não o fazem por não  terem interlocutores disponíveis? Quantas pessoas vivem perdidas nos seus dramas, anelando pelo convívio e não encontrando fraternidade à sua volta?
Ainda por cima, aqui, o anonimato pode sempre manter-se! Nada, nem ninguém obriga o comentador -  ou interlocutor como eu prefiro chamar-lhe -  a expor-se!
Acabei, então, por tomar uma decisão.
Sou, para quem vier a ler-me, não me conhecendo de facto, uma profissional do diálogo... O que é isso?, perguntarão com toda a pertinência. Di-lo-ei então usando a designação comum: sou professora! Mais: a minha área é a filosofia e a psicologia, as quais  me colocam diariamente numa postura privilegiada de diálogo. Não, eu não dou matéria, não faço semelhante atentado a uma função tão sagrada como é a minha; muito simplesmente apresento os conteúdos programáticos como proposta de reflexão e de investigação, como abertura para o momento culminante da interacção. Quem for para as minhas aulas com  outras expectativas cedo se desenganará!
Então, eu convido os meus leitores habituais e os outros a encararem este space e este blog como um forum de análise existencial onde os textos serão pretextos para a abertura das fontes ocultas do ser e portas para a resolução de conflitos, problemas e tragédias! Se acharem que vale a pena, divulguem-no aos vossos amigos, tragam outros até aqui para que esta minha tarefa diária de escrever não seja um mero exercício narcísico!
Há quem diga muito mal dos contactos nascidos e alimentados por esta via... há quem faça destes foruns um espectáculo deprimente de banalidades e perversões! Por outro lado, quando o estilo é elevado, o leitor comum asusta-se ou enche-se de tédio e procura outro alimento. Mas, a solidão persiste, porque lá, nesses spaces e nesses blogues onde se pega na vida pela rama, os interlocutores não passam de espelhos das misérias e das fraquezas recíporocas... eu sei porque já passei os olhos por alguns!
Hoje convido os frequentadores  deste meu space, a interagirem comigo e a falarem sem rebuço do que os aflige ou do que lhes enche a alma de júbilo... a todos aceitarei , a todos darei a minha palavra com prazer... porque é essa a minha missão na vida! E... não, é claro não vou dar aulas de filosofia... não tenham medo... a menos, é claro, que mas peçam!
Fico, portanto, à vossa espera!