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28 febbraio A MOSCA (2)
A MOSCA (2)
- Beijinhos castos e repenicados... - Desses não quero! E com este diálogo virtual encontrou um motivo para se indispor definitivamente com o mundo. Desses não quero, escrevia arrogantemente o jovem de olhos verdes, sensual e inteligente, que se sentava na fila de trás de uma das suas turmas, desses não quero, ousava ele responder à frase, um pouco tímida, um pouco provocante, com que lhe desejara boas noites. Por dentro riu-se muito e mesmo sendo as suas gargalhadas um eco fantástico, pois não saíam dos côncavos da sua intimidade e logo ninguém a não ser ela poderia escutá-las, eram sons pavorosos e ela percebia à saciedade que era bem mais ou bem menos que um ser humano naquelas horas inesquecíveis em que percebeu de uma vez por todas o sentido da sua onda afectiva. Reflectiu, numa miscelânea de pasmo e de gáudio, sobre o incidente do inesperado remoque aos seus beijinhos castos e repenicados e, ainda que a sua dignidade de mestre lhe desse o direito à indignação, no fundo, naquele fundo tortuoso onde a mosca continuava a zumbir pelos desníveis incontroláveis da sua existência nocturna, o prazer da resposta atrevida do jovem perverso transformou-se no pano de fundo da sua vigília. Entretinha-se em sonhos delirantes em que agarrava o rapaz com as suas mãos pequenas, mas que sabia muito bem como transformar em garras, e onde devorava os lábios túmidos e vermelho escuro (ela tinha-o observado à saciedade), não com a castidade prometida na fórmula infeliz e muito menos com a sensaboria do som repenicado mas num autêntico ápice devorativo em que não se coibia de lhos morder, fazendo esguichar o sangue que adivinhava túrgido e quente. Espantoso! Nos dias seguintes, foi para aquelas aulas com uma inusitada expectativa, ela, que usava manter-se hirta e formal ou ainda falsamente meiga - só o seu íntimo conhecia de que modo a ternura que espalhava através dos olhos (que conseguia adornar de doçura) era desprezo e repugnância, dos quais tinha que lavar-se demoradamente logo que chegava a casa. E um dia a tentação maliciosa ganhou corpo e ela convidou o jovem galante para a sua casa. - Eu chamo-me Vénus, ouviste? - Vénus? - Sim… não sabes que esse planeta é exactamente o contrário da deusa do amor? Chuva de aço sulfúrico e gases mortíferos...sabias? Apesar da ousadia da resposta aos beijos castos e repenicados (desses não quero) o jovem sedutor estava ali estarrecido de timidez e pavor. Ela bem viu e ao mesmo tempo a mosca zumbiu-lhe nas entranhas, mesmo no centro, um pouco acima do umbigo, ela soube que se colocasse os dedos nessa zona íntima sentiria as curvas do voo vibrátil do insecto e esforçou-se para impelir as asas translúcidas e irisadas, de um verde semelhante ao pontilhamento dos seus olhos, com que a mosca adejava silenciosamente ao nível superior das vísceras, para o fundo, mais para o fundo, pois o jovem estava ali, entregue e confuso, e ela teria que conduzi-lo aos próprios abismos. - Chuva de aço sulfúrico e gases mortíferos? - Sim, aprendeste depressa, queres ver? Vénus estava transfigurada, pintara a face com uma camada espessa de maquilhagem branca, os lábios muito finos eram um rasgão negro na alvura do rosto e os olhos, envolvidos em eye-liner negro, pareciam despedir chispas multicolores. Pela primeira vez o jovem viu os raios verdes a tecerem ondas soporíferas no espaço à sua volta, ondas que provinham, como chispas, dos olhos dela. Nem reparou na brancura irrepreensível do espaço, onde se detinham, os dois, em pé, no centro de uma sala imaculada, toda pintada de branco, com móveis também brancos e apenas um grande tapete negro no centro, local onde ela se postara, rígida, também vestida de negro da cabeça aos pés. Olhou para trás, calculando a distância que o separava da porta, sentiu um arrepio na espinha, apesar do calor que o ambiente exalava e, antes de sair, ainda ouviu a gargalhada diabólica daquela Vénus inesperada, gargalhada que estivera presa durante anos e bruscamente ribombou pelas paredes. (A protagonista desta história é uma vilã, como vêem, e ainda que seja uma figura inventada, foi tecida de fragmentos tirados de gente real. E sabem uma coisa? Agora que lhes tirei o véu, a todos esses vilões, descobri que não é fácil retratar a hediondez, quando a estética ainda é o fundo criativo e a realidade consegue sempre superar, em perfídia, o mais monstruoso dos vilões ficcionados…serei capaz de aguentar com o veneno insidioso desta Vénus de olhos raiados de verde e hábitos de monja gótica? Veremos!) 28 gennaio A Mosca
Jackson Pollock (Homenagem ao aniversário do pintor)
A MOSCA
Quando tinha quinze anos a vida dela mudou, embora, naquele dia exacto em que, por assim dizer, nasceu de novo, o único incidente, desagradável a princípio e vagamente repugnante nas horas e nos dias seguintes, foi ter engolido uma mosca. Recordava o caso com todos os pormenores. Era Verão, o meio de Julho, escaldante e sem brisa, ela estava sentada, no alpendre da casa de campo onde vivia, com um livro, cuja leitura interrompia a espaços, pois não conseguia evitar os bocejos cada vez mais prolongados. Tinha saído de casa ao princípio da tarde para dar um passeio até ao ribeiro que serpenteava nos limites da propriedade e, para tal, atravessara o jardim onde as rosas marcavam presença e muitas outras flores cujos nomes ignorava, mas cujo odor mesclado lhe provocou um início de náusea, franqueara o pequeno portal que dividia o jardim do prado e dera uns passos hesitantes pelo meio da erva. Sentia-se estranhamente apática e o seu olhar, em geral doce ou errático, estava mortiço, como se necessitasse urgentemente de um motivo de excitação ou se, pelo contrário, fechar os olhos e dormir tivesse poder para lhe devolver a vivacidade. Sacudiu os cabelos lisos de um ruivo escuro, entremeados de madeixas francamente vermelhas, que usava cortados de modo assimétrico com umas mechas soltas quase a tapar a testa oblonga. Bocejou uma vez, entreabrindo a boca pequena de lábios finos e sibilinos e abriu os braços, numa espreguiçadela voluptuosa, erguendo o corpo esguio para um céu alvacento, semeado de nuvens minúsculas, impotentes para deter a secura tórrida do sol que lhe pareceu um vingador impiedoso do seu tempo, ali perdido. Voltou para trás, evitou o perfume obsceno do jardim, contornando a cerca, e optou pela frescura relativa do alpendre onde o livro esquecido lhe cativou, por algum tempo, a atenção dispersa. Leu trechos soltos de O Crime e Castigo de Dostoievski, e um prazer violento afastou a sonolência impenitente, perante a febre de Raskolkinov e deleitou-se barbaramente com os rasgões do sofá onde ele revolvia a sua necessidade insana de provar a si mesmo que estava para lá do bem e do mal, que era um Napoleão e não um piolho rançoso, cujo esmagamento o grande tem obrigação absoluta de levar a cabo. Amava Raskolkinov, assim mesmo como lhe aparecia, pálido mas de olhos brilhantes de febre e de maldade, mas odiava-o por não ter sido capaz de permanecer à altura do seu crime e odiava ainda mais a doce Sónia, sedenta de redenção. Detestava doçuras messiânicas, era dura e cruel, embora disfarçasse os seus infernos, os seus rasgos de ódio e a sua pulsão brutal para a violência, com o pestanejar submisso dos olhos que tinha grandes e belos, falsamente doces, falsamente indiciadores de bondade. Costumava orlá-los de eye-liner negro, para fazer sobressair a profundidade das pupilas aveludadas de um castanho suave e, mesmo detestando do fundo do coração, que sabia ter apertado e duro, todo aquele que lhe procurava o rosto e mergulhava na pureza dos seus olhos, não deixava de os ornamentar para si mesma, pois amava-se acima de tudo e a si mesma apenas queria coroar de afecto. Apesar do mórbido fascínio pelo livro amachucado, lido e relido até aos limites da resistência intelectual, porque nada de sentimental conseguia adequar ainda às palavras repisadas, o bocejo regressou, e a náusea, e o tédio, e foi nesse preciso instante que a mosca lhe desceu pelo nariz demasiado fino, e contudo aquilino, um nariz detestável, de falso judaísmo fisionómico, e com um zumbido discreto lhe entrou pelos lábios ressequidos. A surpresa foi de tal ordem, que só conseguiu fechar a boca e tentar cuspir o insecto, ainda vivo, preso na armadilha da saliva; mas, num desnorteamento plausível, a mosca continuou o seu caminho, sempre em frente, desceu pela garganta cálida e nunca mais pôde sair. Não teve nojo, nem procurou estimular o vómito para libertar-se do que acabara de entrar-lhe no estômago; pelo contrário, um prazer inesperado foi nascendo da leve cócega que sentia nas paredes surpresas do esófago, na suave irritação dos seus fluidos estomacais, decerto confusos perante o vivo e inusitado alimento. Depois esqueceu tudo. Na noite desse dia, uma quinta-feira, sabia-o bem, pois era quando podia, sem sobressaltos ou medos encontrar o rapaz, com quem se entretinha num namoro impreciso, já que a regularidade odiosa dos hábitos do pai inventara um calendário de saídas e aquela era a noite do cinema, dedicada à mãe, que se libertava por umas horas da escravidão do lar e podia vestir um traje de semi-gala e ostentar as suas pérolas, em geral guardadas no pequeno relicário, feito para efígies de santos, mas profanamente usado no resguardo de anéis pulseiras e outras bugigangas de valor variável, saiu para os lados obscuros do ribeiro, na orla do prado, onde costumava deixar-se beijar e tocar nas parcas incursões do inocente e ingénuo púbere, que não lhe interessava nada mas lhe entretinha o tédio aflitivo das suas horas de então. O jovem apareceu, ansioso, e via-se que o incendiava uma verdadeira paixão pela cruel criatura de olhos mascarados e ela deu-lhe a mão, fingindo uma ternura que parecia emanar da pele acetinada dos seus dedos, do rubor indeciso dos seus lábios finos. Mas quando, encostados a um plátano centenário, cujo tronco, almofadado de um musgo cálido lhes parecia um doce cetim, os lábios dele lhe tocaram voluptuosamente a face e depois a boca, ela pensou na mosca viva que engolira há umas horas atrás e esse pensamento inapropriado, pois a boca que estava a ser beijada era a mesma por onde o insecto entrara e onde decerto ainda pairava um ou outro átomo dele desprendido, encheu-a de júbilo maldoso, pois sabia que o jovem namorado estava de todo inocente das incursões da mosca por aquela boca que agarrava com fervor e que à dele começou a render-se com paixão desusada. Não conseguia rir-se como desejava, pois tinha os lábios ocupados numa sucção desmedida, mas o seu coração, duro e apertado, começou, naquele momento, a dilatar-se e ela soube que estava a soltar gargalhadas estrepitosas, bem no fundo de si, e que isso não podia ser, pois nenhum som lhe saía da garganta presa. Percebeu que, por um estranho e ainda inviolado segredo, a mosca estava assimilada aos seus órgãos vitais, que a mosca dançava e zumbia nas suas veias e pulsava no ritmo pausado do seu coração e vibrava na textura fina dos seus pulsos e do seu sexo. Sentiu-se feliz! Depois acabou o Verão e ela esqueceu a quinta-feira perdida numa bruma turva e cálida e nesse esquecimento foi também a memória do primeiro beijo verdadeiramente vivo da sua existência, um beijo mordaz e cínico, pleno de gargalhadas viscerais e onde a mosca engolida, com todo o seu arsenal de imundície e zumbidos, lhe ditou as linhas do seu autêntico carácter. Tornou-se vegetariana a partir daquela noite, nunca mais conseguiu suportar o odor e a coloração de todos e de cada um dos pratos de carne ou peixe que até então comia sem reservas. Nem tão-pouco era capaz de olhar os pedaços de vitela ou de porco expostos nas vitrinas dos talhos ou os olhares mortiços dos peixes viscosos arrebatados ao seu meio e como que perdidos em armadilhas de gelo. Indiferente aos pais, que deixaram por completo de compreender as suas excentricidades, saiu de casa em definitivo quando entrou para a universidade e, a partir desse momento, tornou-se dona de si própria em todos os sentidos. Alugou um pequeno estúdio cuja renda pagava fazendo trabalhos de tradução em part-time, tornou aquele espaço decrépito num santuário brilhante de limpeza e austeridade e começou a viver apenas para si mesma, sendo em simultâneo a sua própria companhia, o seu ídolo, a única razão de ser da vida, que pouco extravasava do espaço asséptico em que flanava, mal tocando com os pés no chão. O seu rosto aperfeiçoou-se a tal ponto que parecia uma máscara veneziana de porcelana, de uma pureza absoluta, a sua pele marfínica e acetinada nunca ostentava qualquer tom rosado e apenas os lábios, mínimos, lhe imprimiam na face uma nota escarlate que ela disfarçava com batom castanho, mas que teimava em sobressair. O nariz afivelara e era o toque desarmonioso no rosto perfeito e os olhos, grandes e doces como sempre, haviam adquirido, na coloração da pupila, uns raios esverdeados que cintilavam quando o sol incidia; mas ninguém, a não ser ela, nas horas que passava ao espelho em auto-contemplação, tinha acesso ao fulgor demoníaco do pigmento verde, entretecido na suavidade inocente do castanho com que olhava o mundo dos outros. Sabia-se demoníaca, cruel, repugnante, conhecia a fundo o carácter monstruoso da sua natureza e, muito embora desejasse viver só para si, naquela espécie de castelo pendurado no alto de um edifício sobre a cidade enxovalhada, a sobrevivência obrigou-a a comunicar com o mundo dos outros: tornou-se professora. Dizia muitas vezes aos outros que gostava de ensinar, mas não era verdade: apenas ela sabia que odiava a insolência estúpida dos seus alunos, a mediocridade arrogante dos seus colegas, a insipidez absoluta do seu dia a dia submerso em horários e tarefas cujo horror ia suportando porque sabia que no final da tarde e pela noite dentro habitaria o segredo do seu palácio, perfumado apenas do seu próprio odor impreciso, mas absolutamente presente como uma marca, um ferrete. E só dez anos depois do dia de Julho em que engolira uma mosca e se sentira mudar por dentro é que novas descobertas a precipitaram naquilo que realmente viria a ser o seu destino.
06 dicembre A Máscara Salvador Dalí, Canibalismo no Outono
![]() A MÁSCARA
Estou-me a ver como num sonho: o mundo é uma cidade ao sol poente, uma cidade com uma enorme avenida que a corta de ponta a ponta.
Estranho!...Estou sozinha nesta cidade, no crepúsculo silente deste dia eterno. Os meus passos ressoam no pavimento lajeado, a minha sombra adensa-se, esfumada na luz moribunda, e nem um corpo se move comigo nesta rua estranhamente morta. Cheira a morte, o silêncio é tétrico.
No entanto, os últimos raios de sol fazem cintilações no mármore polido do solo que piso, o oiro e os cristais brilham nas fachadas ricas, há em todo o lado um sinal inequívoco de vida. Mas porque estou só? Que cidade é esta, que mundo é este, em que nem uma flor cresce nos muros, nem um pássaro canta, nem uma árvore estende os braços para o céu?
Apenas a rua polida e brilhante e as casas, alinhadas e rígidas, de austeras fachadas cintilantes.
Subitamente, um golpe de vento, quando o sol se esconde de todo, faz mover uma porta rangente. Volto-me. É a mais alta das fachadas, tão alta, tão alta, que as suas torres pontiagudas perdem-se no infinito e o seu porte majestoso parece desafiar qualquer intempérie. Mas a porta pende, como que arrancada dos seus gonzos, e é tão frágil que qualquer criança débil a pode arrancar dali sem esforço.
Aproximo-me, receosa, de olhos presos no mistério da luz baça que se coa do interior. À medida que me aproximo, um cheiro acre, um cheiro fétido, vai-me chegando e envolvendo. Cambaleio, agarro-me à porta numa vertigem de horror. Solto um grito. Aos meus pés, com um esgar terrível, de olhos vítreos e corpo retorcido, jaz um cadáver tumefacto. Forço a entrada, sedenta de descobrir o mistério da cidade adormecida. A porta cai apodrecida e...oh visão inesquecível... por detrás da fachada de torres pontiagudas nada existe, apenas trevas e cadáveres putrefactos, ruínas bolorentas, vermes que rastejam. Saio a correr, abro, uma após outra, todas as casas da brilhante rua. E sempre o nada, pior que o nada, sempre a morte, a ruína, o nojo, sempre as trevas, a solidão, o silêncio...
Com o peito a arfar, chego ao fim da avenida: as casas brilham, agora ao clarão da lua, parecem espectros e têm a morte estampada no rosto.
Mas... lá ao longe, um ponto desloca-se, um ponto que vai crescendo e arrasta os passos pelo pavimento liso.
Esbugalho os olhos, ainda sem ver, mas um raio de lua atinge o meu alvo e eu, quase exangue, contemplo o mais horrível de todos os seres.
Com passinhos miúdos, melífluos, ele limpa a rua por onde arrasta os passos, pendura-se nas casas e dá brilho aos batentes metálicos, faz nascer a ordem na cidade morta.
Aproximo-me. Quero falar-lhe, pedir-lhe que desvende o segredo mas - visão inominável! - aquele ser terrível não tem cara, é a ausência total de todas as expressões e, no entanto, em amálgama indiscernível, parece-me possuir todos os mistérios. Não me vê: continua arrastando pés que não são pés e, com mãos que não são mãos, vai varrendo e limpando incansavelmente. 15 novembre Urdiduras satânicas
Urdiduras satânicas
Havia um gato que miava no telhado de plástico da vivenda senhorial dos Sousas. Miava o gato e através dos miados soava a música dos ruídos selváticos saídos das entranhas da terra. Havia um coro de molas e os colchões despediam chispas por entre a luz dos corpos apoiados nas sombras. O jardim tinha frutos pendurados nos postes telegráficos e, quando havia vento, tilintavam as campainhas e sorriam os abutres. Quando o deus chegou, perguntou à chuva se o mar bramia ou se era apenas a voz enrouquecida da dama de ligas nos joelhos. E a chuva respondeu que o acaso, afinal, era ainda a resposta para os sonolentos bocejos das virgens e dos eunucos quando o sol se desprende. Encaminhámo-nos então para a cisterna onde ladravam os cães de todas as vozes oprimidas e onde, através dos suspiros, se divisava a cólera da gargalhada surda da flor e do abismo. À cabeceira da cama, entre jarrões de espuma e plantas de antiquário, havia um hino báquico pendurado em cravos de crucifixo. O leitor dormia, de bruços, e, no sono, as pálpebras erguiam-se ao som da tempestade. E o trovão era uma carranca de mistério. Percorremos a casa enlaçados ao desejo e os tapetes abafavam o som dos nossos gritos. Uma ponte rugia sobre o abismo colérico e os homens atiravam pedras às ruínas ferrugentas. Havia um cano de espingarda apontado na direcção do sol. E quando eu me aproximei vi apenas farrapos que eram as cadeiras de braços de todos os vagabundos. No meio do caos, entre tíbias desemparelhadas e córneas retorcidas, o fantasma desejou-me boa-noite e eu soube que fazia anos, pois nunca antes ele me tinha dito fosse o que fosse através da orla indecisa do lençol esburacado. Atrás dele caminhavam pedaços dispersos de estrelas cadentes e um orvalho matinal descerrava as trevas no céu aberto pelas tempestades crepusculares de muitos outonos acumulados, despedindo chispas contra os relógios de bolso dos peralvilhos ensonados. Cedo se ouviu o silvo hiante de um comboio e, por entre a planície desmascarada à frente do seu único farol, como se fosse dia e não a mais cerrada das noites, um monstro de aço ferrugento ergueu as mandíbulas e tragou de uma só vez tudo o que afinal vivia nas trevas do acaso. Deus navegava numa arca minúscula e o seu ventre, nutrido de muitas refeições opíparas, escorregava dos assentos demasiado gastos para que ele se debruçasse da janela e atirasse flores aos vampiros descobertos. Não sei dizer o que aconteceu, mas, bruscamente, a terra girou como se fosse um pião: eu vi, eu soube, porque aquilo não podia ser o vento, e os terramotos têm um aroma diferente quando rasam as manhãs claras no meio dos gerânios;agarrei-me a ele enquanto as paredes se contorciam animalescamente e percebi que os vulcões da lua são régias catedrais onde os salteadores depositam os tesouros e as burlas. E, no meio do silêncio, entre armaduras reluzentes e botas esburacadas, o grito soou numa rédea solta de ecos sinfónicos, por entre as trevas embrutecidas e os silêncios desmentidos em palavreado acre.
ECCE HOMO!
E foi assim que soubemos que se cumprira o rito bárbaro das urdiduras satânicas, apesar de tudo estridentes como coros de anjos loiros, essas crianças prodígio inventadas pelas rãs e mistificadas nas aventuras da espuma e do segredo.
Traidor
MAGRITTE
O TRAIDOR
A catedral batia doze horas lentas…seria a catedral que batia? Ou não seria antes o óbvio sino da catedral? Ou talvez fosse o grande relógio de ponteiros iridiscentes…Ou o bico das corujas na torre ruinosa… Ou seriam os joelhos das viúvas macerando as lajes?... Seriam as lajes maceradas pelos joelhos? Ou não seriam eles os macerados? A catedral batia doze horas…sim, era a catedral que batia. O violino tocava um mendigo e a canção subia no ar como um gemido… um gemido de mendigo. O violino tocava um mendigo triste e cego como essa canção… e a catedral era uma praça de frios mosaicos. Passava a rua sob a gente, a rua mais viva que a gente…e a canção do violino com sons de mendigo subia em volutas para o fumo dos céus. Corriam nuvens em baixo do azul, como se os farrapos fossem o vestido branco da pureza… e o sino da catedral, gravado em bronze, era a promessa muda do silêncio. A criança passou. Trajava amor e na cabeça tinha um halo de luz como toucado. Vibrou no ar a música-mendigo, pungente como ferida rútila…e a criança estremeceu, sob o azul, aos farrapos de brancas nuvens. Foi então que soou a trombeta. E o espaço tremeu, como um grito na madrugada cor-de-rosa e fogo. Voaram penas e voaram pássaros desplumados: a canção-mendigo era agora um choro. Choravam as lajes da calçada, chorava o vento arrancando as folhas, choravam pássaros, espalhando as penas… mas o céu, sob as nuvens brancas era azul como o martírio. A catedral já não batia doze horas, já não batia nenhuma hora, já nem sequer havia catedral. Mas havia ainda um violino e os joelhos das viúvas…Havia ainda o som do violino e os olhos cegos do mendigo…quanto à criança, há muito que perdera o seu halo de luz. E uma voz gritou no silêncio estentóreo: AMOR! Ninguém falou. Foi como se, de repente, o universo inteiro gelasse de pavor. Amor! E tombaram no chão os pássaros implumes. Amor! E partiram as cordas do violino do mendigo. Amor! E também o arco se despedaçou no chão. Amor! E vergaram de vez os joelhos tristes das viúvas. Amor! E voaram sem rumo as corujas da noite. AMOR!... repetiu o eco. Mas só lhe respondeu o silêncio, sob as nuvens, sob o céu aos farrapos de azul. Reboando nas nuvens, corriam notas de órgão, estertorando raiva. De pé, sobre o pináculo da montanha, erguia os dedos a criança, outrora amor, e tentava tocar as faíscas de luz. Mas a luz negava-se a iluminar o mundo cinzento da criança: é que Prometeu já não tinha o fígado devorado, Prometeu era agora feliz no Olimpo e ria-se dos homens, às cegas, sob a luz. Prometeu depois de trair os deuses traía os homens… e acaso não é essa a condição do traidor? |
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