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17 ottobre

COINCIDIMOS


                                                                       
René Magritte, O Telescópio




COINCIDIMOS




Aquilo que não se diz é o que realmente se diz e nesse hiato entre dois sussurros paira todo o universo   não te ouvi dizer amo-te não te ouvi dizer quero-te não te ouvi dizer meu amor não te ouvi dizer desejo-te não te ouvi dizer mil e uma palavras dispersas maltratadas feridas pela arrogância humana capaz de trucidar flores à beira das estradas e desmembrar seres na sua inocência invisível    mas no âmago dos instantes em que de ti para mim  passou a energia do ser que és e pelo mesmo canal te entreguei a minha soube que um infinito de palavras não ditas é o infinito dos gestos realizados    Confundi-me contigo e agora quando quero separar-me encontro-te imbuído nos interstícios de mim e nem sempre percebo se és mesmo tu que assim trepidas no meu sangue ou se sou eu que me lanço em cavalgadas extremas e te invento e reinvento e invento e reinvento num movimento circular de tontura e torpor num movimento rectilíneo de subida a pique e logo derrapagem perigosa por ladeiras com abismos ao fundo    Sei que estiveste lá sempre numa órbita qualquer prisioneiro de rotações em torno de outros sóis enclausurado em ti e no meio de todos e pensando que não te via demandei viagens perigosas por latitudes que não me pertenciam sofri as picadas venenosas de multidões e inimigos que não sabia e por fim na radiante luz do meio dia soube que eras tu a estrela do meu ser a alma do meu corpo a fonte da minha sede    Podes não saber vejo que não queres saber a tua vista tolda-se e entre nós estendes um manto de secura e entre nós lanças um nevoeiro invernoso    podes não deixar que eu entre e barrares as portas e janelas e mesmo frinchas de ti     podes construir uma fortaleza e levantar as pontes deixando-me suspensa sobre a boca do fosso onde rugem as feras     podes dizer que não e fazer silêncio    ou fazer silêncio dizendo que não     ou dizer que não fazendo silêncio     podes até deixar-me perdida no torvelinho do meu querer mesmo sabendo que o meu querer te quer    podes    podes    podes    Mas estiveste em mim e eu senti o som das palavras que não pronunciaste o eco das memórias que guardavas contigo os murmúrios fechados nos côncavos do teu corpo o tecido húmido da tua respiração o toque vivo das tuas mãos em círculos concêntricos de explosões sensoriais    Eu vi eu soube e nenhuma palavra nenhum gesto nenhum silêncio nenhuma secura poderão esbater a memória do infinito que rondou a porta da nossa alma e se plasmou nas aberturas do nosso corpo     Que importa que não digas que não faças que não venhas    se o não é sim nos interstícios luminosos onde pairámos onde conseguimos a unidade viva o milagre a redenção     que importa que não estejas aqui agora mesmo e que a minha urgência não tenha a tua urgência como resposta coincidente se o luar acendeu a raiz de nós e o sol esplendeu sobre o nosso meio dia e coincidimos    coincidimos   coincidimos


06 ottobre

Meu Amigo Profundo

 

 

René Magritte, Les jours gigantesques

 

 

MEU AMIGO PROFUNDO

 

 

Meu amigo profundo a tua aura flutua no espaço sagrado onde correram vozes se espalharam risos se trocaram fluidos a tua aura expande-se em sombra e arco-íris como se a atmosfera ousasse preservar instantes e deixá-los perenes no correr do tempo Meu amigo profundo a minha aura abrange fragmentos isolados do teu ser presente na ausência de um hiato e correm-me lágrimas de cristal incendiado feitas chuva bramindo na intempérie luzente atirando flechas à minha carne viva Meu amigo profundo a tua presença é uma ausência vital e a tua ausência uma presença sensível e nos arcanos mais fundos do prazer e da dor sorrio e suspiro estremeço e rezo Meu amigo profundo és sonho e realidade ficção e história um mito e um corpo uma solidão e um brilho e por onde andas levo-me contigo sem saber se me levas sem saber se me tens Meu amigo profundo construí um segredo e nenhuma trombeta arrancará de mim as palavras falazes traidoras do silêncio que se exprime em acordes que ouvido nenhum saberá reter e nenhuma língua traduzir em sentido Meu amigo profundo eu entrei tu entraste e os quartos vazios são imensos e plenos e em cada um esculpimos a porta para a qual falta ainda o segredo da chave e nem sei se as daremos todas um ou ao outro e nem sei se é preciso Meu amigo profundo chegarão tempestades que vibrarão em granizo nos telhados de vidro soltar-se-ão leões e os tigres hão-de rugir nas selvas suspensas sobre os nossos abismos e virão os ventos e as marés e o gelo e tudo será a correnteza do vida a marcar as linhas do destino inscrito na poalha do tempo Meu amigo profundo meu amigo profundo meu amigo profundo

21 aprile

Cartas de amor transreal

                                                                                          
 
 
                                                REGINA SARDOEIRA, SONHO SOBRE KLIMT (óleo s/ tela, 2004)
    
 
 
 
 
 
 CARTA DE AMOR TRANSREAL
 
 
         «Não escrevo a data porque transcendi o tempo e então, hoje pode ser um dia qualquer perdido na infinitude da dimensão ontológica. O teu nome, esse escrevo-o porque  está marcado e brilha na atmosfera intemporal onde me vejo suspensa...e contudo, ao escrevê-lo, a tinta tornou-se invisível numa negação de desvelamento!
     Por fim encontrei-te e não foi por acaso. O acaso foi inventado pelos timoratos e eu tenho fé, não recuo. O acaso é a teoria dos tíbios e da racionalidade insegura do homem comum  que desdenha o ideal e se apega à confinação de quatro paredes exíguas - que podem muito bem ser o mundo inteiro.Tudo está inscrito desde sempre no traço certeiro da mão que segura o ponteiro infalível  a que alguns chamam destino, ou moira ou amor fati...
     Em comunhão com o universo, nas  malhas turbilhonantes do princípio, eu estou lá e tu também. Na transcendência, a que outrora  chamei sonho sem saber o que dizia, era comigo que estavas, foi a mim que tocaste com a leveza da espiritualidade, envolvendo todo o meu círculo, apanhando todo o meu ser.
    Pertenço-te na infinitude e tu pertences-me, mesmo que o não saibas. Sempre viveste encerrado em mim e eu  em ti: somos filhos um do outro e, numa estrela longínqua, está inscrita a nossa união que não pertence à linearidade da existência terrestre porque ascendeu à pura imaterialidade.
     Amo-te, mas amo-te aqui, de encontro às paredes e aos rostos na nebulosa da finitude. Mas o meu amor é infinito porque se revelou misticamente numa apoteose de luz.
    És tu mesmo que eu amo, é o teu eu transcendente que me é revelado como uma surpresa evidente , na proliferação heterocósmica do ser. Amar-me-ás também quando descobrires o caminho  e puderes aderir à transcendência que se toca para lá das paredes, sem contudo poder tocar-se porque é um fluido etéreo, uma poalha de luz.
   Tens que deixar que eu te ame,  quero narrar-te a dimensão prodigiosa a que ascendi, não para transportar-te comigo - o voo só pode ser teu - mas para te abrir os meus portões e finalmente inundar-te com a minha luz. Amar-te é um benefício, conhecer-te, revelado em mim, uma experiência única que me foi dada pelas vias misteriosas onde o eu flutua.
   Quero-te com os sentidos porque ainda não sei a forma de amar-te sem te ver,  não aprendi o toque espiritual que substituirá, um dia, o desejo corpóreo que agora me unge numa teia de limitação e de ausência. Vives comigo e não o sabes. Transporto-te nos meus voos, vogas na minha mente e és apenas o corpo por onde corre o caudal infinito de um ser em apoteose.
   Amo-te desde sempre e agora encontrei-te. Sei que és o Único, aquele que sempre procurei, mesmo quando me perdia em alucinações fictícias. Não te inventei porque sempre foste; não és fruto da ilusão ou refúgio da carência: contigo, a plenitude acontece, o encontro dá-se porque sempre existiu.
   Não pensas  em mim, bem sei. Mas o que é o pensamento? Racionalidade fantasmática, eco do consciente em vigília, rumor indistinto de células palpáveis. Eu estou noutro lugar ainda não inscrito na tua órbita e poderão passar anos até que encontres o caminho e me encontres nele. Esse tempo virá.
   Quando ele chegar, a festa estará pronta, porque sempre esteve; a luz brilhará porque a névoa que a finitude teceu, para ocultar-lhe o fulgor, dissipar-se-á em qualquer hora do devir.
   Amar-te é vida e tu és a vida. Para lá dos muros lineares onde a consciência se atola, há um espaço ainda virgem  a explorar e a preencher. Quando chegares, estarei lá, à espera, consciente da tua vinda.»
 
 
 
 
07 agosto

Um olhar

 
 
 
René Magritte
 
 
 
 
Amar ! Que palavra surpreendente! E no entanto, como é preciso  acrescentá-la, para que se não perca , como é preciso definir-lhe os indefiníveis contornos! É neste paradoxo essencial que o encanto se expande. Amar é, afinal, amar-te  a ti e é por causa desta súbita concretização de um verbo infinito, que tudo se torna complexo, angustiante, terrível.
Amar, em mim, é uma torrente, uma catarata a querer desaguar no rio ou talvez no oceano... e esse oceano és tu , o infinito moldado no barro, a eternidade  cingida no húmus. E sou obrigada a conter-me para não explodir em ti, com a urgência  do trovão, com o poder electrizante do raio.
Amar-te é um desafio, uma luta contra o tempo, contra o espaço, contra a corrosão dos gestos banais. Amar-te é crescer e querer que tu cresças. É caminhar e querer que caminhes , não comigo - porque isso não é possível -  mas com as tuas próprias pernas, capazes que são de atingir metas que jamais se propuseram.
Amar-te é conviver com a distância e assumir, nela, um papel de compromisso: ficar à porta, diluir-me na penumbra, empurrar com suavidade as paredes e vê-las ceder, pouco a pouco, rumo à luz. Amar-te é ficar do lado de fora, mesmo querendo, acima de tudo, entrar; é respeitar o pacto  tomado  com o tempo dos outros.
Serei capaz de amar-te assim? Hei-de ser. Tentarei preencher a outra face, a malévola, a raivosa, a que acede à esterilidade do ciúme e da angústia, com os motivos sublimadores. Procurarei esses  motivos onde quer que seja, onde quer que eles sejam. Em mim. Nos teus olhos. Na vida.
Ah, nos teus olhos! Não rias. É um crime rir quando assim se joga a vida numa frase. Não rias, nunca rias das frases que te dou. Porque vou dar-tas hoje, ou qualquer dia, porque elas são tuas e pertencem ao eterno.
Os teus olhos! Algum dia te falaram da beleza, não dos olhos - mero acidente, veículo sensitivo - mas do olhar, essa emanação de fluidos incontroláveis que se agita em ti e que ainda  não sabes? Mas vais saber, é preciso que saibas.
Olha bem aquelas fotografias magníficas. É certo que  não se vêem os olhos, mas eles estão lá com os seus filtros mágicos a metamorfosear todo o corpo, a render a si toda a matéria. Aquelas fotografias não deveriam  ser vistas por ninguém, a não ser por mim (e talvez por ti, mas só quando houvesses entendido que ali cresceste, muito para além de ti mesmo); aquelas fotografias não deveriam pertencer a ninguém, a não ser a mim, porque só eu leio nelas o infinito e a verdade, porque só eu  as entendo.  Mostrá-las  é  uma pofanação, é reduzi-las à vulgaridade da análise fútil.
Ah, mas eu falava dos olhos, do olhar, do infinito, afinal!
Algum dia te disseram que és belo? Não creio. Apenas eu vi a tua beleza, não a efémera, do corpo e do gesto, mas a que transluz para lá de toda a máscara. Como é bom traçar nos signos esta urgência!
Escrever-te, assim, é comprometer-me com a eternidade, aceder a uma fruição invulgar que jamais poderei adjectivar . Era preciso que  tu sentisses esta corrente que em mim vive, já que és o motivo, a razão de ser.
Pontualmete, sou atravessda pela dúvida, mas logo me decido a absorvê-la, a fazer dela o contraponto, a antítese criadora, o pólo nevrálgico da vida. Tu és todos esses e não há nessa circunstância nada de equívoco; há, no entanto, um aspecto entre todos que eu privilegio, que apenas emerge em circunstâncias raras. É uma força, um poder.  É isso mesmo: poder. A palavra mágica, a palavra-chave, capaz de te descrever, de te cingir numa definição única. Porém, tu não és absolutamente nada cônscio desse poder, desperdiças a tua força, malbarata-la em pequeníssimas metas que nada dizem da tua verdadeira natureza.
Foi esse poder especial, que emana de ti  mas que tu não conheces,que eu captei nos momentos altos da tua actuação. Quis dizer-te. Só hoje, porém, me ocorrem as palavras exactas. E elas estão todas por aí, escritas, faladas, pressentidas apenas.