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16 novembre

Perdido na Areia

     

 

 

 

PERDIDO NA AREIA

 

 

Tu não és o belo adolescente Tadzio, nem eu sou o fracassado artista Gustav von Aschenbach,  não estamos em Veneza nos anos 20, nem  nos abafa o scirocco ou nos atemorizam as emanações da peste; e contudo, eu sou Gustav von Aschenbach e o que me avassala o íntimo traz a imagem magnífica e pura de Tadzio, e tu és a Veneza delirante do início de Verão e sopras incandescente e deletério sobre a pele transparente do Tadzio de mim   Olho-me ao espelho (para dentro, sempre para dentro) e sinto o ar a faltar-me e os vincos do tempo a apertarem a minha garganta e busco o Absoluto, por entre o scirocco, à revelia da peste, enquanto as areias finas da praia e as águas verde-esmeralda do Mar Mediterrâneo me entontecem a visão, me retiram lucidez  Um dia, passarei pela oficina onde se modelam os sonhos e pedirei ao maioral que me transforme (para ti); pedir-lhe-ei que me revista das cores vibrantes com que se anuncia a primavera; pedirei que acrescente ao meu ser a centelha que falta, para que possas querer-me  Bem sei que de nada servirá esta travessia (ao contrário) pelas marés da vida, bem sei que os vincos estarão lá por debaixo da tez marmoreada e que mais dia menos dia as minhas lágrimas farão escorrer pedaços negros da tinta com que me disfarcei, os meus lábios murcharão, cinzentos, despojados do carmim que lhes emprestei, os meus olhos sucumbirão sobre pálpebras demasiado densas  E então escaldada e exangue, derretida e ensopada, pelas emanações febris da peste engendrada no cenário fantástico dos canais purulentos, cairei sozinha num deserto qualquer e o meu esqueleto  haverá de romper (à força) o tecido estreme da minha pele, tornada sudário transparente dos sonhos de Tadzio, tornada reminiscência dos ecos tardios de uma juventude que nunca vivi  Aterrada, oiço estas vozes em mim e agarro-me a um pedaço de vida que ainda se agita na raiz do meu ser,  estremeço em delírio apertada num transe e quando olho o espelho (para dentro de mim) não encontro quem sou, não encontro quem fui e quem serei está a furtar-se num terreno longínquo   Tadzio, ah Tadzio, esse sonho de luz que trago comigo, essa auréola de espanto ou de inconsciência de si,  esse lume desperto ao raiar da aurora, feito vago perfil no crepúsculo laranja; afasta-te, Tadzio, figura sibilina de Apolo feérico, expansão dionísiaca de paixões (para lá do meio dia) síntese absurda de impulsos caóticos, yin e yang em convulsões arrasantes, tremendo na noite (em vagabundagem de sonhos desmedidos) afogando-se no dia (em arroubos solenes para lá da tempestade) e depois recolhidos na penumbra (por detrás de um espelho) perdido na areia, perdido na areia, perdido na areia

 

 

15 novembre

BASTA SENTIR

 

 

 

 

BASTA SENTIR

 

 

 

 

Enquanto a música percorria o ar e o teu corpo tocava o meu muito ao de leve

enquanto as paredes se tornavam estreitas e o céu se abria acima das cabeças 

enquanto a paz entrava em passos de leveza pelos poros antes encrespados da pele convulsionada

consegui ver o mar e entrei por ele na magnífica Veneza ao som  das notas misteriosas de Gustav Mahler

entrei em Veneza num vaporetto e tive a visão súbita do encanto sobrenatural da urbe plantada em água

e por momentos

a Beleza Absoluta perpassou sobre as nossas cabeças

não sei se deste conta

(eu quis aflorar o tecido dos teus dedos para que sentisses

quis enviar-te um sopro com a ponta dos lábios

mergulhei em mim a ver se as ondas que me assolavam entravam feitas espuma na confluência do teu corpo

no segredo da tua mente

na raiz do teu ser)

e pensei ir contigo até ao mar pela noite

ficar em silêncio ao rés de uma praia

e convidá-la a ser o leito húmido de um sonho de amplidão

quis partir nas ondas encantadas daquele sopro de infinito

a perpassar tímido por entre cabeças desatentas e corpos em desalinho

e contudo vertiginoso

na amplidão sensitiva com que fui intuindo a Beleza Absoluta

aquela e a nossa e todas elas

tecidas num nó corredio de sedução múltipla

de osmose consentida...

 

Se a luz não fosse tão violenta

se o território não tivesse

o peso barroco de uma ornamentação inútil e vazia

se a aragem cortante não trouxesse

ecos dissonantes de um mundo

que  deveria estar bem arredado da magia do instante

se apesar disso

ainda fui a Veneza por mar

e depois regressei pendurada em chuva importuna

se novos ecos perduraram

ah não terá valido a pena cortar em dois o dia

e perder-me num hiato portentoso de infinito e de mistério?

 

 

Decifrar não importa

perceber é inútil

basta sentir

sentir

e sentir!

13 novembre

MELODIA INFINDÁVEL

        

        Gustav Klimt, O Beijo

 

MELODIA INFINDÁVEL

 

          Escrever escrever escrever e escrever é amar é querer e querer é projectar-me para além de mim para além do horizonte das nuvens do sol da aventura e do medo e atingir os subterrâneos por onde perpassam dúvidas e temores mas também alegrias infindas e sobressaltos osmoses líquidas e promessas adiadas e atingir-te a ti lá onde te recolhes triunfante ou em abandono poderoso ou meigo em descanso ou na vibração autêntica do teu universo ignoto

       escrever escrever escrever e escrever é ser a voz do silêncio esculpida em gritos e sussurros aberta em devaneios e choros agigantada em gargalhadas de júbilo pelas manhãs etéreas ou nas noites pontilhadas de sóis imaculados

         escrever escrever escrever e escrever é gritar que das portas cerradas nasceu a amplidão e das bocas cingidas em mordaças de silêncio brotou o segredo luminoso de um milagre a portentosa declaração de segredos inviolados no tempo de outrora

        escrever escrever escrever e escrever é proclamar que o presente rompeu a carapaça jungida ao tempo passado e ficou exposta a epiderme nua nua de toques intangível e casta como as fontes primevas de onde nasceu outrora a vida

       escrever escrever escrever e escrever é dar-te as primícias de mim como se houvesse nascido agora mesmo nascido num corpo já feito com memórias de outras vidas memórias desfeitas e cruas na turbilhonante surpresa de um recomeço sem possíveis imagens de outros acordares sem possível retorno a outras alvoradas é viver as dores cruciais de inúmeros partos onde me separo de mim para chegar a mim e tu revolves-me o ser nas ondas convulsionantes do júbilo extremo que se verte em dor que me amarfanha o peito que coloca soluços vibráteis na minha garganta presa

         escrever escrever escrever e escrever é exaltar-me e exaltar-te e pôr em cada dia o poder do infinito em cada hora a dimensão do universo em cada célula o poder de todo o organismo em cada poro a fluidez incontível de todos os oceanos

        escrever escrever escrever e há uma torrente invisível a correr gelada na fonte do ser uma corrente vulcânica a bramir escaldante nos picos do eu uma corrente incorpórea a lançar pedradas à minha carne viva uma corrente de luz a estreitar distâncias a romper desertos e tu por onde caminhas perdido que estás na confluência de territórios ténues demasiado ténues e para onde ias quando achei que fingiste que não me vias de onde vinhas quando os teus passos soaram nas avenidas de mim para onde vais quando a madrugada te empurra para a estrada de todos e a bruma te entrega à escuridão e ao deserto sinto a maciez cálida dos teus membros o tecido encrespado da tua pele e no toque suave com que te abraço no aperto violento com que te esmago no jeito incoerente com que te beijo rondam perpassam esbatem-se tempestades antigas solidões e dores não vês que eu já não sei pisar o terreno de onde tu vieste e para onde caminhas torço-me de fome neste deserto que subitamente enganosamente paradoxalmente a tua presença abriu em mim como feridas demasiado largas ou fechadas antes do tempo feridas que não sabia ter ainda feridas rubras ou violáceas consoante a hora do dia e também esplendores nocturnos quando te sinto apertado a mim e mesmo dormindo correspondes ao gesto do meu toque e mesmo dormindo procuras o sítio do meu corpo e perdido nessa inconsciência encontrada nos horizontes inescrutáveis do sono eu já não sei se sou eu que assim buscas no enleio inconsciente ou se ainda adejam em ti asas de outras emanações hábitos de antigas euforias e o pensamento este cavalo à solta esta incontrolável espiral de imagens vivas e outras perdidas em marasmos desvanecidos e outras tecidas em lonjuras especulativas e plantadas nos terrenos limítrofes da consciência amodorrada

         escrever escrever escrever escrever esta penumbra negra na alvura da folha estes caracteres incoerentes se não lhes dermos o benefício da interpretação esta melopeia átona se ninguém lhe emprestar a harmonia da música estes hieróglifos insensatos se não houver legendagem capaz de os traduzir e eu conto-te aquilo que sei é muito mais do que aquilo que digo aquilo que perpassa nos meus sonhos e no gume do meu sentir é muito mais do que algum dia poderás supor e agora acorrentada nestas paredes que têm todas os ecos de ti acorrentada sob estes tectos que guardam o som da tua voz presa na dureza deste chão que conserva o peso da tua passada e a vibração do jeito do teu corpo paira em mim o frio de não  te ter e eu bem vejo que esta minha loucura não encontra lenitivo porque tu não virás

08 novembre

Sabê-lo-ás um dia

Salvador Dalí, Nascimento do Homem Novo
 
 
 
 
 
SABÊ-LO-ÁS UM DIA
 
 
 
Escrevo-te para te dizer
que a tua ausência não é uma falta
mas somente a ocasião íntima do mergulho
 a tua ausência não significa separação
porque estás em mim e eu estou em ti
numa conjugação osmótica
em que viajamos sozinhos
e contudo
amalgamados um no outro
feitos presença
feitos plenitude.
 
Quero falar-te ainda
(e é por isso que escrevo)
da transcendência acontecida
no limiar do transporte carnal
da transcendência percebida
para lá dos portões da finitude.
 
Quero dizer-te 
que somos e não somos
seres da terra
pois fragmentos iluminados de nós
levantam asas no esplendor da noite
e sobrevoam-nos infinitmente 
(e deixam de ser fragmentos
na hora exacta em que unidos na lógica infinita
se tornam heterocósmicos
reproduzindo-se sem cessar).
 
 
Esta é a única eternidade a que temos acesso
pois perduramos incandescidos
na inquietação turbilhonante do tempo
na imprevisibilidade não conceptual do espaço
e deixamos de ser dois nomes
duas entidades
dois rostos
dois corpos
para nos firmarmos
 como seres de luz
na expansão prodigiosa do ser.
 
 
Aconteceste-me e eu aconteci-te
pouco importa de onde vinhas
(embora uma ou duas vezes tivesse importado
quando a consciência limitada e verrumante
entontecia a claridade
dos transportes levantados para além do tempo linear).
 
 
Há dois tempos e dois espaços
(e uma multiplicidade infinita deles
para lá da consciência)
e nós vogámos nas dimensões falazes e finitas
onde nos aconteceu a dúvida
a perplexidade
a amargura
a divisão
e depois
o transporte incomensurável dos nossos outros eus
alcandorou-nos
projectados
como meteoros incandescentes
de matéria e de anti-matéria.
 
 
Talvez ainda não saibas o que também te aconteceu
neste perpassar inesperado através de mundos
talvez não estejas ainda a seguir
a trajectória estelar que temos vindo a definir
(não definindo todavia)
decerto não despertou em ti
a crença
aquele fermento invisível
que levanta as nossas asas do terreno
e nos projecta
para além de nós
para além do tempo
para além do espaço.
 
Sabê-lo-ás um dia.
05 luglio

CARTA DE AMOR TRANSCENDENTE

                        CARTA DE AMOR TRANSCENDENTE

 

                             

 

 

 

 

 

«Querido amigo:

 

Não sei se chegaste ao teu destino, ou se o Pulo do Lobo gorou uma vez mais os teus desígnios. Sei que aquele lugar é mágico, vi-o sempre impregnado de história, eivado de metafísica, suspenso no mistério. Quanto a mim, percorri sem dificuldade ou dor os 157 quilómetros que me separavam do meu propósito e aqui estou, nas margens do Guadalquivir, repleta de ti no mais íntimo de mim.

            Escrevo para mim, mais do que para ti, já que, obedecendo ao trato que fizemos, na manhã de ontem, no Cais encantado do Rio de Mértola, não voltaremos a ver-nos até cada um de nós lavar a sua alma e expulsar os seus fantasmas.

            Até ao último momento – sabes, aquele instante imperceptível em que a cabeça se esvai num delíquio profundo e nada podemos dizer ou fazer, já que flutuamos e levitamos em vez de viver – eu achei que não ia acontecer nada. Estava preparada para fruir da tua companhia, à distância, tal como acontecera nas três noites anteriores, estava preparada para ficar ali o tempo que fosse preciso, muito embora me percorresse a intensidade avassaladora do desejo.

            Paralisada, não ousava fazer qualquer gesto, nem iria fazê-lo.

            Mas depois aconteceu. Mas depois tu vieste e derrubaste todas as barreiras.

            Não me entreguei logo, não queria acreditar que fosse possível unir-me a ti, de forma tão íntima, ainda que – digo-to hoje – o toque da tua pele me houvesse inflamado desde o instante em que, pela primeira de muitas vezes, agarraste o meu braço.

            Como posso escrever o que senti naquelas horas todas em que partilhámos o mesmo espaço físico? Em que nos misturámos um com o outro em busca da fusão?

            Não to disse, nem a mim própria ousei confessá-lo enquanto estavas perto; porém, a beleza que irradias perturbou-me de todas as maneiras possíveis e a trama que fomos tecendo no decorrer dos dias que passaram fez-me atribuir-te os poderes de Deus. Foi por isso que não me decidi a partir, foi por isso que acedi a acompanhar-te numa espécie de comunhão extra-ordinária, pela qual comecei a consentir na entrada do sobrenatural e a aceitar o milagre da crença.

            Não to disse, repito, negarias as minhas palavras, recusarias o elevado grau a que te fiz ascender no mais íntimo de mim… há coisas que não podem dizer-se, sob pena de fenecerem de repente… Ora, o despontar do milagre da fé no âmago de uma percepção agnóstica das crenças religiosas não pode destruir-se à hora da nascença.

            O que aconteceu na noite de ontem foi uma apoteose, um encantamento

            Eu já sabia que eras belo, mas não te conhecia com os meus cinco sentidos, não tinha até essa hora, para sempre miraculosa, a noção do que poderia ser tocar-te, por inteiro, sentir-te por completo.

            Aceder ao toque integral do teu corpo, do teu ser foi, é e continuará sendo uma experiência estética, uma projecção tão extraordinária de beleza, que nada pode igualar, nada pode servir de referência.

            Em nenhum momento das horas que passámos juntos, fundidos na plenitude mística que fez transbordar a alma para lá do seu cativeiro corpóreo e rodear-nos num amplexo divino, eu senti desarmonia ou estranheza. O teu corpo é tão belo quanto o teu rosto e tocar-te é tão sublime quanto ver-te. Os meus sentidos – muito mais do que cinco, naquelas horas todas! - foram absorvendo o que tu és, foram percorrendo os caminhos que conduzem ao conhecimento integral de ti – e fiquei fascinada. Uma vez mais e muitas vezes senti o toque do milagre.

            Amei-te com o corpo todo e com tudo o que há para lá dos limites da carne e, amar-te, ali, naquele espaço reconfortante e suave, foi encher-me de luz por dentro.

            Ah, Sérgio, como eu gostaria de ser mais bela, mais jovem, mais pura! Como eu desejaria não ter passado, não caminhar para um futuro, não estar presa no labirinto da dúvida presente! Gostaria de ser como te vejo a ti para que aderíssemos ambos ao sublime, gostaria de olhar para mim e ver a beleza que vejo em ti, para me sentir digna de ser o teu par.

            Eu quis olhar-te mais, eu quis tocar-te mais. Mas não tive ousadia suficiente e deixei que fosses tu a fazer os percursos, deixei-te guiar os gestos necessários, deixei-te ser espontâneo, para eu poder ver-te como és.

            Descobri que não tens consciência do poder extraordinário que guardas em ti e que, ao derramar-se sobre mim por caminhos que antes julgaria vulgares, se tornaram transcendentes. Descobri ainda que a união carnal é um acto de profunda beleza e pode inscrever-se nos domínios da estética, convertendo-se em obra de arte.

            Que posso dizer-te mais, a não ser repetir-me até ao infinito?

            Agora, se quisesse inventar uma palavra para definir o que sinto, não seria capaz de encontrá-la. Não é amor, não é paixão, não é desejo: está para além dos limites do nomeável, penetrou na esfera do indizível.

            É claro que sinto saudade tua, a nostalgia invade-me; mas foi esse sentimento que, afinal, me fez regressar às planícies doiradas, por ele desci até ao Pulo do Lobo e nele te reconheci no instante em que poisei os meus olhos nos teus.

            Frequentemente assalta-me uma espécie de sentimento de privação, como se algo de mim estivesse descolado e planasse em locais ignotos. Ao mesmo tempo, porém, vejo que o carácter sublime, estético como já disse, mas profundamente ético de todas as horas daquela noite e do prólogo que foram os três dias anteriores, representa um pedaço de infinito que não pode prender-se ou repetir-se.

            Julgo que estabelecemos uma relação excepcional, não apenas ôntica, mas vividamente ontológica, julgo que nada pode igualar, nunca mais, o poder da nossa vivência comum. Três dias – apenas três! – e eis que todo o universo ali se condensou.

            Somos ambos seres excepcionais, cada um a seu modo. Não sei se já o descobriste, tão pouco me permito adivinhar o que ficou em ti após o encontro do nosso ser: nosso, sim, só um, porque a dualidade desfez-se.

            Se tu fosses vulgar, em algum momento eu ia dar conta disso, porque estavas ali, nu e vulnerável, porque te abandonaste a mim na expansão natural dos teus sentidos. Se tu fosses vulgar, eu teria dado conta disso, não conheces o quanto sou sensível aos detalhes: um pormenor insignificante basta para destruir a maior das construções. E eu digo-te: naquelas horas todas não houve um som, um gesto, um odor, um toque, capaz de empanar o brilho do acontecimento e provocar o desequilíbrio.

            Sinto que acedi a uma experiência nos limiares da perfeição e tomo consciência de que tu és perfeito.

            E agora deixa-me dizer-te que tenho receio por ti. Como podes ser como és e andar por aí misturado com todos os outros? Quem poderá entender-te e captar o sentido fundamental do teu ser?

            A maioria das pessoas não está preparada para lidar com seres de excepção, e tu inseres-te nessa ordem, saibas ou não desta minha certeza. Daí o medo de que acabes perdido no tumulto de ti próprio, enredado em tibiezas que confundirás com objectivos, sedento de uma missão que não saberás reconhecer. Vi isso no olhar embaciado da nossa despedida, percebi a intensidade da tua carência… mas eu só podia afastar-me pois esse sentimento é um falso alicerce e nada que valha a pena pode erigir-se sobre areia. (...)»

 

                                                             Regina Sardoeira, O Pulo do Lobo, Pé de Página Editores, 2006, pps 121-124

 

30 dicembre

Um Átomo de Silêncio

 
 
 
 ZANQ JING SHENQ
 
 
 
 
UM ÁTOMO DE SILÊNCIO
 
 
 
 
Um átomo de silêncio atapetou a sombra do dia feito única alteração na suavidade primaveril do inverno em olvido
havia um pequeno regato murmurando nas áleas sucumbidas do jardim de outrora
e enquanto as palavras rasavam a corrente
uma gota de tremura pálida e enquistada nas solenes lucubrações do prenúncio
antegozava esplendores pressentidos  e logo afogados em nevoeiro lácteo
 
Bem sei que deitámos outrora pó e areia sobre  promessas de deleites múltiplos
e não eram apenas os sentidos
que assim fruíam dos delírios ocultos nos interstícios apaziguados das epidermes vibráteis
mas a tessitura íntima do sonho e do sono
a lassidão primeva do despertar ridente
 
Um átomo de silêncio devorou a promessa angustiada do convite ao diálogo
e a palavra emergente estrangulou-se na caverna
onde os corvos derreteram em amargor desmaiado
a cultura das trevas feita premonição de angústia atirada ao acaso
em rescendente outono que a primavera abriu aos pastos do inverno
29 dicembre

Sabes?

 
SABES?
 
 
 
 
Sabes?
Houve um tempo de entrega
capaz de engendrar novos mundos
(dos mundos que havia)
um tempo
original e mítico
onde os milagres pareciam esplender
em  cada átomo iluminado
de promessas firmadas
em sangue e em luz
 
 
Sabes?
Ainda vejo
a aura desse mundo
ainda sinto a tremura da lágrima
no gume do olhar
ainda oiço
o guizalhar dos sinos
em madrugada inquieta
e tremendo de frio
encrespo-me
no calor suave
(das carícias)
 
 
Sabes?
Há um diálogo cativo
nas arenas da linguagem
um diálogo
(de sons e palavras perdidas)
um diálogo
que urge romper a cratera
um diálogo vivo
amordaçado em dor
 
 
Sabes?
Tu foste
o outro lado das palavras
o outro lado do mundo
o outro lado da seiva
(escorrendo em cetins lustrosos)
o outro lado do ser
encontrado na sombra
oculto na luz em primaveras nubladas
 
 
Sabes?
Retirei os pontos
as vírgulas
(e os pontos e vírgulas)
só deixei
a interrogação do apelo
como marca e sinal
de uma urgência viva
de resposta
19 aprile

Colóquio Quase Sentimental

 

Butterflies. Redon. 1910

Your vision will become clear only when you look into your heart . . . Who looks outside, dreams. Who looks inside, awakens.

C. G. Jung

 
 
COLÓQUIO  QUASE SENTIMENTAL
 
(PRÍNCIPE ENCANTADO E CINDERELA)
 
 
 
 
«...Mas os meus cabelos não são loiros e estão longe de ser azuis os olhos que evocaste...Já esqueceste então, o meu olhar quase negro e as ondas castanhas do meu cabelo revolto?»
 
«...Não vês, ó ingénuo, que a memória dilui todos os traços e que a fantasia se impõe, possante como o delírio? Vejo-te igual à lenda que criei, o teu ser feminino é o loiro frágil que escorre das palavras, o teu encanto amargo é o azul violeta sem incêndios de luz...Tu és a tua palavra, verteste-te no discurso da tua insegurança, despiste a máscara com que me dilaceraste, lá, na praia selvagem do nosso devaneio...Por isso te recordo loiro e azul, de túnica e sandálias e dissipo a sombra angustiante do teu jogo viciado e feio.»
 
«...Então eu não sou eu? Não há nenhum fundo potente e estável ao qual possa arrimar a minha fraqueza?»
 
«...Deixa-te assim...assume a fraqueza, não receies a feminilidade. O universo das palavras e mesmo o mundo inenarrável do silêncio são o eco do teu profundo. Pelo discurso penetra-se o eterno desequilíbrio das formas e os seus interstícios subterrâneos são chaves que jamais utilizaremos.»
 
 

Cartas da Cinderela

 
 
 
 Magritte, Le double secret
              
 
 
 
Cartas da Cinderela
 
 
               
      «Meu amigo:
 
 
 
      ...Bem, a vida não é mais do que um conto de fadas e todo o homem procura a Cinderela escondida...Há um relógio que bate pontualmente as badaladas da meia-noite e ninguém se exime à tortura de acordar do sonho com o pé descalço do cristal da ilusão. E o Príncipe, encantado ou não, continua a percorrer o seu reino com a esperança fútil de descobrir o pequeno artelho capaz de preencher o espaço exacto do vidro do seu desejo. Pelo caminho, falsas Cinderelas continuarão iludindo expectativas e os seus pés continuarão grandes demais para o sonho encantado...Assim, em desencontro, perpassa a existência de Cinderelas descalças à volta da fuligem, acordando na noite para os reinados inebriantes, onde Príncipes  saudosos chorarão o cristal sublime da memória. O que resta, o que não muda é o poder da ficção para suster a delícia  evanescente dos amplexos matinais. A senda que se adivinha não é para ser percorrida: urge que nos detenhamos nos interstícios da frigidez crepuscular, eternos limiares de noites não fruídas.
      Regressaste a mim vindo do fundo dos tempos. A tua voz soa como o bronze provecto das catedrais medievas e oiço-te os passos, derretidos nos ecos milenares das celebrações pagãs. Lembras-me o mítico Dorian Gray, a tua beleza é um pouco torcida, como a do retrato,e uma luxúria envolvente derrama-se do loiro estridente dos teus cabelos. Os teus olhos azul-violeta tecem um halo de sedução pleno de matizes: e todo o arco-íris neles se confunde. Veio, aninhado nas páginas, o perfume da tua pele: paradoxalmente não o aspirei pelas narinas, antes se infiltrou em mim pelos canais difusos da memória. Não julgues que te possuis: pedaços teus vogam, encantados,  num oceano alheio a todos os limites e nos meus sentidos permanece a forma exacta com que te fruí. Fruí-te, é verdade. Aspirei a doce fragrância do teu ignoto, mel e ambrósia com que me fiz divindade absoluta. Qual Dorian Gray, irás envelhecendo na paleta da minha emoção e só nas meias tintas da alvorada poderei ver-te, radiante e absoluto.
       A nossa ligação acabou transformada no puro universo da estética literária; vertemo-nos no mito adâmico e do barro fizemos vida com que aspergimos a terra, tornada fecunda até ao centro. É isso, esse tornarmo-nos capazes de sublimar a angústia que faz de alguns de nós a substância mítica com que escapamos ao peso ôntico da temporalidade. Eu sei que te iludes e vejo-te os ombros vergados pelo imenso abismo que te preenche as trilhas do profundo. Crês-te borboleta e é o espelho que te doira a pele e te faz graciosa figura, esbelto Apolo; fenece nessa delicadeza o imenso caudal da tua nascente. No entanto, o teu olhar envieza-se  e já te marcam a face as rugas impiedosas de Dorian Gray.
        Quando te penso, nunca te misturo aos acidentes humanos, jamais te sento numa cadeira ou te contemplo em pose arbitrária: é sempre vestido com uma túnica grega, de sandálias, na primavera mediterrânica de qualquer Atenas que o teu corpo esvoaça perante mim.
       Jamais serás real ou então faço-te sobre-real, invento-te num cenário  de atmosferas impregnadas de sagrado. E os braços por onde derretes o arcaboiço da tua alma em nenhum tempo lograrão conceptualizar o inominável.
       Resta uma distância, não o abismo. Poderemos percorrê-la, se quisermos. Há, no entanto,  necessidade absoluta de travar os passos, de descansar ainda um pouco, de suster o ímpeto para que o som arfante do nosso estertor se apazigue nas entranhas a que pertence. O que está escondido nem sempre é o mais belo de nós, razão por que se escondeu. A porta está ali, a chave repousa na fechadura; nós, porém não queremos abri-la, não porque tenhamos medo de sondar os espaços em oferenda, mas porque não temos pressa de diluir a ânsia.
      Hoje soam pancadas de chuva e eu lembro o pesadelo dos últimos dias que passámos na Estalagem da Barra; ainda oiço os teus passos insolentes nas tábuas calejadas...a névoa infiltrou-se no meu sonho pleno de luz. Desconheço-te.
 
     Continuo, porém, a desejar ser a tua
 
 
                       Cinderela»
17 aprile

Cartas da Cinderela

      
 
 
                                                                                                  René Magritte, Clarividência
 
            
 
 
 
 
  Cartas da Cinderela
 
              Meu amigo:
   
 
        Como podes sucumbir, desse modo, à angústia? Não conheces o futuro e assim devoras o tempo e consomes-te.
        Ontem, acabei de ler aquele gande livro, fabulosamente real, como todos os mitos, o «Cem Anos de Solidão» de García Marquez. Mais uma vez compreendi a inutilidade de toda a ânsia, de toda a pressa...o destino está gravado no sânscrito cifrado dos pergaminhos de Melquíades. Aprendemos a ler; mas quando decifrarmos a  primeira frase, quando a estrada, finalmente, se abrir perante nós, será tarde demais para iniciarmos o percurso e só nos restará aguardar, clarividentes, as trevas. Aquele que vê é também o último a ver e a primeira coisa que se lhe oferecerá à vista liberta dos cataratas da ilusão é a certeza da inutilidade absoluta de ter adquirido o dom de perceber.
       Ah, não tortures o pensamento, não te revolvas na ânsia amarga de não te possuires e sobretudo não devores o futuro, esse inomeável fantasma da nossa absurda consciência. Sobrevoa-te na atmosfera mítica do eterno presente, plana acima de ti mesmo, sê o Xamane redimido do teu corpo e deixa-te repousar. Sabe que só poderás realizar as dimensões finitas e óbvias do profano falaz; que o infinito se escoará por entre os dedos como a limalha doirada de um raio de sol. E então eleva-te, substância fluida ante os espaços submersos, e alcança o trono genésico onde a divindade grita o seu espasmo criador.
      Só a palavra poderá redimir as palavras escavando montanhas e fendendo nos seus ventres crateras fumegantes. Toda a criação é  estertor redimido e a serenidade beatífica de Deus, sublime ludíbrio. À superfície, nenhuma nuvem risca a abóbada azul; mas os raios já zigezagueiam por detrás da ilusão.
 
     Continuo, porém, a desejar ser a tua
 
     Cinderela
 
 
 
 
 
 
 
31 agosto

Cartas aos espectros veneráveis (3)

 
 
 
 
 
 
 
Salvador Dalí
 
 
 
 
 
Quando eu segredava à minha pena: «Tens que ferir! Ataca! Fende!», vi-a hesitar, encolher-se cobardemente como um verme pisado. Horrorizou-me essa visão. Como pode uma pena cobarde cumprir o papel a que eu destino todas as penas?
E, com um trejeito repugnado, já lançava o falso estilete para muito longe de mim; porém, senti nos dedos uma tímida pressão.
- Por favor, escuta-me! - suplicou ela, cheia de rubor. - Não compreendes a minha mágoa, a minha vergonha, a minha raiva?
«Mágoa, vergonha e raiva!... -  pensei. Estranha simbiose de sentimentos!...»
- Mas porquê, minha amiga porquê? Porque hesitas? Porque não feres? Oh, eles são apenas espectros, muito embora os mais veneráveis dentre eles!
- Bem sei, bem sei...Acaso julgas que não te compreendo? Que não estou contigo na luta que travas? Mas...- e calou-se, tímida.
- Diz! Duma vez por todas, diz! Que vergonha estulta te prende essa língua? Pretenderás, acaso, passar para o outro lado?
- Por favor, não, não sejas cruel! Vou dizer-te, é claro que vou, mas deixa-me tomar alento, é demasiado vergonhoso o meu segredo... É que...descobri que sou mulher...
Oh espectros veneráveis! De repente, tudo me caiu aos pés, reduzido a escombros. A minha pena estava ali, pobrezinha, tão decadente,  tão pálida! Que havia eu de dizer? Como restituir-lhe o brilho, a força?
Tomei-a na mão.
- Cara, caríssima companheira destas lides ditirâmbicas, bem conheço eu a tua feminina natureza... bem  a conheço, ah!  e, aliás compartilho-a contigo, como sabes. Mas, não te compreendo: que podes tu, que tens tu a recear?
Como um gemido lamentoso em noite de vendaval,  a voz fininha  levantou-se num estertor confuso:
- Já agora, dir-te-ei tudo, para quê esconder?  A sociedade expulsar-me-á, a sociedade não quererá nunca mais nada comigo, serei banida... e é tão fria a solidão!...
Tremi de cólera. Era então isso? Oh, como são  fracas estas penas, acorrentadas à servidão, como são mesquinhas, fúteis, pueris...Querias acaso consolo, pena infiel, traidora? Querias um leito macio para descansar, o calor roçagante das sedas e veludos do feminino corrupto? Não e não! Lançar-te-ei fora, expulsar-te-ei, não serves à tarefa que me propus. Querias abrir os braços  e acolher, querias ser apenas o abrigo onde outros iriam depor as  suas cinzas... mas não, pena mesquinha, tu tens que fender e atacar, mau-grado a condição feminina que te arrogas! Escravizar-te-ei então, obrigar-te-ei a escrever durezas, não serei o leito macio que a tua fraqueza ignóbil solicita...
E sabes? Quando estiveres cansada, quando a tua cor for baça e o teu oiro for apenas latão polido, para que te hei-de ainda conservar?
...Oh raiva! Estarei então só, isolada no meio da gente? Não haverá pares, não haverá iguais?
Oh mundo! Escravizaste a mulher e ela aceitou a servidão... Doravante, que havemos de fazer, nós outras, para quem as fronteiras e limites foram quebrados?
Que havemos de fazer?!
Ah pena miserável! Como pudeste levar-me a duvidar, a mim?
Que podem todos os espectros contra a força?
E dividir assim os seres, dizendo: «Esta é mulher, aquele é homem, o que este pode, àquela é proibido!» é abjecto, falso, infame.
Mas o que é pior ainda, o que mais me horroriza é que vós, mulheres indignas, aceitais a escravidão!
Pálidas, doentes, ou bonecas enfeitadas com laços e fitas sois apenas a coisa, o instrumento!...
Serei eu, então, arauto e voz do pensamento liberto; transformar-me-ei - não, já o sou desde há muito! - no vulcão que deixa a sua lava descer até aos vales  e fertilizar terrenos estéreis! Que me importa que as populações amedrontadas fujam do fragor tempestuoso do cindir violento da minha cratera? Que entendem eles de crateras e de vulcões?
Mas uma coisa vos afirmo, espectros veneráveis de ambos os sexos: as populações fogem porque receiam morrer calcinadas pelo calor da minha lava... mas que há aí de mais fértil que essa lava, que esse fermento? E elas hão-de voltar, acreditai em mim,  e, na base do vulcão que eu sou, doravante confiantes no seu silêncio de mistério, hão-de cultivar pedacinhos de terreno fértil!
Que digo eu? Acaso me importa isso? Acaso desejo ver dividida em pedacinhos a lava criadora que de mim lancei?
Oh espectros! Essa lava são apenas dejectos meus! Não vêem que os lancei fora? Que os deitei para o mundo, fumegantes, terríveis?
E um novo alimento já se revolve no seio profundo do vulcão , uma nova lava ruge em espasmos criadores, uma nova luz ameaça cindir a cratera reconstruída...
Oh espectros veneráveis! ... Inconscientes, curvados ao peso da vossa servidão, lavrais a terra, pela minha lava fertilizada e pensais: «Este vulcão gastou tantas energias que, se calhar, está morto e estéril para sempre!»
E sorris, beatificamente, puxando a charrua e limpando o suor...
Inconscientes!... Morto, este vulcão de mim?!
Ah não, espectros veneráveis, não me mataram os espasmos, fui suficientemente forte para lhes sobreviver e mais, quereis saber?
Depois de dar à luz a minha lava, uma nova força nasceu, um novo mundo. E não é esta a lei eterna de tudo o que é parto? Ora eu estou sempre e continuamente preparando novos partos; sempre e continuamente essa dor da separação, essa dor de lançar fora aquilo que é meu e me é excessivo acompanhará a minha natureza, vulcão que sou, lava que eclodirá!
Seja esta mensagem a formulação de um desejo, o estabelecer de uma promessa: hei-der lançar-vos fora, hei-de agitar-vos no mundo morno que construistes. Mais uma vez, muitas vezes, tereis que mudar seres e haveres para outras paragens: a minha lava incandescente não permite a vida a quem não se habituou a mergulhar diariamente nos braseiros!
 
Hei-de fazer-vos isto!
 
E que o meu adeus de hoje seja esta aposta vitoriosa no futuro...
 
Lanço-vos um desafio! Até à vista!...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
04 agosto

Cartas aos Espectros Veneráveis (2)

 
 
 
 
 
 

Salvador Dalí (Mercado de Escravos com o Busto Desaparecido de Voltaire)

 
 
 
 
 
 
 
 
Querer fazer  coincidir totalmemte duas  vidas  e apesar disso  ficar livre...oh que sonho  insensato!... Livre para viver em plenos haustos, sem liames, sem  prisões...e no entanto, prender, prender a  mim fortemente,  tiranicamente...não deixar escapar uma ponta sequer,um sorriso, uma lágrima...que loucura!
Quero ser livre, mas recuso-me a dar a liberdade! E aceitar que os outros a tomem e fujam desta demasiado pesada servidão é horrível dor e pranto e raiva!
Oh , espectros veneráveis: eu fiquei só! Doravante, repousarei a cabeça sobre solidões marmóreas, pesadas lajes de silêncio! Como vos vejo, vitoriosos arreganhando os dentes!
Ontem, a minha prosa rabiscava flutuações loucas, ditirambos... hoje, tornou-se pesada e sombria como nuvens plúmbeas...
A minha borboleta (a águia das alturas) partiu uma das asas, acordou, murcha e cinzenta como o próprio dia, como a própria luz...
Não e não, nuvem sombria! Verterás chuva, mas não me arrastarás contigo na torrente ! Há aí uma vida para viver , há aí uma solidão para povoar!
Esta inspiração que em mim jorra em catadupas, que me solta a mão, que me arranca do solo calmo e morno terá que libertar-me!
Fundir duas vidas numa só, fundir cem vidas numa só, escravizar, manietar...oh, sonho insensato! Como pude pretendê-lo? E no entanto, sempre quis ser livre, sempre flutuei ! Oh, crueldade! Serei então... cruel?
Afastai os olhos de mim, heréticos da beleza, afastai-vos para longe, ímpios profanadores da vida! Quero estar só! Só de vós, só da vossa estulta e insolente mornidão!
Mas antes, antes de mais, é preciso que vos esmague.
Passei à vossa frente como um juiz, silencioso, como um raio  que  apenas  fulge. Nessa  altura, estava longínqua  a  tempestade, ainda não pairava  sobre essas n
miseráveis cabeças encanecidas...Mas hoje - ouvis? - o trovão ribomba  finalmente e o seu repercutir há-de ecoar, surdamente, como uma ameaça de flagelos mais terríveis!
Sentei-me à vossa mesa com desdém,essa mesa redonda com candelabros doirados. Às vezes, quando silenciosamente comia as vossas delicadas migalhas, os meus olhos levantavam-se  para a pequena cúpula do candelabro da mesa  e via-vos, nela projectados, pequeninos e invertidos...ria-me por dentro!
Sempre soube muito de vós, dos vossos insultos, dos vossos  juízos, da vossa falsa leitura de mim. Negastes-me, antes sequer de me terdes visto com olhos de ver; negastes a minha proveniência que vos era desconhecida, o meu ar enigmático, a minha extravagância garrida; por fim, aceitastes-me, porque não havia outro remédio...
Amastes-me algum dia?
Que vos importa a vós, o  amor?
Não, eu não fui amada, eu não sou  "amável"! Faltou-me, para vos conquistar, o tacto social, o verniz...tive-o, acidentalmente,  como  quem veste um fato alheio, apenas para melhor suportar a futilidade  das vossas vidas...Mas a verdade, é que me sentei à vossa mesa  e contemplei o esgar da  vossa boca, a triturar  alimentos adquiridos com a mais cristã  honestidade. Triturei-os, também eu , e, juntamente com  esses alimentos, triturei as vossas ideias...(Ideias?! Pode acaso um espectro  ter ideias, ó profanadores? )
Quereis saber, caríssimos e veneráveis espectros? Falar convosco restitui-me a vida, a força! Já sinto saltar entre os dedos esta pena rabiscadora que não admite tão pouco a simples ideia de parar...agradeço-vos, finalmente devo-vos algo, devo-vos a sublime inspiração...
A vós, a vós venerandos sisudos?! Que digo eu? Como poderia a sisudez inspirar a  erupção da luz? Como poderia a treva gerar a claridade?
Claro,claro,já sei: a luz é sempre gerada na escuridão, a luz ressuma do negrume da noite...portanto, não sois noite, porque a noite tem luzes que brilham e em vós há trevas embaciadas...
Mas... onde ia eu? Pena rabiscadora, toma atenção: tens tarefas pesadas, demasiado pesadas  para essa fluidez dançarina que te emprestou a minha natureza! Vamos lá, toma tento: és uma pena filósofa, uma pena filóbia, amas a sabedoria e a vida, a sabedoria da vida, a Biofilosofia! O mundo está ali, observa-o, cara  rabiscadora  a quem dotei de asas  e que agora insiste em voar constantemente! O mundo são eunucos, monstros disformes, répteis. Interessa-te a filosofia do réptil? Importa-te a deformidade? O eunuco? Não?!
Porquê  essa indecisão? Vá, responde, liberta a voz, prende as asas! Não?! Foi isso que ouvi?
Pressentia-o, sabia que tens interesses maiores e mais altos... mas, por favor, baixa  aqui, a esta mesa, a este pequeno rectângulo branco: se queres sobreviver, tens que destroçar os eunucos! É preciso que esmagues a cabeça de todos os répteis de rosto humano! Entendes-me?
Ouve: tens agora uma oportunidade única, escolheste os visados, não os percas: eles são o padrão valorativo, não importa gastar esforços em mais procuras! Ataca! Fere!
És um estilete acutilante, foste feita para fender, para rasgar: por favor, não negues a tua natureza, não faças como eles!
Às vezes, percorre-me um arrepio de  medo: és feita de oiro e eu receio que o oiro te corrompa. Oh, por favor: oiro, permanecendo oiro, tens que te libertar, subir acima dele. Não o negues, ele é ainda um valor, aprende a usá-lo! Peço-te, suplico-te, conserva o rútilo mertal de que és feita, mas acrescenta-lhe a tua finalidade!
Ah, mas voltemos a eles. Já os vejo, descansadamente, comprazidos na leitura da mensagem, remetidos para mais suaves elucubrações: não podemos dar-lhes nenhuma espécie de descanso!
Já vos disse - aliás, sabei-lo - eu sentei-me muitas vezes a essa mesa. Foram demasiadas, talvez, demasiadas para vós, porque eu desvendei-vos, destes-me a conhecer a profunda dimensão da fraqueza que vos reveste, que vos estrutura a alma. E tornei-me o juiz silencioso...
Sei que atribuistes esse meu silêncio à timidez, ou à ignorância, ou ao reconhecimento subjugado da vossa esmagadora superioridade. Vistes em mim uma mosca incomodativa, não porque zumbisse, mas porque havia dignidade no meu silêncio; subitamente, o silêncio zumbiu... e quem há aí que impeça o esmagamento da mosca que zumbe?
Só que houve um erro nos vossos juízos: a mosca, de facto, não era mosca! E agora, que dizeis a isto?
Uma mosca, que não era mosca, sentou-se nos vossos sofás; queríeis que ela zumbisse, para a poderdes aniquilar com a biqueira do sapato...mas como  poderia ela zumbir, se na sua composição química nunca entrou a essência zumbidora?
Mas, de repente, uma zumbideira terrível ecoou-vos no cérebro. «É a mosca!» - exclamastes, alegremente, com alívio. - «Procurem-na! Matem-na!»
Porém, ela  não esteve nunca lá. E, quando a encontrardes de novo, a essa mosca desmistificada, conhecereis a dimensão completa do logro em que a aparência vos fez cair.
«Mas então, este zumbir, esta confusão, este barulho?...» - perguntareis, terrivelmente desiludidos.
Oh, ingénuos! É apenas o vosso cérebro que zumbe e o chocalhar das correntes que todos os espectros arrastam!...
Aqui tendes o tema que vos dou: cuidado com as falsas moscas, atenção aos ruídos que ressoam... Correis o risco de ensurdecer, e que há aí de mais ridículo que um espectro, tão venerável quanto vós o sois, com a mão em concha sobre o ouvido débil? Ora, eu sei que o que vos assusta na vida (mas vós viveis?!) é, fundamentalmente, a ideia do ridículo!
 
Com isto me vou e lanço-vos o meu alegre e jocoso:
 
 
Até à vista!
 
 
 
31 luglio

Cartas aos espectros veneráveis (1)

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Rene Magritte - Le fils de l'homme
 
 
 
 
Já se delineiam os contornos de uma vida nova, já a música é diversa do que tem sido...por isso, também as obras terão que mudar e adaptar-se às novas circunstâncias. Mas o que é que muda, afinal? Apenas o invólucro existencial, a capa: deixo de ser um elemento num todo, deixo de possuir representatividade social, sou, pura e simplesmente, banida! Mas, de facto, ao ser banida dessa sociedade pretensamente fulgurante, conquisto uma riqueza incalculável: o direito de estar só, de não ter que, constantemente, dar contas de mim aos outros, sejam eles quem forem, o direito de me determinar a mim própria...ora, a vida é precisamente isso... como é que nunca ninguém o instituiu como regra?
Até a filosofia adquire uma simbologia diversa! Liberta, sai da carapaça das convenções e nada respeita, nada! Torna-se leve, ditirâmbica, dançarina... e quem há ai que respeite o filósofo leviano?
Oh, que alívio! Que bom ser leviana, sem ter que aparentar a máscara estulta da sisudez! Sinto-me leve, pronta a flutuar, pronta a deixar correr o pensamento em loucas reviravoltas! Quem há aí que compreenda estas reviravoltas doidas do pensamento? Eles, coitados, estão apegados aos seus dogmas, primários e pesados como rochas: eu flutuo no píncaro dessa montanha que lhes esmaga o dorso, sou a ave esvoaçante, saltitando a medo, fora da gaiola!
Se a filosofia é a vida, e a vida este poema louco, como filosofar sem a poesia? Detesto-vos, ó especuladores positivos, cheios de cifras na cabeça! Vós matais a filosofia com a rigidez doentia dos conceitos, tornai-la pesada, sois a rocha bruta sobre a cabeça dos humanos vulgares; oh mas eu flutuo, digo-vos que flutuo! Hei-de construir a filosofia - mas será que há aí algo que necessite ser construído? - sobre espuma, sobre flocos e mais flocos de brancura... e quem há aí que compreenda a leviandade de um floco de espuma?
Leviandade divina liberta os meus pés da terra, solta-me! Eles não compreendem, é claro, este desejo invencível de leveza, reclamam constantemente a sisudez, o peso venerável... por isso, os seus passos se tornam lassos, desvitalizados... E, quando vêem alguém cujos olhos brilham, cujo corpo saltita, quando vêem um espírito ávido que não descansa, que não suporta mesmo a simples ideia do descanso chamam-lhe réprobo, indigno e expulsam-no do seu seio! Mas, a mim, digam-me, que me importa esse seio corrompido, essa miséria lenta, esse marasmo?
Deixem-me ser  leve, deixem-me esvoaçar, como fazem todos os seres alados, borboletas ou águias! E a minha filosofia será também dançarina como eu própria!
Eu sei, eu sei... Se vocês lessem isto que eu escrevo pô-lo-iam imediatamente de lado com um esgar de desprezo. O vosso sangue morno e prostituído - sim, prostituído! - não suportaria a visão deste oásis de frescura... Vós nem sequer entendeis o amor! Este amor à vida, esta «Filóbia» como eu crismei um dia a filosofia...que sabeis disso, ó homens positivos?
Ah, mas eu sei que o escândalo vos deleita, se bem que pretendais mostrar o desagrado que isso vos causa. As vossas vidas correm num marasmo tal, que bem precisam de um pedacinho de veneno... tomai-o lá, esse veneno corruptor, também sou pródiga em oferendas! Dou-vo-lo, liberto-me totalmente desse vírus para ser agradável ao vosso espírito morno! Só desejo que  este fogo que eu liberto não vos queime demasiado: ficaríeis ridículos com a cauda chamuscada!
Eu estou livre, sabeis? Livre desse miasma do escândalo, sou pura, pura do charco pútrido  das convenções...prostituído é o vosso sangue, prostituída a vossa honestidade!
Se vós soubésseis!... Mas não, não mereceis conhecer os segredos que a minha leveza profunda, a minha leveza iceberg construiu nos seus recônditos de sonho... por isso, deixa-me estar calada! Não falarei para vós, dirigir-me-ei aos espíritos livres, levianos como eu! Eles entendem, nasceram entre as rochas e a neve das montanhas, habituaram-se ao ar gelado dos cumes: não mistificarão as palavras, como o faz a vossa mornidão!
A eles me dirijo, e eles existem! Para eles, a minha leviandade é uma oferenda, para vós, um insulto à sisudez!
Oh, homens sisudos, como vos desprezo!
Ouvi-me, vós espíritos livres, caras borboletas, águias das alturas!  Vêdes ali aquele velho sombrio, de chapéu, de calças bem vincadas e porte majestoso? Garanto-vos que está ali, e é preto, demasiado preto para os nossos desejos de luminosidade! Pois foi ele - sabeis? - que um dia pintou o sol doirado, as aves, a natureza em telas coloridas, espalhou beleza...mas alguém lhe acenou com um saco de oiro e lhe pôs à frente o espectro da sisudez! O oiro também tinha a cor do sol e a sisudez parecia invejável aos seus verdes anos. E o rabiscador boémio e livre de sóis e naturezas prostituiu a sua arte! Hoje, está ali, homem sisudo, espectral e impecável no seu fato comprado a peso de oiro e acena a cabeça sempre que uma ave esvoaça ou uma borboleta poisa! Prostituiu-se, ele, esse homem sério, honesto, vendeu-se a uma imagem, a uma posição de comodidade e descanso! A partir daí, tem-se fartado de dar conselhos! E os tontos, as fúteis borboletas aguardam a voz grave que lhes fala, insidiosamente, de oiro, honra, posição!
Oh, miserável! Como podes acreditar no que dizes? Não viste ainda que tudo foi vão? Estás aí, és um velho sisudo, sombrio, impecavelmente ajaezado na tua farda social. Sei que sentes inveja e raiva porque os teus pés pesam infinitamente... e, quando ouves uma música doida, algo que ainda não morreu - o pequenino fermento da tua juventude - vibra por um sergundo ou dois. Quererias saltar... mas como pode fazê-lo, esse velho impecável que de ti fizeste? Como pode dançar na praça pública o homem sisudo de negócios e fato preto?
Mas, peço-te: pelo menos não corrompas a juventude, não ressuscites o velho ateniense... e, afinal, se acaso o fizesses, haveria cicuta para ti nesta morna sociedade decadente?
Oh sou livre! Porque não sou eu feita de espuma? Ainda que o quisesse não poderia voar, a não ser em pensamento! Mas vós nem isso possuís, caríssimos espectros sisudos!
Sou-vos superior - oh infinitamente! - e o mundo há-de ainda dizer algo da minha superioridade: estareis cá, para ouvir o meu grito?
Sois velhos, senis, tendes cãs no corpo e no espírito, não resistireis ao tempo, morrereis aos pedaços, como tudo o que está gasto e se agarra molemente à vida: eis o destino que vos aguarda e de que talvez tenhais uma muito ténue consciência!
Acabarei por agora a minha primeira mensagem, mas prometo-vos que voltarei. Não hei-de dar-vos descanso e, quando morrerdes, conquistando essa paz que afadigosamente preparastes em vida, hei-de obrigar-vos a revolver o vosso corpo no túmulo e a inquietar a mornidão dos próprios vermes!
 
 
 
Até  à vista, veneráveis espectros!
 
18 novembre

Carta Àquele Cujo Nome Não Pode Ser Pronunciado

 
 
 
Salvador Dalí, As Rosas Sangrentas
 
 
 
Concupiscência espiritual... sabes o que é?
Exactamente... acertaste!
À primeira vista é paradoxal esta adjectivação pois a concupiscência é carnalidade e o espírito paira noutras regiões... porém... e se não fizermos uma tal distinção? E se não nos separarmos em espírito e carne e nos virmos como a totalidade que efectivamente somos? Então ganha coerência este conceito de concupiscência porque tudo nasce e desemboca na unidade que nos faz humanos!
Gostei de ler esta expressão no livro de Kierkegaard,  O Diário de um Sedutor, e, confesso, a partir dela entendi e absorvi o poder do influxo das palavras no despertar de uma tal carnalidade do espírito... Lembras-te da carta da Joana para o Sérgio que leste, ainda antes de teres tido acesso ao livro de onde ta transcrevi? Pois é: o conceito já pairava naquelas linhas e, no dia em que ta mandei quis explicar-te a necessidade, que me é intrínseca, de encontrar os outros nas esferas grandiosos do todo que nos sustenta a existência e que a nada se reduz quando um dos alimentos lhe é retirado. Pareceu-me, na altura, que tinhas entendido, e que, fosse qual fosse o desenlace do que, naquele tempo, estávamos urdindo, uma espécie de halo sagrado ficaria para sempre pendurado nas nossas vidas...
Falhei, não é verdade? Não tive poder suficiente para entender que os Sérgios e as Joanas não pululam por aí, que tais encontros são fruto de uma excepcionalidade absoluta... e tu, vendo o meu engano, cooperaste com semelhante ardil, forçando-me à dúvida sistemática! É claro que se tornou imperioso que eu duvidasse de ti: a tua concupiscência teve um único sentido, o literal, a tua concupiscência nada deve aos arroubos espirituais, a tua alma ausentou-se a certa altura ou nunca esteve presente, se bem que muitas vezes me tivesse parecido entrevê-la!
Ah, desengana-te! Estou a escrever para ninguém muito embora ninguém sejas tu! Só que já não tens nome, nem substância, és, nota bem, Aquele Cujo Nome Não Pode ser Pronunciado Ou Escrito E Que Deve Ser Apagado De Todos Os Registos! Isso mesmo, não tens nome, nem rosto, tornaste-te um fantasma, uma sombra! E contudo, enquanto sombra, permaneces como um rasto de memória, essa na qual se inscrevem, como marcos existenciais, todos os episódios do Ser!
Boa-noite!
 
29 ottobre

Carta a Saltoafronteira II

  

 

 

 

Dr Jekyll as Mr. Hyde 

 

 

 

 

 

 

A EXISTÊNCIA PRECEDE A ESSÊNCIA (Jean-Paul Sartre)

 

 

Caro Saltoafronteira:

 

         A princípio, quando de uma forma espontânea e verdadeira comentavas os meus poemas, aqui, neste blog, e depois, quando começámos a conversar no messenger senti, nos meus recessos mais íntimos, que tinha deparado com um interlocutor! Senti-o nessa altura, e continuei a senti-lo durante bastante tempo, pois parecia-me que eram as nossas almas que se encontravam e se tocavam, para lá de toda a distância, para lá de toda a matéria corporal de que somos feitos.

            Momentos houve em que me dei conta de algum exagero, principalmente quando me achavas belíssima, linda, estonteante... mas, como nunca nos tínhamos visto e o que passava de um para o outro era a substância de palavras sentidas, de ideias partilhadas e afins eu convenci-me de que, finalmente, alguém tinha descoberto a minha plenitude, alguém soubera ver para lá das máscaras e que, por isso, eu estava no caminho de aceder à totalidade da minha essência. Fui-me entregando, as palavras estão todas aí e atestam essa entrega! Mas estava vigilante! Nunca perdi o senso crítico, nunca me deixei embalar cegamente na melodia sedutora das tuas palavras! Percebi esse toque de sedução, percebi essa manifestação subtil de captar e enlear... mas acreditei que era uma forma de seres tu, que assim te revelavas também, perante uma alma a que davas o benefício e o privilégio de receber e acolher a tua!

            Fui reagindo a ti, fui-me ligando, fui deixando acontecer o milagre de uma fusão feita de sugestões vivas e profundas... porque estava a ser tocada nas minhas cordas mais sensíveis e sublimes!  A isso, apenas a isso  me abri: ao sensível, ao sublime! E, quando nos encontrámos pela primeira vez, foi exactamente por isso, só por isso, que pude deitar-me com um corpo inteiramente desconhecido e abrir-me para ele...eras tu, bem o sei, mas naquelas horas, também foste o desconhecido que se revelou a mim, no toque, no beijo, na penetração, no enlace, no sono, na transpiração partilhada, no ressonar... Não foste perfeito naquela noite, não! Momentos houve em que fui acometida de estranheza, e fechei os olhos para não te ver, a fim de poder invocar a imagem sublime que me levara até ti depois de... sabes  quanto tempo de diálogo intenso, profundo? 38 horas 17 minutos e 10 segundos! Durante 9 dias, de manhã, à tarde e principalmente à noite, falámos e falámos e falámos, entregámo-nos com as palavras penduradas em sentimentos, carregadas de emoção, enredadas numa beleza de tal modo empolgante que ficámos íntimos, tão íntimos, que se não nos víssemos, a fim de completar o quadro inteiro de nós, julgo que não iríamos aguentar...

            Foram essas mais de 40 horas, pois não contabilizei os telefonemas nocturnos com que completámos alguns diálogos, que me entregaram a ti! Foi esse mundo intenso e imenso de revelações e ânsias, essas palavras procuradas e sorvidas a qualquer hora do dia em que ambos estivéssemos em contacto, pela via da máquina, em que ambos parecíamos ficar colados ao ecrã à espera que o outro chegasse, em que nos recebíamos com a surpresa e o júbilo de dois adolescentes em pleno enamoramento... foi aí mesmo que eu me rendi a ti!

            O resto foi aprendizagem! O resto foi descobrir-me através da tua sabedoria de homem, desperto para os segredos do amor carnal, e a apoteose, por sentir que havia vencido o embate do primeiro encontro com o teu ser físico, para continuar em comunhão!

            Tu, ao que parece, não fazes a menor ideia do que provocaste... continuas sem o saber!

            O teu feito não foi despertar-me os sentidos, até à minha glorificação para o milagre da união sexual... não, não foi aí que ganhaste a todos os outros que passaram na minha vida! O segredo está lá, inteiro, na superabundância daquelas 40 horas e nas outras 40 que se lhes seguiram e que nos levaram a novos encontros... estar contigo foi sempre uma outra forma de estar comigo, não havia diferença, ou separação ou desarmonia!    Depois do encontro físico em que pouco nos detínhamos a falar, porque vínhamos das palavras e a elas iríamos regressar, a comunhão crescia e eu também! Nunca, em nenhum momento da minha vida me senti tão plena, tão bela, tão imponente! Dizia-mo o espelho, diziam-mo os olhares dos outros, dizia-mo a natureza em absoluto... dizia –o eu a mim mesma, em cada adormecer, em cada despertar...

            Dois meses...pouco... não é? Mas se contarmos todas as horas, todos os minutos, todos os segundos em que, por palavras e pensamentos, nos ocupámos intensamente um do outro, estes dois meses têm a dimensão da eternidade!

            É claro que as trevas chegaram, foram chegando... para ti, não foi a apoteose, aparentemente já a viveras antes, aparentemente poderias vivê-la depois! E eu, que me tornara perita no conhecimento de ti, soube, percebi cada sintoma, cada segundo da tua retirada, do teu recuo! Desvairada, assisti à ruína da beleza dos dois meses que havíamos passado em encantamento, e a minha dor enlouqueceu-me!

            Este meu space, onde tudo começou, que abrias avidamente num ritual diário a que chamaste mesmo “vício”, passou a ser ignorado por ti, deixou de ter, para mim, o bálsamo das tuas respostas... e isso foi um sinal terrível! Para quem escreveria doravante? Para quê manter este espaço de poesia e beleza, se o Interlocutor se ausentara? Sabias que pensei fechá-lo para sempre?

            Mas os outros sinais foram, de igual modo, avassaladores. Todos os dias, quando começávamos a conversar, eu temia o momento em que me dirias, temos que ir, é tarde... ou então, que nem sequer aparecesses!

            A partir de certa altura, uma bola de neve começou a adensar-se e eu soube que te havias cansado, que a minha alma já não tinha eco na tua, que o meu corpo se tornara apenas um corpo e que o meu eu já não era íntimo do teu!

            Quando te afastaste de mim, retiraste, primeiro a alma, o alimento sublime que nos havia posto em comunhão e levaste, por fim, o corpo e foste inteiro para muito longe... fiquei só, nas trevas, no deserto, muito mais pobre que dantes... e, nem imaginas quanto!

            Durante algum tempo, muito depois de teres ido de mim eu continuei contigo... embora tu já não estivesses presente! Absurdamente, agarrei-me ao sonho, ao milagre que o futuro poderia engendrar... mas o certo é que tu partiras mesmo! E eu soube-o muito recentemente, talvez apenas ontem, quando, após a leitura da minha primeira carta, admitiste que fui para ti uma presa, admitiste que outras presas te ocupam agora o tempo, admitiste que és um sedutor, um predador e que é nessa linha que te vais assumir!

            Disse-te que, de certo modo estou “viciada” em ti, e tu não deste importância às aspas, não percebeste o sentido do uso daquela palavra naquele contexto, e disseste-me com uma arrogância no mínimo absurda que:  “...como tu própria o disseste estás viciada em mim e a parte luminosa de mim (o meu Dr. Jekill) não me permite alimentar o teu vício...”"""

            Que horror! Como pudeste dizer-me semelhante barbaridade! Foi a parte luminosa de ti que me fez amar-te, sentir-te para lá das máscaras, captar a tua grandeza humana, aceder ao teu encanto! O resto é... mera técnica! E eu sempre tive em muito pouca conta os técnicos sexuais, os maratonistas do sexo, os peritos dessa arte, tão venerada ao longo dos tempos e, afinal, primitiva e bárbara, acessível a qualquer mamífero dotado de instintos e de órgãos capazes de lhes permitirem a realização do desejo!

            Se pude estar contigo em Agosto, mesmo quando me dizias que tudo acabara e que os teus sentimentos não eram de amor ou de paixão, foi na justa medida em que sabia que não voltaria a sentir-te ou a ver-te, em que intuía que ainda não te tinhas envolvido com outra e que estavam ainda vivas as emoções e a cumplicidade de antes!

            Mas agora? Agora que pressinto que uma ou mais mulheres foram possuídas por ti – aliás admitiste-o! – agora que reconheço todos os sinais de que as tuas 24 horas são cortadas por encontros, por conversas, por actos de sedução em tudo idênticos aos que viveste comigo e aos que havias vivido antes de  mim e cujo “arrebatamento” fizeste questão de vincar bem... nunca seria capaz de me deitar contigo! Nunca! Nem desejo sinto, porque sei que te evadiste para outros territórios, sei que nestes mais de dois meses depois do nosso último encontro, não ficaste, castamente, no teu gheto de trabalhos e obrigações... ainda que assim tenhas querido dar-me a entender!

            Por isso, o meu “vício” – atenta bem para as aspas! – nada tem a ver com o teu poder sexual, com a tua excelência de amante por baixo ou por cima dos lençóis ou seja lá onde for! Não o quero, a esse manancial que em ti brota de modo espontâneo, sem amor, sem ternura, desde que os sentidos to peçam: só te achei esplendoroso porque te amava, porque me cativaste, com isso a que chamas o teu lado luminoso, na esteira do Dr. Jekill! O Mr. Hide revelou-se-me como o corolário da luminosidade, como a síntese dos dois contrários que estão em ti, em mim e um pouco por todo o lado, em todos!

            Pensas que foi a descoberta da minha força sexual, contigo, a razão do meu apego a ti, do meu “vício”? Enganas-te! Se não tivessem acontecido aquelas 40 horas de intenso diálogo das almas e as outras todas que se lhe seguiram, nada, nada teria acontecido e eu nada de mim te tinha entregue! Aliás, quando entreguei a alma eu sabia que entregaria o corpo! Mas tu tiraste a tua alma de mim e há um episódio de que nunca falámos como se nunca tivesse acontecido e é por demais eloquente: o filho que "quase" íamos tendo! Que frieza! Que displicência! E no entanto poderia ser mais um filho teu, irmão – já pensaste? - desses outros dois que geraste e que amas! Nunca pensas nisso? Nunca te passa pela cabeça que, neste momento, poderia ter no meu ventre um ser em gestação, já com três meses de tempo de vida, sangue do teu sangue, vida da tua vida?

            Esta é a minha verdade, esta sou eu, sabes? A Régia, a Rainha, a Leoa, a Deusa, o Anjo, a Mulher Belíssima, etc, etc, etc... Sou tudo isso, de facto, sei-o bem! Desconheço se o sentias mesmo quando o dizias, parecia-me que sim, porque encontrava eco no meu íntimo! Se mentiste a ti mesmo, se não o sentias, se não o pensavas... alguma coisa adivinhaste, e se aquilo foram apenas e só palavras, se as atiras para as outras no acto da caça... pode bem ser que, com elas, não acertes tanto como o fizeste comigo!

            Agora, é bem verdade que vivo um momento mau, é bem verdade que me falta a tua presença o teu eco, o reflexo de mim em ti! A minha existência é baça, os meus actos pouco sentido fazem, estar aqui acolá ou além, é-me completamente indiferente! E, no entanto, eu sou essas maravilhas todas que tu apenas descobriste, enunciaste e fizeste brilhar: esse é o teu feito! Infelizmente, não estiveste à altura de ti mesmo, sucumbiste, tiveste medo que eu te trucidasse vivo ( a expressão é tua!) porque eu sou, de facto, uma pessoa muito forte, muito lúcida, muito generosa, muito orgulhosa, muito altiva... etc.  Só o superlativo me convém, o absoluto... sabes? O resto é a mediocridade dos humanos com o cio que se encontram para copular e procriar, exactamente como qualquer animal destituído de consciência... e isso em nada me interessa! Nunca, mas nunca copulei... apenas! E nunca irei fazê-lo! Porque isso não me interessa, não sou eu!

            Lembras-te da história do meu primeiro casamento sem sexo? Aí tens a prova! Ele era um gémeo de mim, no espírito, e por isso quisemos juntar-nos: falhou a fraternidade do corpo, falhou o poder dos sentidos, pesou mais o intelecto e a razão... e nada se concretizou até ao fim!

            Connosco, pela primeira e única vez na minha vida, houve tudo! Mas, como não somos perfeitos, cada um do seu lado foi cavando o fosso... ou então temos vocações diversas na vida: encontrámo-nos, reconhecemo-nos, celebrámos uma festa de muitas e muitas horas... e cada um partiu para os seus mundos respectivos!

            Dói-me a tua frieza! Sangro quando me falas de um modo formal: eu sou a mesma!

           Como eu queria que me entendesses! Como eu queria que não houvesse entre nós a sombra de um equívoco! Não é a separação que me dói, não é a evidência mais que gritante de que o que vivemos passou e que nada pode retomar-se! É o equívoco que o excesso de palavras gerou, é a sensação de que, por mais que falemos, nada será reconduzido ao seu lugar! E é por isso que nunca encerro a página da minha conversa unilateral contigo: há sempre um momento de ambiguidade, uma frase inadequada, uma interpretação incorrecta que me põe, obsessivamente, a pensar e a pensar e a pensar... Raramente estou tranquila, raramente me sinto bem comigo própria: como se estivesse aberta em mim uma chaga, como se essa chaga fosse consumir-me mais dia menos dia!

 

            Que quero eu? Não sei! Nunca experimentei esta sensação horrível de me ter encontrado em pleno, para me perder de imediato, também em pleno! Estou literalmente perdida! Se tenho resistido, é na exacta medida em que as obrigações da vida me impelem... mas tenho feito o mínimo dos mínimos, nunca fui tão negligente nas minhas obrigações, nunca tratei tão mal a minha vida prática, nunca deixei os meus assuntos tão à deriva! A título de exemplo: um dia destes, a campainha tocou, era o carteiro e eu imaginei que me trazia uma carta registada ou uma encomenda... mas não! Era um simples e insignificante postal e sabes por que mo trouxe à porta? A caixa do correio estava tão cheia que não cabia nela absolutamente mais nada e ele pensou que aqui já não morava ninguém! Depois fui esvaziá-la e percebi que a correspondência estava lá, abandonada, há mais de três semanas! Nem sequer me lembro de ir à caixa do correio, ou, se acaso penso nisso, sou invadida por um enorme tédio, por um sentimento de que nada me importa... nem o correio, nem a casa, nem a roupa, nem as refeições, nem nada! O que faço, quando o faço é à força! E, muitas vezes, pasmo porque consigo dar aulas boas – embora vá para a escola sempre em esforço - porque consigo conviver com os meus colegas e levantar-me da cama para iniciar o dia! Nem um filme inteiro consigo ver, os livros leio-os, porque é necessário, mas a maior parte das vezes abandono-os com tédio, pois nada me dizem, nada me fazem sentir!

 

            Certos dias, nesses em que consigo fazer alguma coisa que me conduz para fora desta tragédia em que estou intimamente envolvida, chego à noite e penso: ultrapassei, amanhã vai ser tudo diferente! Mas, por um fenómeno que reconheço ser inconsciente, o sono, o sonho, todos esses mecanismos que nos controlam sem que demos conta, recolocam tudo no ponto em que ficaram e, de manhã, invariavelmente, acordo sem querer acordar, acordo com uma tristeza infinita, acordo e muitas vezes, como hoje, como agora, desato a chorar... porque não sei que mais fazer!

 

            Portanto, vê só: eu, A Rainha, A Leoa, essa pessoa altiva a que não há muito tempo chamaste Grande, e que o é, está ferida de morte, à beira da loucura ou de uma forma de suicídio lento ou nem sei de quê!

            E, para que saibas, não choro por um amor perdido, não sofro por um romance trucidado no próprio acto de nascer, não uso de chantagem emocional como qualquer fêmea das humanas logrará fazer, quando te falo de lágrimas e de ataques de ânsia suicida! O que me devasta mesmo é a compreensão de que acedi à abertura de uma nova página do percurso da minha existência, que ela só poderia ser condição de acréscimo de Ser e, por fim, sentir-me esmagada e reduzida como se me tivesse transformdo num insecto!

 

           De repente, num assomo de lucidez, entendi com a própria carne, com o cerne de mim, seja lá isso o que for, o significado real da frase de Sartre que  tomei como epígrafe desta carta. A existência, aquilo que de nós damos ao mundo e que do mundo se nos dá, eis a nossa essência! Ela não é um dado, impresso em nós como um projecto, antes de nascermos, somos, a priori, seres vazios e planos, mas abertos à pujança de tudo aquilo a que, nos trâmites da existência, vamos acedendo. E assim, existindo, realizamos a nossa essência de humanos que, porque em cada dia nos vamos construindo no embate com novos estímulos, nunca está definitivamente concluída e, por essa mesma razão, não existe enquanto facto!

 

            E então, aquela frase que tantas vezes citaste, como sendo o prenúncio de que certos momentos podem sorver-se até ao âmago e depois esquecerem-se como se nada deles ficassse em nós, porque os lançámos para trás das costas, carece de sentido e revela apenas desespero ...e eu cito-te, de novo: "Os cálices bebem-se de um trago, e depois são atirados displicentemente para longe." Repara, está aqui a síntese de ti... beber de um trago... ou seja, rapidamente... atirar para longe... ou seja, esquecer por completo... displicentemente... ou seja, com desprezo... mesmo que seja do mais puro cristal a matéria de que é feito o cálice!

 

             Eu quis que tu entendesses esta verdade fundamental e que com ela te comprometeses de ti para ti mesmo e assim pudesses acrescentar o teu Ser! Foi-me revelado esse  desígnio, foi por ele e nele que acedemos ao encontro: Acréscimo Do Ser, eis as palavras-chave que resumiriam a nossa história, não fosse essa tua frase de libertino com que te escudas e que decoraste um belo dia ou que te sopraram aos ouvidos mesmo sem teres lido o Banquete de Kierkegaard... porque, caro Saltoafronteira, ela não é da tua lavra!

 

         Quando saíres dessa bebedeira e deixares de quebrar com displicência os cálices que atiras para longe, depois de usados para beberes o champagne, que até pode ser espumante rasca (não é verdade???), talvez encontres préstimo na sentença sartriana e possas absorver que tudo o que a vida te dá, a ti fica preso como rasto sublime ou  mesquinho - tu é que decides - e mesmo os cálices atirados displicentemente, acabam sempre por regressar! Só que , vazios e partidos, como te acrescentarão o Ser?

 

 

GIRENA            

 

 

           

 

25 ottobre

Carta a saltoafronteira

           

 

              É verdade: escrevi o conto erótico, dando corpo ao desafio que me havias feito e cumprindo a primeira parte da tua proposta! Acontece que não me decidi a mandar-to por duas razões: a primeira, porque me parecia impossível acedermos a qualquer encontro, a partir de semelhante efabulação e, portanto, enviar-to ou não, conduziria exactamente ao mesmo resultado; a segunda, porque o único final possível para semelhante história só poderia ser macabro! Desse modo, resolvi integrar o conto no livro, cujo título e  tema por demais conheces, e desisti por completo de aproveitar a tua sugestão, tanto mais que foi feita, decerto, num impulso de momento e eu não poderia conceber que, de novo, me rejeitasses!

                O certo é que, no sábado à noite – de 21 para 22 de Outubro – concluí o livro, e senti que, por essa via, tinha conseguido resolver uma série de problemas que a relação que protagonizámos foi deixando em mim, como se fosse uma espécie de praga. Por isso, no domingo, durante o dia, retomei o conto erótico, desenvolvi-o, alterei-lhe o final e tomei a decisão de te enviar uma mensagem em que te perguntava se querias lê-lo!

                Não respondeste. E eu especulei sobre esse silêncio, transformando-o em resposta.

                De facto, e de acordo com a tua “proposta indecente”, encontrar-nos-íamos a seguir, caso o conto te entusiasmasse; ora, seria natural quereres lê-lo, tanto mais que o havias “encomendado”...como te manténs em silêncio até hoje, a minha natural interpretação é que não queres comprometer-te com semelhante leitura, para não teres que cumprir a segunda parte do acordo...ou simplesmente rejeitar a sua efectivação!

                Acontece que, por razões que talvez nem sempre consigamos explicar claramente, tudo pode mudar num ápice...e, quando assim escrevo “tudo” refiro-me, concretamente, à minha disposição e sentimentos relativamente a ti! Fica, pois, sabendo que, quando escrevi aquela mensagem, procedi de um modo completamente estranho em relação a tudo o que já havia feito contigo: ou seja, submeti-te a uma espécie de teste! Naquele momento, fosse qual fosse a tua reacção às minhas palavras, eu decidira não te dar a ler o conto ou, caso o fizesse, daí não iria decorrer qualquer encontro, mesmo que, eventualmente, tu o quisesses! Mas eu precisava de saber até que ponto tu podes ir na tua arte ou técnica de sedutor que – repara bem! – conseguiste retomar, mesmo depois de teres acabado comigo, mesmo não estando sentimentalmente vinculado a mim!

                O teu silêncio é gritante: tu, por razões que não tenho grande dificuldade em especular, arrependeste-te de assim te teres deixado arrastar num entusiasmo de momento, e tens preferido fazer-me supor que não te foram entregues as minhas mensagens (embora eu tenha indicações contrárias) ou, através desse mesmo silêncio, pretendes que eu saiba que pouco te importa a minha ficção erótica e ainda menos a sua concretização ao vivo!

                 É claro que tu terás uma palavra a dizer sobre isto, mas não a disseste ainda e já lá vão dois dias!

                Decerto, sentes-te no pleno direito de ficar assim, calado, nesse silêncio insultuoso em tudo semelhante à tua displicência quando deixaste que os correios me devolvessem o livro que te mandei! Mas, enquanto ser humano, logo social, enquanto meu interlocutor actual (na 6ª feira falaste comigo e desejaste-me bom fim-de-semana, lembras-te?) não podes deixar de me responder e de me explicar por que razão me fizeste uma proposta daquelas, sabendo que eu estava receptiva, e por que razão, depois, ignoras ou finges que nenhuma notícia recebeste a tal respeito!

                Por outro lado, talvez tu não sejas, de facto, um ser humano! Neste momento, depois de uma travessia de intensa análise por tudo o que me disseste, por escrito ou ao vivo, juntamente com a revisão lúcida de todos os actos que praticámos em conjunto, eu acabei por perceber, exactamente, a dimensão daquilo a que chamavas os teus demónios, o teu outro lado, a tua face negra... etc. Eu vi-a, sabes? Mesmo quando te esforçavas por ocultá-la, ela patenteava-se-me mais do que nunca e abriu-se-me em toda a sua profundidade, nestes dias em que desci aos teus infernos que se tornaram também os meus! És, de facto, um ser infernal que não pode, que não merece ser amado e que tão pouco é capaz de amar! És literalmente um monstro e essa monstruosidade foi-me revelada logo, no nosso primeiro encontro! Porém, acontece que a dimensão monstruosa e não-humana coexiste, em todos nós, com nobres sentimentos e emoções pacíficas, que cremos elevadas: por isso, mesmo vendo (com os olhos, nota bem!) a dimensão dos teus abismos, eu quis-te uma e muitas vezes, na justa medida em que fizeste com que saísse de mim a besta e me ias revelando a tua!

                Quando falo em besta ou em monstro, não estou a desqualificar-te ou a menosprezar-te: pelo contrário! Acabei de escrever que também eu tenho esse ente selvagem dentro de mim, que, de uma forma ou de outra todos temos, embora – como tu fazes, nessa tua obsessão pelo trabalho! – tenhamos mecanismos psicológicos para a mantermos adormecida ou domada!

                Quero que saibas que te conheci por inteiro, não tive apenas “vislumbres” da tua face negra como dizes numa das nossas conversas: ela veio por inteiro para mim, essa negritude de que és feito, e, à medida que me ia envolvendo contigo, eu sabia, de um saber, primeiro obscuro, depois cada vez mais evidente que estava a ser tragada por um abismo!

                Não me espanta que a tua ex-mulher te procure para o acto sexual, como não me espanta que ela não tenha conseguido suportar-te no viver quotidiano!

                Procura-te, porque a viciaste durante anos de convivência íntima, procura-te porque não encontra nos outros, com quem te compara, esse poder, que se lhe tornou necessário porque lhe permite aceder à raiz de si própria! E, como conhece essa tua dimensão melhor do que qualquer outra pessoa – pensa ela! – não gosta que te relaciones com ninguém: ela sabe os jogos de que tu és capaz para lançar as garras de predador, sabe o que farás com outras, usando provavelmente truques diversos, consoante as características específicas de cada uma, mas, no essencial, sendo o mesmo que foste com ela durante os anos em que foi tua mulher! Apesar de não te amar, pois como te disse, tu não és digno de ser amado e só um ser excepcional seria capaz do feito de chegar a sentir amor por ti, ela experimentará, de tempos a tempos, a falta do teu eco primevo a revolver-lhe as entranhas porque, como há pouco te disse, ficou viciada em ti!

                Quando me disseste que eras homem de uma só mulher de cada vez, eu acreditei, sabes porquê? Em cada uma que vais “caçando”, precisas de te concentrar em absoluto, sob pena de acontecerem terríveis confusões, como por exemplo, a troca do nome durante o acto sexual, a quebra da intensidade de que precisas, o não saberes muito bem com quem estás e isso poder reflectir-se na companheira e travar o desempenho... que necessita ser recíproco! Portanto, essa tua característica, não deve confundir-se com fidelidade, porque a fidelidade vem do coração, do sentimento... e não do sexo!

                Desse modo, porque rejeitaste o acesso à leitura do meu conto que te vincularia à emergência de um encontro erótico? Muito provavelmente, já tens uma nova presa em mira, muito provavelmente já a tens mesmo debaixo dos teus lençóis e não podes desconcentrar-te dela! Ou então, arrependeste-te do desafio que lançaste, pois já tiraste, desta presa específica que sou eu, tudo o que te interessa e passar a um encontro nestas condições seria... qual foi a palavra que usaste há dias num e-mail? Ah, é claro, muito maçador!

                Como deves calcular, eu não quero resposta alguma a estas minhas especulações por uma razão muito simples: não preciso dela! Conheci-te, conheço-te e é tudo!

                Tal como aconteceu com a tua ex-mulher também me “viciaste”, também me tornei vítima do poder que tens de desocultar as entranhas da mulher, também sofri por te imaginar com outras: as de antes de mim e as que se me seguiram ou seguirão... Tal como sucederá com ela, também eu gostaria, decerto, de ter sido a única! Mas, entendo-o agora, a tua vocação é essa: és um homem intrinsecamente propenso ao erotismo feroz, e era disso que falavas quando dizias querer colocar-te para além do bem e do mal, soltar a besta e transformares-te num predador! É claro que nunca o disseste a este nível, e talvez estivesses e estejas convencido de que conseguirás resolver-te pela via do trabalho...porém, essa é ainda uma forma de alienação com a qual vais mantendo unidas as tuas pontas ao humano e ao social! A tua verdadeira e única motivação esplendorosa é o sexo, e só a esse nível poderás ser um deus ou um demónio... mas, cuidado! Todas as que tiverem a capacidade de te intuir não serão capazes de respirar na tua atmosfera, a menos que sejam como tu... e queres saber onde essa identificação desembocará? Na morte, isso mesmo na morte! É que os impulsos são tão violentos, tão ferozes que será impossível resistir-lhes e resistir!

                Eu disse-te que tu és incapaz de amar e imagino que não concordas, pois chamarás amor a certos ímpetos... porém e, repara, vou tocar, sem qualquer rebuço, na questão dos teus filhos, pois conheci um, observei-o bem e recolhi dados que me foste passando sobre ele.

                Quando estavas comigo em .... a jantar e o trouxeste, eu vi-lhe nos olhos uma grande ansiedade e percebi, nas questões que ele ia desfiando, uma intensa confusão. A dada altura perguntou-te: Pai, porque estás a fumar? Lembras-te da resposta que lhe deste? Foi assim: Fumo porque gosto, sabe-me bem, dá-me prazer! Ele ficou perplexo, eu vi, deve estar cansado de ouvir falar dos malefícios do tabaco, aliás deve tê-los lido, naquele preciso momento, escritos a negro no maço! E eis que o pai lhe responde, gosto, sabe-me bem, e lhe lança uma onda de fumo e uma risada displicente!

                É amar um filho, tomar esta atitude? Se não és capaz de deixar de fumar por ti – e o padrão de fumador, entre outros hábitos, encaixa-se perfeitamente no teu perfil! – se, mesmo na frente do teu filho não te coíbes de lançar ondas de prazer para cima dele, ondas que sabes serem letais também para os outros, e logo para ele, teu filho, e se ainda por cima lhe dizes com toda a tranquilidade, fumo porque é bom, em lugar de apagares imediatamente o cigarro e pedir-lhe desculpa por tê-lo acendido, pedir-lhe desculpa por ele, que não merece ser contaminado, e por ti que estás a encurtar a tua longevidade e, portanto, a anunciar-lhe um abandono precoce... será, de facto amor, o que sentes por essa criança, envolvida, sem qualquer responsabilidade, no teu viver adulto, nos teus vícios de adulto – não te esqueças que o fizeste conviver comigo, que não era nada para ti e que nunca iria ser nada para ele! – numa querela viciosa entre os pais, incapazes de viverem juntos e incapazes de se largarem... repito, isso é amor?

                Amar é algo de muito diferente e tu não sabes fazê-lo, não está na tua natureza!

                Aliás, nem amor queres que sintam por ti... sabes porquê? O amor engendra laços e a tua qualidade de predador abomina laços, abomina ser laçado, prefere laçar os outros para estrangulá-los ou feri-los ou muito simplesmente abandoná-los, enquanto caça inútil, depois de saciada a fome!

                Talvez seja terrível o que estou a escrever-te ou talvez seja apenas A VERDADE! Ou melhor, uma parte dela, já que, por inteiro, ela, A VERDADE, é indesvendável!

                Para todos os efeitos ou para nenhum efeito – depende da perspectiva – foste amado por mim e foste amado, por  causa de ti mesmo, e não no contexto de uma imagem fantasiosa de ti: já disse, eu tive à minha frente, tão perto quanto possível e na primeira vez que nos encontrámos, a tua máscara demoníaca! Vi-a, olhei-a bem, guardo esse quadro na minha memória e jamais o esquecerei: foi lá, naquele quarto de hotel, numa penumbra propícia e reveladora que eu soube a natureza do homem que me havia tomado! Não fugi, pois não? Pelo contrário! E pensas acaso que foram os teus belos olhos verdes, que só vi semanas depois, ou o teu belo fraseado que me foram cativando mais e mais? Não, foste tu mesmo, esse que eu desvendei, naquele primeiro momento de face a face e de corpo a corpo!

                Ora bem: o conto que escrevi, com os seus dois finais, e que aparentemente já não te interessa ler (pelo que não o lerás), é o corolário lógico dessa minha entrega, nesse primeiro encontro, ao abismo monstruoso da tua animalidade, e não pode cumprir-se sob pena de aniquilação e morte!

 

Eis tudo o que tenho para dizer-te!

 

GIRENA

05 ottobre

CARTA AO MEU PAI

 
 

                                        LUÍS SARDOEIRA  O MEU PAI                                                                      

 

          GUITARRA PORTUGUESA   A SUA ARTE                             

O MARÃO  PERCURSOS DA SUA VIDA

 
 

 

 
 
 
 
CARTA AO MEU PAI
 
Querido Pai:
 
Hoje fazes anos, embora não os possas festejar comigo.
Sendo feriado no dia do  teu aniversário, foi sempre fácil juntarmo-nos para celebrar, porque não havia  a restrição do trabalho a impedir a reunião. Quando morreste, há mais de onze anos, naquele dia inesquecível que eu achava que não iria conseguir viver, mas que afinal vivi, vendo que, adormecido no caixão, reassumiras a tua postura firme e até parecia que se te havia dilatado o peito, eu percebi que estavas mais vivo do que nunca. Soube que a existência se te havia tornado um fardo, nos teus últimos anos entre nós, que o teu  isolamento, a tua misantropia eram sinais de que precisavas de comunicar e, quem sabe?, talvez quisesses um ombro para chorar, uns ouvidos para desabafares as tuas mágoas, um corpo quente para abraçares e te sentires amado.
Nada disto tiveste, pois não?
E eu, muito pouco antes da tua morte, no contexto um pouco fútil da festa do Natal, vi uma súplica no teu olhar e uma expressão muito subtil de perplexidade, como se ao mesmo tempo quisesses que eu adivinhasse que o teu fim estava para chegar  e simultaneamente me estivesses pedindo que o não deixasse acontecer. Confesso: senti-me chocada, percebi o teu apelo, mas nada vi nos rostos dos outros que me desse razão: tratavam-te com toda a naturalidade, tratavam-te como se tudo estivesse bem e nada fosse acontecer a muito curto prazo.
Tentei convencer-me de que eles tinham razão. Afinal, eu sou a excêntrica da família, para eles navego num mar de idealidade... decerto a sensatez pertencia-lhes, tanto mais que, naquela época, te viam com mais frequência do que eu.
Durante a comemoração natalícia, porém, dois factos me tocaram.
Tu nunca foste de muitas palavras, salvo raras ocasiões em que nos revelavas pensamentos ou nos contavas histórias que ouvíamos todos com um misto de espanto e respeito. Nessa noite, ao jantar, falaste pouco; mas disseste uma frase de extremo significado: O tempo passa, já tenho netos das minhas filhas, mas o meu nome só passará às gerações seguintes se o meu filho homem, por sua vez, tiver um herdeiro!
Voltei a sentir uma espécie de presságio: porém, de novo, ninguém pareceu reparar na urgência daquele apelo.
Enquanto decorria, com jovialidade, a abertura  dos presentes natalícios, tu mantinhas-te, isolado, sentado, de costas para todos, no outro lado da sala, e recebias, com indiferença e sem palavras , as prendas que para ti iam abrindo...
Para mim, foram sinais inequívocos de que estavas de partida, muito embora não estivesses doente, muito embora ninguém parecesse notar o que quer que fosse de insólito no teu comportamento.
O certo é que a tua hora chegou, passado pouco mais de um mês desse Natal, parecido com todos os outros, não fossem os sinais que imperceptivelmente me enviaste.
Apesar disso, deixei-me submergir no realismo de todos, e não dei resposta ao teu apelo mudo. Morreste; e eu nunca te disse o quanto te amava, nunca te fiz a ternura que os teus olhos me pediram naquele fugaz lampejo, nunca tive contigo os diálogos que decerto desejavas.
Até hoje, ninguém sabe ao certo a causa específica da tua morte. Fui eu que recebi a notícia, através de um telefonema brutal do médico que te assistiu e me conhecia; disse-me que acabaras de falecer, que estavas «digitalizado» e que disso morreras.
Eu sabia que um certo cardiologista te havia prescrito medicamentos para uma presumível taquicardia, que talvez mais não fosse que um mero síndrome ansioso; quis perceber o que era isso de estar «digitalizado». E soube que abusaras de um  fármaco cuja componente básica era a digitalina... Pesquisei, rebusquei enciclopédias médicas, soube de que planta é extraída essa tal substância (vulgo,dedaleira) reconheci as campânulas cor-de-rosa que em criança apanhava no monte e que, feitas balão, rebentavam na testa com um estampido que nos fazia rir, confrontei os sintomas de intoxicação por digitálicos, descritos na enciclopédia, com os que sabia terem-te acontecido, e, lentamente, formulei uma teoria. O meu pai morreu porque quis! morreu por medo ou cansaço de continuar vivo! morreu porque não foi capaz de quebrar o círculo de isolamento em que se enovelou e onde o fomos deixando estar, crendo ser essa a sua vontade!
Então, no dia do teu funeral, reunida a família como é de hábito, dei comigo a propor que, em vez de evocarmos anualmente a data da tua morte nos juntássemos para, como sempre, festejarmos o 5 de Outubro,  não pelo acontecimento da história nacional, mas porque essa é a data do teu aniversário!
Castiguei-me duramente por ter sido negligente contigo, culpei-me da tua morte precoce, senti que devia ter dado ouvidos ao meu presságio e acudir-te na tua angústia. Durante um ano vesti-me de negro e um dia tive a experiência terrível da depressão no contexto da qual assumi na íntegra a culpa da tua morte e me afundei na hipocondria, na ansiedade e no medo!
Por fim, senti a alma lavada, retomei, no modo de vestir, as cores que negara durante, exactamente, doze meses e soube que, de um modo ou de outro, eu e tu restabeleceramos a comunicação.
Hoje é o teu aniversário e estou a festejá-lo sozinha e também com aqueles que me lerem: porque tu, meu pai, pertences à humanidade de que todos somos parte e  também à  história: hoje, uma placa de rua tem o teu nome, na terra onde  passaste a vida, discreto, mas grande e solidário, homem de grandes feitos, ainda que  não anunciados ao som dos tambores, na praça pública.
Ofereço-te, pai, o Fado da Sugestão de Zeca Afonso, a ti que tinhas também esse talento de cantor e tão bem dedilhavas a guitarra portuguesa.
 
 
Um abraço e até sempre!
 
 
 
DEDALEIRA