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19 novembre

REPETIÇÃO

 
REPETIÇÃO
 
 
 
«Ó meu querer, curva do caminho de toda a necessidade, necessidade toda minha, livra-me das vitórias mesquinhas!
Ó vocação da minha alma, tu a quem chamo meu Destino, tu que estás em mim, acima de mim, preserva-me, guarda-me para um grande destino!
E a tua grandeza suprema, ó meu querer, reserva-a para a tua suprema proeza, - mostrares-te inexorável na vitória. Ah! pois quem não sucumbiu à sua vitória?
Ah! que olhos se não turvaram nessa perturbada embriaguês? Ah!  que pé não vacilou e esqueceu a firmeza na vitória?
Faz com que eu esteja um dia pronto e amadurecido para o grande Meio-dia; pronto e amadurecido como o bronze em  fusão, como a nuvem que traz o raio, como a teta cheia de leite,
pronto para mim próprio e para o meu querer mais secreto - arco que aspira à flecha, flecha que aspira à estrela,
estrela pronta e amadurecida no seu meio-dia, ardente e atravessada por uma flecha, desfalecida sob as flechas destruidoras do sol,
ela própria sol e inexorável querer solar, pronto para tudo destruir na sua vitória.
Ó meu querer, curva do caminho de toda a necessidade, ó necessidade toda minha, reserva-me para uma grande e única vitória!
 
Assim falava Zaratustra»
 
 
 
 
Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra
12 novembre

Evocando Ilídio Sardoeira

EVOCANDO
ILÍDIO SARDOEIRA
 
EM DIA DE ANIVERSÁRIO
 
12 de Novembro de 1915
 
 
 
 
FACILIDADE
 
 
 
Não sei coisas difíceis
nem as faço, nos versos, com palavras.
Difícil é ser simples
e é vestir as coisas de tal jeito
que quem as veja, diga que são nuas.
 
 
Ilídio Sardoeira, Poemas, Edições Gaivota, 1952
 
 
 
 
 
 
02 novembre

TEIXEIRA DE PASCOAES ANIVERSÁRIO

TEIXEIRA DE PASCOAES 

 

ANIVERSÁRIO

(Amarante, 2 de Novembro de 1877)   

 

 

 

Teixeira de Pascoaes, Aguarela 

 

 

 

 

 

IDÍLIO

 

 

 

A luz do teu olhar,

Funde meu corpo, em sonho em lágrima e luar!

Teu divino sorriso

É voz de anjo a mandar-me entrar no Paraíso...

 

Teu sorriso que lembra a dôce aurora,

Minhas lágrimas tristes evapora

E, nos meus olhos, fica a tua imagem bela...

Assim o fresco orvalho matutino,

Onde encantado vive o sol menino

Deixa nas brancas rosas uma estrêla...

 

Ao descobrir-te, flor,

Todo me exalto e elevo em cânticos de amor,

Perco-me, na amplidão...

 

Sou asa entontecida, aroma, comoção,

Se me tocam, de leve,

Os teus olhos de chama e as tuas mãos de neve!

 

Alegre, choro; e rio sempre aflito!

Canto, soluço e grito!

Sou oração, queixume,

Relâmpago, nevoeiro, onda do mar, perfume,

Quando, da tua face,

Límpida rosa nasce

E de ti se desprende o encanto da manhã,

Que é a tua sombra mística e pagã;

Quando, ao doirado zéfiro, estremeces

E, aureolada de beijos, resplandeces,

Como florido arbusto...

E és o sol, esculpido em feminino busto.

 

Estrêla, bem-me-quer!

Imagem de mulher!

Deslumbra a noite os montes incendeia

E a morta lua cheia!

Quebra as marmóreas tampas sepulcrais!

Que regerassam à vida os corpos espectrais!

Liberta os arvoredos

E as ondas abraçadas aos penedos!

As almas embriaga;

Sensibiliza a fraga

E as nuvens a voar...

Embebe-te na luz e muda-a em dôce olhar.

Seja, no Azul profundo,

Lágrima a tremular e a scintilar o mundo;

Enternecida esfera,

Toda ela a palpitar de amor e primavera.

 

Estrêla, flor, mulher!

Mulher, ave a cantar, na luz do amanhecer!

Mulher, rio sonhando, ao longo das campinas.

Mulher, névoa tentando as asas matutinas.

Mulher, árvore piedosa.

Mulher, triste martírio, enamorada rosa!

Mulher, onda do mar bailando com o vento.

Mulher, brisa outonal, crepúsculo cinzento,

Imagem tôda luz da noite escura...

Mulher, esperança, dôr, amor, graça e candura.

Mulher, fonte que chora e que deseja,

Mulher, mulher, mulher, é a terra que o sol beija.

 

 

Teixeira de Pascoaes, Vida Etérea, Livrarias AILLAUD e BERTRAND, Paris-Lisboa, 1906

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A MINHA HISTÓRIA

 

 

(...) Em Novembro nasci, por uma tarde triste,

quando os sinos soluçam badaladas;

e lúgubres mulheres desoladas

com piedosas mãos, espalham flores,

sobre a estéril poeira que ainda existe  

de sonhos e amores; (...)

 

Nasci no dia eleito da Saudade,

quando o vulto espectral da Eternidade,

Diante nós chimérico, se eleva,

Com estrêlas a rir na máscara de treva. (...)

 

 

Nasci ao pôr-do-sol dum dia de Novembro.

 O meu bêrço, o crepúsculo embalou...

E até parece, às vezes, que me lembro,

Porque essa tarde triste, em mim, ficou. (...)

 

 

 

Teixeira de Pascoaes,Terra Prohibida,Livrarias AILLAUD e BERTRAND, Paris-Lisboa, 1877-1901

 

22 ottobre

Ser Poeta

 

 

 

SER POETA

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

 

Florbela Espanca

17 ottobre

SOZINHO (VEREINSAMT)

 
 
 
 
 
SOZINHO
 
 
Os corvos bradam
e dirigem-se num voo sibilante para a cidade:
em breve irá nevar -
viva aquele que ainda possui uma pátria!
 
 
Agora permanecerás imóvel,
olhas para trás, ai! há tanto tempo já!
Como é que tu, tolo,
escapaste ao mundo antes do inverno?
 
O mundo - uma porta
para mil desertos mudos e frios!
Quem perdeu aquilo
que tu perdeste, não pára em lado nenhum.
 
Agora ficas aí pálido,
amarrado à caminhada do inverno
a lembrar o fumo
que anseia constantemente por céus mais frios.
 
Voa, pássaro, canta
a tua canção num tom de ave do deserto -
Esconde, tu, tolo,
o teu coração sangrento em gelo e sarcasmo.
 
 
Os corvos bradam
e dirigem-se num voo sibilante para a cidade:
em breve irá nevar -
pobre daquele  que não tem pátria!
 
(Tradução livre do Poema de Friedrich Nietzsche, Vereinsamt, aqui transcrito na língua original no dia do aniversário do filósofo/poeta/músico.)
 
 
 
15 ottobre

VEREINSAMT

 
NO DIA DO ANIVERSÁRIO
 
Friedrich Nietzsche (15 de Outubro de 1844 - 25 de Agosto de 1900)
 
 
 
 
VEREINSAMT
 
 
Die Krähen schrein
und ziehen schwirren Flugs zur Stadt:
bald wird es schnein, -
wohl dem, der jetzt noch - Heimat hat!

Nun stehst du starr,
schaust rückwärts, ach! wie lange schon!
Was bist du Narr
vor Winters in die Welt entflohn?

Die Welt - ein Tor
zu tausend Wüsten stumm und kalt!
Wer das verlor,
was du verlorst, macht nirgends Halt.

Nun stehst du bleich,
zur Winter-Wanderschaft verflucht,
dem Rauche gleich,
der stets nach kältern Himmeln sucht.

Flieg, Vogel, schnarr
dein Lied im Wüstenvogel-Ton! -
Versteck, du Narr,
dein blutend Herz in Eis und Hohn!

Die Krähen schrein
und ziehen schwirren Flugs zur Stadt:
bald wird es schnein, -
weh dem, der keine Heimat hat!

Bilder:
Johann Heinrich Füssli
07 ottobre

Tum Balalaika

 

 

 

 

GUSTAV KLIMT, Danae,1907

 

 

 

 

TUM-BALALAIKA
(Traditional russian yddish song )


Shteyt a bocher un er tracht
Tracht un tracht a gantse nacht:
Vemen tsu nemen un nit farshemen? (2x)

Refrain:
  Tum-bala, tum-bala, tum-balalaika, (2x)
  Tum-balalaika, shpil balalaika,
  Tum-balalaika, freylik zol zayn.

Meydl, meydl, ch’vel bay dir fregn:
Vos kon vaksn, vaksn on regn?
Vos kon brenen un nit oyfhern?
Vos kon benken, benken on trern?

(refrain)

Narisher bocher, vos darfstu fregn?
A shteyn kon vaksn, vaksn on regn.
Libe kon brenen, un nit oyfhern.
A harts kon benken, veynen on trern.

(refrain)

 

 

 

Translation

A boy stays, stays and thinks,
thinks and thinks all night.
Which one he should take
without regret.

Tumbala...
Tumbalalaika, play balalaika,
Tumbalalaika, joyful should it be.

Girl, girl, I want to ask you:
what can grow without rain,
what can burn without an end,
what can beat and cry without tears?

Tumbala...

Silly boy, how can you ask???
A stone can grow without rain,
love can burn without an end,
a heart can beat and cry without tears

 

 

TRADUÇÃO

 

O rapaz está quieto, quieto e pensando.

Pensa e repensa a noite inteira:

como se declarar sem passar vergonha…

como se declarar sem passar vergonha.

 

Tumbala, tumbala, tumbalalaica

Tumbala, tumbala, tumbalalaica

Tumbalalaica, toque balalaica

Tumbalalaica - e seja feliz.

 

Menina, menina, quero perguntar-te:

O que pode desenvolver-se sem chuva?

O que pode arder durante anos sem fim?

O que pode ter saudade e chorar sem lágrimas?

 

Rapaz tolo, para quê perguntar?

Uma pedra pode desenvolver-se sem chuva.

O amor pode arder durante anos sem fim.

Um coração pode ter saudade e chorar sem lágrimas.

05 ottobre

Aniversário

 
 
 
ANIVERSÁRIO
 
 
 
Hoje, cinco de Outubro, dia do teu aniversário, PAI, dedico-te o poema do teu IRMÃO pois ambos partilharam a vivência materna, nele enunciada, e ambos existem, como RESSURREIÇÃO, na memória de quem vos ama. 
 
 
 
 
 
 
RESSURREIÇÃO
 
 
 
Mãe:
embala na canastra o teu menino!
Não lhe perguntes nem lhe cantes nada:
que fale o teu silêncio que diz tudo,
embala o teu menino, sempre e só.
 
Águas limpas corriam aos seus olhos
na canastra de pinho
(Ó mãe silenciosa, o teu silêncio é tudo!)
O menino se foi nas águas breves
e tem a vasa e o lodo sobre o corpo.
 
Mãe:
embala o teu menino no silêncio...
 
Como quem vem do coração da noite
e abre o seu olhar à madrugada,
o teu menino vem:
traz algas verdes nos cabelos finos
e jaz ao lume de água,
como espuma.
 
 
Ilídio Sardoeira, POEMAS, Edições Gaivota, 1952
04 ottobre

O Meu Sonho Contigo

 

 

 

Duas idades de BOB DYLAN

 

O MEU SONHO CONTIGO

 

Quanto tempo posso permanecer

neste café em nenhures

até que a noite se transforme em dia?

Pergunto-me:

porque me assusta tanto a madrugada?

Tudo o que tenho e tudo o que  sei

É este sonho contigo que me faz continuar a viver.

 

Há um momento em que

 todas as coisas velhas rejuvenescem.

Mas esse momento pode ter vindo e passado!

Tudo o que  tenho e tudo o que  sei

É este sonho contigo que me faz continuar a viver.

 

 

Olho para longe, mas continuo a vê-lo

Não quero acreditar, mas continuo a acreditar

Sombras dançam na parede

Sombras que parecem tudo conhecer.

 

Estou demasiado cego para ver

O meu coração prega-me partidas

Estou perdido na multidão,

Todas as minhas lágrimas secaram!

Tudo o que  tenho e tudo o que  sei

É este sonho contigo que me faz continuar a viver.

 

Tudo o que  toco

parece desaparecer

Para onde quer que  me volte

tu estás sempre aqui.

Correrei esta corrida, até o meu coração parar

Defenderei este lugar, com o meu suspiro final.

Tudo o que  tenho e tudo o que  sei

É este sonho contigo que me faz continuar a viver.

 

Através de um quarto sombrio

e de uma cortina de escuridão,

vi uma estrela caída do Céu.

Voltei-me,

olhei de novo:

mas ela tinha partido.

Tudo o que  tenho e tudo o que  sei

É este sonho contigo que me faz continuar a viver.

 

Bob Dylan, This Dream of You, Álbum Together Trough Life, 2009 (Tradução livre)

 

 

 

THIS DREAM OF YOU

How long can I stay
In this nowhere café 'fore night turns into day
I wonder why I’m so frightened of dawn
All I have and all I know
Is this dream of you which keeps me living on

There’s a moment when

All old things become new again
But that moment might have come and gone
All I have and all I know
Is this dream of you which keeps me living on

I look away but I keep seeing it
I don’t want to believe but I keep believing it
Shadows dance upon the wall
Shadows that seem to know it all

Am I too blind to see
Is my heart playing tricks on me
I’m lost in the crowd, all my tears are gone
All I have and all I know
Is this dream of you which keeps me living on

Everything I touch seems to disappear
Everywhere I turn, you are always here
I’ll run this race until my earthly death
I’ll defend this place with my dying breath

From a cheerless room
In a curtain gloom, I saw a star from Heaven fall
I turned and looked again but it was gone
All I have and all I know
Is this dream of you which keeps me living on

 
10 luglio

O SIGNIFICADO

     
 
 
O SIGNIFICADO
 
 
    «Finalmente uma excursão digna de nós. Águas profundas, rápidas imersões e emersões. Água fria, refrescante. Adoro uma filosofia viva! Adoro uma filosofia cinzelada da experiência bruta. A coragem cresce. A vontade e a provação abrem o caminho. Mas não será tempo de partilhar os seus riscos?
    A época de uma filosofia aplicada ainda não amadureceu. Quando chegará? Dentro de cinquenta, cem anos? Chegará a época em que os homens deixarão de temer o conhecimento, deixarão de disfarçar a fraqueza como "lei moral", encontrarão a coragem de quebrar as algemas dos mandamentos. Os homens vão então ansiar pela minha sabedoria viva. Vão precisar da minha orientação para uma vida honesta, uma vida de descrença e de descoberta. Uma vida de superação. Do desejo superado. E que desejo maior do que o desejo de se submeter?
     Tenho outras canções que precisam ser cantadas. A minha mente está pejada de melodias e Zaratustra chama-me ainda mais alto. O meu trabalho ainda é o de técnico. Mesmo assim, devo enfrentar a tarefa e registar todos os becos sem saída e todos os caminhos válidos. (...)
    Temos que nos voltar para o significado. O sintoma não passa de  um mensageiro com a notícia de que a Angst está irrompendo da profundeza do ser! Preocupações profundas com a noção de finito, com a morte de Deus, com o isolamento, com o propósito da vida, com a liberdade - preocupações profundas trancadas durante toda uma vida - rompem agora as suas cadeias e batem às portas e janelas da mente. Exigem ser ouvidas. Não apenas ouvidas, mas vividas!
   Aquele estranho livro russo sobre o Homem Subterrâneo continua a espantar-me. Dostoievski diz que certas coisas não devem ser contadas, excepto aos amigos; outras não devem ser contadas nem aos amigos; finalmente existem coisas que não se contam nem a si próprio! (...)
   Os curas paroquiais, como o meu pai, sempre protegeram os seus rebanhos de Satã. Pregam que Satã é o inimigo da fé, que Satã, de modo a minar a fé, assume qualquer disfarce - e nenhum deles mais perigoso e insidioso do que o manto do cepticismo e da dúvida.
   Mas quem nos protegerá a nós - os santos e os cépticos? Quem nos advertirá contra o amor à sabedoria e o ódio à servidão? Será essa a minha missão? Nós, os cépticos, temos os nossos inimigos, os nossos Satãs, que minam as nossas dúvidas e espalham as sementes da fé nos locais mais subtis. Deste modo matamos os deuses, mas santificamos os seus substitutos: professores, artistas, mulheres bonitas. (...)
   Nós, os que duvidamos, temos de estar vigilantes. E fortes. O impulso religioso é feroz. Será a minha missão a do sacerdote do incrédulo? Devo dedicar-me a detectar e destruir os anseios religiosos, quaisquer que sejam os meus disfarces? O inimigo é assombroso; a chamada crença é incessantemente alimentada pelos temores da morte, do esquecimento e da ausência de sentido.
   Onde nos conduzirá o significado? (...) Talvez tenhamos que descascar os significados um a um, até que o sintoma deixe de significar qualquer coisa que não ele próprio. Uma vez despojado dos significados excedentes, ver-se-á como o ser humano, demasiado humano, assustado e despojado que todos nós realmente somos.»
 
( Texto adaptado a partir de Quando Nietzsche Chorou de Irwin D. Yalom, Edições Saída de Emergência, 2006, pps 242-244)
 
20 febbraio

Cantiga do Viúvo

 

 

 

CANTIGA DO VIÚVO

 

 

A noite caiu na minha alma

Fiquei triste sem querer.

Uma sombra veio vindo,

veio vindo

me abraçou.

Era a sombra de meu bem

que morreu há tanto tempo.

 

Me abraçou com tanto amor

me apertou com tanto fogo

me beijou, me consolou.

 

Depois riu devagarinho,

Me disse adeus com a cabeça

e saiu.

Fechou a porta.

Ouvi seus passos na escada.

Depois  mais nada...

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

15 gennaio

L'Homme et la Mer

 

 

William Turner

 

 

 

 

L'homme et la mer

 
 
 
Homme libre, toujours tu chériras la mer !
La mer est ton miroir ; tu contemples ton âme
Dans le déroulement infini de sa lame,
Et ton esprit n'est pas un gouffre moins amer.

Tu te plais à plonger au sein de ton image ;
Tu l'embrasses des yeux et des bras, et ton coeur
Se distrait quelquefois de sa propre rumeur
Au bruit de cette plainte indomptable et sauvage.

Vous êtes tous les deux ténébreux et discrets :
Homme, nul n'a sondé le fond de tes abîmes ;
Ô mer, nul ne connaît tes richesses intimes,
Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets !

Et cependant voilà des siècles innombrables
Que vous vous combattez sans pitié ni remord,
Tellement vous aimez le carnage et la mort,
Ô lutteurs éternels, ô frères implacables !

 

Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal


12 novembre

A Matrix enquanto Hipótese Metafísica

                                    

                                                            A Matrix enquanto hipótese metafísica

                                                                       David J. Chalmers

 

 

1. Cérebros numa cuba

O filme Matrix apresenta-nos uma versão de uma velha fábula filosófica: um cérebro numa cuba. Um cérebro sem corpo flutua numa cuba que por sua vez está no laboratório de um cientista. O cientista encontrou maneira do cérebro ser estimulado com o mesmo tipo de inputs que um cérebro normal costuma receber quando está num corpo. Para se conseguir isto, o cérebro na cuba está ligado a uma gigante simulação do mundo. A simulação determina então quais são os inputs que o cérebro recebe. Por sua vez, quando o cérebro produz outputs estes são enviados para a simulação. O estado de funcionamento deste cérebro é igual ao de um cérebro normal, apesar de não estar num corpo. Da perspectiva deste cérebro as coisas são muito semelhantes àquilo que parecem a mim e a si.

Mas parece que este cérebro está completamente enganado. Parece que tem crenças falsas sobre tudo. Acredita que tem um corpo, quando afinal não tem. Acredita que está lá fora ao Sol, quando afinal está num laboratório escuro. Acredita que está num determinado sítio, quando, de facto, pode estar noutro completamente diferente. Talvez pense que está em Tucson, quando afinal está na Austrália ou mesmo no espaço sideral.

A situação do Neo no início do filme Matrix é semelhante a esta. Ele pensa que vive numa determinada cidade, pensa que tem cabelo, pensa que vive em 1999, e pensa também que está Sol lá fora. Mas, na realidade, flutua no espaço, não tem cabelo, o ano em que está é aproximadamente 2199, e o seu mundo foi arrasado pela guerra. Há contudo algumas diferenças entre este cenário do Neo e o do cérebro numa cuba exposto inicialmente: o cérebro do Neo está de facto num corpo, e a simulação é controlada por máquinas e não por um cientista. Mas os detalhes essenciais são bastante idênticos em ambos os casos. Efectivamente, Neo é um cérebro numa cuba.

Vamos supor que uma matrix (com "m" minúsculo) é um certo tipo de simulação computacional artificialmente gerada de um mundo. Deste modo, a Matrix do filme é um possível exemplo de uma matrix. Vamos também supor que alguém está incubado, ou que está dentro de uma matrix, desde que esse alguém tenha um sistema cognitivo que receba inputs de, e envie outputs para, uma matrix. Neste caso, tanto o cérebro de que falávamos no início como o próprio Neo estão incubados.

Podemos supor que uma matrix pode simular a [total constituição] física de um mundo, até ao mais ínfimo pormenor, ou partícula, numa sequência espácio-temporal. (Adiante veremos como esta configuração do mundo pode variar.) Nesta situação, um ser incubado é associado a um corpo particular simulado. É também estabelecida uma ligação que permita que sempre que o seu corpo [simulado] receba inputs sensoriais da simulação o sistema cognitivo incubado receba inputs sensoriais do mesmo tipo. Paralelamente, a dita ligação permite que de cada vez que o sistema cognitivo incubado produz outputs estes sejam enviados para os órgãos motores do corpo simulado que está na simulação.

Quando se levanta a possibilidade de uma matrix surge imediatamente uma questão. Como posso eu saber que eu não estou numa matrix? Afinal, posso muito bem ser um cérebro numa cuba que tem exactamente a mesma constituição que o meu próprio cérebro; esse cérebro pode estar ligado a uma matrix, e, por isso, pode ter experiências indistinguíveis das que tenho neste momento. Do interior [da matrix] não há forma segura de afirmar que não sou de facto um cérebro numa cuba. Assim, não podemos saber de certeza se não estamos numa matrix.

Vamos agora chamar à hipótese de que eu estou numa matrix, e sempre estive numa matrix, a Hipótese matrix. A Hipótese matrix afirma que eu estou, e sempre estive, incubado. Todavia, isto não é rigorosamente equivalente à hipótese de que eu estou na matrix, porque a matrix [do filme] é apenas uma versão específica de uma matrix. De momento vou ignorar algumas complicações que são específicas da matrix apresentada no filme, tal como por exemplo a possibilidade de as pessoas poderem por vezes passar do mundo simulado para o real e inversamente. Colocando estas questões à parte, podemos pensar na Hipótese matrix como uma maneira de afirmar que eu estou no mesmo tipo de situação que pessoas que sempre estiveram numa matrix.

Devemos ponderar a Hipótese matrix seriamente, bem como considerá-la uma forte possibilidade. Tal como Nick Bostrom sugeriu, não está fora de questão que na história do universo haja tecnologia que permita a certos seres criar simulações computorizadas de mundos. Pode até haver um grande número de tais simulações, por oposição a apenas um mundo real. Se é este o caso, pode muito bem acontecer que haja muitos mais seres que estão numa matrix do que aqueles que não estão. Perante esta possibilidade, podemos até inferir que é bastante mais provável estarmos numa matrix do que não estarmos. Independentemente deste raciocínio estar certo ou errado, parece realmente que não podemos estar certos que não estamos de facto numa matrix.

Sérias consequências parecem resultar do que foi dito. Por exemplo, a minha contraparte incubada parece estar a ser massivamente enganada. Pensa que está em Tucson; pensa que está sentada a escrever um artigo; pensa que tem um corpo. Mas, face ao que se disse, todas estas crenças são falsas. Da mesma maneira, parece que, se eu estou incubado, as minhas próprias crenças são falsas. Eu não estou realmente sentado a escrever um artigo, e eu posso mesmo não ter um corpo. Assim, se eu não sei que eu não estou realmente incubado, então eu também não sei se estou em Tucson, ou se estou sentado em frente à minha secretária a escrever um artigo, ou sequer se tenho um corpo.

A Hipótese matrix ameaça pôr em causa quase tudo aquilo que eu julgo saber. Parece uma Hipótese céptica: uma hipótese que eu não posso excluir, e uma hipótese que poderia falsificar grande parte das minhas crenças se elas fossem verdadeiras. Quando se nos apresenta uma hipótese céptica desta natureza parece que nenhumas das nossas crenças podem ser consideradas conhecimento genuíno. Claro que as minhas crenças podem eventualmente ser verdadeiras — pois posso ser alguém com sorte e não estar realmente incubado —, mas não posso excluir definitivamente a possibilidade de que elas sejam falsas. A admissão de uma hipótese céptica conduz ao cepticismo no que respeita as essas crenças: eu acredito em certas coisas, mas não as sei realmente.

Resumindo o raciocínio: eu não sei se não estou numa matrix. Se estou numa matrix, então provavelmente não estou em Tucson. Assim, se eu não sei se não estou numa matrix, então também não sei se estou em Tucson. O mesmo se aplica para quase tudo que eu julgo saber acerca do mundo exterior.

2. Reconsiderando a possibilidade do incubamento

Esta é a maneira normal de pensarmos o cenário da cuba. Parece que esta visão do problema é também adoptada pelos criadores do filme matrix. Na caixa do DVD pode ler-se o seguinte:

Percepção: A rotina de todos os dias no mundo é real.
Realidade: O mundo é uma ilusão sofisticada, um embuste forjado por máquinas maximamente poderosas que nos controlam. Whoa!

Eu penso que esta perspectiva não é inteiramente correcta. Julgo que, mesmo que eu esteja numa matrix, o meu mundo é perfeitamente real. Um cérebro que esteja numa cuba não está completamente iludido (desde que tenha estado sempre na cuba). O Neo não tem crenças massivamente falsas acerca do mundo exterior. Em vez disso, os seres que estão incubados têm bastantes crenças correctas acerca do seu mundo. Se for assim, então a Hipótese matrix não é uma hipótese céptica, e a sua eventual possibilidade não invalida tudo o que eu penso saber.

Houve filósofos que defenderam este tipo de teoria no passado. George Berkeley, um filósofo do século XVIII, defendeu que a aparência é a realidade. (Recordemos as palavras de Morpheus no filme: "O que é o real? Como defines o real? Se estamos a referir-nos àquilo que podes sentir, ou àquilo que podes cheirar, ou ainda àquilo que podes saborear ou ver, então o real é simplesmente um conjunto de impulsos eléctricos interpretados pelo teu cérebro.") Se isto está correcto, então o mundo percepcionado por seres que estão incubados é um mundo perfeitamente real: eles têm todas as suas percepções correctas, e, assim, o que aparece é a realidade. Desta perspectiva, mesmo seres que estão incubados têm crenças verdadeiras acerca do mundo.

Dei comigo recentemente a adoptar uma conclusão parecida, embora por razões manifestamente diferentes. Não julgo que a perspectiva segundo a qual o que aparece é a realidade seja plausível, e portanto não apoio o raciocínio de Berkeley. E, até há pouco tempo, parecia-me manifestamente óbvio que os cérebros em cubas teriam de ter crenças massivamente falsas. Mas agora penso que há uma linha de argumentação que mostra que essa teoria está errada.

Ainda penso que não posso excluir a hipótese de que estou numa matrix. Mas também penso que, mesmo que eu esteja neste momento numa matrix, eu ainda estou em Tucson, na minha secretária, e por aí adiante. Deste modo, a hipótese de que estou numa matrix não seria mais uma hipótese céptica. O mesmo vale para o caso do Neo. No início do filme ele pensa "eu tenho cabelo", e ele está correcto. E o mesmo vale, claro, para o caso original do cérebro numa cuba. Quando o cérebro pensa "eu tenho um corpo", ele está correcto. Quando pensa "estou a andar", está correcto.

Esta perspectiva parece à partida muito contra-intuitiva. Inicialmente, pareceu-me manifestamente contra-intuitiva. Então vou agora apresentar a linha de argumentação que me convenceu de que está correcta.

3. A hipótese metafísica

Vou agora argumentar que a hipótese de que estou incubado não é uma hipótese céptica, mas antes uma hipótese metafísica. Ou seja, é uma hipótese sobre a natureza fundamental da realidade.

Enquanto a física se preocupa com os processos microscópicos que constituem a realidade macroscópica, a metafísica preocupa-se com a natureza fundamental da realidade. Uma hipótese metafísica pode inclusivamente ser uma proposta sobre que realidade subjaz aos fenómenos físicos. Alternativamente, pode até dizer alguma coisa sobre a natureza das nossas mentes, ou até mesmo sobre a criação do mundo.

Penso que a Hipótese matrix deve ser vista como uma hipótese metafísica, na qual estão contidos os três elementos seguintes: uma proposta sobre a realidade fundamental que está subjacente aos processos físicos, uma proposta sobre a natureza das nossas mentes e uma proposta sobre a criação do mundo.

Em particular, penso que a Hipótese matrix é equivalente a uma versão tripartida da seguinte Hipótese Metafísica: Primeiro, os processos físicos são fundamentalmente processos computacionais. Segundo, os nossos sistemas cognitivos estão separados dos processos físicos, embora interajam com esses processos. Terceiro, a realidade física foi criada por seres que estão fora do espaço-tempo físico.

É importante notar que nada nesta hipótese metafísica tem um carácter céptico. Esta hipótese metafísica sugere quais são os processos que sustentam a nossa realidade normal, mas não defende que essa realidade não existe. Nós ainda temos corpos, e ainda há cadeiras e mesas: apenas a sua natureza fundamental é um pouco diferente da forma como pensamos que é. Desta maneira, a hipótese metafísica é análoga a uma qualquer hipótese física, como [por exemplo] a que  é relativa à mecânica quântica. Ambas as hipóteses, tanto a física como a metafísica, dizem-nos quais os processos que constituem as cadeiras. Nenhuma delas defende que não há cadeiras. Em vez disso, ambas dizem que as cadeiras são como são.

Vou apresentar a argumentação introduzindo cada uma das três partes da hipótese metafísica em separado. Vou sugerir que cada uma delas é coerente, e que não pode ser conclusivamente excluída. Vou também sugerir que nenhuma delas é uma hipótese céptica: pois, mesmo que sejam verdadeiras, as nossas crenças normais continuam a ser correctas. O mesmo é válido para a combinação das três hipóteses. Vou então argumentar que a Hipótese matrix é equivalente à combinação destas três hipóteses.

(1) A Hipótese da Criação

Esta Hipótese diz: O espaço-tempo físico, e todo o seu conteúdo, foram criados por seres que estão fora do espaço-tempo físico.

Esta hipótese é conhecida. Muitas pessoas na nossa sociedade acreditam nela, e talvez até uma grande maioria de pessoas em todo o mundo. Se acreditamos que Deus criou o mundo, e se acreditamos que Deus está fora do espaço-tempo físico, então também acreditamos na Hipótese da Criação. Apesar disso, não precisamos de acreditar em Deus para acreditar na Hipótese da Criação. Talvez o nosso mundo tenha sido criado por um ser relativamente normal que está no "universo mais próximo acima do nosso", e que esse ser tenha usado a última palavra em tecnologia de criação de mundos disponível nesse universo. Se for o caso, então a Hipótese da Criação é verdadeira.

Não sei se a Hipótese da Criação é verdadeira. Mas não tenho a certeza de que é falsa. A hipótese é claramente coerente, e, por isso, não posso conclusivamente exclui-la.

A Hipótese da Criação não é uma hipótese céptica. Mesmo que seja verdadeira, as minhas crenças habituais continuam verdadeiras. Eu ainda tenho mãos, ainda estou em Tucson, e por aí adiante. Talvez algumas das minhas crenças passem a ser falsas: por exemplo, se eu for ateu, ou se acredito que a realidade começou com o Big Bang. Contudo, a maioria das minhas crenças habituais sobre o mundo exterior conservam-se intactas.

(2) A Hipótese Computacional

Esta hipótese diz: Os processos microfísicos que encontramos no espaço-tempo são constituídos por processos computacionais que lhes estão subjacentes.

A Hipótese Computacional diz-nos que os processos físicos que julgamos constituírem o nível mais fundamental da realidade, afinal podem não o ser. Tal como os processos químicos estão na base de processos biológicos, e tal como processos microfísicos estão na base de processos químicos, também qualquer coisa está subjacente aos processos microfísicos. Por baixo do nível dos quarks, electrões e fotões, há ainda mais um nível: o nível dos bits. Estes bits são geridos por um algoritmo computacional, que, a um nível mais elevado, produz os processos que nós pensamos serem as partículas fundamentais, as forças, etc.

A Hipótese Computacional não é tão vastamente aceite quanto a Hipótese da Criação; mas ainda assim há algumas pessoas que a consideram bastante plausível. Um dos casos mais conhecidos é o de Ed Fredkin, que defendeu que o universo é no fundo um determinado tipo de computador. Recentemente, Stephen Wolfram adoptou a ideia no seu livro A New Kind of Science, sugerindo aí que, ao nível mais fundamental, a realidade física pode ser um certo tipo de automatismo celular, constituído por bits que interagem entre si, obedecendo a regras simples de funcionamento. E vários Físicos têm investigado a possibilidade das leis naturais poderem ser formuladas computacionalmente, ou de poderem ser vistas como uma consequência de certos princípios computacionais.

Podemos ficar preocupados com a ideia de que puros bits não sejam afinal o nível mais fundamental da realidade: um bit é apenas um 0 ou um 1, e a realidade não pode ser feita de zeros e uns. Ou talvez um bit seja apenas a "diferença pura" entre dois estados fundamentais, e assim não possa haver uma realidade feita de diferenças puras. Inversamente, talvez os bits até tenham que ter a sua origem em estados ainda mais básicos, tais como as voltagens num computador normal.

Não sei se estas objecções são correctas. Penso que não está completamente fora de questão que possa haver um universo constituído por "bits puros". Mas isso não interessa para o nosso objectivo presente. Podemos até supor que o nível computacional é constituído por um nível ainda mais fundamental, a partir do qual os processos computacionais são instaurados. O que interessa é que os processos microfísicos sejam constituídos por processos computacionais, e que estes sejam constituídos por processos ainda mais fundamentais. Daqui para a frente vou considerar que isto é o que a Hipótese Computacional afirma.

Não sei se a hipótese computacional está correcta. Mas, mais uma vez, também não sei se é falsa. A hipótese é coerente, na medida em que é especulativa, e não pode ser conclusivamente excluída.

A Hipótese computacional não é uma hipótese céptica. Se é verdadeira, ainda há electrões e protões. Desta perspectiva, os electrões e os protões seriam análogos às moléculas: são constituídas por algo mais elementar, mas ainda assim existem. Igualmente, mesmo que a Hipótese Computacional seja verdadeira, continuarão a existir mesas e cadeiras, e a realidade macroscópica continua a ser um facto; apenas acontece que a sua constituição fundamental é um pouco diferente daquela que estamos habituados a pensar.

Esta situação é  análoga à da Mecânica Quântica ou à da Teoria da Relatividade. Estas teorias podem levar-nos a rever algumas das crenças metafísicas que temos a propósito do mundo exterior; por exemplo, que o mundo é constituído por partículas clássicas ou que o tempo é absoluto. Mas a maior parte das nossas crenças habituais sobre o mundo mantém-se. Da mesma maneira, a nossa aceitação da Hipótese Computacional pode levar-nos a rever algumas das nossas crenças metafísicas; por exemplo, que os electrões e os protões são partículas fundamentais. Mas, ainda assim, uma grande parte das nossas crenças habituais não é afectada.

(3) A Hipótese Mente-Corpo

Esta Hipótese afirma: A minha mente é (e sempre foi) constituída por processos que estão fora do espaço-tempo físico. A minha mente recebe inputs de, e envia os seus outputs para, processos no espaço-tempo físico.

A Hipótese Mente-Corpo é também bastante conhecida, e largamente aceite. Descartes acreditava em algo do género: da sua perspectiva, as mentes são coisas não físicas que interagem com os nossos corpos, que são coisas físicas. A Hipótese é menos aceite actualmente do que no tempo de Descartes, mas ainda assim há muitas pessoas que a aceitam.

Independentemente da Hipótese Mente-Corpo ser verdadeira ou não, ela é certamente coerente. E apesar de a ciência contemporânea sugerir tendencialmente que a Hipótese é falsa, ainda assim não podemos exclui-la conclusivamente.

A Hipótese Mente-Corpo não é uma hipótese céptica. Mesmo que a minha mente esteja fora do espaço-tempo físico, eu continuo a ter um corpo, eu ainda estou em Tucson, e por aí adiante. No máximo, a aceitação desta hipótese iria obrigar-nos a rever algumas das nossas crenças metafísicas sobre as nossas mentes. As nossas crenças habituais sobre a realidade exterior permanecem em grande medida intactas.

(4) A Hipótese Metafísica

Podemos agora juntar estas hipóteses. Primeiro podemos considerar a Hipótese Combinatória, que combina as três hipóteses. Essa hipótese diz-nos que o espaço-tempo físico e o seu conteúdo foram criados por seres que estão fora desse espaço-tempo; diz-nos também que os processos microfísicos são constituídos por processos computacionais, e que as nossas mentes estão fora do espaço-tempo mas que interagem com ele.

Tal como no caso das hipóteses tomadas individualmente, a Hipótese Combinatória é coerente, e não pode ser conclusivamente excluída. E também tal como nos casos individuais, a Hipótese Combinatória não é uma hipótese céptica. A aceitação da hipótese poderia levar-nos a rever algumas das nossas crenças, mas deixaria quase todas intactas.

Por fim podemos considerar a Hipótese Metafísica (com um "M" maiúsculo). Tal como a hipótese combinatória, esta hipótese combina Hipótese da Criação, a Hipótese computacional e a Hipótese Mente-Corpo. A hipótese acrescenta também a seguinte tese específica: os processos computacionais que constituem o espaço-tempo físico foram gerados pelos criadores com a finalidade de estabelecer uma simulação de um mundo.

(Pode também ser útil pensar na Hipótese Metafísica enquanto hipótese que afirma que os processos computacionais que constituem o espaço-tempo fazem parte de um domínio mais alargado, e que os criadores e o meu sistema cognitivo estão situados nesse domínio. Esta condição não é estritamente necessária para o que se segue, mas identifica-se melhor com a forma mais comum de pensar a Hipótese matrix.)

A Hipótese Metafísica é uma versão um pouco mais específica da Hipótese Combinatória na medida em que especifica algumas relações entre as várias partes desta. Novamente, a Hipótese Metafísica é uma hipótese coerente, e não podemos exclui-la conclusivamente. E novamente, não é uma hipótese céptica. Mesmo que a aceitemos, a maioria das nossas crenças habituais sobre o mundo exterior ficarão intactas.

4. A Hipótese matrix enquanto Hipótese Metafísica

Recorde-se o que a Hipótese matrix diz: eu tenho (e sempre tive) um sistema cognitivo que recebe inputs de, e envia os seus outputs para, uma simulação de um mundo artificialmente gerada.

Vou agora argumentar que a Hipótese Metafísica é equivalente à Hipótese matrix no seguinte sentido: se eu aceito a Hipótese Metafísica, então deveria também aceitar a Hipótese matrix; e se aceito a segunda, deveria também aceitar a primeira. Ou seja, as duas hipóteses implicam-se mutuamente, o que significa que se aceito uma delas tenho também que aceitar a outra.

Comecemos pela primeira direcção, que vai da Hipótese Metafísica para a Hipótese matrix. A Hipótese Mente-Corpo implica que tenho (e sempre tive) um sistema cognitivo isolado que recebe os seus inputs de, e envia os seus outputs para, processos no espaço-tempo físico. Conjuntamente com a Hipótese Computacional, isto implica que o meu sistema cognitivo recebe os seus inputs de, e envia os seus outputs para, processos computacionais que constituem o espaço-tempo físico. A Hipótese da Criação (juntamente com as restantes hipóteses metafísicas) implica que esses processos foram artificialmente gerados para simular um mundo. Segue-se que tenho (e sempre tive) um sistema cognitivo isolado que recebe os seus inputs de, e envia os seus outputs para, uma simulação computacional do mundo artificialmente gerada. Portanto a Hipótese Metafísica implica a Hipótese matrix.

A outra direcção está associada de perto com esta. Pondo as coisas informalmente: se aceito a hipótese matrix, então eu também aceito que o que subjaz à realidade tal como nos aparece é somente aquilo que a Hipótese Metafísica determina. Há um domínio que contém o meu sistema cognitivo, que interage causalmente com uma simulação computacional do espaço-tempo, que por sua vez foi criada por outros seres que estão nesse domínio. É apenas isto que é necessário para que a Hipótese Metafísica alcance os seus propósitos. Se aceitamos isto, então também temos deveríamos aceitar a Hipótese da Criação, a Hipótese Computacional e a Hipótese Mente-Corpo, bem como as importantes relações que existem entre elas.

 

Ao nível mais fundamental esta imagem da configuração do mundo é exactamente a mesma que a imagem da Hipótese Metafísica colocada acima. Assim, se aceitamos que o mundo é como a Hipótese matrix afirma, então temos de aceitar também que o mundo é como a Hipótese Metafísica afirma.

Poderíamos colocar algumas objecções. Por exemplo, poderíamos objectar que a Hipótese matrix implica que exista uma simulação computorizada dos processos físicos, mas que (ao contrário da Hipótese Metafísica) não implica que os próprios processos físicos existam. Irei discutir esta objecção na secção 6, e outras objecções na secção 7. Por agora pressuponho que há boas razões para considerar que a Hipótese matrix implica a Hipótese Metafísica, e vice-versa.

5. A vida na matrix

Se isto está correcto, segue-se que a Hipótese matrix não é uma hipótese céptica. Se eu aceito isto, eu não devo inferir que o mundo exterior não existe, ou que não tenho um corpo, ou que não há mesas nem cadeiras, ou ainda que não estou em Tucson. Pelo contrário, deveria inferir que o mundo físico é constituído por computações que estão na base do nível microfísico. Ainda há mesas, cadeiras e corpos: estes são fundamentalmente constituídos por bits, e do que quer que seja que constitui estes bits. Este mundo foi criado por outros seres, mas ainda assim é perfeitamente real. A minha mente está separada dos processos físicos, e interage com eles. A minha mente pode não ter sido criada por esses seres, e pode até não ser feita de bits, mas ainda assim interage com esses bits.

O resultado disto é um quadro complexo da natureza fundamental da realidade. O quadro é, talvez, estranho e surpreendente; mas é um quadro de um mundo exterior de carne e osso. Se estamos numa matrix, esta é simplesmente a forma de ser do mundo.

Podemos pensar na Hipótese matrix como um Mito Criacionista da Era Informática. Se isto está correcto, então o mundo físico não foi necessariamente criado por deuses. Sustentando o mundo físico está uma computação imensa, e os criadores criaram o mundo pela execução dessa computação. As nossas mentes estão situadas no exterior desta estrutura física, e têm uma natureza independente que interage com essa estrutura.

Muitos dos problemas que se levantaram com os mitos criacionistas canónicos colocam-se também neste caso. Quando foi o mundo criado? Estritamente falando, o mundo não foi de forma nenhuma criado no interior do nosso tempo. Quando começou a história? Os criadores podem ter iniciado a simulação em 4004 AC (ou em 1999) com o registo fóssil completo, mas teria sido muito mais fácil para eles terem iniciado a simulação com o Big Bang e deixarem as coisas correr normalmente desde esse momento.

(Claro que no filme matrix os criadores são máquinas. Este facto baralha as leituras teológicas habituais sobre o filme. É por vezes defendido que Neo desempenha no filme a figura de Cristo, que Morpheus é [o profeta] João Batista, e que Cypher é Judas Iscariote etc. Mas segundo a leitura que fiz do filme, os deuses da matrix são máquinas. Quem, então, nesta perspectiva, seria a figura de Cristo? Claro que só poderia ser o agente Smith! De facto, no primeiro filme, ele é o descendente dos deuses enviado para o mundo para o salvar daqueles que querem destrui-lo. E, no segundo filme, ele até é ressuscitado.)

Muitos dos problemas que se levantaram com a hipótese mente-corpo canónica colocam-se também neste caso. Quando é que a nossa mente não-física começa a existir? Isso depende de quando os novos sistemas cognitivos incubados são inseridos na simulação (talvez no momento da concepção da matrix, ou talvez no momento do nascimento). Há vida após a morte? Isso depende do que acontece aos sistemas incubados depois da morte dos seus corpos. Como é que corpo e mente interagem? Por intermédio de ligações causais que estão fora do espaço-tempo físico.

Mesmo que não estejamos numa matrix, podemos expandir esta linha de raciocínio a outros seres que estejam numa matrix. Se eles descobrirem a sua situação, e venham a aceitar que estão numa matrix, não devem rejeitar as suas crenças habituais sobre o mundo exterior. No máximo, deveriam rever as suas crenças acerca da natureza fundamental do seu mundo: viriam a aceitar que os objectos exteriores seriam constituídos por bits, e por aí adiante. Estes seres não são massivamente enganados: a maioria das suas crenças habituais sobre o mundo está correcta.

Temos de fazer aqui algumas especificações. Podemos ficar preocupados com as crenças sobre as mentes de outras pessoas. Acredito que os meus amigos têm consciência [de si]. Se estou numa matrix, estará isto correcto? No caso da matrix exposta no filme, essas crenças são na sua maioria boas. Esta é uma matrix multi-cuba: por cada amigo que percepciono, há um ser incubado na realidade externa, que provavelmente está tão consciente quanto eu. As excepções podem ser seres como o agente Smith, que não estão incubados, mas são inteiramente computacionais. Esses seres só têm consciência se a computação for suficiente para lhes gerar consciência. Vou manter-me neutro nesta questão específica. Poderíamos rodeá-la desde que se formulasse uma Hipótese matrix que exigisse que todos os seres estivessem incubados. Mas mesmo que não façamos esta exigência, não ficamos muito pior do que o que temos no nosso mundo, onde há um permanente questionar sobre se outros seres têm ou não consciência, independentemente de estarmos ou não numa matrix.

Podemos também preocupar-nos com as crenças sobre o passado distante, bem como sobre o futuro longínquo. Estas não serão ameaçadas desde que a simulação computacional cubra todo o espaço-tempo, desde o Big Bang até ao fim do universo. Isto faz parte da Hipótese Metafísica, e podemos estipular que faz também parte da Hipótese matrix, exigindo que a simulação computacional seja uma simulação de um mundo completo. Pode haver outras simulações que começaram num passado recente (talvez a matrix do filme seja um destes casos), e pode haver outras que só duram por pouco tempo. Nestes casos, os seres incubados terão crenças falsas sobre o passado e/ou sobre o futuro dos seus mundos. Mas desde que a simulação cumpra a duração de vida destes seres, é plausível que eles tenham quase todas as suas crenças correctas sobre o estado actual do ambiente onde estão.

Pode haver alguns aspectos sobre os quais os seres que estão numa matrix podem ser enganados. Pode acontecer que os criadores da matrix controlem e interfiram com muito do que acontece nesse mundo simulado. (A matrix do filme parece um desses casos, embora não fique bem esclarecida qual a extensão do controlo dos criadores.) Se é assim, então esses seres podem ter afinal muito menos controlo sobre o que acontece do que pensam que têm. Mas o mesmo vale para o caso de haver um deus que interfere num mundo não-matrix. E a Hipótese matrix não implica que os criadores interfiram no mundo, embora a hipótese em si deixe a possibilidade em aberto. No pior cenário, a Hipótese matrix não é mais céptica a esse respeito que a Hipótese da Criação num mundo não-matrix.

Os habitantes de uma matrix também podem ser enganados por serem levados a pensar que a sua realidade é muito mais vasta do que realmente é. Podem pensar que tudo o que existe é o universo físico, quando, de facto, há muito mais no mundo, incluindo seres e objectos que nunca poderão ver. Mas, mais uma vez, este tipo de preocupação pode também levantar-se no caso de um mundo não-matrix. Por exemplo, alguns cosmólogos sustentam a ideia de que o nosso universo pode ter a sua "origem" num buraco negro situado no "universo mais próximo acima do nosso", bem como que, na realidade, pode haver uma ramificação de vários universos interligados. Se for verdade, então o mundo é muito maior do que pensamos, e pode haver seres e objectos que nunca poderemos ver. Mas, em qualquer dos casos, o mundo que vemos é perfeitamente real. De salientar que nenhuma destas fontes de cepticismo — sobre as mentes dos outros, sobre o passado e o futuro, sobre o nosso controlo sobre o mundo, e sobre o tamanho do mundo — lança dúvidas sobre a nossa crença da realidade do mundo ser aquela que percepcionamos. Nenhuma delas nos leva a duvidar da existência de objectos exteriores como mesas ou cadeiras, no sentido em que a hipótese do incubamento é suposto fazer. Nenhuma destas preocupações está particularmente agregada ao cenário matrix. Podemos levantar dúvidas sobre se outras mentes existem, sobre se o passado e o futuro existem, e sobre se temos controlo sobre os nossos mundos independentemente de estarmos ou não numa matrix. Se isto está correcto, então a Hipótese matrix não levanta as habituais questões cépticas que frequentemente se diz que levanta.

Sugeri que não está fora de questão estarmos realmente numa matrix. Poderíamos até ter pensado que esta era uma conclusão preocupante. Mas, se estou correcto, não é uma conclusão tão preocupante como poderíamos pensar. Mesmo que estejamos nessa matrix, o mundo não deixa por isso de ser tão real como pensamos que é. É apenas um mundo com uma natureza fundamental surpreendente.

02 novembre

A Sinceridade é a Verdade

         
 
 
 
 
 
Teixeira de Pascoaes na Brazileira (na altura escrevia-se com z...) do Chiado, em 1928
 
 
1 - Teixeira de Pascoaes  2 - Gustavo de Matos Sequeira  3 - Pintor António Soares
4 - Joshua Benoliel  5 - Pintor Adolfo Rodríguez Castañé  6 - Augusto Ferreira Gomes
7 - Pintor Jorge Barradas  8 - Criado de mesa João Franco
 
 
 
 
 
«A SINCERIDADE É A VERDADE»
 
 
         «Na composição da minha obra, recorri sempre às minhas experiências emotivas. Fui sincero. Não procedem assim alguns cientistas livrescos, temperamentos de papel impresso, pedagogos cheios de gogo e míseros sacristães da ciência. Mastigam inconscientemente o latim do missal ou do compêndio...
          Mas o sentimento é a substância original  de todas  as criações intelectuais e o seu ambiente genésico, aquecido, que nelas permanece, tornando-as animadas e impressionantes. Uma ideia, fora do seu ninho seria um esqueleto de pássaro ou planeta sem atmosfera.
         O campo sentimental é o Parnaso dos poetas; uma altura donde se avistam directamente as primeiras verdades.
         Qualquer verdade aparece envolta em nuvens, que se dissipam, mas não de todo. A ideia pura, sem liga emotiva, se existe é no vidro dos óculos científicos, não nos miolos dum sábio, por mais industrializados ou racionalizados. A ideia pura não existe, nem existe pureza de casta alguma. Até a dos anjos é suspeita...diria Camilo, com aquela sua caveira  roída de desenganos, sob uma pele roída das bexigas, mas emanando um  íntimo luar, a luz  romântica da morte. (...) Definir, traçar um recinto fechado, num mundo aberto é como conceber o útil no centro da Inutilidade, ou  encher de números a barriga de um zero, esse burguês...Definir é caso grave, para mim. Quem é que não morre com os seus defeitos agravados? Se os nossos defeitos morrem, as nossas virtudes amam a imortalidade. Imaginam-se da mesma essência dos deuses, que a vaidade é ilimitada, como o próprio homem.
       A minha concepção é pobre; mas pertence-me, como já demonstrei, servindo-me, que tristeza! da cronologia! De resto, quem me souber ler, verificará a verdade demonstrada pela sucesão fatal do tempo psicológico, descoberto por Santo Agostinho.
       Saber ler é saber distinguir o inato do adquirido, o que nasce do que é feito. E é saber acompanhar o escritor em todas as formas do seu pensar. Quando este se nos escapa, como quem foge de avião, ficamos mal-humorados e consideramos o escritor nebuloso, filosófico,  obscuro, germânico, anti-latino e até inglês, conforme a opinião a meu respeito do professor Le Gentil, na sua Litterature Portugaise: «On le croirait intelectualiste, s'il ne se reclamait de l'ínconscient et du subconscient; nationaliste, s'il ne se révèlait, dans l'execution, impregné de lectures anglaises. On le doit juger surtout d'après un poeme ciclique, Maranos, etc..»
       Não conheço a língua de Milton; mas um professor e poeta inglês, Aubrey Bell, acode em minha defesa: «Here too, Teixeira de Pascoaes sets an excellent example, for he is throughly Portuguese and regional, wraped in the life of Traz-os-Montes.»
Conten to breathe his native air
In his own ground. (1)
       Há pessoas de lunetas que me chamam de obscuro, nebuloso, incompreensível e outros nomes colados ao manto da noite pelos que se dizem cotovias matutinas. Vem a propósito recordar uma frase sublime de Vale Inclan: Um poeta quanto mais confuso mais divino. Esta confusão significa distância, longínquo, afastamento. Quem divaga no fim das coisas. nesse remoto litoral, veste-se de sombra crepuscular. Descrever as trevas com palavras luminosas, pintar o negro com tinta branca, é arte parisiense desbotada em lisbonense - , o lúcido espírito latino,  Voltaire e Eça, o Sátiro e o Dandy da ironia, deuses de fogo-fátuo...Mas Voltaire incendiou Paris e Eça incendiou a Piolheira.
          Nebuloso ou obscuro (casos relativos) fui sincero; e a verdade é sinceridade, pouco mais. É verdadeiro o que é sincero, não o útil. A sinceridade existe (olhai o sol); mas duvido muito da existência do útil, para além da côdea e do trapo. A sinceridade é a verdade; e, por isso, há mentiras verdadeiras, como a vida, e verdades mentirosas, como por exemplo, a morte. E é o que há...      [ (1) A. Bell, The Portugaise Litterature , Trad. Port. 1931]»
 
 
 
Teixeira de Pascoaes, O Homem Universal, Assírio & Alvim, 1993, pps 68, 69, 70
 
Evocando o poeta/filósofo Teixeira de Pascoaes, neste Dia de Finados que também foi o da sua génese mortal ou vital - os termos equivalem-se -  escolhi um texto de reflexões auto-biográficas extraído de O Homem Universal, fugindo assim  à tentação simplista de copiar simplesmente um poema e passar adiante.  Homens existem na História, e logo no Tempo e no Espaço, que não podem ser passados adiante sob pena de quase sacrilégio - e este quase indicia apenas a denotação do termo sagrado e não apouca o génio do homem que evoco!
 
2 de Novembro de 1877 - 2 de Novembro de 2008 ou  131 anos de distância entre datas que emolduram a perenidade do homem para além da obra e contudo dela emanando numa corrente contínua e imparável.
 
 
15 ottobre

Wirf dein Schveres in die Tiefe!

 

 

 

Friedrich Nietzsche

Röcken, 15 Outubro de 1844 - Weimar, 25 de Agosto de 1900

 

 

 

Wirf  dein Schveres in die Tiefe!

Mensch, vergiss! Mensch, vergiss!

Göttlich ist des Vergessens Kunst!

Willst du fliegen,

Willst du in Höhen heimisch sein:

Wirf dein Scwerstes in das Meer!

Hier ist das Meer, wirf dich ins Meer!

Göttlich ist des Vergessens Kunst!

 

 O que te pesa, lança-o lá para o fundo!

Homem, esquece! Homem, esquece!

Divina é a arte de esquecer!

Se queres voar,

se queres sentir-te em casa nas alturas:

atira ao mar o que te é mais pesado!

Aqui está o mar, atira-te ao mar!

Divina é a arte de esquecer!

 

Friedrich Nietzsche, Fragmentos de Ditirambos Dionisíacos, Tradução do alemão de Paulo Quintela

21 agosto

ANIVERSÁRIO

 

 

Fernando Pessoa aos 20 anos

 

ANIVERSÁRIO

 

 

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais       copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

05 agosto

Eles quiseram fazer o filme, e fizeram-no.

 

 

                                               

 

                                             SALVADOR DALÍ, Alegoria da Seda

                        

 

 

 

 

 

 

                   ELES QUISERAM FAZER O FILME E FIZERAM-NO.

 

 

 

UMA CÂMARA de filmar sobrevoa uma piscina azul, um bairro de lata, um buraco por onde rompe uma cascata, uma dança guerreira de negros cobertos de plumas, com os sexos túmidos, regurgitando da pele de carneiro que os veste, idiotas brancos vestidos com fatos de cerimónia batem palmas para a areia deserta, de onde o touro se retirou enjoado do cheiro do seu próprio sangue.

            Uma câmara de filmar atravessa a roda no tempo ao som do Danúbio Azul e a canção da manhã de Rão Kiao prende-se à cadeira flutuante do realizador deste filme com actores agrilhoados ao rochedo do Prometeu de Ésquilo... Ésquilo ou esquilo? É apenas o problema do acento e da maiúscula porque, quanto à importância na recta da vida, Ésquilo e esquilo equivalem-se.

            Eles quiseram fazer o filme, e fizeram-no. E o macarrão com molho de tomate em fanfarras orgíacas de Arrabal, cavalo louco, mistura-se às alucinações buñuelescas de Tristanas perversas e Belas de Dia, só amadas pelas noites diurnas dos desejos do amante rejeitado. Um Fellini-Clown, de um Armacord desamarrado das cordas lógicas, com crianças em nevoeiros soalhentos, funde-se ao teorema de Pasolini, Pedro e Paulo, que acompanharam Cristo sem teoremas, ambos negadores e afirmadores do lago de Jordão, da estrada de Damasco, das fontes da Judeia, e a gueixa castradora de samurais do Oshima nipónico passeia-se ainda pela Tóquio brutalista de betão e ruído.

            Eles quiseram fazer o filme, e foram buscar Laranjas Mecânicas a que lavaram o cérebro para o deixarem sujar de novo em sinfonias de Beethoven e orgias trepidantes, foram buscar pesadelos bergmanianos com lágrimas e sussurros, em vermelhos e brancos de cenários a preto e cinzento e trouxeram o beco sem saída de um Polanski com facas na água em Chinatowns pejadas de vampiros que não lhes morderam o pescoço.

            Eles quiseram fazer o filme e fizeram-no, e levaram Shakespeare trajado de César e mataram o Brutus assassino de César com a voz rouca de Marlon Brando, Padrinho mafioso de Coppola. E depois, pegaram na auto-estrada, com gente trucidada por baixo dos veículos, e chamaram a isso Week-End e foi Goddard quem reabilitou a prostituta loira que queria apenas viver a sua vida mas a quem forçaram a dar explicações de tudo e sobre tudo. A  preto e branco filmaram as cores orgíacas do Couraçado Potemkine de Eisenstein, ou Einstein, cuja relatividade se acrescenta aos couraçados de uma guerra de gregos contra troianos sem Helenas fascinantes a servir de motivo.

            Este é possivelmente o mais verdadeiro de todos os filmes. Este é possivelmente o filme que nunca ninguém fez, este é possivelmente o mais impossível dos filmes possíveis.

 

01 agosto

Excerto de Tarântula

 

 

 

 

 

 

aos meus alunos:

parto do princípio de que todos lêem

& compreendem freud - dostoievski – s.

miguel – confúcio - coco-joe – einstein –

melville - porgy snaker – john zulu – kafka –

sartre – arraia-miúda - & tolstoi – pois bem –

o meu trabalho é – é muito simplesmente pegar onde

eles deixaram – nada mais – aí o têm em poucas

palavras - vou agora dar-vos o meu

livro – conto que se dediquem a ele imediatamente –

o exame será dentro de duas semanas –toda

a gente tem de trazer a sua borracha.

 

                                                 o vosso professor

                                                 professor herold

 

 

                                                            BOB DYLAN, TARÂNTULA, Quasi Editores, 2007 (Versões originais: 1966  (Bob Dylan); 1971 (The Macmillan Company); 1994 (Bob Dylan, renewed)

 

 
31 luglio

With God On Our Side

 

 

 

 

 

With God On Our Side

Oh my name it is nothin'
My age it means less
The country I come from
Is called the Midwest
I's taught and brought up there
The laws to abide
And that land that I live in
Has God on its side.

Oh the history books tell it
They tell it so well
The cavalries charged
The Indians fell
The cavalries charged
The Indians died
Oh the country was young
With God on its side.

Oh the Spanish-American
War had its day
And the Civil War too
Was soon laid away
And the names of the heroes
I's made to memorize
With guns in their hands
And God on their side.

Oh the First World War, boys
It closed out its fate
The reason for fighting
I never got straight
But I learned to accept it
Accept it with pride
For you don't count the dead
When God's on your side.

When the Second World War
Came to an end
We forgave the Germans
And we were friends
Though they murdered six million
In the ovens they fried
The Germans now too
Have God on their side.

I've learned to hate Russians
All through my whole life
If another war starts
It's them we must fight
To hate them and fear them
To run and to hide
And accept it all bravely
With God on my side.

But now we got weapons
Of the chemical dust
If fire them we're forced to
Then fire them we must
One push of the button
And a shot the world wide
And you never ask questions
When God's on your side.

In a many dark hour
I've been thinkin' about this
That Jesus Christ
Was betrayed by a kiss
But I can't think for you
You'll have to decide
Whether Judas Iscariot
Had God on his side.

So now as I'm leavin'
I'm weary as Hell
The confusion I'm feelin'
Ain't no tongue can tell
The words fill my head
And fall to the floor
If God's on our side
He'll stop the next war.

Copyright ©1963

25 luglio

Like a Rolling Stone

LIKE A ROLLING STONE

 

 

 

 

 

 

Once upon a time you dressed so fine
You threw the bums a dime in your prime, didnt you?
Peopled call, say, beware doll, youre bound to fall
You thought they were all kiddin you
You used to laugh about
Everybody that was hangin out
Now you dont talk so loud
Now you dont seem so proud
About having to be scrounging for your next meal.

How does it feel
How does it feel
To be without a home

With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

Youve gone to the finest school all right, miss lonely
But you know you only used to get juiced in it
And nobody has ever taught you how to live on the street
And now you find out youre gonna have to get used to it
You said youd never compromise
With the mystery tramp, but now you realize
Hes not selling any alibis
As you stare into the vacuum of his eyes
And ask him do you want to make a deal?

How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

You never turned around to see the frowns on the jugglers and the clowns
When they all come down and did tricks for you
You never understood that it aint no good
You shouldnt let other people get your kicks for you
You used to ride on the chrome horse with your diplomat
Who carried on his shoulder a siamese cat
Aint it hard when you discover that
He really wasnt where its at
After he took from you everything he could steal.

How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

Princess on the steeple and all the pretty people
Theyre drinkin, thinkin that they got it made
Exchanging all kinds of precious gifts and things
But youd better lift your diamond ring, youd better pawn it babe
You used to be so amused
At napoleon in rags and the language that he used
Go to him now, he calls you, you cant refuse
When you got nothing, you got nothing to lose
Youre invisible now, you got no secrets to conceal.

How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

 

 

Bob Dylan, 1965

 

 

(Reconhecida como a melhor canção escrita no século  XX)