| Regina's profileLUZ - REFRACTADAPhotosBlogLists | Help |
LUZ - REFRACTADAOutrora a sombra e agora a luz, enleadas em mim como forma e cruz!
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November 21 Segredos
SEGREDOS
Tenho na ponta dos meus dedos a memória de ti: de olhos abertos ou fechados percorro-te lentamente e sei o que cada um deles me segreda de ti
Tenho-te nas narinas e sei (de olhos abertos ou fechados) a flutuação de cada um dos teus odores e o que cada um deles me segreda de ti
Tenho-te na minha língua nos meus lábios e (de olhos abertos ou fechados) acedo aos teus sabores plenos e ricos e preservo o que cada um deles me segreda de ti
Tenho-te nos ouvidos conheço o bater do teu coração a leve sonoridade do teu beijo a música indecisa com que os teus dedos perpassam em mim e sei o que cada um desses sons (quase indiscerníveis) me segreda de ti
Tenho-te no gume do meu olhar absorvi cada ponto do teu rosto e desenhei-o na minha mente com um rigor tal que (mesmo às escuras) conheço o caminho para os sítios mais recônditos da tua expressividade: e o teu corpo todo plana na minha retina sei onde começas e onde acabas e moldar-me a ti no local exacto que o meu sentido total exige acontece sem sobressaltos: e sei o que o meu olhar acutilante me segreda de ti November 19 REPETIÇÃOREPETIÇÃO
![]() «Ó meu querer, curva do caminho de toda a necessidade, necessidade toda minha, livra-me das vitórias mesquinhas!
Ó vocação da minha alma, tu a quem chamo meu Destino, tu que estás em mim, acima de mim, preserva-me, guarda-me para um grande destino!
E a tua grandeza suprema, ó meu querer, reserva-a para a tua suprema proeza, - mostrares-te inexorável na vitória. Ah! pois quem não sucumbiu à sua vitória?
Ah! que olhos se não turvaram nessa perturbada embriaguês? Ah! que pé não vacilou e esqueceu a firmeza na vitória?
Faz com que eu esteja um dia pronto e amadurecido para o grande Meio-dia; pronto e amadurecido como o bronze em fusão, como a nuvem que traz o raio, como a teta cheia de leite,
pronto para mim próprio e para o meu querer mais secreto - arco que aspira à flecha, flecha que aspira à estrela,
estrela pronta e amadurecida no seu meio-dia, ardente e atravessada por uma flecha, desfalecida sob as flechas destruidoras do sol,
ela própria sol e inexorável querer solar, pronto para tudo destruir na sua vitória.
Ó meu querer, curva do caminho de toda a necessidade, ó necessidade toda minha, reserva-me para uma grande e única vitória!
Assim falava Zaratustra»
Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra QUANDO TE VAIS
Odilon Redon
QUANDO TE VAIS
Quando te vais o mundo acaba a noite desce (sem luar sem estrelas) quando te vais um frio rompe da cratera do meu peito e envolve-me o corpo e deixo de existir
Já morri (muitas vezes) morro sempre que o teu rosto desaparece no gume da porta que o teu sorriso esvanece na atmosfera dos meus sítios que o teu calor esfria na orla do meu rosto
É uma forma de morte (esta) que me acontece no limiar da tua ausência é uma forma de morte (esta) que experimento no abandono em que se verteu a minha solidão é uma forma de morte (este) desejar-te no vazio em que me lança o buraco cravado nos sítios onde derramaste o teu poder é uma forma de morte (estes) suspiros perdidos pelas paredes (surdas fechadas) sem ecos sem histórias por muito que o meu olhar as interrogue
Morte (morte) essa vida ao contrário essa respiração sustida esse bater parado (do coração)
Morte (morte) que eu não quero que eu não quis mesmo no auge da tentação do sangue
Morte (morte) não sabia que ia falar-te de morte neste prenúncio de vida não sabia que ia acontecer-me a morte neste súbito nascimento não sabia que dobrariam os sinos no repique que marcou o despertar
Mas não não é morte (mesmo sendo) não é morte (mesmo abrindo buracos de sombra no meu ser) não é morte (mesmo que eu vista o tecido negro da treva e do luto)
É a descida ao labirinto depois da subida ao cume é a perdição do subterrâneo depois da entrada no plenilúnio é a certeza da fome depois do banquete na abundância é o sentimento de privação depois da alucinação orgiástica é a sede a fome o frio depois das bebidas sumarentas que me deste dos repastos jucundos que me serviste do lume abrasado em que me derreteste
Agora quando não vens ou quando te vejo atravessar as minhas portas e o rasto que deixas se vai perdendo (sem de todo se apagar) fico perplexa e tensa como se não existisse como se nunca mais fosse sentir como se uma treva profunda fosse embaciar o meu dia para sempre para sempre para sempre November 16 Perdido na Areia
PERDIDO NA AREIA
Tu não és o belo adolescente Tadzio, nem eu sou o fracassado artista Gustav von Aschenbach, não estamos em Veneza nos anos 20, nem nos abafa o scirocco ou nos atemorizam as emanações da peste; e contudo, eu sou Gustav von Aschenbach e o que me avassala o íntimo traz a imagem magnífica e pura de Tadzio, e tu és a Veneza delirante do início de Verão e sopras incandescente e deletério sobre a pele transparente do Tadzio de mim Olho-me ao espelho (para dentro, sempre para dentro) e sinto o ar a faltar-me e os vincos do tempo a apertarem a minha garganta e busco o Absoluto, por entre o scirocco, à revelia da peste, enquanto as areias finas da praia e as águas verde-esmeralda do Mar Mediterrâneo me entontecem a visão, me retiram lucidez Um dia, passarei pela oficina onde se modelam os sonhos e pedirei ao maioral que me transforme (para ti); pedir-lhe-ei que me revista das cores vibrantes com que se anuncia a primavera; pedirei que acrescente ao meu ser a centelha que falta, para que possas querer-me Bem sei que de nada servirá esta travessia (ao contrário) pelas marés da vida, bem sei que os vincos estarão lá por debaixo da tez marmoreada e que mais dia menos dia as minhas lágrimas farão escorrer pedaços negros da tinta com que me disfarcei, os meus lábios murcharão, cinzentos, despojados do carmim que lhes emprestei, os meus olhos sucumbirão sobre pálpebras demasiado densas E então escaldada e exangue, derretida e ensopada, pelas emanações febris da peste engendrada no cenário fantástico dos canais purulentos, cairei sozinha num deserto qualquer e o meu esqueleto haverá de romper (à força) o tecido estreme da minha pele, tornada sudário transparente dos sonhos de Tadzio, tornada reminiscência dos ecos tardios de uma juventude que nunca vivi Aterrada, oiço estas vozes em mim e agarro-me a um pedaço de vida que ainda se agita na raiz do meu ser, estremeço em delírio apertada num transe e quando olho o espelho (para dentro de mim) não encontro quem sou, não encontro quem fui e quem serei está a furtar-se num terreno longínquo Tadzio, ah Tadzio, esse sonho de luz que trago comigo, essa auréola de espanto ou de inconsciência de si, esse lume desperto ao raiar da aurora, feito vago perfil no crepúsculo laranja; afasta-te, Tadzio, figura sibilina de Apolo feérico, expansão dionísiaca de paixões (para lá do meio dia) síntese absurda de impulsos caóticos, yin e yang em convulsões arrasantes, tremendo na noite (em vagabundagem de sonhos desmedidos) afogando-se no dia (em arroubos solenes para lá da tempestade) e depois recolhidos na penumbra (por detrás de um espelho) perdido na areia, perdido na areia, perdido na areia
FOSTE
Odilon Redon
FOSTE
Esvazio-me Perco densidade Flutuo num limbo de onde se esvanecem corporeidades de onde solto as pontas dos fluxos carnais
Imponderável esculpo-me (como apenas essência) ascendo ao etéreo (e já não sei se te encontro)
A neblina encostou-se às paredes do meu ser e aprisionou a minha luz
Acedo ao intervalo e aguardo os passos corpóreos da próxima escalada
Exangue quase não vejo quase não oiço quase não toco perpasso pelos ares (como uma esfinge) e segredo-te palavras (que não ouves)
Bruscamente pairamos em universos paralelos e o meu braço pende adormecido e indeciso por entre brumas estelares e poeiras siderais rodando sem parar por entre sóis e nevoeiros por entre estrelas cadentes e auroras boreais
Um impulso levar-me-á até à polpa dos teus dedos até ao gosto dos teus lábios
Outro impulso arrastar-me-á para solidões abissais onde devorarei o vazio e a negritude de mim em mim (de mim para mim)
Um minuto basta para que o olhar se transcenda e tudo se plasme em lençóis submersos de olvido onde te perco (e por onde me perco)
Mais tarde encontro-me e pairo Mais tarde ergo-me do adormecimento por onde entrei em ti (e de onde saí) e não me reconheço
Quem sou eu deste modo submetida à entrada de um mundo que não sei se me pertence Quem sou eu deste modo atirada sobre abismos no meio de pontes sem chão para firmar o correr dos meus passos
A noite construiu um muro de esquecimento por entre pensamentos encerrados nos portões da consciência tragados no amanhecer e na urgência de partir
Esvaiu-se a promessa Desenleou-se o sonho Fortalezas delirantes amassadas em poderosas estruturas de sólidos compromissos fizeram ruir o ideal
Um travo de pavor alimentou o dia Um esgar de surpresa incendiou a névoa Um ruído de asas obliterou a presença
Foste
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