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LUZ - REFRACTADAOutrora a sombra e agora a luz, enleadas em mim como forma e cruz!
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November 10 DOS MUROS
DOS MUROS
Evocar hoje o Muro de Berlim, evocar hoje o Derrube do Muro de Berlim não passa de um pretexto para outras digressões especulativas. Se assim falo é na exacta medida em que o nosso mundo vive de efemérides e uma efeméride não é mais do que uma recordação descontextualizada de fenómenos cuja especificidade já não é possível entender cabalmente. Os documentários, filmes e exposições sobre o evento têm sido a nota dominante dos últimos dias, pelo que será desnecessário aludir às circunstâncias históricas e políticas que determinaram a construção do Muro em 1961 e que conduziram ao seu derrube 48 anos depois, há vinte anos portanto. Circunstâncias históricas e políticas, é preciso não esquecer. Circunstâncias que estavam presentes em 1961 e que duas décadas depois, subitamente, deixaram de fazer sentido: porque o Muro de Berlim caiu, aparentemente, por si mesmo, sem convulsões, sem luta. A História é isto mesmo: um ciclo racional engendrado pelas necessidades ou pelos desejos ou pela insanidade dos povos, uma espiral dialéctica em que as contradições, submersas em períodos mais ou menos longos de aparente estabilidade, se enunciam de súbito provocando revoluções, guerras, chacinas, atentados e discórdias de todos os géneros. Poderíamos dizer que tais momentos deveriam ser evitados, poderíamos lamentar os períodos sangrentos de hostilidade e de luta fratricida, poderíamos mesmo desejar a utopia da paz perpétua, a lenda da confraternização universal. E contudo os milénios transcorridos da história dos homens atestam, com evidência plena, a inevitabilidade da guerra, da revolução, da luta ao memo tempo que demonstram a sua necessidade em prol da evolução. A guerra é então uma necessidade, uma condição de progresso? A guerra não pode ser suprimida sob pena de assistirmos à inevitável degeneração dos povos, ao seu declínio e estagnação? Não responderei a tal questão porque as evidências estão aí, hoje como na antiguidade, hoje como no contexto das duas grandes guerras mundiais, hoje como num futuro próximo em que o homem terá que combater o homem, terá que combater-se a si mesmo, portanto, para poder erguer-se e suportar-se enquanto homem. Entretanto, os muros construídos e a construir, os muros abatidos e a abater representaram e representam ocasião de defesa de princípios, de ideais, de sensibilidades – o muro é uma parede levantada atrás da qual nos protegemos e nenhuma habitação humana se manteria erguida sem semelhantes suportes – mas o muro é simultaneamente a barreira que impede o devassar da intimidade, a dissolução dos princípios, a quebra dos ideais, o prejuízo das sensibilidades. E por muito que queiramos hoje olhar o Muro de Berlim como a imagem macabra de um ultraje aos direitos humanos, à lógica civilizacional, à sensatez, por muito que aludamos à construção e manutenção do Muro de Berlim como sendo um atentado à liberdade e à livre circulação dos povos o certo é que não temos outro remédio senão justificá-lo, à luz da circunstância que o engendrou. E será esse o caminho inicial que seguirei na minha exposição. Na época que marcou a construção do Muro de Berlim uma dicotomia politica atravessava a Europa: do lado ocidental, e após os tratados decorrentes do final da Segunda Guerra Mundial, o capitalismo e os regimes designados como democráticos firmaram-se gerando uma economia de mercado centrada no consumismo, na ostentação, na busca de riqueza e prosperidade económicas e onde se desfraldava a bandeira enganosa da liberdade segundo a qual a oportunidade de viver bem era uma premissa a todos possível. Basta contudo lançar os olhos sobre as condições que permitiram o desenvolvimento do mundo capitalista para percebermos que nelas esteve sempre implícita a exploração do homem pelo homem, a fabricação da pobreza de muitos como condição do enriquecimento de alguns. Era assim em 1961 quando o muro foi construído em Berlim e o ocidente se atirava para a escalada do capitalismo, suportado politicamente por regimes democráticos capazes de criarem nos povos a ilusão de que podiam sempre lutar em liberdade pela riqueza, pelo conforto, por tudo o que parecia ser, segundo o modelo capitalista o melhor dos bens, e contudo sempre afastados dessa meta; e continua a ser assim, hoje em dia, quando o capitalismo emerge desenfreadamente e as franjas de pobreza e de miséria são cada vez mais palpáveis e cada vez mais atingem núcleos sociais antes preservados. A pobreza alargou-se, portanto e foi o capitalismo que possibilitou semelhante alargamento para se poder manter enquanto tal. Por outro lado, a parte oriental da Europa, delimitada pelo Muro de Berlim, quis destacar-se dessa onda de materialismo e de desumanidade, estribada num ideal humanista cujos princípios visavam a supressão das classes sociais baseadas no poder económico, o desenvolvimento de condições sociais capazes de dotarem todos de modo equilibrado de condições básicas de sobrevivência digna e de para além da busca de bens de consumo criar uma sociedade propiciadora de valores humanos, culturais, artísticos em que o homem pudesse erguer a sua verdadeira face. «O livre desenvolvimento de cada um é condição para o livre desenvolvimento de todos» e esta máxima do pensamento prático de Marx e Engels congrega em si, de modo simples toda a articulação social e política necessária para erguer o verdadeiro mundo dos homens. Na sociedade capitalista o livre desenvolvimento de uns - a minoria - é condição para a escravização dos outros – a maioria - e esta máxima tem valor recíproco pois a minoria só se ergue economicamente à custa da degradação da maioria. Foi assim no início da escalada capitalista é assim no tempo que vivemos agora. E foi por isso que se ergueu o Muro de Berlim. Era necessário preservar um conjunto de grupos sociais capazes de porem de pé um mundo no contexto do qual as desigualdades económicas se esbatessem a tal ponto que o verdadeiro homem pudesse nascer, desenvolvendo, de facto, os valores intrinsecamente humanos que não são económicos, que não são materiais, que não se medem pelo Ter mas pelo Ser. À semelhança dos pais que protegem os seus filhos enquanto crianças nos limites de um espaço dentro do qual não lhes chegue a violência do mundo exterior, os perigos e as derrocadas do tempo adulto para o qual não estão preparados, enquanto crianças, também foi necessário erguer uma barreira para que a utopia, ainda impúbere, de uma sociedade justa e digna pudesse desenvolver-se arredada das tentações perigosas de um jogo de poder pernicioso e desumano. Aquele Muro, chamado da Vergonha pelos ocidentais, aquele Muro erguido no meio da cidade de Berlim, policiado e interditador da circulação livre foi o símbolo da protecção de um modelo de sociedade que, a desenvolver-se harmoniosamente, a estender-se gradualmente aos restantes países teria poder para pôr em prática a máxima de Marx e Engels citada antes. No momento em que os povos do Leste da Europa tivessem aderido à nova imagem do homem, dando de si testemunho ao resto do mundo, no momento em que a exploração do homem pelo homem, a abolição das classes, o respeito pela diferença e o estabelecimento da igualdade de direitos e de deveres prenunciasse uma nova etapa para o mundo humano, o muro poderia ir abaixo – à semelhança do que fazem os pais quando os filhos crescem e eles percebem que podem dá-los por inteiro à liberdade e à auto-determinação. Sendo assim que foi que correu mal, para que o Muro de Berlim se transformasse num sinal de repressão e de violência, de atentados às vidas e aos direitos daqueles que queria proteger? O que foi que não se cumpriu do lado oriental da Europa para que o descontentamento dos povos aí confinados almejasse pelas benesses da sociedade aparentemente triunfal do ocidente? O que foi que falhou no passar à prática da máxima de Marx e Engels para que os povos da Europa de Leste rompessem a fronteira que o Muro fixava e tentassem fugir, arriscando a vida, para o outro lado bo mundo? Uma vez mais não irei recorrer aos circunstancialismos históricos, datados e contextualizados, porque eles estão todos aí em manuais, documentários e filmes e darei, em vez disso, a resposta simples, nua e crua como são todas as respostas verdadeiras, dá-la-ei sem contemplações para que conste, para que possa ser alvo de reflexão – se acaso houver ainda disponibilidade para reflectir com autonomia. O homem corrompe a pureza dos ideais engendrados de boa fé, o homem ilude e ilude-se uma e muitas vezes, e julgando semear trigo deixa crescer o joio, o homem constrói o ninho e depois, esquecido que esse ninho é a sua morada, suja-o, quebra-o, torna-o gradualmente inabitável. Foi assim que a Europa de Leste abrigada pela fortaleza do Muro se foi degenerando, enquanto aparentemente o mundo ocidental desabrochava num esplendor feito de cintilações enganosas – mas nem por isso menos incandescentes. A corrupção ocidental estava disfarçada com as cores poderosas do consumismo alienante, mas encantador; a corrupção oriental tinha um sabor amargo, era cinzenta e apagada e os povos para além do muro pareciam a imagem pálida do mundo policromático divisado a espaços pelas frinchas apesar de tudo abertas para o outro lado. Por isso, naquele dia 9 de Novembro de 1989, abrir o muro e derrubá-lo foi ocasião de festa; e os povos de Leste respiraram por fim o ar que lhes havia sido retirado durante décadas e sentiram que eram livres, sentiram que doravante os privilégios, as ousadias, os luxos e as aventuras do ocidente também lhes seriam permitidas e que desse modo seriam cidadãos completos! Vinte anos passaram desde então. Poderemos afirmar com verdade que derrubar o Muro de Berlim e atravessá-lo foi, efectivamente, a ocasião de encontro daqueles povos consigo mesmos? Poderemos afirmar com verdade que hoje os homens e mulheres da Europa de Leste, apresentados à sociedade de consumo e nela imbuídos de corpo e alma, são mais autenticamente humanos do que o foram à sombra ignominiosa da parede que derrubaram? Uma vez mais não responderei a semelhantes questões: as evidências andam por aí, e também esses homens, essas mulheres e essas crianças, encontramo-los um pouco por todo o lado – às evidências e aos homens – e basta querermos reflectir e ponderar para darmos a resposta nem que seja apenas de nós para nós mesmos. Evidentemente que uma sociedade adulta e razoável não deveria necessitar de muros para fazer vingar os seus ideais. Evidentemente que um mundo onde todos são semelhantes na sua comum humanidade deveria escancarar todas as portas e deixar entrar e frutificar e crescer em pleno todos e cada um. Evidentemente que os muros construídos objectiva e concretamente enquanto barreiras físicas e os outros todos que oriundos das nossas defesas psicológicas nos isolam dos outros homens deveriam ser derrubados para que a concórdia e a autenticidade fossem possíveis. Não nos iludamos porém: caído o Muro de Berlim, outros se ergueram, provavelmente mais vexatórios ainda, provavelmente mais destituídos de sentido e as evidências históricas e documentais estão aí para atestar a sua existência; quanto aos muros psicológicos às barreiras comunicacionais de homem para homem November 08 Sabê-lo-ás um dia![]() Salvador Dalí, Nascimento do Homem Novo
SABÊ-LO-ÁS UM DIA
Escrevo-te para te dizer
que a tua ausência não é uma falta
mas somente a ocasião íntima do mergulho
a tua ausência não significa separação
porque estás em mim e eu estou em ti
numa conjugação osmótica
em que viajamos sozinhos
e contudo
amalgamados um no outro
feitos presença
feitos plenitude.
Quero falar-te ainda
(e é por isso que escrevo)
da transcendência acontecida
no limiar do transporte carnal
da transcendência percebida
para lá dos portões da finitude.
Quero dizer-te
que somos e não somos
seres da terra
pois fragmentos iluminados de nós
levantam asas no esplendor da noite
e sobrevoam-nos infinitmente
(e deixam de ser fragmentos
na hora exacta em que unidos na lógica infinita
se tornam heterocósmicos
reproduzindo-se sem cessar).
Esta é a única eternidade a que temos acesso
pois perduramos incandescidos
na inquietação turbilhonante do tempo
na imprevisibilidade não conceptual do espaço
e deixamos de ser dois nomes
duas entidades
dois rostos
dois corpos
para nos firmarmos
como seres de luz
na expansão prodigiosa do ser.
Aconteceste-me e eu aconteci-te
pouco importa de onde vinhas
(embora uma ou duas vezes tivesse importado
quando a consciência limitada e verrumante
entontecia a claridade
dos transportes levantados para além do tempo linear).
Há dois tempos e dois espaços
(e uma multiplicidade infinita deles
para lá da consciência)
e nós vogámos nas dimensões falazes e finitas
onde nos aconteceu a dúvida
a perplexidade
a amargura
a divisão
e depois
o transporte incomensurável dos nossos outros eus
alcandorou-nos
projectados
como meteoros incandescentes
de matéria e de anti-matéria.
Talvez ainda não saibas o que também te aconteceu
neste perpassar inesperado através de mundos
talvez não estejas ainda a seguir
a trajectória estelar que temos vindo a definir
(não definindo todavia)
decerto não despertou em ti
a crença
aquele fermento invisível
que levanta as nossas asas do terreno
e nos projecta
para além de nós
para além do tempo
para além do espaço.
Sabê-lo-ás um dia. November 05 Miasmas![]() ~
Lord Leighton Fredrick (1858),O Pescador e a Sereia
MIASMAS
Longe perto
(ora longe ora perto)
e contudo
estás sempre impresso
no tecido do meu ser
Dúvidas e certezas
picos e profundezas
e um sol nasce acima dos montes
enquanto uma lua se abate
na planície deserta
e estamos lá
no dia emergente ou na noite apagada
(e o rumor dos outros entrou pelas janelas
eras tu que o trazias agarrado ainda ao corpo
eu soube
eu vi
um rumor
feito de atmosferas mórbidas
que te pesavam nos ombros)
Sabias que trouxeste para mim
o hálito alheio
(a respiração
o odor)
e eu
(limpa como o ar nevado das montanhas
livre como uma rajada aberta ao rés da maresia)
recebi-te mesmo assim
sem questionar
sem querer saber de onde vinhas
(quando aqui chegavas)
que rastos trazias
(colados ao toque do teu corpo)
e deixei-te entrar
nas esferas
por onde nenhuma corrente passara
nos recôncavos secretos
inviolados
em espera de ti
Sabes que eu sei
que outros braços
costumavam cingir-te
e a outro corpo te colavas
(e contudo
não neguei a raiz do meu ser
e entreguei-te tudo
sem esperar retorno)
e hoje
aqui
por onde passam as memórias de ontem
(feitas eternidade)
por onde escorrem ecos
e flutuam
pequenos adejos de asas inefáveis
vejo-te
e não te vejo
conheço-te
e desconheço-te
e ora são trevas a esmagar-me a lucidez
ora clarões transcendentes
me deslumbram o olhar
Saberei erguer-me
(e resistir)
nas ondas desta procela
estarei à altura
de assimilar
contradições vindas
de lugares remotos e obscenos
e acender tochas balsâmicas
capazes de diluirem
a sombra dos miasmas?
Saberei trepar
sobre a minha cabeça
sem consentir
que me estremeçam as entranhas
no momento da entrega
na hora extrema
em que o pensamento trai a embriaguez
e bruscamente sei
que não sou a única
que não fui a única?
(Estranho
estranho modo de te pensar
hoje
precisamente hoje
que te apartaste de mim) November 02 EXORCISMO
René Magritte
EXORCISMO
Refugia-te na tua solidão, foge do tumulto dos outros, apaga-te, encerra-te, esconde-te, não queiras pertencer de novo ao mundo que renegaste um dia , acede ao exílio, parte para o deserto Refugia-te em ti, caminha para ti,obedece a ti, e encontra-te na profundeza das tuas raízes para subires às frondes da tua fantasia Não te esqueças: Sempre que dás um passo para o outro, esse passo é um salto tão veloz e prodigioso que acabarás agredindo quem querias amar Sempre que dás um passo para o outro, esse passo desencadeia tantos movimentos e convulsões que se transforma em terramoto e produz derrocadas previsíveis Sempre que dás um passo para o outro, levas nele o gigantismo atroador da tua força e farás com que ele recue ao revés da tempestade Sempre que dás um passo para o outro, levas-te toda nesse passo e receberás em troca um vulto apagado, umas costas levantadas, uns passos caminhando na direcção contrária Sempre que dás um passo para o outro, és obrigada a travá-lo logo a seguir e nessa súbita quebra na caminhada sais ferida e atormentada Por isso, foge refugia-te na tua solidão, há sítios ermos onde podes restabelecer forças, sítios onde as vozes humanas não estrondeiam e os corpos não se atropelam, sítios onde a natureza te acolherá vibrante e meiga Foge refugia-te na tua solidão, veste-te de ti mesma e alimenta-te de ti mesma, és por demais ampla, por demais elevada, por demais subterrânea, tens cavernas e sótãos, caves e telhados, és dona de mansões nunca edificadas que não lembram aos olhos humanos Se o outro para quem ainda caminhas entorpecer o andar ou aprumar as costas ou te lançar olhares de soberano desdém ou fizer minguar a dádiva que quis ser, procede como se fosses cega, deixa-o seguir caminho, não o prendas nos teus laços cândidos, que ele verá neles nós insidiosos, não lhe agarres demais o corpo hirto, que ele julgará que lhe queres travar o gesto, não faças com que ele cante ao mundo a novidade de te ter, pois ele pensará que lhe queres acossar a intimidade Foge refugia-te na tua solidão, engalana o teu castelo com as primícias de ti, rodeia-te do calor estonteante das tuas cores e da delícia sublime dos teus sons, enleva-te nas tuas paredes onde brilham muitos sóis e pontifica coroada no reino a que pertences. Julgas que encontrarás um rei para dividir com ele o teu reinado? Julgas que encontrarás um par para dividir com ele a tua vida? Julgas que encontrarás um gémeo para trilhar com ele o teu caminho? Foge refugia-te na tua solidão, não oiças, não vejas, não sintas, não aspires nada que traga a mescla de um hálito exterior, nada que seja a sombra de outras existências, nada que tenha o sabor amargo do equívoco, nada que não traga a marca límpida de uma gota de orvalho, a brancura impoluta de um floco de neve Julgas que o outro saberá ver o lago cristalino que lhe ofereces, para que nele se banhe e ressuscite? Julgas que o outro entrará confiante no lume dos teus sóis, para que neles aprenda a verdade de si? Julgas que o outro ouvirá as tuas preces, feitas a um deus ainda não inventado e entrará como fiel nessa religião nunca vivida? Julgas que o outro se sentará à tua mesa e repartirá contigo o pão que com ele queres repartir, o pão sagrado feito de inefáveis materiais? Foge refugia-te na tua solidão, não peças, não queiras, não desejes e sobretudo não amarres a ti nenhuma sombra, exorciza os fantasmas e no fim, redimida, renascida, retemperada, olha o outro no fundo do olhar, diz-lhe sem voz, sem sons, sem hálito, sem sopro, que estás pronta, se ele estiver pronto TEIXEIRA DE PASCOAES ANIVERSÁRIOTEIXEIRA DE PASCOAES
ANIVERSÁRIO (Amarante, 2 de Novembro de 1877)
Teixeira de Pascoaes, Aguarela
IDÍLIO
A luz do teu olhar, Funde meu corpo, em sonho em lágrima e luar! Teu divino sorriso É voz de anjo a mandar-me entrar no Paraíso...
Teu sorriso que lembra a dôce aurora, Minhas lágrimas tristes evapora E, nos meus olhos, fica a tua imagem bela... Assim o fresco orvalho matutino, Onde encantado vive o sol menino Deixa nas brancas rosas uma estrêla...
Ao descobrir-te, flor, Todo me exalto e elevo em cânticos de amor, Perco-me, na amplidão...
Sou asa entontecida, aroma, comoção, Se me tocam, de leve, Os teus olhos de chama e as tuas mãos de neve!
Alegre, choro; e rio sempre aflito! Canto, soluço e grito! Sou oração, queixume, Relâmpago, nevoeiro, onda do mar, perfume, Quando, da tua face, Límpida rosa nasce E de ti se desprende o encanto da manhã, Que é a tua sombra mística e pagã; Quando, ao doirado zéfiro, estremeces E, aureolada de beijos, resplandeces, Como florido arbusto... E és o sol, esculpido em feminino busto.
Estrêla, bem-me-quer! Imagem de mulher! Deslumbra a noite os montes incendeia E a morta lua cheia! Quebra as marmóreas tampas sepulcrais! Que regerassam à vida os corpos espectrais! Liberta os arvoredos E as ondas abraçadas aos penedos! As almas embriaga; Sensibiliza a fraga E as nuvens a voar... Embebe-te na luz e muda-a em dôce olhar. Seja, no Azul profundo, Lágrima a tremular e a scintilar o mundo; Enternecida esfera, Toda ela a palpitar de amor e primavera.
Estrêla, flor, mulher! Mulher, ave a cantar, na luz do amanhecer! Mulher, rio sonhando, ao longo das campinas. Mulher, névoa tentando as asas matutinas. Mulher, árvore piedosa. Mulher, triste martírio, enamorada rosa! Mulher, onda do mar bailando com o vento. Mulher, brisa outonal, crepúsculo cinzento, Imagem tôda luz da noite escura... Mulher, esperança, dôr, amor, graça e candura. Mulher, fonte que chora e que deseja, Mulher, mulher, mulher, é a terra que o sol beija.
Teixeira de Pascoaes, Vida Etérea, Livrarias AILLAUD e BERTRAND, Paris-Lisboa, 1906
A MINHA HISTÓRIA
(...) Em Novembro nasci, por uma tarde triste, quando os sinos soluçam badaladas; e lúgubres mulheres desoladas com piedosas mãos, espalham flores, sobre a estéril poeira que ainda existe de sonhos e amores; (...)
Nasci no dia eleito da Saudade, quando o vulto espectral da Eternidade, Diante nós chimérico, se eleva, Com estrêlas a rir na máscara de treva. (...)
Nasci ao pôr-do-sol dum dia de Novembro. O meu bêrço, o crepúsculo embalou... E até parece, às vezes, que me lembro, Porque essa tarde triste, em mim, ficou. (...)
Teixeira de Pascoaes,Terra Prohibida,Livrarias AILLAUD e BERTRAND, Paris-Lisboa, 1877-1901
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